Minilua

Contos Minilua: A criatura #6

E desde já, agradeço por cada um dos textos enviados. De coração, é muito bom fazer parte desta equipe. Um forte abraço!

Contos Minilua- A criatura

E no “contos” de hoje, a participação de Ninno Darc. Leitor do site, ele apresenta a sua narrativa. Uma boa leitura!

Ele olhou pra mim… Olhou diretamente nos meus olhos… Jamais esquecerei o pânico que me envolveu naquele momento, quando sua voz tenebrosa ecoou nos meus ouvidos, meu coração quase parou… Ele sabia o meu nome, sabia exatamente quem eu era e onde eu estava isso me remeteu a pensar que ele me observava há algum tempo…

Eu tinha pegado o turno da noite naquele mês, e, depois do horário de refeição, minha tarefa seria separar e catalogar material para reciclagem, isso eu faria nos fundos da fábrica, onde ficavam muitas coisas empilhadas e a iluminação era escassa.

Por volta de três e vinte da madrugada, eu estava executando meus afazeres quando senti vontade de urinar, e, achando que o banheiro estava muito longe, decidi me aliviar ali mesmo. Levantei-me, e comecei. De repente eu tive a sensação de estar sendo observado, rapidamente terminei minhas necessidades e me dirigi ao que estava antes fazendo.

Foi aí que me deparei com ele, estava sentado de costas em cima de uma caixa, mas seu pescoço e seu rosto estavam voltados pra mim de um jeito perturbador, eu permaneci imóvel, tão horrorizado com aquilo que não tive coragem de me mover, pensei em me abaixar e tentar espantá-lo com uma pedra ou um pedaço de pau, mas confesso que não tive coragem, ele permanecia ali me olhando fixamente, e eu tremia, suava mais não conseguia me mexer, olhava pros lados almejando ver uma alma viva a quem pudesse pedir socorro, mas, por mais que houvesse mais dezenas de trabalhadores nas redondezas, eu me sentia absolutamente sozinho, e isso me apavorava mais ainda, era como um pesadelo, daqueles em que não se consegue se mexer.

Aquele ser, com forma humanóide, se curvava de uma maneira completamente macabra, por mais escuro que tivesse alguns detalhes eu pude notar, tais como o topo de sua cabeça, completamente pelado, seus olhos eram dois buracos negros com uma fresta de luz vermelha que parecia brotar do fundo de uma dimensão desconhecida dentro de sua cabeça, ele possuía garras em suas mãos assimétricas, e seu pescoço se alongava enquanto ele se entortava todo pra olhar pra mim.

Àquela altura, (parecia que eu estava naquela situação há horas) eu só pensava em quando o sol iria se levantar. Éramos duas figuras imóveis no meio de uma madrugada tenebrosa, mas, pro meu maior desespero, ele se mexeu, lentamente ele desceu da caixa em que estava sentado, seus movimentos, meu Deus… jamais esquecerei aquilo… Cada movimento que ele fazia me despertava uma onda de horror inigualável, com um andar desengonçado e descomunal, ele se aproximou de mim, senti minhas pernas se amolecerem ao ponto de me fazer cair sentado no chão, eu não sabia o que ele iria fazer comigo, só sabia que eu não iria escapar, ele veio e parou a poucos centímetros de mim, e eu já nem me mexia mais, apenas fiquei olhando apavorado, olhando ele abrir a boca e pronunciar:

“Eu volto pra te buscar… Paulo…”

Uma explosão em meu cérebro fez minhas vistas se escurecerem, num ápice do terror, quando o ouvi dizer meu nome, acho que desmaiei naquela hora, pois o que me lembro foi acordar com a luz do sol batendo na minha cara, e eu comecei a pensar se aquilo não podia ter sido um sonho, mas meu maior medo naquele momento, era de esperar a noite chegar novamente…

