Minilua

Contos Minilua: Possedit #166

E sim, para participar, é muito fácil: Para tal: envie o seu texto para: Jeff.gothic@gmaill.com! A todos, uma excelente leitura!

Possedit – Parte I.

Por: Waldenis Lopes

“É difícil lembrar-me… É doloroso… Mas farei o possível para contar-lhes o que começou a acontecer comigo naquela noite de Dia das Bruxas…”
Estela odiou a fantasia que o filho havia escolhido para ir à festa de Halloween de sua escola. O garoto tinha se disfarçado de caveira com uma foice e com uma bola da qual saía sangue. A mulher protestou, pois achou aquela roupa muito sangrenta para um garoto de onze anos de idade usar. Porém, nada mais poderia ser feito, afinal, a fantasia já estava comprada. O pai, Pedro, estava dando uns últimos retoques no menino, que estava bastante ansioso para poder sair desfilando pela rua a caminho da festa.

– Papai, o senhor gostou? O homem observou o garoto com certa desconfiança. Ele também não havia gostado muito daquela roupa bizarra, mas não pôde negar o presente ao filho, já que o menino tinha ficado com os olhos brilhando de felicidade quando viu o objeto na vitrine da loja de fantasias. Pedro então colocou a mão direita sobre o ombro do pequenino e disse:

– Sim, Marcos. Gostei sim. – e abriu um sorriso meio forçado.
– Que bom que o senhor gostou! Uma pena a mamãe não tenha gostado… – falou Marcos, ficando cabisbaixo por um breve momento, até ouvir um grito familiar que chamava por seu nome na rua.

O menino deu uma última olhada no espelho e saiu às pressas de seu quarto, indo em direção à porta da frente, atravessando o corredor velozmente e parando na sala de estar. Era um de seus colegas de sala, o esperava em frente a sua casa vestido de vampiro. Ou um projeto de vampiro.

– Vê se para de correr pela casa. – falou o irmão mais velho de Marcos, Thiago, de dezoito anos.
– Não enche! – Marcos abriu a porta animadamente, porém antes de sair, olhou para Thiago com um ar de dúvida. – Não vai falar nada da minha fantasia?
– Linda. Agora, tchau!

– Idiota. – o menino saiu da casa e foi ao encontro do amigo que o aguardava sorridente. Todavia, quando Marcos aproximou-se mais um pouco do garoto, o sorriso do mesmo foi suprimido de sua face e uma expressão de espanto tomou o seu lugar.
– Marcos… E essa fantasia, aí? – perguntou Alfredo, arregalando os olhos e fitando aquela bola de borracha que quando pressionada jorrava um liquido que lembrava sangue.

–  Massa, né?
– É… Que medonho. – respondeu, desconfortável.
– Vamos andando, né?! Se você já ficou com medo… Imagina as meninas da escola? Estou ansioso!
– Você é louco.

Dito e feito. Os colegas de classe de Marcos e o restante da escola mal podiam esconder o pavor em seus rostos. Uma fantasia tão sangrenta numa criança… Por que os pais permitiram isso? Pensavam alguns dos professores.

As garotas corriam do jovem rapaz quando ele se avizinhava, mirando a sua foice e grunhindo como um cão. Ele estava fazendo sucesso. Porém, um sucesso à custa do medo das pessoas. E o menino estava sorrindo de canto a canto, se divertia ao ver as expressões de espanto em seus colegas, amigos e nos adultos presentes naquela festa.

E claro, ele foi o vencedor do concurso de fantasia. “A caveira sangrenta”, assim o intitularam, um nome que o agradou muito.  Seu amigo Alfredo já tinha ido para casa, a festa já estava quase no fim, ainda não eram nem dez da noite, e Marcos, que não gostava muito de incomodar o pai, decidiu ir caminhando sozinho para casa, ao invés de ligar para que o buscassem. A cidade não era muito perigosa naquele horário, e o menino sempre andava por ruas movimentadas, portanto, a sua volta para casa seria tranquila…

A rua onde ele acabara de entrar estava com a iluminação falha.Um dos postes dela estava apagado e o ar naquela avenida estava estranhamente frio. Marcos se encolheu e apertou os passos. Quando estava quase correndo, e sentindo uma sensação estranha ali, o poste ao longe que estava apagado acendeu-se subitamente, e uma sombra tenebrosa surgiu em baixo dele, avançando velozmente na direção do garoto vestido de caveira. Um som estridente foi lançado de sua garganta e Marcos caiu no chão.

