Contos Minilua: O shopping (parte V) #77

Pois é, e após cinco capítulos, chegou a hora dele: o derradeiro final da história. A todos, uma excelente leitura. Ah, e-mail de participação: Jeff.gothic@gmail.com!




O Shopping

Parte V – Final

Por: Waldenis Lopes

Elas estavam com pressa.

As duas atravessaram a rua rapidamente e pararam do outro lado. Estavam esperando uma pessoa. Elas então avistaram de longe um homem um pouco atrapalhado, guardando dinheiro na sua carteira. O rapaz estava bem vestido. Usava esporte fino, seu cabelo estava bem penteado e a barba feita.

— Lá está ele, Miriam. –disse Matilde, que apoiava sua mão esquerda sobre o ombro direito da nora.

— Ele demorou. Não acha, sogrinha? –falando isso ela deu um sorriso.

— Desculpe a demora! –começou Neandro – O banco estava realmente lotado!

— Quanto você pegou, meu amor? –perguntou Miriam, com a mão sobre sua barriga de quase nove meses.

— O suficiente!

— Meu filho, o suficiente não é o bastante! –Matilde começou a rir. —Vamos logo! Nós duas estamos mesmo ansiosas para as compras!

— Você carregará as sacolas, meu bem!

— Eu ainda não entendo porque você deixou para a última hora a compra do enxoval do nosso bebê!

— Porque você estava desempregado até cinco meses atrás, Neandro! Queria o quê? Que comprássemos fiado? Hahaha!

— Seria melhor se você nem tivesse vindo, Miriam! E se nosso filho resolver nascer aqui? Minha mãe pode comprar sozinha! Vamos pra casa! –Neandro segurou a mão de sua esposa.

Miriam o olhou com doçura.

— Neandro. Eu não perderia por nada a compra das roupinhas do Breninho! E fica tranquilo! Ele é um bom garoto e não virá ao mundo hoje. Ele nem está chutando!

— Tudo bem, se você quer assim.

— Vamos, minha nora! Aquela loja que eu te falei outro dia já deve estar aberta! –Matilde puxou Miriam pelo braço, ela estava realmente animada com a vinda de seu primeiro neto.

As compras aconteceriam no maior centro de compras da cidade. O Shopping Isadora Mendo.

Num dos escritórios da administração, Augusto organizava umas papeladas. Sua secretária entrou pela porta, e com um ar de insatisfação, começou a falar:

— Não irá nos assumir?

— Você de novo com esse papo, Andréia…

— Bem, te darei mais um dia. Se não largar sua esposa. Eu coloco a boca no trombone! Mas dessa vez, num trombone de verdade.

Augusto riu.

— Recebi uma ligação da mãe daquela moça que faleceu aqui. Ela está reclamando o fato de o senhor ter parado de dar dinheiro para ela.

— E o que você disse?

— O que o senhor mandou. Está viajando a negócios. E que talvez demore um ou dois meses para voltar.

— Perfeito, Andréia.

Ele deixou os papéis sobre a mesa e se aproximou dela.

— Você é muito eficiente…

A beijou. Um beijo demorado e pervertido. Andréia ficou sem fôlego.

— Por que o senhor parou de dar dinheiro para aquela família?

— Porque cansei de banca-los. Meu dinheiro não é infinito. Fique grata. É com este dinheiro que você ganha os meus presentinhos.

Andréia sorriu mostrando os dentes e voltando a beijar Augusto.

Um vulto surgiu atrás dela, e Isadora apareceu atrás da secretária. Ela o encarava com fúria. Augusto se assustou, empurrou Andréia pra frente e correu para trás de sua mesa.

— O que foi, Augusto? –perguntou Andréia, confusa.

— Saia daqui! Quando eu precisar eu te chamo!

Ela ficou o olhando.

— ANDA LOGO!

— Sim, senhor. –e saiu.

Augusto passeou com seus olhos por todo seu escritório. Procurando ver de novo aquele fantasma abominável. Ele se acalmou e sentou novamente em sua cadeira.

— Eu estava grávida… Eu já amava a minha criança…

Um arrepio na espinha. Ele se virou pra trás e viu aquele ser do submundo o encarando com olhos de morte.

— O que você está fazendo aqui? VOCÊ MORREU!

— Errado. Você me matou… E ainda tirou benefício de tamanho crime…

O espírito de Isadora guardou a aparência dos últimos sentimentos que sentiu em vida.

Ódio. Vingança.

Seu olhar era violento como uma guerra em alto mar. As expressões de sua face passavam apenas desespero e angústia. Sua roupa branca se manchava de sangue ao seu caminhar.

— Ai, meu Deus! Ai, meu Deus! Me ajuda, me ajuda!

— Este pedido daria certo… SE VOCÊ TIVESSE FÉ. Mas ela não existe em seu coração, Augusto Medeiros.

Conforme Isadora andava na direção de Augusto, ele se afastava e se esquivava.

— Não me mate! Por favor!

Que homem corajoso.

— Talvez eu o faça! Não… Bem que eu gostaria… Sou um mero espírito errante. Que caminha por este shopping sem propósito… Mas talvez hoje… Eu consiga minha vingança!

— Do… Do que está falando? –o medo era claro no rosto do empresário.

