Minilua

Contos Minilua: Todos Morrem #250

Pois é, e se preferir, encaminhe desenhos, matérias ou contos. O e-mail de contato, claro: Jeff.gothic@gmail.com! A todos, uma excelente leitura!

Todos morrem

Por: Samuel Nogueira

Isso… Continue tentando gritar, esperneie, implore por sua vida, se puder. Gosto de sentir o medo antes de finalmente tocar em sua delicada e ensanguentada pele, antes de sentir o calor do seu corpo, suas trêmulas curvas e brincar com você das mais diversas e perversas formas possíveis.

Continue diligentemente a tentar gritar, esperneie… Agonize, ninguém faz isso melhor do que você. Gosto de saborear e me deliciar até o último segundo desse sentimento de temor, o maior medo que um ser humano pode sentir o sentimento que me traz tanto prazer ao contemplar, o medo da morte.

Não hesite, apenas faça, deixe que o medo e o desespero assumam a direção e embarque ao seu último e longo destino, afinal que sentimentos combinariam tão perfeitamente quanto esses?Presenteando você com uma passagem só de ida para a mais obscura das viagens, em direção a sua última parada, uma parada tão distante… Da qual nunca chegará. Uma viagem um tanto estranha, cujo caminho todos seguiremos, afinal que certeza nós temos da vida senão a morte?

Quanto a mim, serei o seu guia e a conduzirei até a viagem, serei responsável por fazê-la apreciar cada momento desse maravilhoso e sombrio passeio como se fossem os últimos de sua vida, que de fato serão. Não temos muito tempo, mas não se preocupe, eu cuido disso, prometo que farei com que esses momentos sejam os mais longos e infelizes de sua desprezível vida.

Ah, o medo… Esse sentimento tão maravilhoso que aprecio tanto, a chave para todas as portas da obediência, faça com que sintam medo, faça com que se apavorem, e farão exatamente tudo o que for ordenado. E eu simplesmente adoro essa sensação, sensação de poder, sensação de estar no controle, eu decido quem vive e quem morre, eu decido quando e onde, se continuará a pensar e gritar ou se irá calar-se e cair em um sono no qual jamais acordará. Eu sei o que se passa em sua pequena e assustada mente limitada, sei o que você deseja e sou o único que posso atendê-la no momento. Sou sua destruição e única salvação, não há ninguém a quem recorrer se não a mim, eu sou o único deus aqui.

Significa que não há chances de sair viva desse lugar, eu esperei tanto… E finalmente estou aqui, estive te observando durante dias ou talvez meses? Eu nem me recordo mais. O que importa é que te desejei por muito tempo, desde o primeiro momento em que a vi, soube que era você quem deveria ser a próxima, você era a ideal, admito, não foi fácil me conter enquanto te observava, afinal, precisava te estudar detalhadamente e manter o disfarce, mas o desejo continuava a brotar e apenas aumentava cada vez mais até que me dominou por completo, e aqui estamos. Um pouco atraído pelo seu corpo, sua beleza e por você ser tão jovem, mas isso pouco importa pra mim, e muito menos para você agora.

Não deve ter notado nos bilhetes que eu enviava através da caixa de correio, ou nas inúmeras mensagens de texto no seu celular, a maioria das vítimas não percebe, até que eu as revelo e as faço entrar em imediato estado de arrependimento, mas do que adiantaria saber? O que poderia fazer afinal? Chamar a polícia e dizer que está recebendo bilhetes e mensagens de conteúdo estranho? De nada adiantaria, mais cedo ou mais tarde eu estaria aqui, neste obscuro e tão esperado encontro á luz lunar, com você.

