Minilua

Escolha a sua área: Astronomia #1

É com grande prazer, que estreamos hoje a nova série de posts do Minilua: “Escolha a sua área”. A série será como um “guia de profissões” para ajudar os leitores que ainda estão no colégio a escolher a sua área e também informações e curiosidades sobre a mesma.

Além disso, o “Escolha a sua área” na medida do possível também trará entrevistas exclusivas com algum profissional da área escolhida.

Para a estreia, escolhemos a Astronomia, um assunto que sempre vira post aqui no Minilua e que não tem ninguém quem não goste, aliás, todo mundo já admirou o céu não é mesmo? E para falar sobre Astronomia nada melhor que entrevistar um astrônomo!

Na entrevista de hoje, quem vai nos apresentar a astronomia é o astrônomo Leandro Guedes, que concedeu gentilmente essa entrevista para o blog. Confira!

Astronomia – Leandro Guedes

Minilua: Primeiramente, queria que você se apresentasse para a galera do Minilua.
Leandro Guedes: É um prazer conversar com os editores e com o público desse blog eclético, divertido, informativo e que tem astronomia no nome! Me formei em astronomia na UFRJ, fiz o mestrado na área de Astrofísica Extragaláctica e atualmente faço o doutorado em História e Filosofia da Ciência. Trabalho no Planetário do Rio de Janeiro, e nesse momento estou fazendo uma parte do doutorado na Universidade de Notre Dame, nos Estados Unidos.

 

ML: Como é a formação de um astrônomo e que tipo de curso superior tem que fazer?
LG:
A melhor maneira de iniciar a carreira de Astrônomo é cursando um dos dois cursos de
graduação existentes no Brasil, na UFRJ e na USP. Você sairá como o título de bacharel em
astronomia. Como em toda carreira científica, a pós-graduação é absolutamente necessária, e é
onde você irá especializar o conhecimento obtido durante a graduação. Algumas pessoas
pulam logo para o doutorado, outras preferem fazer o mestrado primeiro. Qualquer que seja o
caminho, o doutorado é fundamental. Normalmente se consegue bolsa durante todo o período
de formação. Durante a graduação você pode (e deve) ter seu primeiro contato com a
produção científica e se envolver com pesquisas que estejam sendo desenvolvidas. Fazendo
isso, você pode ganhar uma bolsa de iniciação científica. Na pós-graduação você também irá se
candidatar a bolsas de Mestrado e Doutorado. É sempre bom ganhar uma grana durante os
estudos não? (os valores atualizados das bolsas pode ser visto nos sites dessas duas
agências, CNPQ e FAPESP).
Apesar de só existirem dois cursos de graduação no país, existem vários cursos de
pós-graduação em astronomia, em diversas universidades e centros de pesquisa. Se você não
mora no Rio de Janeiro ou em São Paulo, pode tentar encarar uns 4 anos de graduação em
uma dessas cidades, longe da comidinha da mamãe, e depois voltar para mais perto de casa e
fazer sua pós. Quando se viaja para estudar, normalmente se mora numa república, dividindo
apartamento com outros estudantes.
Uma outra possibilidade de entrar na carreira de Astrônomo é fazer uma graduação em alguma
área que te dê base para ingressar na pós-graduação em astronomia. Física é a área com mais
afinidade, mas também pode ser matemática ou, ainda, química ou outra área de ciências da
natureza. Uma pessoa pode, por exemplo, fazer Geologia e se especializar em asteroides.
Mas se você já tem a decisão de ser astrônomo, esse caminha talvez não seja o melhor, e
deve ser trilhado apenas pelos que começaram algum desses cursos e desejaram mudar de
carreira para a astronomia. Evidentemente, essa combinação de graduação e pós-graduação
deve ser coerente. Não vai dar certo fazer a faculdade de fisioterapia e tentar o mestrado em
cosmologia. Nem fazer psicologia e pular para o doutorado em evolução estelar.