— Durante cinco anos eu remoí o que fez comigo. Eu juro que tentava pensar nas coisas boas que passamos juntos, mas a negatividade era maior em mim, e também, eu vi o quanto você é PODRE! Está enganando sua secretária da mesma forma que me enganou! Você a matará também, querido? –seu tom de ironia era realmente assustador.

Isadora chegou um pouco mais perto de Augusto.

— Eu gostaria de me materializar… De poder agarrar o seu pescoço e quebrá-lo! Mas parece que não existe nenhum bruxo vivendo ao redor deste shopping. A minha influência não alcançou ninguém para poder me ajudar… Porém, eu descobri um jeito de dar o troco…

— Seja lá o que estiver pensando… Não o faça! Eu te peço!

— Não adianta pedir…

— Perdoa-me meu amor! Perdoa-me!

— O quão medíocre você é? Os espíritos não perdoam Augusto…

— O que vai fazer…?

— Todos sentirão na pele a sua versão dos fatos de cinco anos atrás! O que foi mesmo que você disse às pessoas? Que eu…

— NÃO!

— Que eu me suicidei… –ela começou a rir, como uma maníaca e desapareceu daquela sala.

Augusto ficou sem forças e caiu de joelhos no chão. Sua secretária entrou apressadamente.

— Estava falando sozinho? O senhor está bem?

Miriam estava sentindo fortes contrações. Ela se contorcia de dor.

— Vamos para o hospital!

— Não, vai ficar tudo bem Neandro!

— Quer que eu chame seu pai, Miriam? –perguntou Matilde.

— Por favor, não, Matilde… Eu e meu pai tivemos uma briga recentemente… Estamos sem nos falar desde então.

— Bem, isso não é da minha conta. –disse Matilde.

Miriam começou a gritar dentro da loja de roupas de bebê, que ficava no primeiro andar.

— Vamos pro hospital!! –gritou Neandro.

— NÃO VAI DAR TEMPO! A BOLSA ROMPEU! –exclamou Miriam, já pisando na poça de líquido amniótico que expeliu. Ela segurava a barriga e estava com a respiração ofegante.

— Alguém! Ajuda aqui! –pediu Neandro. Algumas pessoas se aproximaram.

— Vamos para o banheiro, querida. Acho que eu posso fazer o parto do meu neto! Alguém me arruma uma toalha, uma tesoura e água quente!

Um dos funcionários da loja se apressou para providenciar os materiais. As duas se dirigiram para o banheiro feminino. Neandro entrou junto. As mulheres lá dentro reclamaram, mas logo perceberam a situação. Elas compreenderam e deixaram-nos a sós.  Neandro colocou sua camiseta no chão para que Miriam deitasse. A sorte deles era que o banheiro estava muito limpo.

Neandro segurava a mão de sua esposa e a olhava com carinho. Dizendo que daria tudo certo. Matilde retirou a calcinha de sua nora que usava um vestido de gestante.

— Vamos lá, Miriam! Comece a empurrar!

Força e mais força. Suor. Gritos. O rapaz que fora atrás dos itens pedidos por Matilde entrou no banheiro e entregou as coisas para Neandro.

— Meu filho, jogue a tesoura dentro da água quente. Ela tem que ser desinfetada!

— Mas pra que a tesoura, mãe?

— Pra cortar o cordão umbilical.

O shopping estava lotado naquele dia. Afinal, era fim de semana.

Augusto saiu de sua sala, transtornado. Ele pegou o corredor que dava acesso ao shopping. Chamou o elevador, quando ele abriu, lá estava Isadora.

— Que comece… O espetáculo!

As pessoas que até pouco tempo estavam agindo normalmente ficaram estáticas. O olhar de cada uma se perdeu no horizonte. E todas elas começaram a ir para o quarto piso.

— Que espetáculo, Isadora? –perguntou Augusto, claramente desesperado.

— Todos sentirão na pele o horror do suicídio. Todas elas morrerão onde eu morri. Onde você me matou.

Augusto resolveu descer as escadas. Ele estava respirando pesado e quando abriu a porta que dava acesso ao local, presenciou uma cena surreal e medonha. Pessoas e mais pessoas atiravam-se no quarto piso. E iam morrendo, uma por uma com o impacto da queda. O empresário tentou pará-las, chamar a atenção, tentou segurar algumas. Mas de nada adiantava, elas estavam sendo guiadas pelo ódio de Isadora para tal ato.

— Sua desgraçada! –vociferou ele.

— Eu não posso me materializar. Mas posso manipular mentes… Parece que aquela macumba que fiz em vida serviu para alguma coisa! –brincou ela.

Augusto desceu para o térreo. Quando ele ia entrar no subsolo. A senhorita Mendo surgiu atrás dele.

— Não entre aí! –disse ela com autoridade.

O homem notou que a expressão dela havia mudado. Ela não queria que ele entrasse ali.

— Por quê? –e foi dando passos para descer as escadas.

— Minha influência não chega até aí! Você é um maldito! Pintou todo o shopping de branco, menos este subsolo desgraçado! Eu posso até ir um pouco pra fora deste shopping, mas nunca consegui entrar aí! Por quê??

— E eu que vou saber? –e desceu rapidamente, sem olhar para trás.

