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Contos Minilua: Onde os loucos não descansam #254

E sim, suspense, mistério, terror, enfim! Todos os temas são aceitos. O e-mail de contato, claro: Jeff.gothic@gmail.com! A todos, uma excelente leitura!

Onde os loucos não descansam

Por: Thiago Lelis

William abriu os olhos devagar, ele fora acordado pela chuva que batia com força na sua janela. Ao olhar para o relógio na parede ele percebe o quão tarde havia acordado. Era meia-noite e ele ainda estava no escritório. Ele ficou surpreso com aquilo. Já trabalhava no hospício há dois anos e isso nunca havia acontecido. E mesmo assim, por que ninguém o havia acordado?

Será que tinham se esquecido dele e trancaram as portas? De todo jeito, aquilo não era coisa para se preocupar. Ainda havia o vigia noturno do hospício. Era só pedir a ele para abrir a porta da entrada e pronto, pegaria o carro e iria para casa descansar.

Antes de se levantar, William guarda os documentos que estava assinando. Um deles estava molhado com sua saliva, deixando ele um pouco estressado. Sorte sua que o documento era sobre um paciente que tinha falecido recentemente. A foto do paciente trouxe-o lembranças do mesmo.

Seu nome era Gabriel Abner, mas todos os chamavam de Abner. Ele era considerado o paciente mais instável e violento do hospício. Ele via monstros em cada canto escuro, em cada olhar, em cada pessoa. Por causa disso ele era muito violento, então passava a maior parte do tempo em uma sala branca com paredes macias para sua própria segurança. Ele também teve que usar uma camisa de força o tempo todo. Vários psiquiatras tentaram trata-lo, mas nenhum teve êxito.

William foi o último psiquiatra que falou com Abner. Na conversa dos dois, Abner só olhava para baixo, nunca nos olhos. William tentou fazê-lo falar com ele, mas ele ficou a conversa inteira olhando para o chão sem piscar e sussurrando “ele está vindo” como se estivesse dando um aviso a si mesmo para não se esquecer.

No entanto, no final da conversa, ele pulou em cima de William, derrubando-o no chão, e antes que os seguranças chegassem, ele sussurrou em seu ouvido: – “O manto negro é a sua marca. Ele já está aqui e agora é a sua vez, doutor” – caindo em uma profunda gargalhada ao terminar a frase. William olhou para seus olhos enquanto os guardas o seguravam contra a parede e por um segundo pode ver algo neles. Algo negro.

Já havia se passado duas semanas desde aquela conversa e uma desde a morte de Abner. Abner morreu estrangulado pelas suas próprias mãos, algo considerado impossível. Ele não sabia o porquê, mas as suas últimas palavras para ele ainda ecoavam em sua mente. Agora é sua vez, doutor. Ele jogou os documentos e a foto de Abner no lixo. Agora tudo aquilo já era passado.

Enquanto arrumava o resto dos documentos, ele vê um menino sentado na cadeira da frente olhando para o chão. Assim como Abner, disse uma voz em sua mente. William ignora a voz e da uma olhada no menino. Ele parecia ter em torno de 10 anos. Usava uma camisa listrada com bermuda azul e sandálias. Ele balançava seus pés para frente e para trás.

William mexeu a cabeça e olhou mais uma vez para o menino só para ter certeza que ele realmente estava lá. Era bastante estranho um menino daquela idade estar num hospício e principalmente naquela hora em frente a sua cadeira – Oi garoto – disse Wiliam. O menino não deu atenção a William, toda a sua atenção estava focada em seus pés que balançavam para frente e para trás – Garoto? – dessa vez o menino levantou a cabeça e olhou para William com espanto – Você consegue me ver? – perguntou o garoto.

– Parece que sim – respondeu William.

– Não era para você me ver.

– Por quê?

– Porque eu estou morto.

– Como? – William recuou um pouco após ouvir o menino. Não podia acreditar na resposta dele.

– Você ouviu. Eu estou morto! – gritou o menino.

A conversa já estava num ponto estranho até mesmo para William, que acredite já tivera cada conversa com diversos pacientes – Por que você acha que está morto?

– Porque eu fui assassinado enquanto brincava aqui.

– Você brincava nesse hospício?

– Não – o garoto estava ficando cada vez mais nervoso com William – Quem diabos brincaria em um hospício?

– Você não disse que brincava aqui?

–  Sim. Na minha casa.

– Mas aqui é um hospício.

–  Eu sei.

