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Contos Minilua: Vingança noturna #31

E em nome do site, gostaria de agradecer a cada um dos participantes. Acreditem, sem vocês, nada disso faria sentido. Uma ótima leitura!

                                                                  Vingança noturna 

Por: Jhonny Ruggieri

Quinze anos se passaram desde a trágica história de Eric Murddock. Eric era agora um pai de família. Casado com dois filhos. Shelly de quinze e Alex de treze.

Mas essa história não é sobre Eric ou sua família. Mas sim sobre outro homem que sentiu a dor da perda. Seu nome: Anthony Simmons. Idade: 30. História: a seguir.

Era tarde da noite e ainda estava trabalhando. Esta é sua última chance! A voz de seu chefe ecoava em minha mente há horas. Estava farto daquela vida! Todo dia era a mesma coisa. Eu me levantava de manhã, corria para pegar o trem, trabalhava até o sol se por. Mas o pior de tudo era o fato de ninguém me respeitar. Sempre era maltratado pela população daquela- maldita – cidade do interior.

– Nós vamos embora! – eu disse para minha esposa Wanda. -Estou cansado de tudo e de todos!

– Espere um pouco mais! – ela me pedia delicadamente. E eu esperei. Esperei por muito tempo. Até que aconteceu.

Estava voltando tarde para casa. Estava muito cansado e não via à hora de dormir. Parei em uma loja no caminho para comprar uma cerveja, era a única coisa que me mantinha acordado. O trabalho de segurança era cansativo. Sempre tinha alguém pronto pra arranjar briga. E sempre era algum cara forte e musculoso. Aquele dia tinha sido cansativo. Um cara tinha esfaqueado uma garota no meio de uma festa, por sorte eu e mais dois caras conseguimos derrubá-lo e botá-lo para fora da boate.

Já estava enfrente a minha casa. Tomei um último gole da minha cerveja e entrei. Todas as luzes estavam apagadas, um silêncio assustador tomava conta da casa. Wanda devia estar dormindo. Com certeza ela devia ter ficado acordada me esperando. Foi o que eu havia imaginado. Acariciei o gato que dormia no sofá e subi para meu quarto.

O corredor não estava tão escuro quanto o resto da casa. Havia uma luz vinda de meu quarto. Caminhei lentamente e tentei abrir a porta. Uma enorme dor de cabeça me dominou. Cai no chão quase desmaiado.

-Finalmente -disse uma voz rouca -Não aguentava mais esperar por você!

Tentei levantar minha cabeça, mas a dor me impediu. Tinha cacos de vidro se cravando em meu crânio. Ouvi passos vindo em minha direção. Consegui ver um par de saltos-altos.

-Wanda. -consegui gemer.

-Tony – ela disse passando a mão em minhas costas -, meu amor.

Outros dois homens se aproximaram e me pegaram pelos braços.

-O que faremos com ele? -um deles perguntou.

-Livrem-se dele! -disse o que me atacou.

Os homens me arrastaram até o andar de cima, o sótão. Com seu chefe e Wanda seguindo-nos. Esticaram meus braços e o primeiro marginal apontou um revólver para meu peito.

– Espere! – disse Wanda – Preciso dizer algo! – ela se aproximou e me beijou. Foi a penúltima vez que senti seus lábios encostarem-se aos meus. -Adeus, Tony.

Seu amante disparou contra mim. Senti a pior dor que pode ser sentida, a da traição. Antes de morrer por completo ouvi minha ex-companheira dizer:

-Destruam tudo!

E fechei os olhos.

Acordei algum tempo depois, soterrado por escombros. Levantei-me e retirei uma grande viga de madeira de cima de mim. Estava embaixo do que restara de minha casa. Do que restara de minha vida.

Olhei para meu peito, havia um enorme buraco na altura de meu coração. Ouvi sirenes. Devia ser a polícia ou os bombeiros. Livrei-me dos outros destroços e corri para um beco. Não iria explicar como saíra ileso de uma casa incendiada com um buraco no peito. Tentei andar um pouco, mas estava muito cansado. Cai sobre uma lata de lixo e desmaiei.

Acordei no dia seguinte com o sol ofuscando meus olhos. Todo o cansaço que sentira havia se evaporado de mim. Tateei meu peito em busca do buraco de bala. Havia se fechado completamente. A única coisa de que me lembrava naquele momento era de Wanda me beijando. Andei para onde ficava minha casa. Lembrei-me do ocorrido ao ver as cinzas. Havia muitas viaturas próximas aos destroços. Voltei ao beco.

