Contos Minilua: O teatro de marionetes #14

E de uma forma geral, estou muito satisfeito com os contos. O desta semana, por exemplo, um dos mais interessantes que já recebi. Confira:




O Teatro de Marionetes

Por: Jasceline Honorato

- Marionetes! Quem não ama marionetes? – Dizia a Srtª Flora, muito empolgada.

Ela era uma professora muito feliz. Feliz demais para o meu gosto. Não havia uma única aula sem música ou papel colorido. Ela fazia o ensino médio parecer uma creche! “Não usem tesouras com pontas!” dizia ela como se nós ainda tivéssemos sete anos de idade.

- Qual é a dessa tia? – Perguntavam os novatos da turma.

- Cara, ela é louca! – Respondiam os veteranos.

A Srtª Flora era formada em Artes Plásticas e dava aula de Educação Artística na rede pública há dois anos. Isso era tudo que nós sabíamos sobre ela. Nenhum outro detalhe era revelado e eu me perguntava constantemente sobre a sua escolha. Nós sabemos que a escola pública não é o sonho de muitos profissionais!

No entanto, a ruiva descabelada era apaixonada pela escola. Chegara ao colégio de um modo tão misterioso que nem mesmo o diretor se lembrava do ocorrido. “Ela foi enviada para lhes ensinar o que se deve!” dizia ele muito pomposo, sempre que era questionado. Logo se perdia no pensamento e mudava de assunto, como se aquela frase estivesse programada em seu cérebro.

Todas as terças nós tínhamos um encontro com a sorridente Srtª Flora. Nenhum aluno gostava muito dela… Nenhum aluno ligava muito para Artes. E mesmo em meio ao mar de bocejos e caras cansadas, a professora se mostrava o ser mais disposto do mundo! Seus vestidos floridos, sempre cobertos por um avental vinho e aquela cara insana e sorridente me incomodavam profundamente.

Apesar desses fatos, ela era razoavelmente suportável!

- Meus queridos, eu tenho uma notícia magnífica para vocês! – Disse ela fazendo uma pausa, como se esperasse uma reação positiva, mas não houve reação alguma, então continuou – Consegui uma autorização do Diretor para levar todos ao Teatro das Marionetes!

Confesso que houve certo burburinho, mas foi só a indignação. “marionetes?” eu pensei “Nós temos quantos anos?”.

- O Teatro das Marionetes só vem à cidade a cada dois anos, será magnífico! Nós iremos neste sábado à noite, estejam no pátio ás oito com essas autorizações – disse distribuindo os papéis – Se tiverem duvidas, é só perguntar. Será uma noite magnífica!

Se ela repetisse a palavra “magnífica” ou qualquer variação da mesma mais uma vez, ia acabar levando uma tesourada.

Quando levei a autorização aos meus pais estava certa de que eles não achariam uma boa ideia. Logo diriam: “Uma excursão ás oito da noite?”… Estava quase certa.

- Teatro, mas que maravilha! – disse meu pai – Mas é claro que você vai - qual não foi minha surpresa ao ouvir isso.

A semana se passou sem muito alvoroço e o único assunto que rolou foi por causa da facilidade com que todos os pais assinaram a autorização. Normalmente excursões da escola não eram feitas a noite e era estranho o modo como todos os responsáveis aceitaram sem muitos questionamentos.

No sábado, ás 19h30min, quase todos os alunos já estavam reunidos no pátio. Havia apenas um ônibus e me dei conta de que todos os alunos eram da minha sala. Uma excursão para apenas uma sala.

Caminhei até um pequeno grupo que se formou ao lado do nosso transporte. Eram em torno de cinco pessoas que conversavam muito escandalosamente.

- Ei! – comecei como quem não quer nada – Vocês sabem onde estão as outras turmas?

- Dããã! - respondeu uma garota alta cujo nome eu não sabia, mas lembrava de ter visto a mesma no fundo da sala – Só tem a gente, não esta vendo?

Eu me afastei como se não tivesse ouvido sua resposta. Na verdade foi tão inútil que eu preferia não ter ouvido. Antes que eu encontrasse mais alguém esperto o bastante para notar a estranheza da situação, uma voz muito irritante surgiu alegre pelo pátio.

- Marionetes! Quem não ama marionetes? – Dizia a Srtª Flora, muito empolgada.

