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Monte a sua matéria: A beleza do ateísmo (parte II) #118

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A beleza do ateísmo (parte II)

Por: Diogo Luís

Pasmo com a repercussão da primeira parte, e impressionado com os comentários (sim, li todos), escrevo a segunda parte, esclarecendo algumas coisas que não ficaram tão claras, provavelmente porque não escrevi (Espaço limitado). 

Se, na primeira parte, exploramos o conceito de ateísmo, nessa segunda parte pretendo explorar o conceito de religião. Mas antes de tudo, quero dizer que não pretendia e não pretendo mostrar o ateísmo como superior a nenhuma religião, e nem ofendê-las. O que pretendo aqui é simplesmente lançar uma nova visão sobre o ateísmo, que geralmente é assumido como uma visão monocromática do mundo, onde, pela ausência de um “apoio divino”, o mundo torna-se sem esperança em alguns casos.

Certo. Voltando ao texto em si, o conceito de religião. Ao contrário do que muitos pensam uma religião não necessita de deuses para ser uma religião (existem muitos seguimentos do budismo, por exemplo, que adotam essa forma). O que caracteriza uma religião é a presença do dogma: Uma verdade tomada como perfeita e incontestável sem o uso do argumento.

Essa falta de argumentação é o que define o dogma, e é basicamente o que gera o combate entre a filosofia/ ciência (o conhecimento plástico, sempre contestável, e nunca absoluto) contra a religião/ teologia (o dogma, o conhecimento incontestável e absoluto).

Porém, uma religião não é só o dogma. Muitas religiões envolvem valores como solidariedade, amor ao próximo, união, compaixão e afeto, valores que existem e permeiam as relações interpessoais e que, argumentavelmente são excelentes para uma boa convivência. Porém, também envolvem alguns valores que, também argumentativamente mostram-se extremamente prejudiciais às relações, com exemplos da própria Bíblia, a possibilidade de recompensar a insolência de um filho ou a traição de uma mulher com um apedrejamento até a morte.

Esses valores são adotados pelas religiões, não criados por elas. Logo, mesmo não sendo religioso, é possível ter uma convivência racional e pacífica com as outras pessoas. Logo, um ateu não irá te esfaquear na rua simplesmente porque é um ateu (mas é claro, alguém pode te esfaquear por outros motivos.

Mas o que pretendo discutir no texto são estes dogmas. Os dogmas, diferentemente das relações interpessoais e seus valores (sejam eles fraternidade, solidariedade ou apedrejamento), interagem com a personalidade do indivíduo, quem ele é, o que ele gosta, o que prefere, enfim, hierarquiza essas personalidades, esses modelos de pessoa em volta de um “modelo perfeito”, que por ser fruto de um dogma, é argumentativamente inexistente.

E esse é o grande problema. Indubitavelmente as religiões podem nos ensinar alguns valores extremamente úteis nas relações interpessoais, mas a partir do momento em que dizem “este indivíduo é superior a este outro”, como por exemplo a superioridade sexista trazida a tona por várias religiões, ou até mesmo os níveis de “santidade” totalmente entrelaçados a personalidade da pessoa nos vemos com uma “escada de personalidades”, o que nos trás a uma visão de que a perfeição pode ser personificada.

Dando-me a liberdade de escapar um pouco do tema “religião”, tentarei esclarecer os dogmas em outro contexto. Os dogmas sociais funcionam da mesma forma que os religiosos, mas simplesmente não estão impressos em livros sagrados.

Usando um exemplo semelhante aos dos Trekkies do texto passado, trago agora os Bronies. Quem são eles, você pode se perguntar? São fãs da série “My Little Pony: Friendship is Magic”. Assim como aconteceu no passado com os fãs de Star Trek, os Bronies enfrentam sempre esses dogmas sociais. Como visto, não existe nada que, em caráter argumentativo, hierarquize a importância, relevância ou diga que “esse gosto é correto, porém esse não”.

Nós tendemos a considerar natural o que é usual. Porém, isso é um erro. Considerarmos que as características de uma pessoa devem delimitar quem ela deve ser ou o que deve gostar é uma espécie de “religião social”, onde tentamos de tudo para nos mantermos dentro do limite do “correto”, um limite ilusório criado pelos já citados dogmas sociais.

São esses dogmas que dizem e tentam nos modelar desde o nascimento “você, deve brincar com esses brinquedos, gostar desses filmes”, a pequena criança simplesmente se vira e diz “Por quê?”. Bom, esses “porquês” não têm respostas, simplesmente porque se trata de um dogma.

E são tão frágeis pela sua incerteza e estupidez de existência os dogmas, que simplesmente variam de geração para geração, quer um exemplo? Claro, se você leu até aqui, merece um exemplo: Rosa, aquela cor que por tanto tentam afastar de garotos, no início do século XIX eram consideradas extremamente masculinas. Outro exemplo? Claro, você conhece uma mulher que usa calças? Volte algumas décadas e isso seria tomado como extremamente incorreto. Mais um exemplo? Claro! Saltos altos. Foram projetados para homens.

E por ai vemos como se comportam os dogmas. Criam modelos que ditam quem você deve ser, como deve se comportar, o que deve gostar, baseados em nenhuma argumentação.
Alguns dos frutos dessas hierarquias, que, quando desafiadas, clamam por manter sua posição, são o bullying, a discriminação, a perseguição contra o diferente. Um exemplo disso foi o recente caso de Michael Morones.

E esse é o problema da religião. O dogma, que clama por manter-se em pé mesmo com todos os seus efeitos injustos. Como dito na parte anterior, o gosto basicamente não influencia a relação interpessoal. Repito que a religião com certeza pode adotar alguns valores interpessoais (compaixão, solidariedade, fraternidade) extremamente essenciais. Porém ela também trás com sigo a do modelo de pessoa, algo que em todos os casos é injusto, e, por não poder ser argumentado, acaba por simplesmente sufocar a beleza da pluralidade.

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