Eu me levantei devagar, limpando a poeira do meu uniforme, meus olhos doíam, devido à claridade do sol, aos poucos minha mente foi se recordando dos acontecimentos passados, e um calafrio percorreu meu corpo quando me lembrei daquela criatura, eu ainda não sabia se aquilo tudo tinha sido real ou apenas fruto da minha imaginação, ou se foi um pesadelo, então, rapidamente, eu comecei a observar o local em minha volta, buscando encontrar (ou não encontrar) qualquer evidência de que aquilo tivesse sido real, olhei para a caixa onde o vi inicialmente, e fui seguindo com os olhos o trajeto feito por ele, ainda era intensa a lembrança dos seus movimentos bizarros enquanto vinha em minha direção… Havia uma marca estranha no chão, bem na minha frente, eu não saberia dizer se era alguma pegada daquele ser, mas, de qualquer forma, eu não tinha mais tempo de analisar, pois já estava no meu horário de ir embora.

Cheguei em casa, muito cansado, me dirigi diretamente ao banheiro, precisava urgentemente de um banho e de uma cama, tentava de todas as formas e com todas as forças manter aquela lembrança longe da minha mente, afinal, eu morava sozinho naquele frio e escuro apartamento, comecei a pensar em diversos assuntos enquanto a água quente caía em meu corpo, me transmitindo uma sensação agradável. Logo em seguida me deitei na minha cama e liguei a TV, fiquei ali repassando os canais até que peguei no sono, foi um sono pesado, mas depois de um bom tempo dormindo, eu acordei com um barulho vindo da cozinha, a TV estava desligada e a escuridão reinava majestosamente em todos os cantos do meu apartamento, pois já se fazia noite e eu não iria trabalhar neste dia.

Ainda sem me levantar, sem sequer me mexer, minha mente trabalhou rapidamente pra buscar uma explicação lógica para aquele barulho, a fim de substituir o que meus calafrios denunciavam, eu tateei o meu celular no escuro a fim de usar a luz do visor pra iluminar o caminho até o interruptor da lâmpada, mas logo pensei “será que eu vou querer saber o que causou o barulho?” em meio à duvida me veio uma certeza: “eu tinha que saber, afinal, poderia ser um ladrão ( eu bem que preferiria  que fosse)” assim, eu apertei a tecla e o visor se acendeu, e uma fresta de luz iluminou o quarto. Tudo em ordem deste lado da cama. Direcionei a luz pra mais adiante, o guarda roupa está fechado.

A mesinha do computador nos pés da cama está intacta. Vamos ver o outro lado do quarto. Direcionei o visor pra iluminar o outro lado da cama, me dei de cara com aquele par de olhos negros e vazios me olhando, entalhados em um rosto de pele pálida e extremamente enrugada, eu pude sentir seu hálito… O grito foi inevitável, e mais inevitável ainda foi meu pulo na direção oposta, rapidamente eu acendi a luz… silêncio… Nenhum sinal de qualquer vida naquele lugar que não fosse a minha, meu coração chegava a doer de tão forte que batia, minha respiração ofegante era o único som que eu ouvia, peguei o celular no chão, não parava de olhar em volta, o medo de ser surpreendido novamente era grande, olhei o visor do celular, marcavam 23:47, comecei a achar que estava impressionado com o pesadelo da noite anterior, e considerei tudo fruto da minha imaginação, e fazia questão de reforçar essa idéia na minha mente, para assim me convencer de que nada daquilo era real.

Me dirigi até a cozinha, e fiquei mais calmo ao ver que um pote de biscoitos estava caído no chão, sendo ele o causador do barulho que me acordou, sorri conformado, tomei um copo de água e voltei para meu quarto, eu vinha pelo corredor já sonolento, quando atrás de mim eu senti uma presença, minhas costas se arrepiaram, nessa hora, mil coisas passam pela nossa cabeça, e nosso cérebro trabalha incansavelmente pra buscar uma explicação lógica. Eu parei. Imóvel pensei em olhar pra trás, mas tinha medo do que poderia ver lá. E se não houver nada? E se eu estiver com tanto medo de nada? Vou olhar.

