Minilua

Contos Minilua: Perseguida #27

Mistério, suspense, terror. Enfim, sinta-se a vontade para participar! O e-mail? Jeff.gothic@gmail.com Uma boa leitura!

                                                          Perseguida

Por: Natanael Vieira

Meus pais desapareceram. “Desapareceram!” Aquelas palavras ecoavam em minha cabeça. Não acreditei quando as ouvi. Quando a policia me chamou até o local, não tive fé nelas. Agora estou aqui, no local onde estavam de férias, esperando a pior das noticias.

A noite está chegando e meu medo está crescendo. Não tenho novidades da morte de Henrique nem do desaparecimento de Carol, mas minha consciência está tranquila. Sei que não os matei. Mas desde que fui atacada por Samantha há uma semana, minhas noites não tem sido tranquilas. Ouço meu nome sendo chamado, e em meus sonhos vejo Samantha arranhando uma porta.

Quando acordo, é impossível retomar meu sono sem tomar remédios. Deitada em minha cama, deságuo minhas lagrimas e mágoas sobre o travesseiro do hotel. Do mesmo quarto onde meus pais estavam. Eu não entendia como desapareceram. Estava dentro desse mesmo quarto e depois, “pum!”, desapareceram?

 Tomei meus remédios para dormir e me deitei novamente. No dia seguinte acordo com um telefonema.

– Quem é? – digo. Não falo oi, pois pretendia voltar a dormir.

– Olá Anne, aqui é o policial Ryan. – diz, e meus músculos se tencionam na hora. – Encontramos dois corpos. Precisamos de você para identificar se são seus pais.

Beirando o choro, me arrumo e vou até o local onde me chamaram. Era um depósito abandonado. Meu pânico cresceu quando retiraram os lençóis. O silencio se fez.

– Não. – digo. – Esses não são meus pais.

Passam-se dois dias, a aflição só apertava em meu coração. Eu sentia que estava perto dos meus pais. Estava confusa, desnorteada. Eu os sentia, mas não estavam aqui. Durante a noite, recebo uma ligação.

– Cristian! – exclamo ao atender o telefone.

– Olá, Carol. Como vão as coisas por aí?

– Andam tensas.- digo. E conto a história do reconhecimento dos corpos mutilados. Conversamos por cerca de 20 minutos até que ele se despediu e desligou o telefone. E lá estava eu sozinha novamente. A morte de Henrique deixou um buraco em meu ser. E logo depois, Carol.

A noite passou lenta e interminavelmente, mas um barulho durante a noite me chamou a atenção e me fez acordar. Era o barulho de algo se chocando contra o chão. Levantei-me e fui ver o que era. Descubro que era só uma panela, que por acaso estava dentro do armário fechado. Depois de tudo, eu jazia alerta e preparada. Rondei todo o apartamento com a lanterna na mão e – como eu supunha – não havia nada.

Voltei para minha cama. Cobri-me com o cobertor e lutei para dormir.Inutilmente!Meus pensamentos ficaram vagando e embora com muito sono, não dormi.Ouço batidas na porta. Meu coração se acelera. Eram 4 da manhã! Quem poderia ser? Levanto-me rapidamente e vou ver quem é.

Abro a porta e encontro ali um rosto jovial e bonito de um dos meus vizinhos de porta. Ele e a esposa estavam me ajudando nesse período difícil.

– Carol. – ele diz.

– Oi, Fernando. – digo. – Han.. O que foi?

– Queria saber se você está bem.

– Estou. Porque não estaria?

– É que ouvimos um barulho vindo daqui e depois começamos a ouvir vários gritos. Gritos seus. Eu e Claudia – esposa dele- ficamos preocupados e decidi vim ver o que aconteceu.

– Como assim, gritos? Que barulho? Não aconteceu nada! – digo, mas sou interrompida por uma porta que bate, causando um baque oco sobre os cômodos. Chamo Fernando para dentro e apreensiva, vou ver o que aconteceu. Descubro que a porta do meu quarto se fechara. Luto para abri-la, mas é em vão.

– Fernando, me ajuda aqui. A porta se trancou e não quer abrir. – ele veio e ficamos lado a lado, dando “ombradas” na porta. Ela não resiste e após alguns impactos, se abre.