Sua visão estava um pouco turva e ele sentia um peso enorme sobre as costas. Então o menino se levantou, com certa dificuldade, e voltou a caminhar. Finalmente ele via a sua casa, o jovenzinho suspirou aliviado. O que ele tinha acabado de ver era algo produzido por sua imaginação? Será mesmo que aquela sombra sob o poste era real? Marcos estava confuso, ele coçava a sua cabeça, raspando os dedos contra o tecido da touca daquela fantasia que ele estava começando a se arrepender de ter usado.

“Eu vou te matar”.
Uma voz. vinda de lugar nenhum invadiu os ouvidos da criança.
“Não tem como você escapar”.
Outra vez, agora num tom mais ameaçador, um pouco sussurrado. Marcos sentiu um calafrio, seu estômago começou a doer repentinamente e suas pernas paralisaram.

Ele olhou para a sua sombra no asfalto, formada por causa da luz de um poste sob a sua cabeça, e notou que uma segunda sombra se desdobrava além de seu corpo, tomando uma forma animalesca e aterradora.

A sombra então se desgrudou da sua própria e ergueu-se do chão. Um homem robusto e alto surgira na frente do menino, com uma expressão horripilante na face e em uma das mãos um grande facão sujo de sangue. O sujeito abaixou o tronco e fitou os olhos de Marcos, sussurrando com calma e transmitindo ao mesmo tempo temor com a sua voz rouca e maligna:
– Eu já disse que vou te matar?

O desespero invadiu o pequeno corpo da criança, que finalmente conseguiu se mover, e saiu em disparada em direção a sua casa. Ao entrar, pensando estar livre daquela abominação, o menino correu para o quarto e despiu às pressas a sua fantasia de caveira. Ele imaginava que a culpa de ter visto aquilo era dela. Sua mãe entrou alarmada no cômodo, perguntando o motivo para a correria dentro de casa. Antes que pudesse responder, a sombra em forma de homem estava atrás da mulher, olhando diabolicamente para a criança e apontando o facão para o pescoço de Estela.

– Atrás da senhora! – gritou ele.
Estela virou-se, e não tinha nada ali. Ele piscou os olhos, olhou novamente e o homem sumira. – Tudo bem, filho?

– Er… Não sei…
Não. O garoto não estava bem. Em três dias Marcos começou a ter pesadelos, tremores no corpo e muito medo; ele já via mais figuras humanas pela casa, especialmente no corredor. O seu pavor era tanto, que ele já não podia mais andar sem companhia, do seu quarto até à cozinha tinha que ser levado nos braços, com a cabeça coberta por uma toalha, pois tamanho era o pânico que as figuras do corredor lhe causavam, que se negava sempre a passar por ali.

E, em certa parte do corredor, via pessoas que o queriam agredir. Tais acontecimentos começavam à noite e se estendiam até mais ou menos três da madrugada. Marcos não conseguia dormir neste horário, por causa do medo terrível que lhe provocava a visão daqueles homens. Ele via homens normais que lhe diziam coisas, insultavam-no e ameaçavam-no de morte.

E uma daquelas sombras carregava um facão, o mesmo que aparecera primeiramente para ele na rua. Esta sombra, por sua vez, aparecia em seus pesadelos, perseguindo-o para matá-lo e arrancar as suas vísceras após o óbito.
E a cada dia esses sintomas foram se agravando.

– Precisamos fazer alguma coisa! – vociferou Pedro, esfregando uma mão na outra e olhando o filho sentado no sofá, abraçando os joelhos, com um olhar vazio. – Mas o quê, pai? Nem sabemos o que é isso! – falou Thiago, demonstrando muita preocupação e compaixão pelo irmão. Desde que os acontecimentos começaram, o rapaz se culpava por não ter sido tão próximo de Marcos como deveria.