— Seu filho da puta! –bradou Isadora.

Um choro de bebê. Podia-se ouvi-lo. Isadora arregalou os olhos.

— Um bebê…!? MEU BEBÊ!

Neandro voltou correndo para o banheiro, tremendo e suando frio, e explicou toda a situação para as duas mulheres.

— É a vingança da moça que faleceu aqui. –sussurrou Matilde.

Ela já tinha cortado o cordão umbilical da criança. O bebê estava envolvido numa toalha e estava no chão, deitado ao lado de sua mãe.

— Você está com hemorragia, Miriam! Se continuar assim… –disse Matilde, entrando em desespero.

— Tudo bem, sogrinha… O que importa é que o Breno está bem…

Neandro começou a chorar.

— Você não pode morrer, meu amor! Eu vou te levar pro hospital!

— Eu não tô conseguindo estancar o sangue!!

— Não adianta, Neandro. Já estou tonta. Minha visão já está turva.

Neandro se aproximou de sua amada.

— Cuide do nosso filho… –ela olhou para Breno.  —Ele tem o seu nariz.

Lágrimas escorriam do rosto de Neandro. Que se debruçou sobre o corpo da esposa.

— Ame-o como eu te amo… Meu amor.

E faleceu ali, a doce Miriam.

Naquele instante, Neandro foi tomado pelo desejo de suicídio. Matilde percebeu a mudança de postura de seu filho e tentou segurá-lo. Em vão. Ela apanhou o pequeno Breno e acariciou o rosto de Miriam. O sangue estava parando de escorrer de sua genitália e sua pupila já estava dilatada. Matilde começou a chorar, aquilo não era possível. Ela saiu do banheiro e deu de cara com o fantasma de Isadora.

— Meu bebê!

— Você é o espírito deste shopping? Por que está fazendo isso com as pessoas?

— Me dá o meu bebê…

— Seu bebê? Está louca!

— DÁ ELE PRA MIM! –Isadora avançou pra cima de Matilde, que velozmente retirou um terço de sua bolsa.

— Afaste-se espírito maligno.

Isadora ficou parada, sem ação.

— Lembre-se do que falo agora, velha! Um dia… Essa criança será minha!

— Dane-se!

Matilde não deu ouvidos e correu até a entrada principal pra poder fugir dali. As pessoas ainda se jogavam, e ela viu seu filho, caindo.

Um choro em silêncio.

 As entradas estavam emperradas, ela então desceu até o subsolo e se espantou ao encontrar ali o corpo de Augusto Medeiros, dependurado, enforcado.

Que horror.

Ela viu uma luz vinda do final daquele subsolo. Era uma porta de enrolar, e estava entreaberta. Matilde se agachou e se arrastou por baixo dela, saindo enfim daquele maldito shopping.

O que ela faria agora? Não poderia enterrar seu filho e nem sua nora… Isso era muito triste. As palavras daquele espírito perpetuaram em sua mente por anos. Ela não poderia deixar Breno voltar para aquele lugar.

Após tal evento. O shopping foi fechado. Era pra ser para sempre. Era pra ser demolido. Mas isso não aconteceu.

Breno, Caíque, Fabrício e Gustavo estavam num tipo de meditação. Eles precisavam derrotar os seus demônios para que pudessem enfrentar o mal do shopping com mais força e verdade. As garotas, Camila e Ingrid observavam atentas. A mãe de Breno os guiava nesta jornada de batalha interior. Augusto havia sentado novamente em sua cadeira flutuante e esperava. Qual deles voltaria primeiro? Todos conseguiriam?

Fabrício fugia de uma bruxa que voava em sua vassoura. Ele se viu preso num beco e dois homens de terno o fizeram parar. Eles estavam na sua frente e a bruxa atrás. De repente um sapo realmente grande apareceu nos pés dele e disse:

— Isso é só um sonho!

E Fabrício prontamente respondeu:

— Isso não é um simples sonho…

— É melhor você acreditar que isso seja apenas um sonho. Será mais fácil de suportar… Suportar a dor.

O sapo virou um motoqueiro que carregava um saco de pequi. O homem segurava uma garrafa de 51 em uma das mãos e entregou os pequis para Fabrício.

— Será que é fácil lidar com a sua loucura?

Os dois homens de terno viraram capoeiristas e a bruxa se transformou numa bela jovem de sorriso fácil. Uma roda de capoeira se formou e a garota entrou no meio dela. Os pequis desapareceram de sua mão.

— Quem é você? –perguntou Fabrício.

— Eu sou a sua parte insana!

Fabrício notou que já estava vestido para jogar. E os dois então começaram a lutar.

Caíque se encontrava numa sala vazia na penumbra. Não importava para onde ele olhava nada havia ali. Ele decidiu sentar e esperar. Passado alguns momentos ele sentiu algo roçando em suas costas, algo que aparentemente flutuava.

O rapaz ficou gelado de medo. Aquilo não era possível. O que estava nas suas costas era um balão.

Caíque tinha globofobia. Um medo persistente, anormal e irracional de bexigas. Seu coração acelerou e ele entrou em pânico. Afastou-se o máximo que pôde daquela bola flutuante que o seguia a todo custo. Ele começou a chorar, como uma criança. Ele não podia ver um balão que já entrava em desespero. Por isso ele não gostava de ir a festas infantis. Nem mesmo ele sabia como adquiriu tal fobia. Talvez o medo de alguém estourar a bexiga na sua cara, ou ficar brincando com ela, fazendo sons com o gargalo da mesma.

