Sob uma Lua de Sangue: Cuidado com o que deseja #3

O velocímetro marcava 88 Km/h.

Foi assim que Helena atravessou a ponte Golden Gate no seu surrado Silverado em direção à Estação Point Reyes e de lá pegou uma estrada tortuosa em direção às montanhas Sir Francis, onde estava localizado o velho haitiano, ou pelo menos era o que ela esperava.

Estava tensa, mas já tinha limpado seu rosto com uma camiseta velha que estava no carro e tomado alguns analgésicos. A dor em sua alma é que só aumentava. Ver aquele Patrick torturado e amargurado por conta do que ela fez a destruía mais do que tudo.

O relógio marcava meia-noite quando a voz do GPS a pediu para virar a direita e seguir em frente. Helena olhou pela janela e se maravilhou com a beleza do Lago Estero enquanto sobe a montanha rochosa que circunda o lago, por uma estrada pedregosa e empoeirada. O medo começa a tomar conta da moça, mas a vontade de reverter o que havia feito a motiva ainda mais.

Ao chegar ao alto da montanha, ela avistou um casebre de madeira iluminado por luz de velas. Ao se aproximar, percebeu que o local era semelhante a uma pequena fazenda, com um cercado de arame farpado enferrujado e algumas cabeças secas de gado penduradas nas estacas, como que para assustar viajantes.

Helena estacionou seu Silverado próximo a uma árvore estranhamente retorcida, que parecia uma mão indicando algum caminho para o leste. Respirou fundo e começou a caminhar em direção à cabana, cada vez mais nervosa, cada vez mais decidida a por um fim em tudo isso.

Estava frio, muito frio. O casaco de Helena não a confortava, nem sua calça de jeans grosso. Ela abriu o mini-portão de aço enferrujado, que rangeu em toda a sua extensão, fazendo ecoar um som estridente por toda a região cerrada, alvoroçando alguns bichos da noite, devido à quietude do lugar. O coração disparado, a alma tensa, foi assim que Helena bateu três vezes na porta, que abriu sozinha e lentamente, rangendo como se fosse uma alma em chamas. Com uma coragem sem igual Helena adentrou o recinto, ouvindo bater a porta às suas costas.

- Oi?! Te-tem alguém em casa?

Nada além de um silencio apavorante.

Helena começa a caminhar em direção a uma vaga luz que vem do fundo. Seus passos ecoam pelo assoalho de madeira, rangendo como se elas fossem quebrar. Ela sente que está sendo observada. Olha para um lado para o outro, mas quase nada dava pra ver.

Um barulho veio do telhado. As batidas do coração de Helena triplicaram à medida que o som de passos se aproximavam dela através do teto. Ela encostou-se na parede e fechou os olhos até que o som infernal que chegou perto do seu ouvido cessou bruscamente. Ainda sem abrir os olhos, Helena inclinou o ouvido tentando escutar mais alguma coisa, quando uma voz veio a seu ouvido, fazendo-a gritar:

- Boa noite, senhorita!

Helena saltou para trás e arregalou os olhos após o susto, suando. Era o velho haitiano. De onde ele viera era um mistério. Segurava uma vela na mão que iluminava apenas o seu rosto enrugado e seus olhos grandes, até demais.

- O que a traz a esse lugar tão distante, senhora?

- E-eu… Eu vim tentar… Resolver um problema, Senhor.

- Me acompanhe.

Um relâmpago iluminou o local e fortes gotas de chuva começaram a despencar do céu. A pobre moça cada vez mais tensa acompanhou o velhote até uma sala, onde se situavam diversos objetos de rituais Vudu, uma mesa redonda de madeira velha composta por 4 cadeiras feitas de bambu, uma cesta em cima da mesa, onde constavam uma grande variedade pedras coloridas e o que pareciam ser revistas em cima. Havia um candelabro medieval suspenso no teto sobre a mesa e diversos quadros de uma estranha arte macabra nas paredes, paredes estas que estavam esfacelando seu antigo papel de parede.

Helena sentou-se à mesa a pedido do velho, que pediu também que a mesma virasse as palmas das mãos para cima. Ele as acariciou, passou seus grandes dedos nas linhas do destino, como se estivesse vendo todo o passado de moça.

- Sinto muito, moça, mas não posso ajudar – disse o velho, meio assustado até. – Eu… Não tenho permissão.

- Mas eu ainda nem falei o que eu quero. Eu preciso…

- Não moça! Você não entende. O que você fez não tem volta. Suas almas estão condenadas. Eu sinto muito…

- Não!!! Eu…  Eu sei que você pode! – Implorou a moça já com lágrimas nos olhos. – Eu cometi um erro, Sr. O pior erro da minha vida. Eu fiz a pessoa que eu amava ser amaldiçoada por um amor doente. Eu… Não pensei direito.