Estela surgiu na cozinha, ela segurava um papel e na outra mão um telefone sem fio. Pedro perguntou para quem ela estava ligando, a mulher fez menção para que ele ficasse em silêncio.
– Alô? É a dona Flora? Sim? Ótimo. Gostaria de perguntar sobre uma coisa.

A mãe de Marcos explicou a situação do ponto de vista deles: que seu filho estava vendo sombras pela casa e que um medo irracional havia tomado conta de sua mente e corpo. Dos pesadelos terríveis à noite e dos gritos de angústia quando as pessoas começavam a andar pela casa, a ameaçá-lo e afins.

– Você veem estas figuras? – perguntou a Médium, do outro lado da linha.
–  Não, apenas ele.
–  O pai do menino precisa comparecer á minha casa hoje à noite, peça para que ele traga um objeto pertencente ao menino. Eu farei o que tem que ser feito. – e desligou.
–  Leve estes seiscentos reais, é o preço da consulta.
– Você já tinha tudo planejado, amor?
– Com certeza o que está acontecendo com o nosso Marquinhos não é coisa deste mundo.

Então eu pesquisei sobre os médiuns da cidade, e parece que essa Flora é bem conceituada no ramo. Eu não me importo com o dinheiro, contanto que nosso filho fique bem.
– Tudo bem. – respondeu Pedro, tristonho e preocupado.
– Que horas, são? – procurou saber Thiago, o mais velho.
–  Ainda é cedo. Quando eu for, fiquem de olho no Marcos e observem se terá ou não alguma melhora nele.

Estela e Thiago assentiram.
Pedro foi sozinho à casa da médium. Eram quase nove da noite. Chegando lá, ela pegou o objeto pertencente à criança que o pai havia levado e examinou-o. Um carrinho de brinquedo. Ela sentou-se em seu sofá de camurça vermelho e começou a fazer umas preces estranhas e a entoar um canto indecifrável. O pai estava assustado ao ver aquilo diante dos olhos. Flora revirava os olhos e abria a boca vez ou outra para soltar notas agudas.

Ela apanhou pedras e conchas sobre a mesa que estava em sua frente e as atirou para cima. As velas de cor preta que estavam acesas naquele ambiente repleto de tecidos de cor escura explodiram em fogo. A médium então, de repente, desmaiou. Pedro aproximou-se dela, caída no chão, e viu que o carrinho de seu filho – que servia de elo entre a mulher e Marcos – estava despedaçado no chão, em pequenos fragmentos queimados.

A criança, que naquela noite parecia tranquila, que parecia não estar vendo as sombras, que parecia que estava curada, então, começou a levitar sobre o sofá da sala de sua casa. Estela sentiu um tremor tremendo ao ver o filho daquele jeito que caiu sentada no chão. As luzes de toda a casa começaram a piscar incessantemente e objetos de decoração da sala e cozinha iniciaram uma dança singela em seus lugares. Não se sabe o motivo, não se sabe como… Era para dar certo, não era?

Por que a oração da médium falhara?
Agora, Marcos já não via mais figuras humanas andando pela casa, ele naquele instante começou a enxergar um único ser, uma transformação diabólica daquela primeira sombra que havia aparecido para ele, que segurava o facão ensanguentado, um ser maligno que agora o possuía.

O menino continuou levitando até começar a ser movido furiosamente pela casa. Sua mãe e irmão não conseguiam se mover, tamanho era o pavor ao presenciar aquela cena.
Um som estridente de pneus sendo freados pôde ser escutado pela janela da sala e Pedro entrou desesperadamente na casa e deparou-se com aquela cena: o seu filho estava sendo lançado de uma lado para o outro, por alguma força invisível.

Seus pés não tocavam o chão e seu pequeno rosto alvo carregava uma expressão clara de pânico, como se pedisse socorro, sabendo que era aquela criatura feita de sombras quem manipulava o seu corpo daquela forma.
– Marcos!

Assim, a figura do menino parou de súbito em frente ao pai que estava na porta da casa, sua cabeça levantou vagarosamente e uma voz rouca e sombria saiu daqueles pequenos lábios pálidos.
– Que Marcos…?

Parte Um de Três, fim.