— Que vergonhoso. –a bexiga falava.

Caíque olhou receoso para ela e viu que uma sombra a segurava.

— Um homem deste tamanho, com medo de um simples balão? O que acontece se eu estourá-lo no seu ouvido!

E avançou. Caíque soltou um grito de pavor.

— Ninguém gosta de você! –uma voz falava isso para Gustavo.

— Quem liga para um ateuzinho de merda? –a mesma voz ofendia o pobre rapaz.

— Você não gosta nem mesmo de você! Hahaha! Quem vai gostar, não é mesmo?

Gustavo estava com as mãos na cabeça, agachado. Ele soltava grunhidos de raiva e de tristeza. Seus sentimentos estavam misturados naquele momento.

— A Ingrid… Odeia-te!

— NÃO É VERDADE!

— Resolveu se defender, Guga? Você não é motivo de orgulho pra ninguém! Sua autoestima é baixa! Você só sabe errar na vida!

O sangue de Gustavo foi fervendo. Ele levantou rapidamente, ficou ereto, estufou o peito e olhou para frente. O dono da voz ainda estava invisível. O lugar onde ele estava era como se fosse um ferro velho. E um carro, ainda novo estava na frente dele.

— O que pretende fazer, Gustavinho…?

— Cala a boca… –Gustavo viu uma grande marreta próxima aos seus pés, ele a apanhou – Destruirei todos estes meus sentimentos negativos.

Do carro começaram a surgir palavras ofensivas. Elas ofendiam Gustavo. Surgiam também todas as suas inseguranças e medos. Ele segurou bem aquela marreta e começou a destruir o veículo. A destruir o seu demônio. Aquilo que só atrasava a sua vida.

Breno abriu os olhos e viu o céu estrelado. Ele estava num local deserto. A lua brilhava e iluminava a única coisa que existia ali, uma torre. Uma torre de pedra no melhor estilo romano. Ele então decidiu subir até o topo da torre para ver o que encontrava, já que não tinha ninguém ali em baixo. E se ele se jogasse?

Ele passou pela porta e foi subindo as várias escadas. Chegando ao topo, seu olhar azulado vislumbrou aquela imensidão. Era a sua cidade. Dava para ver ela toda dali de cima. Toda iluminada com as luzes noturnas. Ele se apoiou no parapeito e olhou para baixo.

— Será que eu devo me jogar? –dizendo isso ele se colocou pra fora do peitoril e ficou em pé na borda.

A borda era um pouco larga e dava pra andar por ela. Breno ficou de costas para a parede e se apoiou nela. Ele caminhou até o outro lado da torre e viu alguém ali, agachado.

— O que você quer? –perguntou o rapaz acocorado.

Breno se aproximou um pouco mais daquela figura que estava ali. Ela usava um capuz que impossibilitava de Breno ver o seu rosto.

— Ninguém pode me deter! Some daqui! –disse o rapaz de capuz.

— E - eu não vim aqui para detê-lo…

— Você acha que eu não vou conseguir? Eu não tenho medo de nada! Nem disso!

Ao falar isso, o garoto se levantou e começou a se equilibrar com um pé só naquela borda. Sua maestria era tanta que ele sequer demonstrou pavor, ou que iria se desequilibrar.

— Eu vivi muito bem sem ter pais! Sem ter pessoas que impedissem as minhas vontades!

E começou a pular numa perna só.

— Eu sou corajoso.

Breno se agarrou a parede atrás dele enquanto o rapaz passava pulando na sua frente. Repentinamente, o sujeito agarrou Breno pela camiseta e o pressionou contra a torre. O capuz do sujeito caiu, o vento começou a soprar. Era ele mesmo, o rapaz era o próprio Breno. Eles estavam cara a cara, o outro Breno então, sorriu maliciosamente.

— Olhe só para você… Querendo viver… Quantas vezes você não quis acabar com a própria vida? Tipo agora… Você tem medo! Medo de cair…

Breno encarava o seu outro eu com olhar fixo, cerrando os dentes.

— Eu disse CAIR!! –ele puxou Breno pelas mãos para que ambos caíssem, porém Breno se apoiou na borda com os dois pés e segurou seu outro eu.

— Desista disso! Desista de você! Você não tem mais saída! Você não está desistindo de nada! Nada que já tenha perdido! –gritava o outro Breno.

O olhar de Breno se entristeceu.

— O amor de seus pais! Se eles realmente te amassem, não teriam morrido! Não te deixariam aos cuidados daquela avó descuidada!

— MINHA AVÓ NÃO É DESCUIDADA!

O Breno maligno se aproximou e firmou suas mãos nos antebraços do outro Breno.

— Pra quê viver, Breno? No que está se segurando? HEIN?

O sujeito o puxa novamente. Breno permanece firme para não cair junto com seu outro eu.

— É de você que eu tenho que me libertar… Você é o meu demônio!

Quando Breno percebeu isso, o demônio começou a escorregar de seus antebraços.

