Contos Minilua: Sempre a espreita #123

Sim, e desde já, contamos com a sua participação. O e-mail de contato: Jeff.gothic@gmail.com! A todos, um excelente fim de semana!




Sempre a espreita

Por: J Bas

Eu era uma garota comum, tinha amigos, uma família que amava, nunca me meti em confusões, sempre fui um exemplo de menina dedicada aos estudos. A minha vida era estudar, com o fim de ajudar a minha família e aos próximos, queria ser médica. ”Uma jovem e linda médica!”, era o que sempre minha doce mãe me dizia. Mais em um lindo e frio dia nublado minha vida mudou radicalmente.

Era quinta-feira, eu me lembro perfeitamente o que acontecera naquela tarde, a minha prima Sofie viria me visitar, e assim aconteceu. Mais ela estava diferente e ao que parece, apenas eu soube diferenciar o que acontecia.

Assim que ela chegou pude ver seus olhos esbugalhados fitando a minha casa, suas unhas estavam no toco e escorria até sangue do seu mindinho, seus cabelos amarrados de qualquer jeito, suas roupas amarrotadas. Eu achei muito estranho sua situação, ela que sempre se arrumava até para ficar em casa, aparecer dessa forma aqui…

Logo chamei ela para meu quarto no segundo andar da casa, entramos e ela se sentou na beira da cama, eu a olhei e me abaixei na sua frente, me apoiei nas suas pernas e a olhei docemente perguntando.

- O que foi Sofi? Ei… pode falar para mim! Você sabe que sempre vou estar do seu lado e nunca contra você…

Falei tentando acalma-la e descobrir seu problema, Sofie era linda e tinha uma vida ótima, seus problemas (quando raramente apareciam) não passavam de uma garota nova na sala que quer roubar a atenção dela, um namoradinho que não está mais apaixonado… essas coisas que julgo fúteis.

Ela olhou para mim com escárnio, e começou a dar altas gargalhadas, me afastei assustada e estava pronta para dar uns tapas nela, quando ela começou a falar com a voz muito alterada.
- Do meu lado? Ah… por um momento você quase me convenceu! Mais eu não sou idiota sua… Vadia!

Ela puxou uma faca, não sei da onde e pulou em cima de mim, ela acertou meu ombro e gritei de dor, agora eu sabia que aquela não era a minha prima, e sim uma desequilibrada. Joguei ela longe, arranquei a faca do meu ombro e finquei na barriga dela… mais não foi sangue que jorrou, um líquido escuro, pegajoso e fétido. O sorriso no seu rosto sumiu, ela botou a mão em cima do seu peito, fechou os olhos e faleceu, minha mãe chegou com os gritos desesperados que soltei quando a vi morta pelas minhas mãos.

Minha mãe se assustou com a cena, me abraçou forte me tirando de cima da Sofie agora morta, chorei em seus braços, meu pai chega logo depois e liga para os meus tios, pais da Sofie, e liga também para a polícia. Eles me tiram do quarto e me levam para a sala, logo que meus tios chegaram foram consolados pelos meus pais, ainda estava em choque, o que fora aquilo?

Subi para meu quarto e o cadáver ainda estava lá, me aproximei e vi que o que ela estava segurando era um cordão muito estranho, o tirei e as luzes da casa se apagaram, com o susto o deixei cair e corri para a cozinha. Chegando lá um frio descomunal desce pela minha espinha, vou para a sala aonde os polícias já estavam. A partir dali me levam para a delegacia e fazem o procedimento padrão, tiram fotos do corpo da Sofie para a perícia, e uma ambulância a leva para o necrotério.

A princípio o caso teve grande repercussão, mais não saí culpada, alegou meu advogado legítima defesa, e fora comprovado que Sofie vinha agindo estranho há muito tempo, a julgaram com transtornos mentais. Fiquei fazendo terapia durante essas duas semanas de investigação, a via e ouvia pela casa, podia jurar que ela me via e respondia à mesma coisa sempre.

- Cuidado…
Ela nunca dizia o porquê, mais eu não ficava para perguntar, saía correndo. Desde o dia da morte de Sofie eu não via mais meus tios… meus únicos tios, agora deveriam me odiar. Eu não sabia como reagir aquela situação, apenas decidi agir normalmente, evitava falar desse assunto…

Já passaram um mês desde a morte de Sofie, estava arrumando meu quarto quando encontro o maldito cordão atrás do meu guarda-roupa. O olhei e segurei, me vieram as terríveis lembranças…
- Eu amava minha prima, apesar dela ser muito chata, eu a amava..

Falei aos prantos, já me encontrava ajoelhada ao chão, chorava feito um sei lá. Após me recuperar e engolir o choro, olho o cordão da Sofie, era a cabeça de um bode muito feio o pingente, joguei pela janela, mais tava fechada… aquilo quicou de volta e caiu no meu colo, o que foi estranho, aquilo tinha massa o suficiente para quebrar o vidro da janela… relevei.

