Minilua

O Lado Negro: Contos Minilunáticos #1

Dae galera minilunática! Saudações mórbidas, pois hoje damos segmento a nova série (espero que vocês tenham aprovado o novo título) de suspense, horror e muito mistério.

Depois do grande sucesso das creepypastas e do conto do Pedro O lado negro do Minilua, eu juntamente com alguns leitores, decidi postar semanalmente contos e histórias produzidas por vocês mesmos.

Hoje trago para vocês o fascinante conto do leitor Arthur da Costa Lima!

Para ampliarmos a sensação de suspense inserimos uma trilha para ser tocada acompanhado a leitura (não sejam covardes).

57

 

A Vítima 57

O psicólogo, mesmo que se mostrando aparentemente tranquilo, por dentro sentia um frio inquietante no estômago, enquanto percebia as cicatrizes por todo o corpo de seu paciente. Este tremia, como se o sol, lá fora, não existisse. As unhas do mesmo estavam quebradas e amareladas enquanto que manchas escuras preenchiam a pele abaixo de seus olhos. Os curativos pareciam não ajudar os ferimentos a cicatrizarem, pois ainda sangravam, mesmo depois de dias.

          — P-Por favor, Doutor! Me ajude! Eu não aguento mais ela. Está… Está em toda parte – dizia o paciente, misturando a frase a uma respiração difícil.

O Doutor não sabia como agir. Seu pensamento agora se encontrava longe, refletindo se aquela era de fato uma escolha certa, ao se especializar na pesquisa de mentes criminosas. Este paciente, em especial, de nome Oscar Sunderland, acusado de matar 57 pessoas a sangue frio, se entregou para a polícia há pouco mais de dois meses. Assassino de aluguel, Oscar parecia um homem com não mais de 30 anos quando chegou aqui. Sua pele ainda tinha alguma cor, seus cabelos ainda não haviam sido arrancados com as próprias mãos e, no geral, parecia alguém de corpo e mente saudáveis, falando de forma aparente, claro.

O psicólogo, Igor Balltyr, com seus apenas cinco anos de profissão, respirava profundamente, olhando o efeito que o vento tinha sobre as cortinas da sala do consultório, naquela manhã de sexta. Tentava buscar uma resposta, uma solução para aquele caso.

          — Tudo bem… Vamos voltar mais uma vez àquele dia, onde tudo começou, senhor Sunderland. Eu quero que conte novamente, concentrando-se em detalhes. Tente lembrar-se de algo mais…

Oscar baixou a cabeça, olhando para suas mãos pálidas e mal tratadas, trazendo uma respiração forte misturada à uma vontade de choro.

          — Eu acordei quase às nove horas da manhã… Havia alguns restos de comida em um prato sob o criado-mudo ao lado da cama, estava repleto de formigas e… Isso me irritou um pouco, então…

O rapaz se dirigiu à cozinha com o prato na mão, deixando-o sobre a pia. Ao caminhar até o banheiro, ele ouviu o seu celular tocar, no seu quarto, logo, procurando-o. Ao ter o aparelho na mão, percebeu que se tratava de uma chamada de número confidencial.

          — Alô? – atendeu Oscar, supondo que era um de seus principais clientes.
          — Tenho uma pessoa pra você… Eu preciso que ela esteja fora do alcance de qualquer um, até às dezessete horas. É um assunto pessoal.
          — Sabe que só faço o serviço com metade do pagamento adiantado… – prosseguiu ao perceber que era realmente quem ele pensava.
          — Cheque o envelope amarelo na caixa do correio. E não esqueça, até às dezessete horas!

O homem desligou o telefone, enquanto Oscar preparava uma resposta para se gabar de seus serviços. Olhou o visor do celular, que informava o encerramento da chamada, levantando uma de suas sobrancelhas.

Indo até a caixa de correio fora da casa, encontrou o envelope no qual o seu cliente se referia. Abrindo-o, verificou que tinha uma quantidade do dinheiro, como mencionado pelo contratado, e, junto a isso, uma ficha com foto e vários dados da vítima. Chamava-se Louise Millet, mas descuidado, não se importou em ler a descrição detalhadamente, passando a folhear as páginas sem se importar muito, prestando mais atenção apenas no endereço e prováveis horários em que a vítima estaria em casa.

Jogando as folhas sobre o sofá, e guardando o dinheiro em um cofre no piso do armário de seu quarto, Oscar foi finalmente ao seu banho e logo se preparar para o seu serviço do dia. Minutos depois, o assassino confiante saiu em um de seus carros, um comum, no qual não chamasse a atenção, colocando uma placa falsa no mesmo e algum equipamento na mala, como de costume.

A vítima morava só em uma pequena cidade vizinha, a mais ou menos trinta minutos da que Oscar residia. O endereço foi facilmente encontrado, um subúrbio, próximo a uma grande mata.

Estacionando o seu carro não muito longe da casa da vítima, passou a observar o ambiente de dentro do veículo, através do vidro fumê. Era uma área sem movimentação, numa rua sem calçamento e tudo não parecia mais que uma área esquisita.