 

ML: O que faz um astrônomo?
LG:
O trabalho de um astrônomo se divide basicamente em pesquisa e divulgação científica. Muitos
profissionais de gerações mais antigas optaram por uma ou por outra, mas atualmente, cada
vez mais, o mercado exige que o astrônomo atue nas duas direções. Uma outra possibilidade
de trabalho no Brasil é com o controle de satélites.
A pesquisa científica diz respeito a fornecer explicações para o que observamos. Essas
explicações são feitas através de teorias e hipóteses que buscam conectar a base de
conhecimentos existente com dados obtidos de observações. Por exemplo, nossa tecnologia
atual permite observar ligeiras variações na posição de algumas estrelas, ou pequenos
balanços. De acordo com nosso conhecimento de gravitação, isso pode ser provocado por um
objeto orbitando ao redor da estrela, como um planeta. Pelo padrão e intensidade do
movimento, com a ajuda indispensável da computação, podemos dizer quantos planetas estão
girando, suas massas e suas distâncias à estrela.
A divulgação científica, também chamada de comunicação científica, é a atividade de mostrar
para o público em geral (independente de qualquer treinamento cientifico) o resultado das
pesquisas. Recentemente, tivemos um importante exemplo de como a divulgação científica é
importante durante a onda de apreensão sobre uma suposta profecia Maia para o fim do
mundo em 2013. Explicar exatamente como funcionava o calendário Maia, e que alinhamentos
planetários quaisquer jamais poderiam provocar qualquer apocalipse, pode evitar que uma
pessoa mais impressionável seja capturada por alguma seita bizarra.
A troca de informações durante uma pesquisa científica e na divulgação de seus resultados é
feita numa linguagem técnica, entre especialistas de uma determinada área, através de artigos
científicos. Por outro lado, a linguagem da divulgação científica deve ser clara e o menos
técnica possível. Como explicar o que é um buraco negro a uma criança de 5 anos? Como
dizer a uma pessoa que o Universo não possui centro? Isso pode ser mais difícil que explicar
ao seu colega astrônomo suas ideias sobre as emissões de raios-X de um buraco negro ou
sobre a topologia do Universo.
O controle de satélites da Embratel é feito por uma empresa chamada Star One que também contrata astrônomos com especialização em mecânica celeste.

 

ML: Qual é a área de atuação de um astrônomo?
LG:
Com a exceção do controle de satélites, o astrônomo vai trabalhar numa instituição pública,
que pode ser um centro de pesquisa, uma Universidade, ou um museu de ciência. Os centros
de pesquisa e Universidades são mais voltados à pesquisa científica, enquanto os museus de
ciência são mais voltados à divulgação. Mas esses são objetivos primários das instituições, cada
vez mais os astrônomos dos museus de ciência estão se envolvendo com pesquisa científica e
os astrônomos das universidades e dos centros de pesquisa se envolvendo com divulgação.
Dentro da pesquisa o astrônomo precisa se concentrar em alguma das diversas áreas da
astronomia. Alguns exemplos de áreas de estudo são: mecânica celeste, que estuda os
movimentos dos astros, e atualmente tem sido muito importante na monitoração de cometas e
asteroides com órbitas próximas a da Terra; astrofísica estelar, que estuda os processos físicos
que ocorrem nas estrelas ao longo de sua evolução; cosmologia, que estuda o Universo como
um todo, sua estrutura e evolução; astrobiologia, uma mistura entre astronomia e biologia, que
ganhou um grande destaque com a busca por planetas habitáveis depois da descobertas dos
planetas extra-solares; etc.

 

ML: Como é o mercado de trabalho no Brasil?
LG:
Existe um bom balanço entre o número de formados e a disponibilidade de vagas, o que faz
com que o mercado não fique saturado. Como em qualquer outra carreira existe competitividade, e o cenário acompanha o as tendências de mercado de trabalho do país. Eu não conheço nenhum astrônomo sem emprego.
Enquanto não aparece um concurso público, se você chegou ao doutorado sem emprego,
normalmente o que se faz é um pós-doutorado, recebendo bolsa. Funciona como um contrato
temporário em que você será um pesquisador, associado a uma instituição, e isso pode manter
o profissional até que a chance de uma vaga efetiva apareça.