Chorei a tarde toda. Mas algo melhor se passou por minha cabeça. Levantei-me e fui para a casa de um velho conhecido, meu melhor amigo, o policial William.

Sua casa ficava do outro lado da cidade, mas não me cansei de saltar de prédio em prédio. Eu estava me cansando menos e pelo que notara, estava mais rápido. Subi pela escada de incêndio até chegar a seu apartamento. Ele estava dormindo em cima de uma escrivaninha ao lado de uma xícara de café. Abri a janela e entrei no apartamento.

Andei sorrateiramente até seu quarto – era onde ele guardava os arquivos – abri uma gaveta, mas não havia nada. Senti algo gelado tocar minhas costas, não me preocupei, pois já havia morrido uma vez.

-O que você quer? – perguntou William com um revólver em mãos.

Virei-me para mostrar meu rosto.

-Anthony? Como…

– Eu também não sei! – disse – Só sei que preciso dos seus arquivos!

-Não posso deixá-lo levá-los! -ele disse ainda apontando o revólver. – Você sabe disso!

-Por favor, Will. Eu acho que sei quem me matou!

– Você está morto? -ele finalmente abaixou a arma.

Contei-lhe minha história e sobre meu desejo de vingança. Descrevi o que consegui ver dos assassinos. Will ouviu atentamente todos os detalhes enquanto fumava um charuto.

-Mas como você sabe que não pode morrer novamente? -ele perguntou tirando o charuto da boca e soltando fumaça pela boca.

Tirei o charuto de sua mão e apertei-o contra minha própria mão. Fiquei com uma marca vermelha do tamanho de uma moeda. Quase instantaneamente a marca desapareceu e minha pele ficou normal novamente.

– Impressionante! – exclamou Will.

-Está contente agora? -perguntei ironicamente – Posso pegar os arquivos?

Meu amigo caminhou até um quadro sobre a cama, empurrou-o. Atrás do quadro havia um cofre. Em seguida tirou uma chave do bolso e abriu-o. Retirou de lá uma pasta transparente com alguns papéis dentro.

– Acho que sei quem lhe matou! – ele disse entregando-me a pasta. – Ele se chama Derek Graves. É um traficante de armas muito procurado pela policia. Como e por que Wanda iria lhe trair com um cara desses?

-Eu não sei! – disse abrindo a pasta – Só sei que tenho que mandá-lo para onde ele deve ficar!

– Pelo que entendi… Você não vai simplesmente prende-lo. Não é?!

Li os arquivos sobre Derek em poucos segundos. Depois de algum tempo respondi.

– Vou fazer algo melhor! – e sai pela janela.

Esperei até a noite para poder começar minha caçada. Nos arquivos que William me entregou havia os nomes de todos os capangas de Derek. Mas por onde começar? Decidi que iria arranjar equipamentos antes.

Caminhei até uma parte caótica da cidade. Conhecida como Boca do Inferno. Fui até um bar para poder esfriar a cabeça. Era um lugar sujo e empoeirado. De uma caixa de som no fundo do bar vinha uma música que eu adorava e que me fez lembrar de tempos melhores. Burn, do The Cure. Era uma bela melodia. Mas isso não importava no momento. Fui até o balcão e pedi um copo de uísque.

Enquanto o barman buscava a garrafa eu aproveitei para roubar uma faca que estava em cima do balcão. Saí antes que ele percebesse.

Perguntei a um cara estranho se ele sabia onde Derek estava. Ele disse que não. Mas algo em sua voz não me era estranho. Foi então que um lapso de memória me lembrou daquele homem. Ele era um dos caras que me arrastara para o sótão antes de Derek atirar em mim.

– Eu me lembro de você! -disse.

-Eu já te vendi algo? – ele perguntou. Obviamente devia estar tão chapado que nem se lembrava de ter matado alguém.

Tirei a faca de meu bolso e tentei cortar sua garganta. Mas ele se defendeu.

-Não devia ter feito isso! – ele disse tirando um revólver do bolso. Disparou cinco vezes contra mim. Cai no chão por alguns instantes, apenas para causar certo drama. Levantei-me com um salto e enfiei a faca em sua coxa. Ele desabou em dor. Arrastei-o para dentro de um beco e lá enfiei a faca em sua mão. Ele tentou gritar de dor, mas tapei sua boca com minha mão.

-Onde encontro Derek? – perguntei desenhando um V em seu peito com a faca.

– Eu não sei! – ele disse – Derek sumiu com uma vadia depois que matamos o ex-namorado dela.

– Aquele era eu! E eu sei que você sabe onde Derek está! Vamos, diga!