Não se sinta culpada por não ter suspeitado das mensagens ou bilhetes, você não poderia evitar, porque tinha de acontecer, você é a escolhida, de uma forma ou outra estaria aqui. Surpreendeu-me um pouco o fato de você estar acordada tão tarde da noite observando a lua pela janela quando entrei em seu quarto, estava tão distraída a observá-la que pude trancar a porta do seu quarto sem que percebesse e seguir o corredor que deu direto ao quarto dos seus pais, onde pude matá-los sem que ouvisse ou percebesse qualquer sinal dos vários e brutais golpes que receberam por todo o corpo.

O som de cada facada e o sangue que jorrava a cada golpe, lentamente, para que sentissem exatamente a dor de cada golpe recebido. Os dois estavam apavorados, temendo não pelas vidas imprestáveis deles, mas pela sua que estava no quarto ao lado.

Sua mãe foi a primeira, eu estava guardando uma certa raiva por ela de uns dias atrás, quando eu estava prestes a te capturar e ela me interrompeu exatamente no momento em que eu avançara e fui obrigado a ir embora. Você acreditou quando ela disse que eu era um simples assaltante, estou certo?  As pessoas normalmente acreditam em qualquer coisa que possam lhes transmitir conforto e segurança.

Hoje à noite invés de apenas te capturar e “cuidar de você” como planejado, resolvi explorar a sua bela casa. Descobrir uma maneira de entrar foi bem fácil, entrei por uma das janelas de trás que estava entre aberta, talvez para ventilar, já que está muito quente aqui dentro. Não deveria deixar a janela aberta tão tarde da noite, é difícil imaginar que tipo de pessoa poderia entrar por ela, não é mesmo?

Peguei uma faca na sua cozinha, subi as escadas e segui tranquilamente em direção aos quartos, por mais que sua mãe tenha estragado tudo o que eu havia planejado e treinado uma semana atrás, a raiva que ela me trouxe por ter cometido esse erro seria bem útil.

Por esse motivo tranquei a porta do seu quarto quando tive a chance e segui em frente em busca dos seus pais. Os dois estavam exatamente no quarto ao lado do seu, assistindo a um filme romântico nojento e trocando carinhos por baixo de um cobertor de cor branca, a porta estava aberta e o quarto muito escuro.

Estavam muito distraídos quando cheguei, só notaram minha presença após a primeira facada na sua mãe que estava exatamente do lado da cama mais próxima de mim, as paredes eram muito grossas, portanto não dava para ouvir nada além de ruídos pelo lado de fora, muito menos ao lado. A raiva fez com que eu a golpeasse incansavelmente sem parar, do jeito que mais gosto, sem piedade. Até que o corpo ficasse tão ferido com os meus golpes que ninguém seria capaz de identificá-lo.

Foi exatamente por essa raiva que eu a estripei depois de esfaqueá-la tantas vezes, fazendo com que o seu pai assistisse tudo. Cada gota de sangue que caía, cada expressão de horror que apareciam no rosto pálido dela que estava irreconhecível pelas incontáveis facadas dadas por minhas famintas e raivosas mãos. Sem falar do seu intestino que estava por grande parte exposto e caindo em cima do pobre homem, que tentava segurar com esperanças de que poderiam pôr de volta de alguma forma, talvez?

Logo depois, ele implorou para que eu o matasse, e como alguém misericordioso como eu poderia não conceder a ele o prazer da morte depois desse glorioso momento e providenciar-lhe o encontro com sua amada esposa como ele tanto implorara?

Ele apreciou cada momento de minha misericórdia, assim como eu. Ele simplesmente aceitou a escuridão, até que ela tomasse conta de todo o seu corpo, enquanto eu o perfurava e arrancava partes de todo o interior do seu corpo usando a faca. Apenas depois de algum tempo percebi que não tinha mais nenhuma luz nele para ser tomado por ela.