William acabara ficando bastante irritado com o garoto. A conversa não estava chegando a lugar nenhum. Ele acabou chegando à conclusão que o menino  na sua frente podia ser um novo paciente que tinha escapado do quarto. O caso da Síndrome de Cotard parecia ser o problema dele. No entanto, ele não se lembrava de ter se encontrado com esse menino antes.

Talvez ele tenha sido consultado por outro psiquiatra do hospício. Além dele, ainda tinha quatro psiquiatras trabalhando no hospício. Mesmo assim era uma pena. Alguém tão jovem como ele ter vindo para um lugar de loucos.

– Bem, está ficando tarde – disse William. Ele se levantou da cadeira e foi até a porta – Venha. Eu te acompanho até seu quarto.

Antes que William abrisse a porta, o menino gritou – NÃO! Por favor, não faça isso!

– Por que não? – Perguntou William.

– Porque eles estão lá fora. Perambulando pelos corredores, visitando cada paciente desse hospício.

– E quem seriam eles? – William já estava ficando curioso.

– São seres das sombras. Eles alimentam-se da loucura e do sofrimento. Num lugar como esse, cheio de almas atormentadas eles se tornam fortes. Fortes como demônios.

Mais uma surpresa. Parecia que o menino também tinha esquizofrenia. Aquilo era raro. Um garoto jovem como ele ter duas síndromes era algo muito raro. Ele sentia pena do garoto. Ele iria sofrer muito. Não há nada para se preocupar garoto. Não há nada na escuridão. Tudo surge da mente. É apenas nosso cérebro tentando pregar uma peça em nós – disse William.

– Você não entende. Eles estão ai fora, visitando cada quarto. Eles apenas não vêm aqui, pois não há nada aqui. Esse é o único lugar seguro desse lugar, e se o senhor abrir essa porta mostrará  a eles que há algo aqui. Que o senhor está aqui.

William estava cansado e sem um pingo de paciência. Queria ir logo para a sua cama dormir. Então ele abriu a porta e o menino gritou. William olha para o corredor pouco iluminado e volta seus olhos ao menino – Está vendo? Não… – a frase morre quando ele vê que o menino não está mais na sala. Ele vai à mesa e olha debaixo dela.

O menino não estava lá. Olha nos cantos dos armários e atrás das cortinas. O menino também não estava em nenhum desses lugares.

– Bem que meu pai disse que trabalhar com loucos dava nisso – disse William brincando consigo mesmo. Ele andou para fora da sala, precisava encontrar o vigia noturno, ele devia estar com as chaves da entrada.

– Meu escritório fica no primeiro andar. Se eu não me engano, a sala de segurança fica no final do corredor – ele segue suas instruções. Felizmente, não precisou chegar ao final do corredor para encontrar o vigia, ele já estava indo em sua direção.

– Dr. Lamec me desculpe. Sua mesa fica no canto, então não deu para ver direito o senhor pela câmera de segurança – disse o vigia noturno.

– Só me leve para fora que estará tudo perdoado – disse William. O vigia era alto e magro, um homem que não parecia ter força o suficiente para derrubar qualquer pessoa. Alguém que não parecia ser ideal para o trabalho de vigia noturno na opinião dele. Se caso um dos pacientes escapasse do quarto, William imaginava que ele não poderia derrubá-lo.

– Farei isso Dr. Lamec.

– Por favor.  Me chame de William.

– Sim, William. Aliás, meu nome é Renan.

– Renan? Acho que ainda não tinha ouvido ninguém por aqui com esse nome.

– É porque eu sou novo por aqui. Na verdade, hoje é meu primeiro dia. – Ah, então, seja bem-vindo.

– Obrigado. O senhor poderia esperar enquanto eu vou pegar as chaves na sala? Vai ser rápido. Eu espero.

William ficou olhando Renan  indo pelo corredor até chegar à porta do final do corredor. O silêncio dominou todo o corredor após Renan bater a porta da sala de segurança. Bem, foi assim durante alguns segundos. Até que uma voz o chamou – William – a voz era baixa e seca, ela vinha como um sussurro pelo ouvido direito dele. William se vira para onde a voz tinha vindo. Não havia nada além do corredor mal iluminado. A voz tinha sido apenas a sua imaginação.

O tempo passou e Renan não voltou. William decide ir por ele mesmo para a sala de segurança ver porque Renan demorava tanto. A cada passo William escutava passos vindos de trás. Era como se seguisse os seus passos. Ele então  (erro 11) para de caminhar e olha para trás.