 

ML: O país incentiva a pesquisa?
LG:
Sim, a pesquisa em astronomia recebe incentivo do governo, e o resultado disso é vista na alta
produtividade brasileira na área. Recentemente tivemos um momento tenso com relação à
participação brasileira no ESO, o Observatório Europeu do Sul, localizado no Chile, que
permite o acesso de astrônomos brasileiros aos melhores equipamentos em terra e no melhor
céu do mundo. Isso ficou pendente, dependendo da aprovação do governo, mas tudo se
resolveu.
O governo também incentiva a pesquisa através das bolsas, desde a iniciação científica até o
pós-doutorado. Eu estou trabalhando na Universidade de Notre Dame, EUA, recebendo uma
bolsa da agência CAPES, sendo totalmente patrocinado pelo governo brasileiro.

 

ML: Para a pessoa que quer se dedicar a astronomia, o que ela precisa saber? Quais os
atributos?

LG: Essa pergunta é muito importante, porque muita gente desiste da faculdade exatamente porque falta essa noção. A única forma de se compreender fenômenos astronômicos é através da
física e da matemática. São ferramentas essenciais, e sua vida será muito mais fácil se você
for amigo dessas disciplinas.
Você não vai aprender a tirar fotos do céu, lendas sobre personagens mitológicos nem a
história das constelações. Só depois de muito tempo você vai colocar a mão num telescópio. Antes
disso vem muita física e matemática na cabeça. O legal é que tudo isso vem associado com
uma compreensão maior sobre o Universo e sobre fenômenos astronômicos, e não é, de
maneira nenhuma, um monte de decoreba como, infelizmente, às vezes, a física é ensinada no
ensino médio. Você vai aprender como as equações surgem, e como podemos ler nelas
informações sobre a natureza.
Mas eu aconselho a todo mundo estudar mitologia e a história das constelações por conta
própria. Garotas adoram isso.

 

ML: Você como profissional da área, poderia citar os aspectos negativos e positivos da
profissão?

LG: Nos aspectos positivos eu destaco a possibilidade constante de descobrir mais sobre a
natureza. Não só sobre a natureza externa, mas também sobre nossa natureza interna. A
astronomia fala muito sobre o universo, mas fala principalmente sobre nós mesmos. Quando
olhamos para o céu e perguntamos “como surgiu o Universo?”, na verdade estamos
perguntando como nós próprios surgimos. A história da astronomia, nos mostrando como a
Terra era o centro do Universo e como deixou de ser é, na verdade, a história da humanidade
se autoconhecendo, e descobrindo que não é o centro de tudo que existe.
O único ponto negativo que eu vejo é que no início as remunerações podem não ser tão altas
como em outras carreiras, mas é bastante possível se manter um bom padrão de vida. Você
vai estudar tanto, ou mais, que um colega engenheiro, mas provavelmente ele ganhará mais
dinheiro que você. A razão é que o mercado paga mais pelo trabalho de um engenheiro que
pelo trabalho de um astrônomo, mas isso não deve ser um desestímulo se você sente uma
forte necessidade intelectual de conhecer a natureza e acha que a ciência é um bom meio para
isso. Sucesso na vida vai muito além da quantidade de dinheiro que se ganha.

 

ML: Que dica você dá para quem deseja fazer astronomia?
LG:
Vá em frente! É uma carreira muito legal, estimulante, com novidades constantes. Rotina é algo
que não existe. Se você é uma pessoa intelectualmente ambiciosa, tem curiosidade sobre questões fundamentais da natureza, e acredita na ciência para tentar responder essas questões, venha pra cá.

