Contos Minilua: Uma noite fora de casa #253

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Uma Noite Fora de Casa




Por: Polyane Bonatto

Nessa noite eu ia dormir na casa de Clara, nós íamos fazer uma festa do pijama em seu aniversário. Quando cheguei lá Eduarda já estava na casa, e só o Thomas não havia chegado. Thomas é o irmão de Clara, e estava no mercado comprando as coisas para a festa.

A casa de Clara era muito antiga, tinha sido reformada há pouco tempo. Resolvemos arrumar o quarto para festa, o Thomas chegou bem na hora que estávamos procurando algo para fazer:

- E ai meninas, o que estão fazendo? - Perguntou ele.

- Na verdade, ainda estamos procurando algo para fazer. - Disse Eduarda.

- Ótimo, que tal jogarmos verdade ou consequência? - Thomas perguntou.

- Então tá. -Respondi. Então escolhemos a sala já que era bem ampla e os pais dela não estavam em casa. Thomas foi até a cozinha pegar algumas bebidas, ele trouxe Redbull e uma garrafa de Smirnoff (que ele tomou toda sozinha, é claro) e a usamos para jogar. Clara começou, já que era o aniversário dela, ela girou a garrafa e parou em mim;

- Então, vamos ver… Catarina, Verdade ou consequência? – Clara perguntou.

- Consequência! – Respondi.

- Te desafio a ir até o meu quarto e pegar o livro que encontramos semana passada.

Então fui até lá e peguei o livro, era bem antigo, tinha uma capa caindo aos pedaços. O livro estava escrito em um português arcaico e em uma língua estranha que parecia com latim.

- Pronto aqui está!- entreguei o livro a ela.

- Ok, está ótimo. – e ela deu um sorriso aberto.

- Então agora é minha vez – disse Thomas já girando a garrafa.

A garrafa virou e apontou para Eduarda.

- Verdade ou consequência – disse Thomas.

- Verdade. - exclamou Eduarda.

- Hum… Verdade que semana passada você ficou com o Jonathan? – ele disse com ênfase como se isso significasse algo.

- Não, nãoooo eu escolho desafio - Disse ela tropeçando nas palavras, ela ficou um pouco envergonhada depois dessa pergunta. Acho que foi estranho para ela por que Jonathan era seu primo dois anos mais velho.

- Tudo bem, mas agora não vale mais trocar – ele falou num tom malicioso. Ela assentiu com a cabeça. Eu sabia que agora ele escolheria algo muito ruim, algo que ela não iria gostar de fazer mesmo, e como eu sabia que ela era medrosa já tinha um leve palpite do que ele faria.

-Quero que você pegue esse livro e fale em voz alta alguma dessas invocações – Dessa vez ele falou como se estivesse imitando um fantasma. Clara entregou o livro e ela o pegou meio sem jeito e com uma feição meio assustada.

- Ah não, por favor, eu não quero fazer isso – Ela sempre foi muito medrosa, mas seu tom de voz agora parecia de uma pessoa aterrorizada, como se ela estivesse preste a morrer – por favor, qualquer outra coisa.

- Vamos lá eu te ajudo com o latim, leio junto com você – Disse Clara, ela começou a estudar latim há alguns meses e achava que sabia tudo.

- Você terá que fazer isso, você escolheu consequência. – Disse Thomas.

- Tudo bem. – respondeu ela.

Então Clara pegou o livro e abriu em uma das páginas, essa tinha alguns símbolos que eu desconhecia. Então elas leram em voz alta o que explicava sobre a invocação do demônio. Como disse antes tudo estava escrito em um português arcaico então era um pouco estranho ouvir aquilo.

book of shadows

- Vós que estais a ler isto, saiba que estarás prestes a mexer com coisas desconhecidas a mente humana. Farás com que liberte algo para ti, que não desejaras para teu pior inimigo, se fizer isto esteja ciente do que desejas, pois depois de acabado nada disso poderá ser desfeito. Elas falaram com uma sintonia absurda, como se fossem uma daquelas irmãs gêmeas de filme de terror, só que sem falar com uma voz demoníaca: “vem brincar com a gente nós somos tão solitárias”.