Como esperava nada estava atrás dele. Ele continua a andar, e os passos surgem novamente logo atrás. Ele para mais uma vez, e olha para trás mais uma vez. Nada. De novo, não havia nada.

– Devo estar enlouquecendo – Disse William.

Ele segue seu caminho. Os passos voltam mais uma vez. Ele começa a acelerar, e os passos também. Ele corre e os passos atrás dele fazem o mesmo. Ele olha para trás enquanto corre e dessa vez ele vê algo. Um ser coberto por um manto. A criatura revela seu rosto enquanto corre. Ele era de forma humana da cor branca. Possuía olhos de um amarelo podre. A criatura abre sua boca, revelando seus dentes pontiagudos, em seguida ela dá um grande rugido que ecoa por todo corredor.

O medo o domina e o torna mais rápido, infelizmente a criatura também era rápida, ela chega cada vez mais perto dele. A cada passo a sala de segurança parecia estar mais longe, a cada passo a criatura se aproxima mais de William.

William tropeça e cai de cara no chão. Com o rosto sangrando pelo nariz, ele olha para trás e vê a enorme criatura levantando as garras que escondia no manto. Elas eram afiadas e brancas. O monstro desce suas garras e…

– William? –  a voz de Renan surgiu no meio da escuridão – William?

Ele abre os olhos e se vê encolhido no chão perto da sala de segurança. O corredor estava vazio, com apenas os dois lá. Ele toca seu rosto e vê que não está  mais sangrando ou doendo. O senhor está bem? – perguntou Renan – O que faz aí no chão encolhido?

– Bem, você estava demorando daí eu pensei em vir nessa sala. Puxa, devo ter caído no sono – William estava bastante confuso com o que lhe havia acontecido.

– Deve estar bastante cansado – disse Renan – Vamos.  Eu acompanho o senhor até a saída – ele ajudou William a se levantar e os dois seguem pelo corredor até as escadas – Parece que os elevadores estão quebrados. Então teremos que usar as escadas – disse Renan.

– Tudo bem – William respondeu Renan com a mente longe. Ele ainda pensava na criatura e no que havia acontecido no corredor. Havia sido tão realista. A voz, a dor que sentiu quando caiu e as criaturas, tudo tinha sido tão real. Os sonhos são assim, disse a voz em sua cabeça. Apenas esqueça e vá para casa dormir.

Enquanto caminhavam pelo corredor, nenhum dos dois falava. O silêncio era coberto apenas pelo som metálico que as chaves faziam quando Renan andava. William pensava no que havia visto, na criatura de manto negro. Pensava no que Abner havia dito,  o manto negro é a sua marca. Chegara à conclusão que a voz estava certa, ele estava cansado e com esse tipo de trabalho pode realmente dar pesadelos.

Os dois chegaram ao final do corredor. Renan abriu a porta para as escadas – Tá bem escuro – disse Renan – Que sorte que eu tenho isso! – ele tira uma lanterna do seu cinto – Vamos senhor – Dito isso, Renan entra na escuridão das escadas.

Antes de ir, William dá uma última olhada para o corredor. Será que a criatura que viu era REALMENTE um sonho? Pensa ele. Bobagem. É claro que era. Ao encerrar os pensamentos, ele segue Renan.

– Sorte que é só um andar de diferença – disse Renan – Eu não aguentaria andar por uma longa escadaria no escuro. Mesmo com uma lanterna. Sabe, eu desde pequeno tinha bastante medo do escuro. Sempre  quando saia do banheiro e tinha que desligar a luz quando voltar, eu as desligava correndo direto para meu quarto e pulava na cama me cobrindo com meu cobertor.

– E se eu sem querer deixasse uma acesa eu não voltava nem a pau. De manhã minha mãe vinha reclamar de mim por deixar a luz acesa. Mas eu preferia aquelas reclamações a voltar e apagar a luz. Tinha muito medo do escuro.

Renan continuou a falar, mas William estava com a mente concentrada no que havia acontecido no corredor, na criatura que havia visto. Ele tentava pensar em outras coisas, mas não conseguia parar de pensar no manto negro, nas afiadas garras brancas, no rosto branco com seus dentes pontiagudos e nos seus olhos podres como cadáveres. Com a imagem do monstro veio junto da voz de Abner: “O manto negro é a sua marca”.