— Minha avó sempre me amou e sempre vai me amar! Meus pais não me abandonaram por quererem isso! E o que me prende à vida… São os meus amigos! –Breno falou isso confiante, com um ar de orgulho e gratidão.

— Sabe o que está fazendo, Breno? –o desespero era visível no olhar de seu demônio.

— Não.

— VOCÊ NÃO SABE QUEM É VOCÊ… SEM MIM!! –berrou o ser maligno, com uma fúria tremenda.

— Não…

— ENTÃO… O QUE ESTÁ FAZENDO?

— Me libertando… De você!

O demônio caiu torre abaixo. Breno sorriu. E se jogou lá de cima, com o sorriso ainda estampado no rosto.

Caindo em si. Acordando.

Miriam voltou seu olhar para ele.

— Você conseguiu, meu filho!

Breno olhou para o lado, todos já estavam em pé, de volta.

— Que bom que vocês conseguiram também.

— Olha, não foi nada fácil vencer aquela capoeirista bruxa dos infernos… –disse Fabrício, coçando sua cabeça.

— Eu que o diga. Enfrentei a pior coisa da minha vida! Como foi duro ter que estourar aquela coisa… –disse Caíque, reparando que todos olhavam para ele.

— Estourar o quê? –perguntou Fabrício.

—Isso não importa!

— Eu fiz pedacinhos do meu demônio… Bem, ele estava na forma de um carro… Mas enfim… –disse Gustavo.

Camila correu e abraçou Breno. Que rapidamente ficou vermelho como um tomate.

Gustavo se aproximou de Camila.

— Vai ficar tudo bem.

Ela lançou-se em seus braços e o beijou. Ele ficou estático e espantado.

— Caso você morra. –disse ela.

Aquilo o deixou nas nuvens. Ela deveras gostava dele.

— Rapazes. Está na hora! –falou Miriam.

Ela explicou o que devem fazer. Desfazer o trabalho montado no banheiro do último piso. Eles também teriam que recorrer a pequenos apelos de ajuda a Deus, caso o medo os dominem ou algo comece a persegui-los. Isadora. Ela é um espírito atormentado, que precisa se libertar de suas correntes. Ou talvez não… E se ela não for um mero espírito?

— Vamos pessoal. –disse Breno.

O mal é a carência de um bem devido num ser. O mal não é infinito, ele sempre se assenta em um ente, sempre se trata da degradação de um ser concreto. O mal não existe em si mesmo como ente. Não existe a essência do mal como ser. Não existe o mal em estado puro. O mal existe sempre em uma medida, a medida da deformação, e, portanto, sempre é limitado.

Isadora era carente. Carente do bem. Ela passou todos estes anos remoendo vingança e isso a tornou o que ela demonstra ser hoje. Um ser vingativo. Seu assassino, Augusto, morreu sentindo culpa e arrependimento. Isso fez com que a aparência de seu espírito o tornasse muito mais velho do que realmente era.

Os quatro garotos subiram as escadas. Ao chegar lá em cima… Onde estavam os corpos?

Eles haviam desaparecido como num passe de mágica, e um som de correntes foi surgindo aos poucos naquele térreo.

— Os corpos sumiram malucos! –exclamou Fabrício – Será que foram arrastados até algum lugar?

Sangue e rastros dele ainda estavam no chão. Alguém os tirou dali. Mas quem? Caíque andou um pouco e olhou para os corredores do shopping. Os cadáveres foram amontoados em cada um deles, deixando a praça principal “limpa” dos cadáveres.

Gustavo correu até a entrada, ainda tinha muita gente lá fora; a polícia, corpo de bombeiros e a mídia já se encontravam ali. A porta estava bem danificada, provavelmente tentaram entrar ali de todas as maneiras.

O barulho de correntes aumentou. E aquela figura surgiu, passando por cima dos corpos de um dos corredores, segurando correntes e olhando para os amigos com postura maléfica. Seus cabelos amarelos eram esvoaçantes e sua roupa era vermelha, mas não era um vermelho natural, estava banhada em sangue!

— Ai, meu Deus! –assustou-se Breno.

Fabrício perdeu a força nas pernas, como lhe era de praxe. Gustavo parecia uma estátua. Caíque se posicionou em frente àquele ser estranho e disse:

— Subam. Deixa que eu me resolvo com isto daqui.

— E o que é ‘isto’ aí? –perguntou Fabrício.

— Ora, não estão reconhecendo? Todas as lendas urbanas têm um fundo de veracidade. Digam olá para a loira sangrenta. Diretamente do submundo! –irônico.

Surpresa.

— Vamos logo, galera! –urrou Breno. — Vai com tudo, Caíque!

A loira tentou ir atrás dos outros, mas Caíque a segurou recitando uma oração.

— Você é o cristão que minha ama disse para eu ter cuidado! –sua voz era fantasmagórica e grave.

— E tenha mesmo cuidado! Não deixarei passar em vão o assassinato daquelas duas pessoas que estavam com a gente!

— Foi muito fácil pegar eles… Eles só carregavam no peito o medo! Arrancar a cabeça do garoto foi o mais prazeroso… –ela se aproximou de Caíque, mas não conseguia tocá-lo. — Você, por outro lado… Não tem cheiro de medo…

Ela jogou suas correntes na direção de Caíque, que por sorte desviou. Contudo, as correntes eram como serpentes e agarraram seu pescoço.

