Contos Minilua: Os indiferentes #21

E antes de começarmos, apenas uma dica: sempre que possível, procure revisar o seu conto. Os melhores, como sempre, são postados aqui no Minilua. Uma boa leitura!

                                                                 Os indiferentes 

Por: Sara Falcato

A manhã começa calma, no fundo, bem no fundo da nossa audição ouve-se o barulho atribulado dos carros já loucos para começarem o dia. Contudo o tempo parece estar sempre parado no bairro. Através da janela penetra a luz quente do Sol. Por mim ficaria todo o dia deitada na cama, gosto especialmente da minha companhia.

- Em?! Em! Oh Emma?! Acorda! – exclama Naomi já de pé.

Deixo a preguiça invadir-me todo o corpo, com um gesto de redenção fico de barriga para cima.

- Eu sei que o teu trabalho é um nojo… - diz-me ela colocando-se em cima de mim.
Aproxima-se e saúda-me com beijo leve.

- Eu gosto do meu trabalho. – desdigo as suas palavras. – Apenas existem dias que não tenho muita vontade de me levantar.

- E que tal se hoje não fosses ver os teus criminosos e viesses comigo? – propôs Naomi com o seu rosto em cima de mim.

Tentei perguntar onde é que ela queria ir, contudo os seus lábios colados aos meus não o permitiram.

- Hoje irá haver um protesto para os direitos dos homossexuais, acho lógico irmos juntas…

Levantei-me.

- Não me irás apanhar em protesto algum, essas coisas só servem para aguçar o sensacionalismo da comunicação social. – explico-me.

- Vou ter que discordar contigo, se as pessoas não protestarem, não têm direito a reclamar. Todos têm o direito a dizer quando algo não nos agrada… Cegos… Surdos… Mudos… Negros… Homossexuais… Bissexuais… E por ai a diante, as pessoas têm que ver que fazemos parte da sociedade, e que não vamos embora só porque elas querem. As pessoas não passam de um vazio escondido…

Naomi levantou-se da cama, vestiu os seus calções curtos e uma blusa de alças branca, procurou pelas suas botas altas e calço-as.

Aproximou-se de mim, os seus olhos tão azuis penetraram-me com força.

Os seus olhos são a água para acalmar o fogo do seu corpo.

Pensei.

Sorri.

- Sabia que se não fosse eu, daqui a uns anos seria uma velha sozinha com apenas um gato no colo? – disse-me ela sorridente. – Esta noite jantamos juntas? – perguntou-me colocando uma mexa do meu cabelo para trás da orelha.

- Sim, cá estarei… - beijei-a.

- A sério?

- Sim.

Voltei a beijá-la vivamente pela última vez.

Ela era “viva”, e gostava de acordar todas as manhãs só fato de respirar.

Abriu a porta, à entrada estava Marco, o rapaz que morava na casa em frente. Todo o dia nos acompanhava um ao outro para os nossos destinos diários, ele ficava à porta do seu instituto de ensino e eu seguia para a polícia. 
***
Durante todo o dia pela televisão passavam imagens dessa grande manifestação.

Achava naquilo certa graça, pois sabia que Naomi por ali andava aquilo era o reflexo do seu ser, era a sua fúria e vontade de dizer ao mundo quem era sem qualquer problema. E como ela, existiam mais, e mais pessoas em protesto, não por quererem direito iguais, mas sim para mostrarem ser quem são. Uma parte da sociedade estava a perder o medo de falar e com isso vinham às revoltas do povo que se achava dono da razão, nem eles sabem o que é isso.

Na hora do almoço tentei telefonar-lhe, mas ia parar o atendedor de chamadas.

Não te metas em problemas! Não posso estar sempre a tirar-te detrás das grades!

Almocei na esquadra, dentro do meu gabinete a olhar para o infinito das paredes brancas. Agarrei uma carta que ela me escrevera nas férias, já há alguns anos, sempre gostei da maneira como a terminou, e sempre que algo me preocupa gosto de ler as suas palavras:

«Posso até nunca olhar-te nos olhos;

Posso até nunca ver o teu sorriso;

Posso até nunca cruzar-me contigo na rua;

Posso até nunca saber qual é o teu sofrimento;

Posso até nunca saber aquilo que te deixa alegre;

Posso até nunca conhecer a tua história;

Posso até nunca abraçar-te;

Posso até nunca beijar-te;

Posso até nunca ouvir o som da tua voz;

Posso até nunca conhecer-te;

Ou morrer antes que isso aconteça;

Mas quero que saibas que te amo, pelo simples fato de existires, de estares vivo.

Só pelos simples fato de teres nascido te torna importante.

Quantas vezes olhas-te para o espelho e tiveste orgulho naquilo que estava escondido atrás do teu reflexo?»

Sabia que aquilo não era escrito para mim, mas sim para que aquela carta tivesse um significado para toda a gente que a lê-se.

Nesse dia fui para casa cedo, preparei o jantar.

Esperei que aparecesses, não vieste, telefonei nada disso aconteceu.
Adormeci na minha preocupação, até que por volta das três da manhã o meu telemóvel tocou:

- Inspetora precisamos de ti…

Levantei-me contra vontade, peguei no carro e segui para onde me indicaram. 
À porta de um apartamento estava muita gente amontoada, passei por entre as pessoas. Não acreditei no que vi ao entrar no quarto: Naomi em cima da cama, sem roupa, amarrada, os olhos não tinham brilho o rosto tinha salpicos de sangue, corpo mutilado, no seu ventre estava escrito com cortes a palavra “Puta”.

Naquele momento deixei de ser eu. Eu tinha morrido, ela é que me olhava. Pelo menos assim eu quis acreditar.

Aproximei-me.

Desviei o cabelo que te cobria o olhar azul sem vida.

Cerrei-te os olhos.

Pela última vez na minha vida os meus lábios tocaram-te.

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