No fim, o quarto se tornou um cenário diferente, sombrio e solitário. Porém, recebeu uma cor avermelhada e bem mais viva que a pintura anterior, como um artista que cria uma pintura feita apenas de manchas vermelhas. Éramos apenas eu, dois corpos em meio a pedaços de carne humana, órgãos, restos de intestino e incontáveis litros de sangue espalhados sob os móveis, o teto, o chão e entre as paredes de todo o interior do quarto, sangue o suficiente para pintar todo o interior da casa e como brinde deixar um adorável odor de morte. Considerando a decoração original do quarto, não parecia uma ideia tão ruim.

Não adianta gritar ou correr, afinal, já está incapacitada disso. Eu não queria, mas você me obrigou. Você era uma garota tão bela. Não queria que sentisse dor, mas não tive escolha. Esperava que estivesse dormindo quando eu voltasse ao seu quarto, mas de alguma forma você percebeu que minha presença estava próxima.

Ter reagido contra mim só piorou as coisas para você. Não teve forças o suficiente para me enfrentar, pude te dominar facilmente e te prender em sua cama. Mas não foi o suficiente, precisava de uma lição, aprender que não deve nem ao menos tentar me confrontar.

Por isso quebrei todos os seus membros, um a um. E por fim, arranquei sua rachada e desidratada língua que agora se encontra vermelha e ensanguentada no chão do quarto, servindo de jantar para as moscas e outros insetos que estavam por perto. Tentei acariciar seus belos cabelos e mesmo estando em maior parte incapacitada você conseguiu me morder e consequentemente quebrei todos os seus dentes. Mas admiro muito sua coragem, com certeza lembrarei disto quando o fim chegar.

Olhe para você agora. Não se parece nada com a garota da qual um dia eu observara com tanto desejo. Está horrível, mas não é a sua beleza o que desejo, se fosse o caso eu iria embora agora mesmo, tão pouco o seu corpo. Meu desejo vai além do que você possa ver, eu quero a sua luz, quero apagá-la para que nunca mais brilhe novamente, e isso eu só poderia fazer de uma única forma, sabe exatamente como.

Só falta você, somente você, a única que resta… Posso sentir as vibrações, posso sentir o calor… As vozes em minha cabeça gritando por você. Irei agora, irei cuidar de você, não se preocupe, cuidarei para que não se machuque muito, mas não garanto, normalmente é nessa hora que a faca passa a pesar, e eu posso errar a qualquer momento, um corte leve aqui, uma perfuração ali… Ou talvez perfurar e rasgar para cima e para baixo, como se estivesse pintando um quadro. Depende do quanto eu estiver me divertindo com isso.

Logo nada será de você além de um corpo quieto, silencioso, pálido, morto. Despediria-me de você, se você ao menos pudesse, eu poderia dizer algumas coisas para você antes de começar, antes de assistir você sangrar até a morte, ou quem sabe sufocar?

Ainda estou em dúvidas quanto a isso. Só o que eu sei é que quero sentir sobre as minhas mãos a vida abandonar o seu corpo, contemplar, com a visão fixa em seus lindos olhos verdes, até que eu veja a luz os deixar. Você era uma bela garota, e bastante jovem também, seus cabelos ruivos tão luminosos, aparenta ser o inverso disso agora, se é que isso ainda pode ser chamado de ser humano.

Mas não sinta vergonha, não há pelo quê se envergonhar, apenas aceite. Aceite e dê as boas vindas à escuridão que em breve virá te visitar. Deixe que ela te seduza e apenas se entregue a ela, deixe com que ela te sinta, e te domine por completo. Faça com que ela te guie e te leve até o lugar mais escuro e sombrio em meio ás trevas eternas, do qual jamais voltará.

Siga-a, deixe com que ela te leve e te conduza ao sono do qual não mais acordará para observar novamente o nascer do sol do dia seguinte. Deve estar se perguntando o porquê disso estar acontecendo com você, talvez por sua beleza notável que não mais possui, ou quem sabe… Por você ser tão jovem, a verdade é que nada disso importa… Hoje ou daqui a cinquenta anos, que diferença faz? Todos morrem.