Sob uma Lua de Sangue: Cuidado com o que deseja #2

A série “Sob Uma Lua de Sangue” dá sequência à série “Contos Minilua”, agora em novo domínio. Para participar, envie seu conto para: equipe@minilua.com

Nesta edição, a segunda parte do conto “Cuidado com o que deseja”, escrito por Fagner Mendes. Se você perdeu a primeira parte, leia ela neste link e depois volte aqui para conferir a continuação.




CUIDADO COM O QUE DESEJA - PARTE 1

Por: Fagner Mendes

San Francisco, 20 de Setembro de 2008

Para: grace.washington@yahoo.cm
De: helena.krusby@yahoo.cm
Assunto: Más Notícias
Grace,

As coisas pioraram, pioraram muito…
Desde quando me mudei para San Francisco, 5 anos atrás, eu vivi um inferno de pesadelos. Não consigo dormir direito pensando nele, Patrick. Eu sei que errei, que fui burra, muito burra!!! Aquele âmbito de desespero a 7 anos atrás me levou a tomar aquela estúpida decisão. Agora não consigo mais dormir sem que a figura daquele demônio me clame o sangue.

No início tudo foi perfeito: recuperei o Patrick, ele me amava intensamente, mas… dois anos depois aquele amor se transformou em doença. Patrick se tornou controlador, não me deixava trabalhar direito, se interferia a cada minuto na minha vida.

Ele me seguia para todos os lados, eu não dava mais um passo sem que eu olhasse para o lado e ele não estivesse lá. Estava sufocada! Tentei conversar com ele, mas tudo piorou. Foi aí que as ameaças começaram, ele começou a dizer que eu estava apaixonada por outro e que ele não ia deixar isso acontecer. Afastou-me de todos os meus amigos, me isolou. Ele chegou a bater em vários amigos pelo simples fato de terem me dado oi, e eu, ainda apaixonada, relevava tudo.

Todo o amor que eu tinha, foi se transformando em medo, magoa, até que no dia em que briguei com ele, disse que não dava mais, ele tentou me matar com uma navalha. Escapei por pouco! Patrick foi preso, mas prometeu que sairia logo e que me encontraria para ficarmos juntos pra sempre.

Nossa, Grace, ele parecia estar possuído por alguma coisa. Foi aí que percebi que eu tinha feito a maior idiotice da minha vida indo pedir o feitiço para aquele velho haitiano.

“Sangue por Sangue”. Essa frase me apavora desde então. Eu pedi um feitiço que nunca fosse desfeito e agora estou condenada! Procurei o velho novamente, mas não consegui encontrá-lo. Falaram-me que ele tinha se mudado para cá, daí tomei a decisão de mudar, mas até agora nada.

Ultimamente tenho sentido que algo ruim está para acontecer, eu não sei… Os pesadelos pioraram…

Quando puder, venha me visitar. Preciso muito de você, amiga.
Av.Green Vall, 1544, Midtown, San Francisco.
Grande abraço,

Do outro lado, lendo o e-mail recebido, Patrick sorriu diabolicamente e saiu em busca da sua amada, deixando no chão o corpo de Grace, sangrando da forte pancada na cabeça…

Naquela noite Helena teve outro pesadelo com o homem de capa preta. Desta vez ela estava no topo de uma montanha, olhando para uma vila rudimentar que queimava. Seu vestido branco de cetim balançava ao vento e as pétalas das flores do buquê que segurava eram carregadas pelo ar. Das brechas do chão nas laterais saía uma fumaça branca, com cheiro de incenso de flores.

As pétalas seguiam a direção da corrente de vento, formando uma espiral de pétalas vermelhas que contrastavam com o céu negro. Gotículas de uma água escura começaram a tingir o rosto claro da moça enquanto trovões estremeciam e raios clareavam o céu.

