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Contos Minilua: Ulisses Etéreo #135

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Ulisses Etéreo

Por: Ariane Cristina

O céu estava perfeitamente azul, com poucas nuvens brancas. A grama estava macia, verde com a chuva de verão da noite anterior. Os canteiros estavam floridos nas mais diversas cores, amarelos, azuis e vermelhos. Era um dia lindo e agradável, mas Ulisses não tinha prestado a menor atenção. Estava atrasado para o trabalho.

Morava em uma cidade grande, e era comum estar apressado e atrasado durante a maior parte do dia. Ele não dava a menor atenção para os pequenos prazeres da vida, pois sua vida se resumia em apenas uma coisa: ganhar dinheiro. Nada mais ocupava seus pensamentos além do trabalho, das contas e do dinheiro.
Estava parado no mesmo ponto de ônibus de todas as manhãs, batendo o pé esquerdo no concreto impacientemente.

Finalmente, após longos cinco minutos, lá estava o seu ônibus. Ulisses já estava bufando de nervoso. Sua mãe sempre dizia que ele iria morrer do coração antes dos trinta e cinco anos. Bom, pelas contas da mãe ainda faltam cinco.O motorista do ônibus também já estava impaciente, como quase todas as pessoas que viviam naquela selva de concreto e vidro. Ele cortou a frente de uma senhora idosa e a derrubou no chão. Riu da velhinha e nem mesmo se desculpou. O motorista fechou a porta logo que ele entrou, mas antes disso pensou ter ouvido a mulher idosa sussurrar algo para ele.

– ANIMAM CORPORE SEGREGARE* – a velhinha sussurrou e sorriu.
Ulisses sentiu um calafrio de medo. A mulher parecia uma feiticeira muito velha, e começou a se preocupar se aquilo não seria uma maldição. Sorriu para si mesmo, pois essas coisas não existem.
Ele desceu da condução e todos nas ruas ficaram olhando para ele assustados.

Ulisses ficou com medo de que a velha tivesse deformado seu rosto ou algo assim, então com as pontas dos dedos apalpou os olhos, o nariz e a boca. Suspirou de alívio, estava tudo normal. Mesmo porque as pessoas não olhavam para o rosto dele. Olhavam para seus pés. Ulisses se encarou de cima a baixo na porta espelhada do prédio onde trabalhava. E foi só então que percebeu o motivo dos olhares assustados. Seus pés flutuavam a poucos centímetros do chão.

Ele estava perplexo. Assustado. Estava desafiando as próprias leis da física, o que era impossível. Ou pelo menos improvável. Ulisses deu um pequeno pulo, que alcançou quatro andares do prédio. Era tão assustador e ao mesmo tempo, tão divertido.

Era como ser um astronauta na superfície da lua. Ele pulou mais uma vez, e mais outra, cada vez alcançando mais alto. As pessoas nas ruas pararam de andar apressadas para observar o homem que flutuava. Os trabalhadores pararam de trabalhar e olharam pelas janelas dos escritórios. Ulisses ria, mas não sabia se era de alegria ou se era de desespero.

Ninguém poderia viver sem tocar os pés no chão. Ou será que sim? As pessoas começaram a se reunir em volta dele, pensando que era algum tipo de show de rua, tentando descobrir qual era o “truque”.

Penélope chegou exatamente quando ele dava um mortal de costas em pleno ar e reconheceu a figura que era o centro das atenções. Era seu colega de trabalho mais ranzinza.
– Estou ficando louca, ou Ulisses está…voando?!?
– Penélope! Socorro, não consigo descer!
– Que brincadeira mais sem graça, Ulisses. Se queria me convidar para sair, era só me ligar – disse Penélope rindo.

– Eu não estou brincando, eu não consigo colocar os pés no chão!
Penélope começou a gargalhar e puxou Ulisses pela mão.
– Tudo bem, vamos resolver seu “leve” problema lá no escritório, com uma xícara de café fresco. – ela estava tentando manter o semblante sério.
E quando ela tocou em suas mãos, ela também perdeu o chão.

Penélope se esqueceu de todas as suas preocupações do dia. O que ela precisava fazer mesmo? Não se lembrava, e também pouco se importava. A sensação de não ter peso algum era maravilhosa. Nada poderia ser melhor que aquilo. Nada.
– Ulisses?
– Penélope? Eu amaldiçoei você também? – Eu não sei. Mas se foi o que aconteceu, eu espero que essa sensação não acabe nunca. – respondeu entre risinhos de felicidade.