— Você é um demônio carnal como o pé de garrafa… –ele estava sendo sufocado.

— Sou, e ao contrário dele, conseguirei matá-lo!

Caíque levou sua mão até o bolso de sua calça e retirou um pequeno frasco. Nele continha um líquido transparente.

— Vai beber água logo agora, moleque? Não precisa não, já que quebrarei o seu pescoço! –ela forçou ainda mais a corrente. Caíque já estava ficando roxo.

Ele então destampou o frasco com o polegar e jogou um pouco da água sobre a corrente que o envolvia. A loira sangrenta gritou e recolheu sua arma.

— Como imaginei, a corrente é uma extensão do seu corpo!

— O que é isso? –perguntou ela, furiosa.

— O que mais seria? Água benta!

Aquela criatura se agitou e correu com selvageria para matar Caíque.

— “Crux Sacra Sit Mihi Lux, Non Draco Sit Mihi Dux, Vade Retro Sátana, Nunquam Suade Mihi vana, Sunt Mala Quae Libas… –era a oração de São Bento, sendo recitada em latim. Parecia que usar este idioma surtia mais efeito no poder dos versos, a loira começou a se contorcer no chão sem parar, ela estava se desintegrando aos poucos. Caíque jogou o restante da água benta sobre ela e terminou sua reza.  —IPSE VENENA BIBAS!”

A criatura foi desintegrada. Deixando apenas cinzas no chão.

Os outros garotos já estavam na porta do banheiro. Uma luz trêmula vinha de dentro dele. Os três decidiram entrar de uma vez. O que viram ali não era nada normal. O busto de uma jovem flutuava sobre um pentagrama no chão, no meio do banheiro. Velas pretas e roxas estavam colocadas em volta do círculo que envolvia a estrela de bruxaria. Havia também areia branca e flores brancas.

— Agora a gente tem que desfazer isso é…? –cochichou Gustavo.

— Parece que a cabeça tá dormindo… –sussurrou Breno.

Sem nem pedir licença, Fabrício avançou sobre a feitiçaria e começou a chutar tudo.

— Chuta que é macumba meu povo! –gritou ele.

Algo empurrou Fabrício para trás, como se dali tivesse saído um jato muito forte de vento.

— NÃO! –um grito foi entoado do interior de um Box do banheiro.

Kelda saiu lá de dentro, fechando o zíper de sua calça. Fabrício apontou pra ela e começou a rir.

— A bruxa tava cagando! Hahahahaha!!

Breno e Gustavo não conteram as risadas também. A cabeça flutuante abriu os olhos e viu que o ritual havia sido desfeito.

— Maldição! Kelda! O que está…? –seus olhos encontraram Breno. —Meu bebê! Você está aqui! Venha para os meus braços!

— Que braços? –brincou Breno.

— Kelda! Use a sua manipulação! –ordenou o espírito.

Kelda apontou suas mãos para os três e começou a recitar uma magia. Os garotos se entreolharam e deram de ombros.

— Tá brincando de quê? –perguntou Gustavo.

— Uai… Era pra dar certo.

— MALDIÇÃO! ELES JÁ NÃO POSSUEM OS MEDOS QUE OS ATORMENTAVAM! SUA INÚLTIL!

Ao exclamar isso, a cabeça virou poeira e posicionou-se na frente da aprendiz de feiticeira.

— Mesmo aquelas mortes antes da inauguração do meu shopping não adiantaram pra te dar mais poder, sua imbecil! –falava Isadora. —De nada adiantou influenciar aqueles jovens para a morte!

Breno lembrou-se das pessoas que haviam se suicidado antes do Mendo abrir. Então foi Isadora? Sacrifícios para ela?

—Até com as almas dos mortos de hoje, você não obteve sucesso!

— O ritual estava correto, senhora! Iria dar tudo certo! SE NÃO FOSSEM ESTES DESGRAÇADOS! Como conseguiram passar pela loira sangrenta?

— Uma coisa que não se vê nos filmes de terror! –provocou Fabrício.

— Só há uma solução… Preciso de um corpo para que eu possa cumprir meu objetivo. Só assim poderei levar as almas todas para a morte eterna!

A nuvem de poeira que era Isadora se virou para os rapazes.

— MEU DEUS, ME AJUDA! MEU DEUS! DO CÉU! SENHOR! NO CÉU! –começou a rezar Gustavo.

O espírito se agitou ao ouvir aquilo e entrou de uma vez no corpo de Kelda. Possuindo-a. Kelda balanceou. Abriu os olhos e defrontou os garotos.

— FO-DEU! –disse Fabrício.

Ela velozmente agarrou Breno pelo pescoço e o arrastou para fora dali. Gustavo e Fabrício correram atrás. Isadora agitou seu braço livre e fez com que os dois voassem para longe.

— Quem diria que o corpo desta jovem viria a calhar. –disse ela. — Sinto muita maldade neste coração, e isso aumentou os meus poderes.

Ela acometeu Breno até o peitoril do quarto piso. Ao chegar lá, ela o soltou sob seus pés. Fazendo um movimento de braços ela fez com que o chão da praça central, no térreo se abrisse. E labaredas começaram a sair de uma fenda, que ia crescendo cada vez mais. As chamas lambiam o chão e se arrastavam para pelas paredes.