Fui para a frente da casa com o cordão nas mãos, estava acontecendo um desfile… um desfile dos horrores! As pessoas estavam fantasiadas de zumbis, bruxas, bodes, capetas, tudo quanto era porra.

Olhei assustada para um garotinho com uma máscara de bode, o mesmo parou e ficou de frente para mim, me encarando, estávamos distantes, mais eu sentia sua respiração chegando a mim. Ele tirou à máscara e sorriu, foi o riso mais macabro que tive a infelicidade de ver. Chorei e saí correndo, era o próprio encardido que eu tinha visto, olhos vermelhos, expressão… ah droga!

Entrei apressada, meus pais haviam saído, estava sozinha, não por muito tempo. Pulei o muro do quintal e varei na casa da vizinha, ela estava fazendo churrasco… da própria filha! A cena me fez vomitar, cambaleando corri pelos lados da casa e cheguei ao portão.
Correndo pelas ruas amedrontada não tinha rumo, até ter a ideia de ir para igreja, não estava muito longe então juntei minhas forças e fui.

No caminho vi as cenas mais grotescas do mundo… pessoas sendo comidas vivas por outras pessoas e até animais, homens estuprando crianças e mulheres, velhos sendo torturados, mães batendo em bebês e até um velho pegando um cachorrinho. Não me segurei, peguei uma pedra afiada que tinha no chão e joguei com todas as minhas forças no velho que caiu morto, e o mesmo cãozinho começou a comer os olhos do velho… saí correndo para não vomitar.

Já havia chegado, subi às escadas e abri os grandes portões de madeira e ferro, ia entrar mais não consegui, o maldito colar não entrava… eu ainda estava com aquilo? Nem percebi. O joguei entrei na igreja fechando os portões, olhei para o altar que fora construído na época do Barroco, era lindo, caminhei até o altar e me ajoelhei, comecei a orar pedindo para tudo aquilo acabar… até que comecei a escutar uns gemidos vindos da sacristia.

Fui até lá e vi e ouvi o que não queria, a cena que vi era de um desgosto de magnitudes astronômicas… era o padre e uma criança, ela estava amarrada e o padre… bem… eu apenas pulei em cima dele o afastando da pobre criança, e com a cruz de prata que estava na parede eu enfiei em meio aos olhos do pedófilo, que rugiu de dor.

Desamarrei a criança, mais fora em vão pois a mesma estava morta. Olhei para o padre sem piedade e enfiei mais ainda a cruz em seus olhos, jorrava sangue para todos os lados e seus gritos eram insignificantes para mim, eu o queria morto e assim fiz!

O amarrei com as mesmas cordas que prendiam a criança e com as velas do altar acessas usei para esquentar outra cruz… está agora de ouro, já ardendo eu ”cuidadosamente” a enfiei no coração do padre pecador e com seu sangue escorrendo agora por todo o meu corpo me senti horrível, uma náusea me tomou conta e caí sentada no chão, as minhas pernas tremiam feito bambus.

Lágrimas me vieram aos olhos, quando foi que o mundo decidiu mostrar sua verdadeira face a mim? Eu estava assustada, queria o colo da minha mãe e o conforto das palavras do meu pai… chorava agora soluçando, em meio aos meus devaneios escuto uma voz familiar.

Me levanto e vou até seu encontro, Sofie me esperava sentada no primeiro banco da igreja, a olhei fascinada, seus longos cabelos ruivos brilhavam com intensidade, sua pele pálida irradiava uma luminosidade descomunal, suas roupas de seda flutuavam ao seu redor junto aos seus cabelos… mais seus olhos não tinham alma. Me abaixei e sentei no altar a sua frente, ela me olhava com ternura porém isso me angustiava intensamente.

- Sofi… sinto muito eu não queria! Eu…
Começo a chorar na sua frente, ela me interrompe com um olhar triste, olha fundo nos meus olhos e começa a falar.
- Débora… você não tem culpa de nada. Aquela não era eu, eu morri há muito tempo… só ainda não sabia… minha alma apenas vagava por aí. Você me ajudou! Não se culpe, você me fez um favor!

Falou ela passando a sua delicada e fluorescente mão pelo meu rosto, a presença dela agora me dava conforto, ela quer o meu bem e eu vou fazer por merece-lo.
- Sofi, essa coisas… elas estão acontecendo em todo lugar! Eu quero que isso pare eu não aguento mais! Por favor faça parar!

Falo desesperada e em meio aos meus soluços.
- Olha… eu não tenho como parar, isso está te perseguindo… e não vai parar até te levar junto! Isso que você vê são alucinações… mais toma cuidado pois as suas ações são reais e interferem na vida de todos a sua volta.

Falou ela olhando em direção a sacristia. Eu corri até lá e não vi mais o padre, estava completamente só, apenas as cordas e as cruzes estavam lá.
Olhei em direção a Sofie e não tinha nada… estava só novamente, isso tudo estava acontecendo por alguma razão e eu não sabia qual era. Talvez tivesse a ver com aquele colar… talvez.

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