Pouco tempo depois, o céu aos poucos foi nublando, e como esperado, iniciou-se uma chuva que não parecia ter fim.

Por muito tempo, não houve movimento algum de dentro para fora ou vice-versa na casa. Preocupado com o tempo que tinha para fazer o serviço, Oscar pegou a arma, junto a um silenciador, colocou luvas, e vestiu-se em um casaco preto com capuz. Saiu do carro no meio da chuva e vento. Pensava consigo, que nunca havia feito um serviço desse tipo, sem observar a vitima por dias ou até semanas. Parecia arriscado, mas não tinha escolha, afinal, já possuía parte do dinheiro, e perder um de seus melhores contratantes não era uma de suas opções.

Chegando à frente da casa, bateu a porta, tentando se preparar, colocando a mão sob o casaco para pegar a arma escondida. Foi então, que duas pessoas passaram ao mesmo tempo em que Louise abriu a porta. Ela estava vestida de forma descuidada em uma camisola meio suja, seus cabelos um tanto desarrumados e não parecia se importar com a chuva. Oscar, incomodado com as outras duas pessoas, fingiu passar mal para Louise. Escorou-se no muro com a mão no peito e prosseguiu com uma atuação.

          — Por favor, moça, me ajude, eu…
          — O que…? O que você… – disse a mulher, sem entender muito bem o que estava ocorrendo.
          — Eu estou… Estou… – falava Oscar enquanto olhava as pessoas se distanciarem e dobrarem a esquina.

Com um movimento brusco e rápido, Oscar agarrou o pescoço da mulher, empurrando-a brutalmente para dentro da casa. Segurando-a com tremenda força pelo pescoço, fechou a porta com a outra mão e retirou a arma em seu casaco.

Louise parecia tentar gritar, mas tinha seu pescoço segurado com tal força, que simplesmente não conseguia emitir som algum. Suas mãos inúteis tentavam retirar a de Oscar, arranhando o braço do mesmo, sem muita eficácia. Finalmente, o assassino a empurrou contra a parede do terraço, soltando-a. A mulher caiu sentada, na lama, tentando levantar a visão para o rapaz, enquanto colocava a mão no pescoço, talvez para aliviar a própria dor, tossindo, com falta de ar.

          — Então é assim que… Aquele covarde age quando não pode com pessoas… Como eu?! – disse Louise recuperando um pouco do fôlego.
          — Pessoas como você?! E o que você é, sua…?!
          — Eu sou aquela que vai mandá-lo ao inferno…!  — disfarçadamente, pegando a terra molhada com a mão que a apoiava sentada.
          — Ora, sua…!!!

Oscar apontou a arma para Louise, com a intenção de acabar com aquilo de uma vez, porém, foi surpreendido com a porção de terra molhada arremessada bem no seu rosto. Com a visão prejudicada, assassino atirou as cegas em direção à moça, ouviu um grito de dor e passos em direção para dentro da casa. Levando alguns segundos para se recuperar da surpresa, o homem observou que Louise havia se movido para outro local da moradia, deixando uns pingos de sangue pelo chão. Cuspindo a areia que havia entrado em sua boca, ele saiu seguindo os rastros, que levaram próximo à cozinha. Oscar estava com tal ódio agora, que mal se importava em observar o local.

De trás de uma cortina, a mulher tentou surpreender o assassino, avançando repentinamente em sua direção com uma faca. Porém, em vão. Oscar a derrubou e colocou a arma na cabeça de Louise.

          — Se acha muito esperta, não é? – disse Oscar irritado, pronto para puxar o gatilho.
          — Você vai se arrepender disso… – respondeu Louise, sabendo de seu fim.

Sem pensar duas vezes, o assassino atirou na cabeça da mulher, que teve seus miolos espalhados pelo chão, manchando o próprio Oscar de sangue no rosto.

Rapidamente, o homem procurou limpar o sangue, e apagar todos os tipos de pistas possíveis, mas nisto, ele já tinha prática. Limpou-se, estacionou o carro na garagem sem veículo da casa da mulher e pegou uma mala grande. Quando estava saindo com o corpo da mesma, observou a parede de relance e percebeu algo estranho. Notou que por toda a sala, havia fotos de várias pessoas, pregadas na parede, e estacas enfiadas em cada uma das imagens. Sua pressa era tremenda, que não permitiu que se entulhasse com algum atraso. Levou o corpo dentro da mala grande para o carro, colocando-o no mesmo. Ninguém parecia ter visto. Mais tarde, jogou o corpo no rio que cruzava entre as duas cidades, que afundou na correnteza. Retirou a placa falsa do carro e seguiu viajem para casa. Pronto… Estava feito… O alívio parecia vir depois de todo aquele momento de agonia. Em casa, retirou qualquer vestígio do carro e tomou um banho. A noite caiu.

Assistiu TV em sua sala, como se nada tivesse acontecido durante o dia. Levantou-se do sofá, desligou a TV e estava em direção ao quarto, quando percebeu o prato sujo que deixara de manhã na pia. Lavou-o e colocou pra enxugar.

