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Monte a sua matéria: Sua cova, minha sepultura #33

E aproveitando a deixa, gostaria de agradecer por todos os textos enviados. Os contos, por sinal, um melhor que o outro. Muito obrigado, galera!

                                                                   Sua cova, minha sepultura

Por: Birdy L

Ela se encontrava no meio da escadaria da escola, os outros festejavam o fim do semestre a alguns metros de nós. Alguma música pop festiva e idiota adentrava em meus ouvidos enquanto eu a admirava à meia-luz. Seus detalhes não eram todos visíveis, porém sua austera dor era mais do que verificável – era palpável, eu diria.

Os braços dela escondidos na parte de trás do corpo, pronunciando o busto, e, no busto, reluzindo mais do que o seu longo vestido branco estava o escapulário que eu lhe dera meses antes. Os cabelos desciam tal qual seda negra contrastando com a pele branca da face; e na face, como sempre estiveram, os olhos brilhando (quase como se tivessem vida própria e te buscassem para te abocanhar), as pupilas dilatadas conferiam-lhe um aspecto felino. Seu cheiro chegava a mim como uma tapa, um algo doce e mais certo cheiro de ferrugem e sal. Quase me arrependi de ter posto um fim em nós.

– Você… – seus lábios vermelhos se entreabriram – você me prometeu a eternidade!

Encarei-a.

O que eu poderia dizer?

Um canto de pássaro chegou aos meus ouvidos – era um Garibaldi; quase todo negro, exceto a coroa e o peito que eram de um vermelho profundo. Ele pousou no corrimão, depois voou em direção a ela. Eu a observei erguer o braço esquerdo e ampará-lo no dedo indicador.

Foi quando eu vi…

Sangue. Escorrendo de um corte vertical em seu pulso.

– Ele me prometeu sua eternidade – ela contou para o pássaro, com face impassível.

A visão paralisou-me.

De repente, o corpo dela atingiu o chão. O bater das asas do Garibaldi despertou-me. Acerquei-me dela, tomando seu torso em um braço, verificando com o outro os cortes a macular o branco do vestido, vertendo sua vida para fora. Sua mão direita apertava uma lâmina.

– Não. Não. Não.

Ela sorriu. Um sorriso cáustico.

– Não quero sua pena, amor… Não é de mim que você deve ter pena – seus olhos se estreitaram e eu soube.

Na semana que se seguiu a morte dela, fui despertado todos os dias pelo cantar daquele pássaro negro. A testemunha de tudo.

– Você sabe que não é minha culpa, não é?

Ele virou a cabeça em um ângulo que me pareceu doloroso.

Eu não fui ao enterro. Não mandei flores. Não vi motivo. Dor eu até sentia; remorso, não. Eu via o erro por trás de todos aqueles que a conheceram pareciam carregar uma acusação no jeito de me olhar, ou de não me olhar.

Eu não queria ir. Não de verdade. Mas existem aquelas vezes em que cada músculo do seu corpo contraria sua vontade. E quando dei por mim: estava lá.

Sentei-me perante a pedra de mármore constando 

                                                                              A. R.

                                                                       1990 – 2008

 – Oi, menina – comecei. – Eu não sei o que dizer. Não sei se algo poderia ter sido dito… Para te impedir, sabe? Você não me parecia ser tão idiota a ponto de fazer… O que fez.

Eu tive que parar e rir de mim mesmo: – Cá estou alguns palmos acima do teu corpo em putrefação e te xingando. Mas para falar bem a verdade… Você merece totalmente, sabe? As coisas acabam droga! A vida é uma sucessão de ruínas e construções. Todo mundo sabe disso! Por que você tinha que ser tão… – procurei a palavra para cuspir – impotente?

Dei uma olhada ao meu redor. O céu estava púrpura, limpo. O vento parecia açoitar meu coração mais do que a minha pele. Como se o frio do mundo partisse de mim. O Garibaldi apareceu, pousou na pedra com o que me pareceu certo ar de satisfação.