Helena baixou o rosto e sentiu uma terrível aura lhe paralisar. Era ele. Apesar de todo pânico ela não conseguia se mexer, nem demonstrar nenhuma feição de pavor! Sentiu algo lhe queimar a nuca, era uma dor fina e desconfortante, que aumentou repentinamente, fazendo-a gritar. Acordou aflita, a cama ensopada com seu suor. Foi ao banheiro, pegou o sabonete, ensaboou o corpo e sentiu uma protuberância na parte de trás do pescoço. Foi até o espelho e viu que estava com uma marca estranha, uma espécie de estrela de seis pontas feitas com o cruzamento de duas setas côncavas. Estava bem avermelhada.

- Mas o que diabos é isso?! – sussurrou.

O telefone tocou, mas Helena não ouviu pois estava secando o cabelo. Deixaram uma mensagem de voz. Ao terminar, Helena olha a mensagem, onde há a possível localização do velho haitiano e em seguida ouve a mensagem deixada na caixa postal.

“Helena! Helena! – dizia a voz desesperada de Grace na mensagem de voz – Fuja! Fuja! O Patrick está ainda mais louco! Ele me atacou ontem assim que entrei em casa, me quebrou um vaso na cabeça. Quando acordei estava no hospital com meu esposo e ele me falou que meu computador estava aberto e que havia um e-mail seu, e que alguém havia lido. Amiga, ele foi atrás de você, e se ele saiu ainda ontem  já deve ter chegado a Portland. Pelo amor de Deus, se você estiver em casa, fuja agora, chame a polícia, tenho medo do que ele possa fazer com você. Liga-me assim que puder!”

Helena não acreditava no que estava ouvindo. Sua mente queria correr o mais rápido possível, mas seu corpo não se movia.

Batidas fortes na porta.

Helena sai do seu torpor e se move lentamente para olhar pelo olho mágico. A porta é arrebentada violentamente fazendo Helena ser jogada por cima do sofá e quebrar a mesinha de vidro com o corpo.

A sua respiração parou por alguns instantes e ela viu o teto o qual olhava girar feito um disco de vinil antigo. Olhou desnorteada para sua mão… Sangue! Helena imaginou que seria ali mesmo a sua morte. O terror ganhou forma no seu semblante ensangüentado ao ver Patrick parado à sua frente, com um revólver à mão.

Ele a levantou docemente, acariciou seu rosto vermelho e a olhou nos olhos assustados. Seu semblante era assustadoramente profundo, como se não fosse ele quem estivesse ali e sim algum adorador pagão.

- Não tinha que ser assim, meu amor. Eu esperei todos esses anos para você ser minha e o que você fez? Fugiu… – Disse ele com uma voz doce, a qual alternou para berros de uma loucura surreal – VOCÊ. FUGIU. DE MIM, HELENA!!! FUGIU!!!! COMO VOCÊ PODE FAZER ISSO DEPOIS DE TUDO QUE FIZ POR VOCÊ, SUA VADIA!? – alternou novamente para um tom amável – Não, não, não, não, não, não, não… Desculpe-me, meu amor, eu… eu sinto muito, eu… eu nunca quis te machucar – começou a beijar o rosto ensanguentado da moça, como um louco de amor, pintando seus lábios com o sangue dela – Eu te amo, eu te amo… mas eu nunca… nunca vou te perdoar por ter me abandonado, NUNCA!! – Começou a apertar a cabeça de Helena contra seu peito com suas grandes mãos e chorou desesperadamente – Eu não queria fazer isso Helena, eu não queria… Mas você não me deixou escolha… Eu não posso perder você… eu… sinto que temos que ficar juntos eternamente, nem que pra isso eu tenha que por um fim nisso tudo, da pior maneira possível…

Helena todo esse tempo esteve sem forças, calada, não conseguiu gritar, nem se mexer. Ainda estava sob o torpor da pancada e de como tudo aconteceu tão rápido. Em todo o discurso de Patrick, veio a sua cabeça o dia, aquele dia, em que ela cometeu o maior erro de sua vida.

- Então o que você quer que eu faça, lady?