 

ML: E a ufologia, como você vê? Pois é um estudo que nem sempre é levado muito a sério.
Você considera relevantes os estudos da ufologia ou não acredita muito nisso?
LG:
Existe um detalhe importante quando falamos de vida extraterrestre. Uma questão é acreditar na existência de vida fora da Terra. Hoje sabemos que é normal uma estrela ter planetas e a
maioria dos astrônomos acredita que encontrar um outro planeta com sinais claros de vida é
apenas questão de tempo. Existe um grande esforço científico nesse sentido, e não há mais
como sustentar a ideia de que a vida só se desenvolveu aqui na Terra.
Outra coisa, bem diferente, é acreditar que já recebemos, ou que recebemos constantemente,
a visita de extraterrestres. Normalmente, quem acredita nisso, acredita que os astrônomos do
mundo são super unidos, e guardam segredos de toda a humanidade sobre isso. Não,
infelizmente, os astrônomos não são unidos a esse ponto, e é absolutamente impossível
guardar um segredo como um extraterrestre capturado ou uma espaçonave recolhida em uma
Universidade ou em qualquer centro de pesquisa.
Existem limitações físicas para uma viagem interestelar. A estrela mais próxima de nós,
alfa-centauri, está a quatro anos-luz de nós. Isso significa que, uma nave viajando na
velocidade da luz, o que é impossível, levaria quatro anos para chegar. Imagine uma civilização
em um planeta orbitando estrelas mais distantes a 150 mil, 500 mil anos-luz ou mais. É muito
difícil conceber uma viagem dessas levando milhares de anos.
A limitação da velocidade da luz não é uma limitação tecnológica. É uma limitação da natureza,
ou seja, não importa o desenvolvimento de sua tecnologia, a natureza não deixa nada com
massa viajar na velocidade da luz ou acima disso. É como a gravidade que nos faz cair. Não
importa o seu avanço tecnológico, se você tropeçar feio numa pedra, você vai cair, porque a
natureza funciona assim. Faz parte do funcionamento da natureza que nada com massa viajar
na velocidade da Luz ou acima disso, portanto, mesmo uma civilização super desenvolvida
tecnologicamente não pode fazer isso.
Existem algumas formas teoricamente possíveis de se provocar curvaturas no espaço-tempo e
criar atalhos, de modo que se poderia viajar entre dois pontos distantes sem atravessar toda a
distância entre eles. Mas coisas desse tipo estão no terreno da ficção científica. Curvaturas no
espaço-tempo existem, mas como provocar artificialmente uma curvatura conveniente para
determinada viagem espacial é algo ainda inconcebível para nós.
Portanto, em geral, os astrônomos acreditam em vida fora da Terra, ainda que não tenha sido
observada, mas não acreditam em visitas extraterrestres.
E grande parte dos relatos da ufologia sobre contatos com extraterrestres falam de discos
voadores que apareceram na estrada de uma cidade do interior, a noite, para uma pessoa que
estava sozinha voltando de uma festa no bar. Nunca apareceu um disco voador no Maracanã
durante um Flamengo e Vasco, no Parque do Ibirapuera ou na Esplanada dos Ministérios.
Acho que já respondi se eu acredito ou não em ufologia, não é? A questão não é que ufologia
nem sempre seja levado muito a sério… é que não dá pra levar a sério! 😛

 

ML: Para encerrar a entrevista, agradeço a sua participação aqui no Minilua e fica a vontade
para deixar uma mensagem e divulgar os seus projetos.

LG: Eu agradeço muito as perguntas, fico realmente feliz por participar do Minilua, e espero ter
dado alguma contribuição a quem tinha a curiosidade sobre a carreira. Quem quiser conversar
mais, pode deixar comentários aqui no Minilua, ou entrar em contato por e-mail que terei prazer
em responder.
Deixo o convite para visitarem o blog Astronomia.Blog.Br, onde eu e outras pessoas comentamos sobre vários assuntos relacionados à astronomia, e há informações sobre condições meteorológicas, fases da Lua, configuração celeste (efemérides), e um anuário de Astronomia, com dados sobre posição dos planetas em todos os dias do ano, nascer e por do Sol, da Lua e várias outras coisas. Novidades e atualizações são postadas no twitter, @astronomiablogb, e na página do Facebook.

Bons céus a todos!

 

E aí, galera! O que achou da entrevista? Curtiu? Deixe a sua opinião nos comentários!
Quem quiser deixar sugestões para o próximo “Escolha a sua área” já sabe, basta deixar nos comentários!