- Esse é o problema do mundo hoje, MiLeyde: as pessoas insistem em querer o que não podem obter, mas não querem pagar o preço. No universo nada vem de graça. Nem o amor sobrevive se você não retribuir. Eu avisei a você. Agora não tem como voltar atrás. Eu sinto muito.

- Por favor, Sr… – Helena ajoelhou-se – eu imploro a você… Reverta o feitiço.

- Eu sinto muito. O Grande Ezilli está à espreita. Não posso traí-lo.

- Então me dê uma dica, é só o que eu peço. Por favor!!!

- Corpos unidos… – sussurrou o velho.

- O quê?

O ar se encheu de uma presença sobrenatural. A janela se abriu bruscamente apagando as velas do candelabro e derrubando os quadros das paredes. As gotas de chuva arrastadas pelo vento molhavam o chão do salão. Helena levantou e percebeu o terror nos olhos do velho monge, que começou a sussurrar palavras haitianas desconhecidas a Helena.

- “Sa favè l ‘, li gen pitye kanpe avèk mwen, san mesye.”

Ele repetia sempre a mesma frase, sussurrando como se fosse uma oração. Sua voz foi aumentando, aumentando até que ele se ajoelhou, levantou as mãos para o alto e começou a gritar a frase que implorava a misericórdia de Ezili Dantor, o deus caído dos haitianos.

- “SA FAVÈ L ‘, LI GEN PITYE KANPE AVÈK MWEN, SAN MESYE. SA FAVÈ L ‘, LI GEN PITYE KANPE AVÈK MWEN, SAN MESYE.”

- Sr?! Sr?!- Helena tenta alcançá-lo, desesperada – O que está acontecendo?

O velho monge grita ainda mais alto, como se tivessem perfurando-o como uma lança. Helena tapa os ouvidos e fecha os olhos, mas nada impede que sinta o pavor que assola o salão. O vento, a chuva, os raios e trovões… Helena queria sair correndo, mas parecia que estava colada ao chão, nervosa ao extremo.

A atividade sobrenatural cessou bruscamente, juntamente com os tenebrosos gritos do ancião. A chuva e os trovões moderaram.

Helena foi retirando as mãos da frente dos olhos, devagar, apavorada. Olhou para o velho que ainda estava em posição de adoração, só que o rosto apontado para cima, com os olhos ainda mais arregalados e sua boca extremamente aberta. Parecia petrificado.

A pobre moça aproximou-se dele, receosa, a passos lentos. Ela observou seus olhos estáticos, como se tivesse visto a pior aparição do mundo. Olhos esses que de repente a olharam friamente e avermelharam até tornarem-se cor de sangue. Os dentes afiaram-se como lâminas do mais fino aço, ao redor da sua face surgiram grossas veias e seus braços desceram bruscamente, fazendo ecoar no salão o som de ossos quebrando.

O velho posicionou seu pescoço na posição normal, estalando-o no processo. Helena, em estado de choque, viu seu pior pesadelo vindo à tona, quando o velho avançou ao seu pescoço, jogando-a sobre a mesa e subindo por cima dela. A criatura dominadora a olhava fixamente e lambeu sua face com uma língua estranhamente longa e negra.A moça tentou se soltar, mas era como se tivesse sobre si o peso de um elefante, embora não se sentisse nem um pouco esmagada ou sufocada.

- Então você está querendo se libertar de mim, Helena? – disse o ser que habitava o corpo do velho monge, com uma voz grave e ecoada.

Ela arregalou os olhos ao saber quem estava ali. Lágrimas escorreram, mas nenhuma palavra saiu da sua boca.

- Não seja tola, criança. – o deus caído começou a rir diabolicamente – Quando você pediu a minha ajuda você ofereceu algo que não pude recusar em troca: sua doce e transtornada alma.

- Oh, meu Deus. Por favor! Por favor! Por favor, não me machuque.

- Eu não vou machucar o seu corpo, Helena. – disse o ser dando risadas contidas – Eu quero machucar a sua… almaa…- disse o demônio, o mais doce possível.

- Perdoe-me, por favor, perdoe-me! – soluçava Helena.

- Perdoar? Eu não perdôo. EU não esqueço. EU me vingo!!

O velho levantou sua cabeça, lambeu os dentes afiados com a língua e mordeu violentamente o pescoço de Helena, que fez seu grito desesperado ecoar por toda a região do topo da montanha. Seu corpo que começou a se debater desesperadamente sobre a mesa enquanto o ser diabólico sugava tudo que ainda restava da sua alma.

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