- Eu quero um feitiço! Um feitiço que o prenda eternamente a mim. Um feitiço que una nossos corpos a ponto de um não viver sem o outro! Eu não posso perdê-lo, eu não suporto a idéia de vê-lo com outra! Estou disposta a tudo, nem que pra isso eu tenha que oferecer minha alma ao Diabo!

Tola! Tola!!! O que eu fiz?…

O telefone toca. Patrick deita Helena no sofá, ainda em estado inerte e se direciona até o aparelho. A ligação cai na caixa postal. É Grace.

- Helena, se estiver aí, por favor atenda… Helena!

- Olha se não é minha irmãzinha intrometida – disse aos risos, como se conversasse com Grace – Como sempre, você se mete onde não te cabe, não é, Grace?

- “Amiga, por favor, tenha cuidado. Os médicos consideram Patrick extremamente perigoso. Chame a polícia se vir algo estranho. Tenho medo da obsessão que ele tem por você…”

Patrick foi até Helena e se agachou na sua frente. Ela retribuiu o olhar dessa vez pra ele com olhos de pena, às lágrimas.

- Me desculpe, Patrick.

- O quê?

- Tudo isso é culpa minha… eu fiz isso com você.

Patrick arregalou os olhos, assustado com a reação da moça.

- Eu fui uma idiota. Eu devia ter deixado você ir. Eu devia tê-lo deixado seguir seu caminho, porque… Algumas coisas não são pra ser e insistir em querer algo que não pode ser é pedir para padecer no paraíso, mais cedo ou mais tarde.

- Meu amor… – disse ele acariciando a perna de Helena com a arma – é tarde demais para isso. Você deveria ter pensado nisso antes de me machucar, antes de me deixar ser levado por eles, antes de me abandonar. Eu passei 5 anos da minha vida numa prisão de retardados, comendo uma merda de comida, bebendo uma merda de água, tomando medicamentos fortes, sem estar louco. Que porra de vida eu tive naquela época? QUE PORRA DE VIDA VOCÊ ME DEU, HELENA???

Um silêncio tomou conta do ar e Patrick continuou seu doloroso discurso.

- Eu não conseguia nem me olhar no espelho sem ver você. Você estava nos meus sonhos, no resto de água do copo, no reflexo da colher da minha comida, nas paredes, no teto, no ar, VOCÊ ESTAVA EM TODO LUGAR MENOS COMIGO!!! Você desgraçou a minha vida e eu comecei a te odiar do fundo da minha alma. Eu não sei como, mas algo dentro de mim não me deixa te esquecer. É como se meu amor por você fosse uma maldição. Eu não sou louco! Eu… não era louco, mas.. mas a verdade é que eu não sei mais quem eu sou.

Helena olha-o aflita.

- O que eu sei… – continua – O que eu sei é que tudo isso é culpa sua.

- Eu posso concertar isso, Patrick. Eu..

-Consertar? – ri um sorriso insano - Não, você não pode. EU posso consertar tudo agora.

- Patrick, por Deus, não faça nenhuma besteira. Eu posso pelo menos tentar. Se você me deixar ir eu posso encontrar o…

- Deixar você ir? – Patrick começou a rir ironicamente – Depois de todos esses anos? Eu acabei de encontrar você e… Você me pede pra te deixar ir?

Patrick aproxima seu rosto do ouvido de Helena e sussurra diabolicamente.

- Você nunca mais vai se livrar de mim, querida. Nós vamos padecer juntos no inferno.

- Até pode ser – retribuiu o sussurro – mas eu pelo menos vou tentar corrigir meu erro.

Helena quebra bruscamente o vaso de vidro que estava no criado mudo ao lado do sofá na cabeça de Patrick, que vai ao chão e deixa a arma cair perto da porta. A moça pula por cima de Patrick para fugir, mas ele a derruba, segurando seu tornozelo.

- NÃO, HELENA!!!

A moça desacorda-o com um chute no rosto já banhado de sangue e corre em direção ao seu carro.

Continua…

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