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O lendário time nazista

Por: Michelle Alves

Em uma fazenda no interior de São Paulo, 160 km a oeste da capital, um time de futebol posa para uma foto comemorativa. Mas o que torna a imagem extraordinária é o símbolo na bandeira do time – uma suástica.

“Nada explicava a presença dessa suástica aqui”, conta José Ricardo Rosa Maciel, ex-dono da remota fazenda Cruzeiro do Sul, perto de Campina do Monte Alegre, que encontrou a foto, por acaso, um dia.

A primeira pista

“Um dia, os porcos quebraram uma parede e fugiram para o campo”, notei que os tijolos tinham caído. Achei que estava tendo alucinações”. Na parte debaixo de cada tijolo estava gravada uma suástica. Levou anos para que Maciel, com o auxílio do historiador Sidney Aguilar Filho, conhecesse a terrível história que conectava sua fazenda aos fascistas brasileiros.Ele descobriu que a fazenda tinha pertencido aos Rocha Miranda, uma família de industriais ricos do Rio de Janeiro. Que eram membros da Ação Integralista Brasileira (AIB), organização de extrema direita simpatizante do Nazismo.

A família às vezes organizava eventos na fazenda, recebendo milhares de membros do partido. Mas também existia no lugar um campo brutal de trabalhos forçados para crianças negras abandonadas. “Descobri a história de 50 meninos com idades em torno de 10 anos que tinham sido tirados de um orfanato no Rio.”

Osvaldo Rocha Miranda solicitou a guarda legal dos órfãos e o pedido foi atendido.

Sobreviventes

Aloysio da Silva

“Ele enviou seu motorista, que nos colocou em um canto”. Um dos primeiros meninos levados para trabalhar na fazenda, hoje com 90 anos de idade. “Osvaldo apontava com uma bengala – ‘Coloca aquele no canto de lá, esse no de cá’. De 20 meninos, ele pegou dez. Ele prometeu o mundo.Mas não tinha nada disso.”

As crianças eram espancadas regularmente com uma palmatória. Não eram chamadas pelo nome, mas por números. Silva era o número 23. Cães de guarda mantinham as crianças na linha.

Argemiro dos Santos

Quando menino foi encontrado nas ruas e levado para um orfanato. Um dia, Rocha Miranda veio buscá-lo. Eles não gostavam de negros – Diz ele. “Havia castigos, deixavam a gente sem comida ou nos batiam com a palmatória. Doía muito. Duas batidas, às vezes. O máximo eram cinco, porque uma pessoa não aguentava”. “Eles tinham fotografias de Hitler e você era obrigado a fazer uma saudação. Eu não entendia nada daquilo”.

Para os órfãos, os únicos momentos de alegria eram os jogos de futebol contra times de trabalhadores das fazendas locais, como aquele em que foi tirada a foto onde se vê a bandeira com a suástica. (O futebol tinha papel fundamental na ideologia integralista.).
Mas depois de vários anos, ele não aguentava mais: “Tinha um portão (na fazenda) e um dia eu o deixei aberto”. “Naquela noite, eu fugi. Ninguém viu”.

Santos voltou ao Rio onde, aos 14 anos de idade, passou a dormir na rua e trabalhar como vendedor de jornais. Em 1942, quando Brasil declarou guerra contra a Alemanha, Santos se alistou na Marinha. Depois de trabalhar para nazistas, Santos passou a lutar contra eles.
Hoje, Santos é conhecido, na comunidade onde vive pelo apelido de Marujo.

E se orgulha de um certificado e uma medalha que recebeu em reconhecimento por seus serviços durante a guerra. Mas ele também é famoso por suas proezas futebolísticas, jogando como meio de campo em vários grandes times brasileiros na década de 1940. As lembranças do tempo difícil que passou na fazenda, no entanto, são difíceis de apagar.