Contos Minilua: Possedit (parte II) #173

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Possedit - Parte II.

Por: Waldenis Lopes

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“Me recordo de meu pai olhando para o meu rosto, aterrorizado, chamando o meu nome.

“Marcos!”

Logo após isso, uma voz que não me pertencia saiu de minha garganta, grave, estranha…

“Que Marcos?”

Assim, meu corpo, que estava suspenso no ar, caiu no chão. Tudo então ficou escuro para mim”.

O senhor está falando que o meu filho ficou louco de vez?

- Louco não é a palavra apropriada, senhor Pedro. O termo correto é Sintomatologia Dissociativa e Somatização.

- O que é isso, doutor? - perguntou Estela, com os olhos inchados. A mulher estava chorando praticamente todos os dias desde que o primeiro incidente com o seu filho ocorreu.

- Uma alteração de conduta de início brusco, mas que, conforme relataram, está se agravando dia após dia.

- O que o senhor fará daqui em diante? Já que descobriu o que o Marcos tem depois de todos estes exames, durante os dias que passaram…- falou Pedro, não escondendo a sua aflição.

- Tragam o menino novamente, tentarei outra forma de intervenção psiquiátrica.

Durante meio ano de tratamento, Marcos não melhorou. Às vezes, em casa, o menino se autoflagelava com cristais ou ferros. Desde que ficou possesso não podiam mais comer com ele na cozinha, porque ele sempre se dirigia para as facas e as agarrava para tentar se matar ou ameaçar a família. Durante meses foi preciso fazer todas as suas refeições só com colher e garfo, mas nunca com faca.

- O que você disse, Marcos? – perguntou Thiago, o irmão mais velho, aproximando a orelha da boca do garotinho para poder escutar o que ele estava dizendo.

- Sede… – sussurrou muito baixo, o menino.

- Ele está assim o dia todo… – disse o pai, observando os filhos da cozinha.

- Sem falar…?

- Sim, Estela… Ele só consegue sussurrar…

- O tratamento não está surtindo efeito, Pedro! O psiquiatra vai acabar desistindo do caso do nosso filho!

- Ele não pode desistir, meu bem. Vamos… Vamos levá-lo de volta ao hospital, sim?

O caso de Marcos interessava outros psiquiatras, que estavam curiosos do porque o garoto ainda não havia melhorado depois de tantos meses de tratamento.

“Quadro de medos noturnos, insônia de conciliação e alucinações visuais de tipo histeriforme e ansiosas”.

Era parte do que estava escrito em seu relatório médico.

Marcos só esteve internado no plantão de psiquiatria um fim de semana. Depois seu caso foi acompanhado do hospital, mas vivendo em casa com sua família. Após tentar de tudo, o psiquiatra responsável pelo garoto acabou receitando tranquilizantes. Um tempo depois, enfim, reconheceu sua impotência para curá-lo e limitou-se a ordenar que o menino já não poderia perder mais aulas e que, portanto, teria que voltar a estudar naquele estado.

- Ele vai acabar sendo a atração no meio dos outros garotos, doutor! Ele não vai conseguir se adaptar estando assim! – clamou Estela, com um olhar tristonho e tom de voz falho e choroso.

- Pois então o tranquem numa sala da escola com chave até que ele se acalme! – falou o médico, elevando o seu tom de voz e mostrando estar irritado diante da situação. Pela primeira vez em muitos anos ele não estava conseguindo resolver um problema, que de início, parecia simples.

- Mas doutor! Compreenda, por favor! Se o Marcos voltar pra sala de aula é capaz dele quebrar alguma janela, só para poder pegar o vidro para se cortar!

- Estou de mãos atadas. – ele foi taxativo.

A mulher então, que tinha ido sozinha ao hospital – pois Pedro havia ficado em casa para cuidar de Marcos – decidiu visitar o colégio do filho.

- Entendo o seu lado, senhora Estela. É realmente perigoso deixá-lo voltar a estudar nessas condições…

- O que pode fazer quanto a isso, diretora?

- Bem… Conversarei com os outros professores… Veremos o que podemos fazer… Quem sabe, aulas particulares.

- Obrigada.

- Pelo menos alguém está  tentando ser compreensivo… - pensava Estela.

Thiago saía de uma loja no centro da cidade, onde o seu pai comprara a fantasia de caveira para Marcos. O garoto foi procurar saber de onde o estabelecimento havia adquirido aquela roupa medonha. Uma das atendentes informou que um senhor tinha vendido a peça à loja muitos meses atrás. Thiago perguntou se eles por um acaso não saberiam informar onde tal senhor residia. Com alguma insistência o garoto obteve a informação que necessitava.

Um artesão… - pensou ele, com o endereço em mãos e se encaminhando para a parte da cidade que era pouco movimentada.

Uma casa de madeira, que parecia ter sido jogada de qualquer maneira em meio às árvores tortas daquele brejo, foi avistada por Thiago, que temeroso se aproximou da entrada e bateu.

- Alguém em casa…?

A porta abriu facilmente com o leve toque de seu punho cerrado.

- Por que sempre existe uma casa assim no meio de uma cidade desenvolvida? E por que ela é sempre no meio do mato? E por que sempre é alguém estranho que vive nela…?

- Falando sozinho, meu jovem?