— Por que está fazendo isso? –perguntou Breno, tossindo e com a mão no pescoço.

— Quero que todos sintam na pele o que passei. Mas dessa vez, por toda a eternidade.

Ela continuava a agitar seus braços, abrindo mais o chão do térreo.

—Você sabia que existem três locais no inferno? Inferno significa “o que está abaixo”, são as moradas que se encontram abaixo do céu. O primeiro é o purgatório, onde estão as almas daqueles que se purificaram de sua culpa reta.

O segundo é o limbo das almas perdidas, onde estão os falecidos que tinham morrido longe da luz, mas sem rejeitar a Deus. E o terceiro é o inferno dos condenados! Onde estão aqueles que não se arrependeram do que fizeram em vida! Onde será o nosso lar, meu bebê!

Os espíritos naquele shopping não poderiam se libertar por causa da opressão e ódio de Isadora. Agora, todas elas iriam para o inferno, mesmo sem merecer, por causa do grande ódio desta desvairada.

O poder do ódio é deveras terrível.

Breno estava no chão. Enquanto as chamas subiam pelo ar e o cheiro de enxofre começava a se espalhar.

Lá fora, os bombeiros notaram um singelo brilho vindo de dentro do shopping e fumaça saindo das pequenas janelas. Uma onda de desespero tomou conta das pessoas lá fora. Matilde estava chorando, muito. E rezava pedindo que não acontecesse nada com seu amado neto.

Enquanto Isadora estava distraída abrindo o portal, Neandro apareceu perto de Breno e cochichou:

— Comece a rezar…

Breno então começou a orar em pensamento. Uma oração aleatória, já que ele não sabia todas de cor como Caíque. Aquilo foi sutilmente gerando incômodo a Mendo, que se virou e agarrou Breno, levantando-o.

— PARE DE REZAR!

Breno começou a gritar em alta voz.

— CREIO EM DEUS PAI…

Um soco. Ele cambaleou e caiu no chão. Cuspiu sangue.

— Eu disse para parar!

Enquanto isso Caíque estava escondido atrás de uma pilastra, próximo de Breno. Ele notou que Isadora não era qualquer espírito, então começou a recitar algum tipo de oração que expulsava todo o tipo de forças do mal. Ele segurou com força sua medalha de São Bento, e fez o sinal da cruz.

— “Deus Pai, Deus Filho, Deus Espírito Santo, ó Santíssima Trindade, descei sobre nós. Ó Virgem Imaculada, Anjos, Arcanjos e Santos do paraíso, intercedei por nós”.

Isadora logo percebeu. Caíque saiu de trás da pilastra.

— “Fortalecei-nos, Espírito Santo. Formai-nos, enchei-nos de vós, e servi-vos de nós. Expulsai daqui todas as forças do mal, aniquilai-as, destruí-as, para que fiquemos bem e possamos praticar o bem”.

Possessa de ira, ela tentou se aproximar de Caíque, mas cada vez que tentava chegar mais perto, algo a empurrava para trás.

— “Afastai de nós os malefícios, a bruxaria, a magia negra, as missas negras, os feitiços, as amarrações, as maldições, os maus olhados, a infestação diabólica, a possessão diabólica, a obsessão diabólica; tudo o que é mal, pecado, ódio, inveja e perfídia; a doença física, psíquica, moral, espiritual e diabólica”.

Aquela oração estava surtindo efeito sobre Isadora, que agora gritava de dentro do corpo de Kelda. Ela estava quase saindo.

— “Queimai todos estes males no inferno para que nunca mais nos possam prejudicar, nem a nenhuma outra criatura do mundo”.

Ele se colocou na frente de Isadora e desenhou a cruz em sua testa com o polegar.

— “Com a força de Deus Todo-Poderoso, em nome de Jesus Cristo, o Redentor, e pela intercessão da Virgem Imaculada, ó Deus Espírito Santo: ordenai a todo mau presente, a todos os espíritos impuros, que nos deixem imediatamente para nunca mais voltar, que vão para o fogo eterno, acorrentados pelo Arcanjo Miguel, por São Gabriel, São Rafael e por nossos santos, Anjos da Guarda, e esmagados pelos pés da Santíssima Virgem Imaculada”!

Ao terminar, Caíque olhou para Breno e disse:

— Adeus, meu amigo. –e empurrando Isadora - ainda dentro do corpo da Kelda - Caíque se atirou, junto com ela, parapeito abaixo.

— CAÍQUE! –urrou Breno.

Isadora há muito tempo não era mais um mero espírito errante. Ela já tinha se tornado um demônio, feito de ódio e rancor. Caíque já havia percebido isso, e também já sabia que precisaria se sacrificar. Kelda, responsável pelas magias que auxiliaram Isadora e a própria; deveriam padecer. E somente alguém, recheado de luz poderia fazê-lo.

Caíque impulsionou Isadora no ar para que ela caísse mais rápido. Ela passou pelo buraco, sendo consumida pelas chamas. Como mágica o chão da praça voltou ao normal e Caíque caiu sobre ele. Morrendo.