Ele suspirou fundo e disse finalmente:

-Você irá encontrá-lo em um prédio antigo no centro da cidade. É um prédio abandonado com o desenho de um corvo na porta!

 – Obrigado! – disse enfiando a faca em seu coração.

Cheguei ao centro da cidade por volta da meia-noite. Demorei algum tempo para encontrar o prédio. Era um prédio de seis andares caindo aos pedaços. Devia ser do começo do século. Na porta havia um desenho feito à mão de um pássaro negro com olhos vermelhos. Um corvo.

Arrombei a porta com um chute e subi os degraus. Antes que pudesse chegar ao primeiro andar ouvi uma voz cochichar atrás de mim:

– Tem certeza de que quer fazer isso?

Virei-me e dei de cara com Will. Meu amigo policial afrodescendente. Parecia de certa forma com o cara negro dos caça-fantasmas.

– O que veio fazer aqui? – eu perguntei ao vê-lo.

-Você não acha que iria deixar você se livrar de Derek Graves facilmente.

– Na verdade…

– Não precisa responder! -ele interrompeu-me. – Vamos nos livrar deles! Tome isso.

Ele me passou uma escopeta de cano serrado. Agradeci e subimos. No terceiro andar havia um homem alto e de braços fortes com uma metralhadora nas mãos. Agachei-me e engatinhei até ele. Derrubei-o com uma “tackleada” certeira. Will veio atrás de mim e com sua pistola com silenciador estourou os miolos daquele cara.

Subimos até o quinto andar, onde havia uma grande porta de madeira.

-Espere aqui! – eu disse para William.

-Eu sei! -ele disse – Você é o imortal entre nós.

Abria a porta e entrei na sala onde estava Derek, minha ex-amada Wanda e um terceiro homem. Devia ser um dos caras que me arrastou até o sótão. Ou outro subordinado de Derek. Os três estavam sentados de costas para uma vidraça.

-Meu Deus! – exclamou Wanda a me ver.

-Isso só pode ser sacanagem! -disse Derek vindo em minha direção. – Esse cara devia estar morto!

-Com certeza! -eu disse -Vocês conseguiram me matar. Mas a vingança me trouxe de volta. Estão prontos para morrer?

O capanga de Derek tentou me dar uma facada, mas eu chutei a arma para fora de sua mão e com a outra perna desferi um chute em seu rosto. Agarrei a faca antes de ela chegar ao chão. Apontei-a para Derek.

-Vocês estão presos! – gritou Will entrando na sala.

– Não, Will -eu disse -Isso é entre mim e Derek. Ele me matou.

-Já chega disso!- exclamou Derek. -Vou matar os dois. – e disparou contra Will com uma metralhadora. Wanda estava paralisada no canto da sala.

-William! -gritei correndo em sua direção. Toquei seu peito, um líquido quente escorria por seu corpo. Sangue! – Meu Deus! Até você?

-Anthony… – ele tentou dizer – Vingue-se… Mate… Derek… – e parou de respirar. Fechei suas pálpebras com meus dedos.

-Descanse em paz, meu amigo!

-É sua vez! – disse Derek apontando a arma para mim.

-Vá em frete! -eu disse rasgando minha camisa e deixando o peito à mostra. -Tente me matar!

Derek disparou diversas vezes contra mim. Agachei-me para ele pensar que estava sentindo dor. E enquanto os dois riam saquei a escopeta de cano serrado que Will me dera.

-Como isso é possível? – disse Wanda finalmente.

-Alguém gosta de mim! – eu disse. – Não sei se é Deus ou Lúcifer. Isso não importa! Agora vou matá-los. – atirei em Derek e depois deixei a escopeta cair, corri na direção de Derek, empurrei-o contra a vidraça. Observei-o cair lentamente e morrer na calçada. Seu sangue escorria por todos os lados. Voltei-me para Wanda. – Agora é sua vez!

-Não, Anthony! Por favor! Eu não queria fazer aquilo.

-Eu sempre te amei! Mas depois daquele dia… Eu quero é que você morra! – beijei-a pela última vez. Peguei uma garrafa de cerveja que estava em cima de uma mesa e atirei seu conteúdo sobre Wanda, depois fiz um rastro com a cerveja e com outra garrafa joguei cerveja sobre mim.

Atirei no rastro. Em pouco tempo nós dois queimamos com o fogo causado pelo álcool. E essas foram minas últimas lembranças antes de morrer pela segunda vez. Não acredito que irei ressuscitar outra vez.

Obrigado por ler minha história.