Então, todas as portas juntos entraram num abrir e fechar constante, como um coral cantando a mesma canção, ao mesmo tempo.

Fernando ficou espantado, mas aquilo não me era estranho.- Fernando! Você tem que ir embora!

– O que tá acontecendo, Carol?

– Você precisa ir embora!

– Nós! – ele enfatiza.

– Eu preciso ficar!

– Não! Tem que ir!

– Não posso! São meus pais!

Ele se cala.

– Então vou ficar também!

– Não! Você vai morrer!

Um vento frio e gélido começou a percorrer o apartamento. Meu corpo todo se arrepiou quando uma voz baixa, baixa como um sussurro, um lamento, começou a soprar em meu ouvido.“Vá embora! Salve-se! Fuja enquanto é tempo! Liberte-se!” Reconheço imediatamente a voz. Meus pais.

– Mãe! Pai! – começo a chamar. Fernando fica confuso. Outra voz cochicha em meu ouvido.

“Você vai morrer, desgraçada!”

Essa voz me desperta pesadelos e lembranças. Samantha! Entro em desespero.

– Fernando! Vamos! – meus sentidos gritavam e me alertavam para fugir. Samantha tentara me matar a uma semana e não hesitaria em tentar novamente. Corremos até a porta. Quando a abro, é com um grito que recebo Claudia.

– O que está acontecendo aqui?! O prédio todo está acordando com esse barulho! Ela se apressou e entrou para dentro do cômodo que estremecia. A porta se fechou atrás dela. Meus olhos já estavam se enchendo de lágrimas desesperadas. Bato frustrada minhas mãos na parede quando a porta dá lugar à uma portal negro que se abriu.

Meu coração acelera quando seres deformados e humanoides começam a saltar de lá em nossa direção. Urros sombrios ecoavam pelo apartamento.

– Vamos logo! – grito, e corremos todos para o meu quarto. Aproveitamos uma brecha na porta e entramos todos juntos. Fecho e tranco-a.- Anne! O que está acontecendo aqui? – ralha Fernando. – Eles me querem, eles me querem! – afirmo aos gritos.- Vocês tem que ir embora ou vão morrer!

– Não vamos sem você- diz Fernando

– Precisamos fugir todos!- fala Claudia.

– Alguma ideia? – pergunto.

– Janela. – diz Fernando.

– Terceiro andar? – questiono.

– Isso é meio arriscado.- diz Claudia.

E eu concordo. Até que os monstros começam a bater incontrolavelmente na porta.

– Vamos depressa! – grito.

Fernando corre até a janela e a abre.

– Tem umas árvores ali, podem amortecer a queda.

Vou primeiro. – ele diz e logo em seguida, ouço o som das árvores. Claudia pula logo depois. Subo na janela e me preparo para pular. Até que mãos me puxam de volta. Olho para traz e vejo Henrique e Carol. O esboço de um sorriso preenche meus lábios.

– Você está correndo perigo, Anne. – eles se unem para dizer. – Samantha agora tem aliados. Muitos se juntaram a ela depois que ela lhes contou a história dela.- História? Quer dizer que um bando de demônios está no meu prédio porque acham que eu te matei?

– Sim, mas não se preocupe. Também juntamos nosso exército para a luta. – Luta? Por minha culpa?

– Vamos te defender e te deixar em segurança. Não descansaremos enquanto ela não estiver destruída.

– “Ela” é sua mãe!

– No mundo espiritual não existem laços de sangue. E ela ultrapassou todos os limites.

– O que vai acontecer então?

– A alma dela será presa. – Carol afirma.

– E esses que estão aqui? – pergunto.

– Voltarão para onde vieram.

A porta é arrebentada. Os seres demoníacos invadem meu quarto. Meu coração para pelo que pareceu uma longa eternidade. Samantha os liderava. Com um movimento que não compreendi, ela prende Henrique e Carol à parede. E se aproxima de mim.

O mais puro ódio reflete como brasa em seu olhar. Fico ali parada. Cansei-me de fugir.

– Anne – ela diz com voz grave.

Samantha – retruco com frio na espinha.