- Então é isso, o aviso em latim diz que é para falarmos com um demônio ou sei lá, mas deve ser tipo o jogo do copo e não podemos sair enquanto ele não chegar. –disse Clara, fazendo como se não ligasse para o que acabara de dizer, bom eu também não, mas tudo bem. – Temos que fazer um pentagrama com esses símbolos.

- Então comece - Disse Thomas, quebrando um silêncio momentâneo – eu não tenho todo tempo do mundo.

Então desenharam tudo em um papel grande e branco, e começaram a falar, novamente em sincronia. Estavam falando juntas, mas de um jeito muito diferente, com certeza Eduarda não sabia pronunciar uma palavra em latim.

- Eu nunca vi ninguém pronunciar palavras em latim tão erroneamente. – Disse Clara secando as lágrimas de alegria e apertando a barriga, provavelmente com dor no abdômen depois de tantas gargalhadas. – E você deveria ter visto sua cara, estava tão assustada.

- Isso não foi legal – disse Duda.

- Foi sim – todos nós dissemos juntos, e começamos a rir.

- Calma, era só um livro bobo, não tem nada de mais. – disse Thomas.

Nada aconteceu, a partir daí, então fomos para o quarto, Eduarda estava muito assustada, tanto que não queria dormir de luz apagada, nos forçando a deixa-la acessa. Com sono, fomos acordadas no meio da noite, acho que umas três da madrugada. Ouvimos um barulho alto, como se algo caísse na cozinha. Levantamos então, assustadas, e corremos para lá.

-Sabe o que dizem quando você acorda entre as duas e três da manhã? –eu perguntei – Dizem que é porque tem alguém te observando.

A cozinha era um pouco longe dos quartos, era praticamente do outro lado da casa, e isso seria bem longe já que a casa era enorme. Quando chegamos lá encontramos Thomas vasculhando os armários, a princípio parecia até ter encontrado o que desejava. Para a nossa surpresa e espanto, ele puxaria uma faca, e ficaria nos encarando.

- Thomas, seja lá que tipo de coisa que você esteja tentando fazer, pare! Largue essa faca e vá dormir, por favor. – Falou Clara, ela tinha um tom meio assustado na voz, e estava meio estremecida.

Mas ele não largou e em vez disso arrancou os olhos e cortou a própria garganta, eu entrei em choque o sangue espirrou como um jato e nos encharcou, Eduarda e Clara começaram a gritar e mesmo com aquele barulho nenhuma alma viva parecia responder. Clara morava em uma rua movimentada, acho que alguém deveria ter escutado isso, mas parecia tudo muito calmo lá fora.Clara tentou se mexer e ir até o irmão mas quando fez a menção de ir até ele o corpo caído, aparentemente morto começou a se levantar.

Saímos correndo para o quarto assustadas, fechamos a porta, então começamos a ouvir passos pesados vindo em direção ao quarto, o livro estava em nosso quarto então eu me lembrei de tudo, peguei o livro, mas parecia tarde demais com uma força maior do que o normal para qualquer coisa humana ele arrombou a porta, o rosto estava desfigurado e no lugar dos olhos havia somente um vazio imenso.

Ele foi para cima de Clara e a matou com um único e limpo corte na garganta, para, em seguida, enfiar a faca no coração de Eduarda que caiu olhando para mim. Eu estava em cima da cama quando ele atacou Clara, fui para perto da porta e depois que elas morreram sai correndo para fora de casa até encontrar uma praça movimentada.

- O resto vocês já sabem – disse aos policiais que me interrogavam naquela sala branca e gélida e com as luzes piscando.

- Então quer dizer que vocês invocaram um demônio? – perguntou o policial mais alto como se estivesse zombando de mim.

- Eu acho que sim, o Thomas de verdade não faria aquelas atrocidades e muito menos sairia andando sem olhos e com a garganta cortada - Respondi em tom choroso.

- É até pode ser que haja mais de um demônio… Também não me parece algo muito convincente.  – Disse ele.

- Olhe para trás, então – Respondi com um sorriso, depois dessa já estaria feliz se eu morresse, acho que não teria nada a perder. Depois disso só vi dois policiais sendo mortos e voltei ficar encharcada de sangue, então apaguei. E não sei ao certo, mas algo me diz que estou morta.

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