Breno desceu as escadas em caracol até chegar ao térreo. O mesmo fizeram Gustavo e Fabrício.

Todas as almas dos falecidos começaram a surgir na praça central. As que haviam morrido há dezoito anos e as que faleceram neste novo evento. Breno correu até seu falecido amigo e começou a chorar. Abraçando aquele corpo ensanguentado e quebrado. Fabrício se ajoelhou ao lado dele e se debruçou em lágrimas.

O espírito de sua mãe, Miriam e de seu avô, Augusto surgiram ao lado dele. Breno olhou para a sua mãe.

— Você sabia disso? Não era com você que ele tinha sonhado?

— Era necessário, meu filho. Para que todos nós nos libertássemos.

— NÃO ERA NÃO!

Em meio a todo aquele chororô, Breno percebeu uma luz vinda de trás dele. Era Caíque.

— Sim, meu amigo. Era necessário. Teve uma parte do sonho que eu não te contei. A parte em que sua mãe me revelou que eu era um canal para a libertação de todos aqui.

O fantasma de Neandro, pai de Breno também surgiu.

— Ele nos ajudou, Breno. Eu e sua mãe ficamos muito felizes ao saber que nosso filho tinha um amigo tão cristão como o Caíque. Alguém que temia a Deus, alguém fiel à oração, alguém que entendia sobre o amor. Sobre os laços.

— Como vocês sabiam que eu tinha um amigo assim?

Os bombeiros, as pessoas, a mídia e policiais lá fora enfim, conseguiram adentrar. E todos, sem exceção, viram as almas lá dentro. Matilde correu até seu neto, o abraçou.

— Vó… A senhora…

— Rezei muito para que ficasse bem!

Matilde explicou que sempre que podia, durante muitos anos, ia para a entrada do shopping e ficava contando sobre as coisas que aconteciam com Breno para as almas de seu filho e nora. Ela se chocou com a morte de Caíque, seu espírito a tranquilizou. Matilde abraçou Gustavo e Fabrício com força. Ingrid saiu do subsolo e se jogou nos braços de Gustavo, chorando de felicidade. Camila olhou de longe para Breno. O pai de Caíque avistou o corpo dele ali. Ele também foi consolado por seu filho.

Estava na hora das almas partirem. Elas partiriam enfim. Elas estavam livres.

Elas começaram a subir, em forma de globos de luz branca, desaparecendo no ar. Para onde iriam? Ninguém poderia dizer. Antes de ir, Caíque se despediu de todos aqueles que conhecia.

— Se quiserem me encontrar, não vão mais aos lugares por onde andei ou morei. Já não morarei mais em minha casa, nem viajarei mais por aí… Se vocês quiserem me encontrar, parem um pouco em silêncio, pensem em mim. Sintam seus corações baterem forte, sintam-se felizes e não procurem mais por mim… Eu estarei aí… Dentro do coração de cada um de vocês!

Ao dizer isso, ele também virou um globo de luz branca. Neandro e Miriam olharam para Breno.

— Siga sempre em frente, Breno.

Augusto Medeiros também se despediu.

— Seja feliz, meu neto.

Todos desapareceram.

— Eu seguirei em frente. Mãe. Pai. Caíque…

O fato ali era completamente inexplicável! Mesmo para todos que presenciaram era difícil explicar. As câmeras de TV não captaram nada. E a indignação e espanto ficaram estampados no rosto de todos ali. Deu muito trabalho no recolhimento e identificação dos corpos. Todos os mortos ali tiveram seu enterro, dignamente. O cemitério da cidade sobrecarregou, e os que não puderam ser colocados ali, foram levados por seus parentes para serem enterrados nas cidades vizinhas.

Velório do Caíque.

Breno levou a mão ao peito. Fabrício, Gustavo, Ingrid, Camila e Matilde se juntaram num abraço grupal.

VAI COM DEUS, MEU AMIGO.

O Shopping Isadora Mendo foi demolido. O local inteiro virou um grande memorial a todos aqueles que morreram ali. Somando as duas tragédias, mais de quatro mil pessoas perderam suas vidas por influência de Isadora. Mulheres, homens, jovens, crianças, idosos.

Os anos se passaram.

Gustavo foi morar em outro estado com Ingrid. Fabrício continuava na cidade, ainda do mesmo jeito e solteiro.

Breno havia se casado com Camila, a bela morena de cabelos cacheados. Ela estava grávida.

Os dois estavam em frente ao memorial do shopping. Levaram flores e acenderam uma vela. Já era fim de tarde, o crepúsculo já estava vindo.

Eles rezaram pelas almas, onde quer que elas estejam.

— Oi, Caíque. Já se passaram sete anos desde aquele dia. Vim agradecê-lo novamente. Obrigado por ter libertado os meus pais e todas as outras pessoas.

Camila passou a mão sobre sua barriga. Ela estava de seis meses.

— Conte a ele, meu bem. –disse ela.

— Cami e eu teremos um filho. Você sabe o quanto eu era apaixonado por ela na adolescência. Eu te contava tudo!

De certa forma, a tragédia do shopping nos uniu.

Breno pôs a sua mão sobre a barriga de Camila.

— Nosso filho se chamará Caíque.

SIM… CAÍQUE.

E o sol se pôs. 

FIM.

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