Renan foi o primeiro a passar pela porta para o corredor do térreo, e quando William, logo atrás, passou pela porta, Renan não estava mais ali. Ele simplesmente havia desaparecido. William olhou por todo o corredor e gritou por Renan. Ele pensou no que ocorreu desde que acordou, no menino, na criatura e no desaparecimento de Renan. Devo estar sonhando, pensa William. Sim. Só pode ser isso. Eu ainda estou na minha sala dormindo.

A visão do menino, que havia visto na sua sala, no final do corredor parou seus pensamentos – Ei! Garoto! – gritou William tentando chamar sua atenção. O menino o vê e passa pela penúltima porta no final do corredor.

William decide ir atrás do menino. Ele pensa que talvez o menino tenha as respostas para tudo aquilo, podendo provar a si mesmo que estava sonhando.

Ele corre até a porta que o menino passou. Fica parado encarando-a. Ele tem medo do que pode encontrar se abri-la. Ele tem medo da verdade que pode encontrar por trás daquela porta. Ele engole em seco, junta força de vontade e entra no quarto.

Dentro do quarto não havia ninguém. Apenas uma cama com um colchão coberto por um lençol branco e um armário com fotografias em cima cobriam o pequeno quarto. Ele olha de baixo da cama e não encontra ninguém. Ao olhar para as fotos no armário ele vê uma que chama a sua atenção. Na foto está o menino com sua camisa listrada, sua bermuda azul e sandálias. Ele está em um jardim segurando uma bola e sorrindo para a câmera.

Foi então que ele viu algo que se escondia nas sombras da árvore atrás do menino. Ao olhar mais de perto ele vê um ponto branco no meio da sombra. O ponto branco começa a se aproximar cada vez mais do menino e então William percebe do que se trata, quando ele fica grande o suficiente para ver um rosto com seus olhos podres.

William joga a foto no chão e sai correndo da sala. No corredor as luzes começam a piscar. Ele olha para trás enquanto corre e vê a criatura. Dessa vez ela não usava o manto. Com seu corpo magrelo e branco ela corria feito um lobo. William corre até a porta do outro lado. Infelizmente a porta estava fechada e ele não tinha as chaves.

A criatura estava cada vez mais perto com a escuridão vindo por trás dela. William empurrava a porta desesperado, ele tentou arromba-la, mas não conseguia. A criatura estava cada vez mais perto, aumentando cada vez mais o desespero e o medo dele. E então veio a escuridão.

As luzes se acendem e ele dá um suspiro de alivio ao ver que a criatura desaparecera. A porta da saída se abre. Ele passa por ela e vai direto para o carro. O vento frio carregado de pesadas gotas d’águas batiam com força nele enquanto ele corria para o seu carro. Ele parara em frente ao carro e enfia suas mãos em seus bolsos procurando desesperadamente pela chave.

No meio do barulho dos pingos que caiam no chão, algo surgiu. Um som de garras sendo arrastadas pelo chão. William não quis olhar para trás, ele se concentrava em encontrar a maldita chave. O som chegava cada vez mais perto dele. O desespero e o medo se tornam sua companhia enquanto a chuva caia e a procura pela chave ainda não tinha sucesso. Ele finalmente acha a chave e entra no carro.

Ao entrar, ele tenta ligar o motor. De primeira o carro pega. Ele finalmente se sentia bem por poder sair daquele lugar e nunca mais voltar, foi então que um leve sopro frio veio por trás. Ele olha pelo retrovisor e vê a criatura sentada olhando para ele. Uma dor surgiu em seu estômago, era como se facas tivessem atravessando o seu estômago. Ele olha para baixo e vê garras banhada pelo seu sangue.

A criatura encosta seu rosto ao lado do de William e sussurra: – William – com a mesma voz seca de antes. A escuridão veio e William se reconfortou nela, achando que encontrou a paz. Até que…- William – no meio da escuridão, a voz de Renan veio – William.

William abre os olhos e se vê mais uma vez em sua sala, sentado na cadeira. Ele olha para frente e vê Renan sentado na cadeira da frente olhando para ele.

– Pelo amor de deus – disse Renan – Pensei que nunca ia acordar. William vê das sombras atrás de Renan uma forma surgir. A criatura voltara a usar seu manto negro, deixando apenas seu rosto e suas garras a mostrar. Ela levanta as garras e com um rápido e limpo movimento, arranca a cabeça de Renan.

William gritou enquanto o sangue de Renan era jorrado por toda a sala, e a criatura sorria ao ver mais um homem sendo engolido pela sua loucura.

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