– Você vai pagar por tudo o que fez! – ela esbraveja e me arremessa contra a parede. Minha cabeça começa a latejar de dor. Ela se aproxima e tenta me golpear, mas desvio, e na mesma hora, uma das criaturas se agarra em mim e crava suas garras em meu braço. 

Com o sangue jorrando, grito de agonia e aperto o ferimento com a mão. – Anne! – ouço uma voz me chamando. Identifico como sendo de Claudia. – Pule!

Vou com dificuldade até a janela e me jogo com impulso em direção a árvore. Tudo se passa em câmera lenta. O ar parece congelado ao meu redor. Choco-me contra um galho grosso da arvore. Antes isso que o chão. Com dificuldades, desço até o mesmo, onde Fernando e Claudia  me aguardavam.

– O que está acontecendo? – me questiona Claudia, apavorada.

– Fantasmas e demônios.- decido contar a verdade.- Precisamos fugir!

E contra protestos, com a visão borrada pela dor, começo a correr e puxá-los comigo. Uma dor crescente e aguda se espalhava pelo meu braço, mas eu não podia parar. Começo a correr ainda mais rápida e agoniadamente quando a árvore em que caímos alçou suas raízes do chão e iniciou uma perseguição à nós três. Os dois ficaram pasmos. Eu só apertei o passo.

Sabia que coisas muito piores estavam por vir. Eles me seguiam estupefatos. Os carros nas garagens ligavam, buzinavam e saiam lentamente, todos vindo atrás de nós. Na nossa frente, abriu-se uma fenda no solo. Olhei para dentro dela, e um buraco sem fim se abria.

Olho para trás e vejo Samantha se aproximando. Quando volto meus olhos pra frente, vejo o buraco negro eclodindo e engolindo Fernando e Claudia. Corro aos gritos até eles, mas Samantha me agarra pelo braço ferido e o aperta com força. Solto outro grito entre os dentes, rangendo de dor.

Meus olhos avistam turvamente Henrique descer do céu, carregando uma arma, afiada, semelhante a uma foice, que reluzia intensamente. Os monstros tentavam detê-lo, mas não conseguiam. Ele passou por todos, cortando-os ao meio. Seus restos caíam no chão e se desintegravam imediatamente. Ele passou pelo buraco negro que sugava Fernando e Claudia, e, somente encostou o objeto lá, e o buraco se desfez, libertando os dois, que caíram contra o chão.

Samantha foi ficando histérica conforme seu filho se aproximava. Meus olhos vacilaram quando a visão da rua completamente destruída se tornou a visão de topos de prédios circundados pelo céu negro. Estávamos no topo do maior edifício da cidade.

Fui teletransportada.

E agora estava sozinha com Samantha. Afastei-me enquanto ela me encarava sadicamente.

– Ninguém vai te encontrar aqui.- diz ela.

Corro até a lateral do prédio. O chão estava tão distante..

– Henrique!  Socorro! – grito.

Ao se aproximar de mim, não tenho para onde ir. Jogar-me dali não seria uma opção. Olho para baixo e fico tonta com a altura.

Em um momento de distração, Samantha chega por trás e começa a apertar meu pescoço. Começo a sufocar-me e a debater-me contra ela. O céu começa a brilhar devido a uma tempestade que se iniciara. Minha mente começa a ficar leve e penso com intensidade em meus pais. Não sei a quanto estou sendo enforcada, segundos, ou minutos, perdi a noção de tempo.

Suas mãos se afrouxaram e me puxaram de encontro ao chão. Respiro apressada e aliviadamente quando consigo me soltar e levantar. Samantha está caída, com a lâmina afiada em suas costas. Mãos diversas seguravam o cabo do objeto. Papai, mamãe, Henrique e Carol.

Depois de um momento de agradecimentos, me entregam um fio de cabelo. De Samantha. Guardado em uma cápsula prateada.

– Tome meu amor, segure e guarde com todo o cuidado. – disse Henrique se despedindo. Percebi que todos os outros acenavam atrás dele.

– Enquanto este fio estiver em sua posse, Samantha estará presa, mas se outra mão tocar esta caixa, ela se abrirá e o fio sairá dela, e Samantha se libertará.Sinto uma pontada ao ouvir aquelas palavras, mas se ela viesse, eu estaria pronta para enfrentá-la.