– Será que estamos…sob efeito de alguma droga? – Ulisses pareceu se preocupar, mas esqueceu assim que pensou no assunto.
– Não! Tenho certeza de que não. Eu experimentei todas as drogas que você poderia imaginar na época da faculdade, e nenhuma delas provoca esse efeito. Será que morremos?
– Eu poderia achar que estamos mortos, se não fosse a multidão abaixo de nós, Penélope.
E realmente todos os passantes estavam olhando para eles. Mas ambos não se importavam nem um pouco.

Penélope não se lembrava de ter se sentido tão bem assim desde que era uma criança bem pequena. Antes de ter qualquer preocupação com o mundo, com as outras pessoas, com a sua aparência. Não que Penélope não fosse bonita. Ela era linda, no mínimo. O cabelo era comprido e liso, vermelho escuro brilhante, que há poucos minutos estava preso em um coque comportado de acordo com as regras da empresa. Os olhos eram castanho-claros, comuns, mas não era aí que estava sua beleza.

Era alguma coisa no formato delicado do rosto, nos lábios rosados e pequenos, que sempre exibiam um sorriso verdadeiro, inocente. No corpo magro e alto de curvas delicadas, herdado de sua avó norueguesa. E Ulisses nunca foi inconsciente da beleza dela, assim como qualquer outro homem. Ela tinha um brilho reservado a muito poucas mulheres.

E ela flutuava, com o cabelo solto pelo vento, se sentindo livre. Liberdade. Era isso que faltava na humanidade, aquilo que todo mundo buscava desesperadamente durante a vida. Liberdade. Alguns achavam que ela estava no dinheiro, que de certa forma torna as pessoas livres, mas da maneira errada. Alguns viam a liberdade na libertinagem, na falta de responsabilidade.Estavam todos enganados. A verdadeira liberdade era aquela que ela sentia agora. A liberdade da falta de qualquer medo.

Medo do mundo, medo de se ferir, medo de se magoar. Tudo aquilo foi embora. Ela sorriu para Ulisses, que retribuiu o sorriso, e viu em seus olhos que ele se sentia como ela. Ele segurou nas mãos dela, e foi a melhor sensação do mundo.
Ela olhou para ele, e se sentiu como nunca antes.
Ele olhou para ela, e sabia que a amava.
Ela sorriu.
Ele amava o sorriso dela.
– Penélope…eu amo você.

– Eu sei – ela disse com a expressão mais terna que ele já tinha visto. – Eu amo você mesmo antes de te conhecer. Eu sabia que a pessoa feita para mim estava em algum lugar por perto e que eu iria conhecer mais dia menos dia. Mas você estava ocupado demais com seus problemas, com sua ganância. – Ela parecia um pouco preocupada agora.

– Eu espero que um dia você me perdoe, preciosa. Sim, minha preciosa. Você vale mais que qualquer coisa nesse mundo, mais que qualquer quantia em dinheiro, luxo e outros prazeres. Eu gastei minha vida até agora procurando por algo, e não vi que era por você. – Ulisses estava quase conseguindo raciocinar no meio do turbilhão que estava em seu cérebro.

Aos poucos o brilho negro das suas pupilas dilatadas foi diminuindo, e seus olhos azuis estavam quase normais. Aquela sensação de euforia, de descoberta, de amor inesgotável foi diminuindo aos poucos, mas nunca foi embora completamente.

Penélope olhava para ele em busca de respostas, mas ela já sabia. A partir desse momento nada poderia separá-los mais. Ficariam juntos para sempre. Aos poucos os dois pararam de voar tão alto, e seus pés quase tocaram o chão.
– Eu pensei que iria voar até sair de órbita. Voar até desaparecer entre as estrelas. Mas você me trouxe de volta. Eu estava perdido e você me encontrou.

Ela sorriu um sorriso ainda mais brilhante.
– Mas ainda temos um pequeno problema. Precisamos voltar a pisar firmemente no chão.
Ele quase se lembrou de que deveria se preocupar com algo.
– E por que você quer voltar a ter os pés no chão? Parece-me que vivi em uma ilusão desde que nasci, e agora estou livre. Eu vejo, eu ouço e sinto coisas que nunca soube que existiam. E elas são mais reais do que o mundo aqui embaixo.

– E o que faremos então, Ulisses?
– O que você acha de vir comigo na direção que as estrelas nos mostram? Tenho certeza de que sorriem para nós, e nos prometem o que há de mais importante.
– E o que seria isso, meu amor? – Penélope perguntou, já sabendo a resposta. Ele sorriu.
– Felicidade.

Então ele segurou bem firme na mão dela, e entrelaçou seus dedos com os dedos frios da amada. E seguiram cada vez mais alto, sem se importarem com seus corpos estirados no meio da avenida.

*Em latim, “Alma separada do corpo.”