Quando o ralo da pia sugou a água, algo lhe chamou a atenção. Havia um fio de cabelo, longo, que terminava de boiar. Pegou-o e observou seu tamanho, passando as mãos de uma ponta à outra. Ficou a imaginar de quem seria, pois ele não trazia ninguém em sua casa. Jogou aquele fio no lixo e seguiu para o quarto.

Retirou a colcha de sua cama e sentou-se. Neste mesmo instante, alguém bateu na porta de sua casa. Um acontecimento estranho, pois a casa em si, era cercada por um muro, e no portão da frente, havia um interfone. Alguém poderia ter pulado o muro, ou não…

Passando pelo corredor, percebeu que a porta de sua sala, que levava para fora da casa, estava aberta. Um vento frio de fora entrou, soprando as cortinas do local e movendo as folhas das plantas dos jarros. Oscar se aproximou da porta e a fechou de chave. Observou o local, desconfiando que alguém pudesse ter entrando.

Caminhou até o quarto, devagar, com os olhos atentos a qualquer movimento. Lá, ele pegou uma arma em seu criado mudo. Neste instante, pisadas rápidas foram ouvidas passando pelo corredor, em frente ao seu quarto. Oscar correu para olhar, apontou a arma para fora do quarto, observou o que podia, mas não viu nada.

De repente, sentiu o seu corpo ser empurrado por algo. Tamanha força o suspendeu no ar e o arremessou na parede do outro lado do quarto. Oscar caiu após o impacto, machucando-se um pouco, mas de forma alguma, largou a arma. As luzes do quarto começaram a ascender e apagar freneticamente. As janelas pareciam ser vitimas de batidas, sem parar um instante, e um grito desconhecido e horrendo de alguém era ouvido de dentro do próprio quarto.

O assassino se encolheu no canto, olhando para tudo o que estava acontecendo. Estava desesperado, com medo, sem saber pra onde apontar a arma ou o que fazer. Até que tudo parou…

Não havia mais luzes piscando, janelas batendo ou gritos. Oscar se levantou, devagar, tremendo como nunca tinha feito na vida, não de frio, mas de medo. O primeiro passo ele deu e a porta do banheiro de seu quarto se abriu, quebrando o silêncio com um rangido alto e medonho. A luz daquele ambiente também acendeu por si só.

Caminhando lentamente até o banheiro, o homem apontava a arma tremendo. Lá, ele percebeu que não havia mais nada, nem ninguém, apenas o seu velho banheiro, como sempre. Porém, olhou para o espelho do box, e viu uma estranha imagem atrás dele. Uma mulher, banhada do sangue que escorria de um buraco em sua testa. Um arrepio correu por todo o corpo de Oscar, que sentiu todos os seus pêlos levantarem, pois na verdade, não havia ninguém ali. Sem pensar duas vezes, esmurrou o espelho. Estilhaços se espalharam pelo local, e sua mão agora sangrava. Olhando para os cacos de vidro no chão, ele ainda via aquela imagem atrás, entre os estilhaços. A mão que segurava a arma começou a se mexer sozinha, trêmula, mas com uma direção certa. Por mais que o homem colocasse força, essa não foi impedida de se posicionar frente ao estômago, com a arma apontada para o mesmo. Era a mulher, ela estava segurando a mão armada dele, ele via isso pelos estilhaços, mas fora do reflexo, ela não estava lá. Tudo o que sentia, era uma respiração fria em seu ouvido. A luz apagou e um tiro foi disparado no escuro…

O sol brilhava lá fora e o canto dos pássaros acordou Oscar, para o que parecia ser um belo dia. Estava em sua cama aconchegante. Olhava para os lados, e tudo parecia ter sido um sonho. Respirou aliviado… De qualquer forma, era hora de se levantar, mais um dia o esperava. Ao forçar o seu corpo para frente, sentiu uma enorme dor que vinha de seu tórax. Retirando as cobertas, se assustou. Havia um ferimento de bala em seu corpo e os lençóis da cama estavam banhados em sangue.

— Então você acordou com um tiro no próprio tórax? – perguntou o psicólogo, trazendo a mente concentrada do rapaz de volta a tona.
          — Sim! E ela me atormenta… Todos os dias! Eu tenho medo de dormir… Eu não quero morrer, Doutor! Eu não quero…! – dizia Oscar, entrando em prantos.

Igor terminava as anotações com a palavra ‘’Esquizofrenia’’ no canto da folha. Guardou-a e chamou o guarda que sempre ficava na frente da sala do consultório.

          — Bom, ficará tudo bem… Acredite, eu estou trabalhando nisto… – dizia o psicólogo ao acompanhar com os olhos, de sua cadeira a saída do criminoso.

Um reflexo da porta de vidro refletiu a imagem do prisioneiro saindo da sala, sendo levado pelo braço direito pelo policial. Tudo normal, se não fosse por este mesmo reflexo mostrar também uma mulher em branco, levando Oscar pelo outro braço, embora não houvesse uma terceira pessoa bem ali.

 

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