Fiquei a fitar a grama estendendo-se até a lápide. Escutei um barulho ao longe, algo que parecia ser um martelo se chocando contra uma superfície muito dura. De repente o chão sobre mim, tremeu e, então, uma fenda se abriu perante mim e dela se pronunciou um corpo, o corpo dela.

– Você me prometeu sua eternidade.

Então, ela estreitou-me dentre seus braços enregelados e mais do que vertiginosamente todos os meus sentidos foram ludibriados, parecia que todos eles se confundiram em um só que absorviam, ao mesmo tempo, a textura terrosa do canal por onde eu era arrastado, a escuridão do interior das minhas pálpebras cheiro de putrefação e terra e o barulho desta passando pelos meus ouvidos.

A próxima coisa que enxerguei foi minha calça em desalinho e suja.

Contemplei o lugar em que estava com olhos descrentes. Encontrava-me num salão amplo e alto, cujas paredes pareiam chagas não cicatrizadas e supurantes. Um forte enjoo tomou conta de mim e vomitei no chão pedregoso, no qual estava erguido.

– Olá – disse um homem de porte nobre. Sua voz era suave. Ele não era muito alto, seu rosto fez-me sentir vergonha das minhas próprias feições. O homem vestia um terno, sorria um sorriso que poderia ter a intensão de ser acolhedor, contudo teve o efeito de fazer cada mínima parte do meu ser se arrepender da minha existência, dos meus pecados.

Ela estava logo atrás dele com o mesmo olhar vazio que a morte lhe havia imposto.

– Ela está morta – gritei.

– Está não está? – o homem indagou com uma simpatia irônica.

– Eu estou…? – não consegui terminar a frase.

– Deves estar não é?

– Como?

– Ah! – ele ergueu um dedo no ar e balançou-o em direção a ela – Não se deve quebrar promessas, sabias?

– O quê?

Ele estalou os dedos. Defronte a mim, os lábios dela permaneciam fechados, mas foi sua voz que ressoou.

“- Estou te dando minha alma. Eu não aceito nada menos do que a tua própria em troca.”

– O que foi mesmo que respondeste a isso? – ele estalou os dedos mais uma vez e minha voz ressoou sem partir de mim, dizendo:

“- Você já tem minha alma para sempre.”

O homem deu uma risada cortante.

– Como ela foi ingênua, não achas? De acreditar em ti?

– E daí? Eu só disse o que ela queria ouvir. Eram apenas palavras!

– Apenas palavras? Não só de sangue se fazem os pactos, oh, meu tolo verme. Existe tanta honra em revogar o “para sempre” quanto em proferir um “nunca”! – ele falou com um olhar divertido – Não são todas as mulheres dignas de serem apontadas como “demoníacas”… Aconteceu de você ter vendido sua alma para uma que o é. Não que a pobre infeliz seja um demônio no sentido estrito da palavra…

– E agora? Eu serei cozinhado em fogo perpétuo? – perguntei temendo a resposta.

– Não, meu caro. Não, não, não. Os terrores do inferno são mais intensos do que sua ou qualquer outra mente humana e limitada possam conceber.

– E ela? O que acontecerá a ela?

Ele deu um sorriso oblíquo, mas os olhos tinham uma expressão desgostosa:

– Ela está morta, de corpo e alma. Tu a mataste! Não há nada que eu possa fazer a ela… O pior é que ela nunca o amou realmente; ela não sabe disso. – Ele fez uma pausa e fitou-a de cima abaixo. – Você deve segui-la – O homem informou em um tom que era quase um sussurro.

Ela estendeu-me a mão. Segurei-a e ela guiou-me para um enorme portal, que eu não notara antes por estar atrás de mim. A mão livre dela abaixou uma maçaneta que mais parecia uma lâmina de punhal, quando largou havia um corte em sua mão ainda que nenhum sangue restasse para ser derramado.

Pela porta entreaberta passaram sons agonizantes que apregoavam meu futuro.

– Por que você está fazendo isso comigo?

– Você deixou de me amar. Estou lhe dando uma razão para me odiar agora.

– Você quer meu ódio?

– Qualquer coisa… Com exceção do esquecimento.

Então, eu dei o primeiro passo para juntar-me aquele coro de condenados. 

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