Me virei lentamente de olhos fechados, e fui abrindo-os devagar, não vi nada, mas a sensação de que havia uma presença ali ainda era forte, isso me causou um pânico repentino, igual a quando era criança, quando tinha medo do escuro. Escuro. Foi uma péssima idéia me dirigir à cozinha apenas com a luz do quarto acesa, parecia que aquela entidade, o que quer que fosse, habitava a escuridão, por isso a luz acesa do meu quarto era minha proteção.

Voltei e me deitei, quando me preparava pra dormir, me lembrei que não durmo de luz acesa, tenho o sono muito leve, mas o medo de apagar a luz era grande, então, pra não voltar no escuro, liguei a TV, logo em seguida me levantei e apaguei a luz, já arquitetando um plano pra deixar o interruptor perto da cama, a luz da TV alimentava o quarto, desviando a penumbra pra longe de mim, e uma sensação de confiança me confortava, voltei para a cama e fiquei olhando o programa do Jô, logo adormeci novamente, e, por estar cansado, entrei em sono profundo.

O Jô soares entrevistava um político gago, estava até engraçado, até que eu senti a mesma presença de antes, eu me sentia sufocado, meu Deus, como eu queria que aquilo parasse…mas não parou, voltei minhas vistas para os pés da cama e lá estava ele, sentado, da mesma forma perturbadora em que me aparecera na fábrica, só que dessa vez mais iluminado que antes, era horrível, eu tentei me mexer, mas meu corpo estava paralisado, tentei gritar mas não saía som algum da minha garganta, eu estava imóvel a mercê daquele monstro, até que ele agarrou o cobertor e o puxou com brutalidade, eu nada podia fazer, só podia olhar enquanto ele avançava lentamente sobre a cama.

Eu fazia toda força pra gritar, fui forçando tanto que cheguei a ficar tonto, até que um grito abafado saiu de mim, e aquela aberração voltou de costas e se escondeu debaixo da cama rapidamente. Foi um sonho? O que sei é que eu estava sentado na cama, o cobertor aos meus pés, e o Jô entrevistando o tal político. O que fazer? Eu não queria voltar a dormir, estava com muito sono, e frio, mas eu tinha medo de me curvar pra pegar o cobertor, e aquela coisa estar lá me olhando de baixo da cama.

Aquela situação me causava ainda mais desespero, com os pés, eu fui puxando devagar o cobertor até que chegou ao alcance da minha mão, então eu o peguei e me cobri. É incrível como, diante do medo, nossos instintos mais primitivos gritam mais alto, e nos remetem à infância, quando nos sentíamos seguros apenas por estarmos cobertos com o cobertor.

Mesmo dentro da minha “fortaleza”, coberto dos pés à cabeça, eu ainda senti que ele saia de baixo da cama e dava a volta, cheguei a sentir uma leve pressão sobre minha perna, com a claridade da TV eu pude ver, através do cobertor, sua silhueta, logo em seguida ele saiu em direção à porta do quarto, eu coloquei a cabeça pra fora, mas não olhei pra ele, olhava fixamente pra televisão, numa coragem absurda que eu tive de repente. Ignorá-lo.

Mesmo olhando para a TV, minha visão periférica o mostrava, ele parou na porta do quarto e me olhou mais uma vez, eu estava suando frio com medo que ele voltasse, pois, dessa vez eu tinha absoluta certeza de que aquilo não era um sonho, ele estava realmente ali, me olhando. Permaneceu assim por alguns segundos, pareceu murmurar alguma coisa, em tom quase inaudível, e somente compreensível para ele, logo em seguida sumiu na escuridão que se formava no corredor, e eu não mais senti sua presença… por um bom tempo…