- Srtª Flora! – chamei enquanto corria em sua direção – Onde estão as outras turmas?

- Hoje eu levarei apenas esta, - respondeu pausadamente como se eu fosse incapaz de processar suas palavras com exatidão – pois um teatro de marionetes é muito pequeno para todas as turmas.

-Claro! – gritou um garoto gordo e rosado – Só cabem marionetes lá!

O comentário foi seguido por algumas risadinhas histéricas e antes que eu pudesse comentar mais alguma coisa todos estavam entrando no ônibus. Subi com a maré e me sentei em um dos lugares do meio. Eu sempre me sentava no meio. O fundo era o lugar dos bagunceiros, a frente era dos notáveis, mas o meio, o meio era um mistério.

Logo o garoto gordo e rosado se sentou ao meu lado. Ele ocupava muito espaço e ainda trazia uma enorme mochila nas costas. Tive que me espremer ao lado da janela.

- Que tem nessa bolsa?

- Meu lanche!

Deveria ter imaginado. O ônibus partira sem eu me dar conta e logo a voz da Srtª Flora podia ser ouvida ditando regras, enquanto os alunos se esganiçavam com a cabeça para fora da janela.

- Não coloquem a cabeça ai! – gritava Flora.

“Em que eu me meti.” Pensava. Tentei ignorar o barulho, os gritos da Srtª Flora, o ruído do pacote de salgadinho que o gordo rosado levara, enfim tentei ignorar tudo, mas antes que minha paciência se esgotasse, já tínhamos chegado.

- Muito bem, desçam e formem uma fila ao lado do ônibus.

Todos mais que depressa saíram correndo. Eu estava aliviada por poder sair daquele inferno.

- Muito bem, cada um deve cuidar do seu par para que ninguém se perca.

- Par? – perguntei baixinho.

- Ela avisou dentro do ônibus, - disse o gordinho rosado que surgiu de repente – que deveríamos fazer dupla com quem estava do nosso lado!

“Merda!” Eu realmente não sabia como havia me metido nisso.

- Meu nome é Oliver!

- Eu sei.

- Mas nós nunca nos falamos!

- Mas eu ouvia a chamada.

- Ah. Qual seu nome?

- Charlotte!

- Ok!

- Vamos todos, por aqui! – chamou a Srtª Flora

Dei-me conta de que estávamos em um lugar nada agradável. O chão era puro barro, algumas poças de água muito suja se acumulavam pelos cantos. Em frente ao caminho que seguíamos estava a “lona de circo” mais absurda que já vi. Era um enorme veludo vermelho com vários detalhes dourados. Não estava molhado nem parecia ter sido afetado por chuva ou sol. Era surreal. Ninguém notara a estranheza?

Entramos por uma abertura feita no pano. Dois homens altos vestidos com roupas do século dezoito seguravam os lados da entrada. Eles usavam máscaras. Não havia nada de mais nisso, mas ao passar por um deles, tive a impressão de que as máscaras estavam vazias.

Entramos sem muita cerimônia, o lugar era apertado. Havia alguns bancos em forma de meia lua. Era como um picadeiro comum, desses circos que migram de cidade em cidade. A iluminação era feita com luzes amareladas e velas o que dava a impressão de ter entrado em uma passagem para outra época. Uma música tocava delicadamente ao fundo. Todos nós já estávamos sentados. Será que ninguém notara a estranheza?

De repente, eis que surge nosso anfitrião. Era mais um homem como os da entrada, mas sua roupa era feita do mesmo veludo da lona. Sua máscara era dourada e os olhos simplesmente não existiam. Todos estavam absurdamente quietos e olhavam fixamente para aquela figura. Então ele começou, com a voz mais doce do mundo:

- Marionetes, todas juntas! Mas nenhuma consegue ver o rosto da outra. Está escuro, frio e… Solitário!

- Façam-me companhia! – gritou outro mascarado, mas este era uma mulher.

Seu grito foi seguido por outras vozes e de repente estávamos cercados por homens e mulheres que pareciam grandes marionetes.

- Façam-me companhia! Façam-me companhia! Façam-me companhia!

Era insuportável. Minha professora então se levantou!

- Pare, eu ordeno que parem!

Todos se calaram. A Srtª Flora já não tinha mais o sorriso tosco que lhe acompanhava. Sua face estava rígida, suas sobrancelhas estavam serradas e seus lábios se contorciam de um modo estranho.

