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Contos Minilua: Pensamentos da Dona Morte #227

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Pensamentos da dona morte

Por: Suelen Sales

Ora, ora.
Como viemos nos encontrar? Justo aqui, justo nesse lugar? Acho que você não esperava me ver tão cedo, do mesmo jeito que me assustei um pouco com a sua presença. Mas, de qualquer forma, você está aqui agora. E acho que já pode sentir meu hálito frio no seu pescoço, esperando sua reação conforme avança nas palavras.

Deve ter notado que não sou má. Longe disso, sou amiga, companheira, você pode me confiar todos os seus segredos, ou talvez não conte, no fim eu vou saber de tudo. Eu sempre sei, eu sempre descubro.
As pessoas gostam de imaginar isso como uma corrida, acho divertido como tentam fugir de mim das mais variadas formas. Mas não adianta uma hora eu acabo chegando, cedo pra alguns, tarde para outros.

Imagine como uma corrida que eu lhe dou alguns anos de vantagens, e conforme o tempo vai passando eu me aproximo lentamente, vendo sua vida seguir como você quer, ou como você não espera. De qualquer modo, no fim sua alma será minha. E seremos amigos. Sim, bons amigos.

Algumas pessoas tem pressa, querem me ver cedo demais. E suas almas estão pequenas, como se procurassem respostas em meus braços e se aninham em mim. Todos os seus desesperos e mágoas somem, e eu posso olhá-las e dar um sorriso, um sorriso amigável, típico dos humanos, para avisar

“Tenha calma, eu estou aqui, na próxima vai ser bem melhor”. E vamos conversando silenciosamente por todo caminho, até nos despedirmos. E pra alguém que não queria me ver chegar, me parece um pouco triste quando lhe deixo.

Como disse: no fim, bons amigos.Tem aquelas que não querem me ver de jeito nenhum, fogem de mim, procuram conforto, tranquilidade. Se recusam a entregar sua alma tão cedo. Não sou má, e não vou trazer seu fim. Muito pelo contrário, vou te dar a chance de um novo recomeço. A essa altura você deve estar se sentindo estranho, é ruim não é? Ler com alguém atrás de você. Mas eu estou curiosa, quero saber tudo que está sentindo, quero entender o que é ter sentimentos.

Nesse momento estou lutando contra a vontade de lhe dar um tapinha nos ombros, de lhe avisar que não chegou sua hora ainda, eu só quero te explicar como é. E quero que você me explique também, essa capacidade louca de ter emoções. Eu existo há mais tempo que qualquer um. E sou responsável por todas as criaturas vivas do planeta, mas não ponha a culpa da morte em mim. Esse é só o meu nome, não o meu desejo. A cada arma criada, a cada família destruída, eu estou no meio. E não vou por vontade própria, vocês me arrastam pra lá e pra cá. Carregando-me em cada míssil, em cada tiroteio, em cada coração.

Eu sou uma causa, uma consequência da maldade. Mas de qualquer forma sou destinada a existir, uma hora todos vão. É quase como um relógio, sabe essa história de viver. E o meu fiel escudeiro está dentro de você, contando todos os minutos com os típicos “tum-tum-tum”, eu consigo entender o que seu coração diz. E eu invejo isso.

Mas quando um ser humano morre, quando mais uma alma desliza para meus braços frios. Eu garanto que uma nova flor vai nascer, ou um novo bebê vai chorar. E um novo Sol vai surgir para iluminar as pessoas que um dia já foram felizes.

Eu sou tudo, e nada.
Eu cometo erros, e às vezes não noto os acertos.
Eu também tenho um coração, e eu sou você.