O coração de Thiago foi até a garganta e voltou. Seus olhos movimentaram-se vagarosamente até encontrar o dono daquela voz arrastada e rouca. A figura de um senhor na penumbra, sentado atrás de uma máquina de costura de pedal, surgiu para o garoto.

- Oh, nossa! Não vi que estava aí!

- É a minha casa, por sinal.

- Perdoe-me por entrar assim.

- Tudo bem, o que queres? Alguma fantasia que está na moda ultimamente? Vejamos… O que acha de levar uma do Batman? – disse o senhor, animado.

- É uma boa ideia, mas não… Vim apenas atrás de uma informação.

- Oh, sim. Como posso ajudá-lo? Sente-se, por favor. – o velho apontou para uma cadeira, encostada na parede atrás de Thiago, o garoto sentou-se rapidamente e uniu as mãos.

Thiago então, explicou sobre a fantasia de caveira, com uma bola de borracha que expelia sangue, para aquele senhor, que de imediato recordou do objeto. Porém, a sua expressão não foi nem um pouco agradável ao puxar aquela lembrança de sua memória. Lembrar-se dela fazia a pele do idoso arrepiar. Quando o rapaz citou o dia em que Marcos havia começado a agir estranho, a ver as sombras e afins, o velho pediu para que Thiago parasse de falar.

- Sei o que aconteceu ao seu irmão.

- Sabe?

- Sim… Me diga… O que sues pais tem feito a respeito?

- Inicialmente minha mãe acreditava que era algo sobrenatural, e procurou uma médium para “curar” o meu irmão. Mas naquele dia ele começou a levitar pela casa… Depois, nos outros dias, meu pai negou-se a crer que aquilo fosse obra de alguma força maligna, então convenceu a minha mãe a levar o Marcos ao médico. E do médico foi para o Psiquiatra… Que agora já não sabe mais o que fazer e mandou só dar tranquilizantes para ele. – Thiago fazia um esforço tremendo para não se emocionar ao contar a história. Era difícil. Era doloroso.

- Você sabe o que o psiquiatra disse que o seu irmão tem?

- Hmm… Acho que é transtorno a personalidade. - o rapaz rememorou um fato intrigante que sempre ocorria durante todos os meses passados. - O Marcos, ele nunca teve crises… Tipo, de gritar, tentar se cortar, ou até mesmo levitar, na frente dos médicos. Só quando nossa família está a sós com ele que acontece este tipo de coisa.

- Entendo… Isso realmente não é caso para a medicina… Contatar a tal médium foi um dos erros cometidos também… Fez com que o mal desencadeasse no seu irmão… O demônio é ardiloso.

-  O demônio?

- Sim, meu jovem. Pela sua expressão, você sempre soube, ou desconfiava… Mas o Marcos está de fato possuído.

Thiago sentiu o corpo amolecer sobre a cadeira. Era estranho ouvir aquilo. Era surreal. A família desconfiava disso, mas pensavam que era bobagem um ser do inferno está dentro do frágil corpo do pequeno menino.

- Há quanto tempo tem isso? – indagou o idoso, parando a sua costura para observar o jovem.

- Já vai fazer oito meses, mais ou menos isso.

- Complexo.

-  E o que a fantasia tem a ver com tudo isso?

- Porque eu a ofereci num culto de Magia Negra.

O velho levantou-se, saindo de trás da sua máquina antiga de costura e se aproximou lentamente do jovem sentado na cadeira. As pernas de Thiago adormeceram e ele não conseguia se mover de forma nenhuma, tamanho era o medo diante daquele senhor de idade. O idoso ficou de frente ao garoto, e o olhou com certa docilidade.

- Não venha me questionar, nem eu sei por que fiz aquilo… Na época pensei que poderia ser divertido… Sou apenas um artesão velho sem objetivos na vida e miserável, por morar em um brejo…

A respiração de Thiago ficou arfante, mesmo tentando controlar o seu pânico, o suor escorria em bicas de seu rosto.

- Fique calmo, fique calmo. Não precisa entrar em desespero. Não farei nada contigo… A sua história me comoveu, acredite. Como nenhuma outra havia me comovido antes… Mas, não posso fazer nada. Quando o mal está feito ele não pode ser desfeito.

E… E então…? O que minha família pode fazer?

- Vocês são religiosos?

- Não…

- Uma pena… Bem… Apesar disso, o púnico conselho que posso dar é…

- Diz logo! – falou Thiago, afobado, impaciente, recuperando o fôlego e preparando-se para sair correndo daquele casebre e da presença opressora daquele senhor de cabelos brancos.

- Procurem um padre.

- Um padre?

- O seu irmão precisa ser exorcizado.

Um senhor de seus quase setenta anos estava sentado conferindo uns papéis sobre uma escrivaninha de mogno. Seus pequenos óculos retangulares escorregavam de vez em quando pelo seu nariz, enquanto ele lia alguns antigos arquivos sobre exorcismos, aos quais ele havia ajudado a solucionar. Três batidas foram desferidas levemente do lado de fora da grande porta de madeira daquele apertado escritório.

- Entre!

Um homem de meia idade surgiu, carregando uma expressão séria.

- Padre Serafim?

- Sim?

- Temos um caso para o senhor.

Parte Dois de Três, fim.

Continua…

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