- Mas nós estamos tão sozinhos minha dama, - disse o anfitrião - nós estamos tão sozinhos!

- Nós estamos tão sozinhos! – repetiram os outros.

- Porque vocês, não nos fazem companhia?

Dito isso todas as marionetes avançaram para a plateia e todos começaram a gritar assustados. Cada uma das marionetes pegou uma criança, mas a Srtª Flora correu para o meio do picadeiro. Eu fiz o mesmo. Srtª Flora me olhou assustada.

- Eu não sei como cheguei aqui, eu não me lembro. – disse como se acordasse de um sonho.

Os alunos a fixaram com pavor.

- Charlotte, me ajude! – gritou o pequeno grande Oliver nas mãos de um dos monstros.

Eu o encarei. Encarei a professora. Encarei a marionete que o segurava. Ela o arrastou para frente e abriu a boca de Oliver apertando suas bochechas com força. Começou a colocar os dedos de sua mão direita sobre os dentes do menino até que seu pulso bateu nos lábios do garoto.

Oliver estava vermelho, sufocando, chorando, ele olhava para mim e pedia socorro, de algum jeito, ele pedia socorro. A marionete então forçou seu braço inteiro para dentro das entranhas do serzinho rosado e puxou a mão violentamente para fora, jogando sangue em mim e em Flora. Nas pontas de seus dedos ela segurava um coração. As crianças gritavam, tentavam fugir, mas era tudo em vão.

Eu ainda pude ver o brilho nos olhos de Oliver, antes que a vida se esvaísse por completo.

- Oliver? – disse Flora, a voz abafada pelo choro.

Mas o menino não caiu, não fechou os olhos. Ele continuava ali, parado. A marionete então cravou suas unhas no queixo de Oliver e começou a puxar sua pele. Flora gritou. Lentamente a pele daquele rosto gordo foi arrancada dando lugar a uma mistura de músculos e ossos. Outra marionete surgiu e colocou uma máscara branca sobre a pele. Depois de encaixá-la, a marionete usou os dedos finos para arrancar os olhos azuis da pobre criança. Arrancou-os e jogou-os em Flora!

- Nós estamos tão sozinhos! – disse Oliver.

- Agora ele vê!

Flora me olhou apavorada, incapaz de pronunciar qualquer palavra. Todas as marionetes começaram a arrancar órgãos de dentro das crianças que gritavam de agonia e desespero. Elas clamavam o meu nome e o de Flora. Olhos eram arrancados e jogados no picadeiro junto com as peles das faces de trinta crianças aflitas.

- Como é solitário o mundo das marionetes.

Flora ajoelhou-se diante de mim.

- Charlotte, o que está acontecendo?

As marionetes jogavam os órgãos em cima da pobre professora que chorava, gritava, mas não conseguia se levantar. Eu olhei seus olhos e só havia desespero.

Então eu segurei suas mãos em um ato de bondade, toquei em seu rosto triste e enxuguei algumas lágrimas. Depois levei a mesma mão ao meu rosto e puxei eu mesma a minha pele. Flora olhava tudo atônita.

- Porque você não me faz companhia, Srtª Flora?

Flora gritou e se rastejou para longe. Eu segui até ela calmamente, levando minha mão até seu peito. Os batimentos estavam acelerados.

- Marionetes! Quem não ama Marionetes? – disse eu, muito empolgada.

Então meu anfitrião trouxe-me a máscara dourada, mas eu recusei.

- Olhe para mim, Flora! Quem não ama marionetes?

E dito isso, arranquei-lhe as entranhas que ferviam junto com o seu pavor. Cravei minhas garras em seu estômago e puxei cada centímetro daquelas tripas borbulhantes lançando-lhe um olhar muito satisfeito.

- Engraçado como o seu cabelo já não é tão ruivo!

Ela desfaleceu ali mesmo, na lama. Eu olhei ao redor, vi todas as crianças mortas. Apenas Oliver tinha ganhado sua máscara. Eu caminhei por aquele chão cheio de pedaços inúteis.

- Peguem tudo, minhas queridas.

Minhas marionetes comeram com muito gosto o seu jantar e logo o teatro estava partindo para um novo lugar. Eu já não poderia voltar à escola. Então vim para cá. Ver você. Você não gostaria de me fazer companhia? Afinal, quem não ama marionetes?

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