Contos Minilua: O Zelador #209

Lembrando, mais uma vez, que todos os temas são aceitos: suspense, mistério, terror… O e-mail de contato: Jeff.gothic@gmail.com! A todos, uma excelente leitura!




O Zelador

Por: Paulo Matheus

A chuva caia torrencialmente em meio a noite fria, os faróis dos carros cortavam o breu em alta velocidade e o som dos motores quebrava o silêncio com a sua monotonia. Um veículo diminuiu de velocidade e saiu da pista, seguiu pelos paralelepípedos e parou ao lado de uma das bombas de combustível. Um funcionário do posto o atendeu, minutos depois ele pagou a gasolina ao funcionário e deu a partida. Dirigiu alguns metros até estacionar em frente ao restaurante do posto de combustível.

Desligou o limpador de para-brisa que se mexia freneticamente de um lado para o outro, fechou a porta e trancou o carro. Correu até a entrada do restaurante para não se molhar muito, e deixou a luz intensa das lâmpadas inundar seus olhos. Dentro do restaurante havia uma pequena lanchonete e ele resolveu comer alguma coisa rápida. Enquanto mastigava o seu salgado ele deu uma analisada no ambiente ao seu redor, era um restaurante simples de beira de estrada, e estava vazio àquela hora. Já passava da meia noite.

A viajem estava sendo exaustiva e ainda faltavam várias horas pra chegar, se o carro não tivesse quebrado no caminho ele já estaria dormindo em sua cama confortável. As gotas de chuva escorriam pela janela, e ele fitou um vago reflexo de si mesmo no vidro.

Estava cansado e com sono, havia chuveiros e banheiros ao lado do restaurante, ele decidiu tomar um banho e dormir um pouco dentro do carro. Comprou algumas fichas para o chuveiro e saiu do restaurante, caminhou por um corredor lateral lendo as placas no alto e sentiu o vento gelado invadir suas entranhas. Espero que a água seja quente, pensou.

Encontrou o lugar certo e entrou, pensou que iria encontrar alguns caminhoneiros, mas o lugar estava vazio, exceto por um faxineiro solitário que trabalhava num canto onde a lâmpada estava queimada.

Ele foi até o zelador perguntar como funcionava o chuveiro, ele explicou que era só colocar a ficha na máquina que a água começava a cair. Agradeceu o homem e virou a esquerda num corredor cheio de banheiros, escolheu um e fechou a porta. Despiu-se e pendurou a roupa num gancho na parede, os azulejos estavam amarelados, mas limpos até onde podia ver. Entrou no Box e colocou a ficha na máquina, a água caiu instantaneamente, mas demorou a esquentar.

O som do mundo lá fora se tornou imperceptível e ele relaxou um pouco, uma nuvem de vapor começou a se formar e a desaparecer além das paredes do banheiro, isolando-o ainda mais de seus problemas.

Quando o tempo das fichas acabou ele saiu do Box se lamentando por não ter comprado uma toalha, felizmente havia papel toalha numa das paredes. Puxou vários e se secou, fitou seu rosto pálido no pequeno espelho e jogou a bola de papel no lixo. Ficou alguns minutos se vestindo e ajeitando o cabelo, um barulho estranho desviou sua atenção do espelho, alguma coisa estava sendo arrastada pelo chão.

Ele subiu no vaso sanitário e espiou por cima da parede, o faxineiro estava arrastando um machado atrás de si, ele caminhou pelo corredor entre os banheiros e entrou em um deles. Assustado e surpreso ele deu uma última ajeitada no cabelo e saiu, caminhou pelo corredor e deu uma olhada no banheiro em que o zelador havia entrado, estava vazio.

Saiu dos chuveiros e sentiu novamente o vento frio e a umidade da chuva que caia sem parar, andou pelo corredor externo até chegar à entrada do restaurante, queria comer mais alguma coisa antes de voltar para o carro. Com as mãos enfiadas no bolso da blusa ele passou pelo caixa e foi para a pequena lanchonete. Escolheu mais um salgado e a atendente anotou seu pedido na comanda.

Enquanto comia ele percebeu como aquele lugar estava vazio e silencioso, apesar da chuva e dos carros na pista. Só havia uma mulher no caixa e outra na lanchonete, e o faxineiro nos chuveiros. Presumiu então que o restaurante não funcionava de madrugada, apenas a lanchonete e os chuveiros.

Entregou a comanda a moça do caixa e pagou o valor.

- O faxineiro de vocês é um pouco assustador - brincou enquanto ela voltava o troco.

- Mas nós não temos faxineiro no turno da madrugada - ela o olhou surpresa.

- Ah, não era isso que eu estava tentando dizer… Desculpe, deixa pra lá.

A moça do caixa deu um sorriso amigável e ele foi embora. Virou a direita no corredor para sair de lá e ir para onde seu carro estava estacionado, mas o que ela disse ficou ecoando em sua mente: “não temos faxineiro no turno da madrugada”.

Ele ficou parado no alto da rampa de descida com a chuva caindo aos seus pés. Ele deu meia volta e caminhou a passos rápidos em direção aos chuveiros, pensou que fosse uma alucinação ou coisa do tipo. Mas pareceu tão real…Entrou nos chuveiros, mas não o viu. Vasculhou todos os banheiros e nenhum sinal dele, desanimado fitou o seu reflexo no espelho gigante pregado na parede, perto da entrada.

Devia estar mesmo sonhando acordado, era culpa do cansaço concluiu. Estava prestes a dar o primeiro passo para sair dali quando um apagão deixou tudo no escuro, poucos segundos se passaram até a energia voltar, uma porta bateu ao fundo quando as luzes se acenderam. Estava assustado, mas queria descobrir o que era aquilo, devia ser uma brincadeira, alguém estava brincando com ele.

Uma das lâmpadas fluorescente antes perfeita, agora piscava como se fosse apagar a qualquer momento. Chegou até a porta que havia se fechado, empurrou-a com um certo receio do que poderia encontrar do outro lado, mas se aliviou ao ver que estava vazio. Deu alguns passos para olhar dentro do Box, tudo normal.

Deu um pulo quando a porta se fechou atrás dele, correu até ela e a abriu, saltou para fora do banheiro assustado, mas novamente não encontrou nada fora do normal. Ficou parado por alguns instantes ouvindo a chuva lá fora, seus olhos se voltaram para o espelho gigante, algo se moveu no espelho, mas foi rápido demais. Chegou mais perto para ver melhor, mas não havia nada de estranho.

Precisava sair dali, isso o estava deixando paranóico, andou depressa até a porta de saída dos chuveiros, mas a porta bateu tão forte que o eco soou como um trovão em seus ouvidos.  Ficou paralisado e começou a suar frio, com o coração disparado ele esticou a mão e abriu a porta novamente. Mas o que viu o deixou estupefato, até onde seus olhos podiam ver havia apenas névoa, era como se ele estivesse flutuando em meio a nuvens de tempestade. Apenas névoa e escuridão.

Olhou para baixo e imaginou-se caindo de uma altura imensa, embora talvez ainda pudesse estar no solo. A física parecia estar torta.

Ouviu novamente o som de algo sendo arrastado pelo chão e se virou, ele estava de pé ao lado do batente da porta, a um passo do sombrio e desconhecido, mas com os pés no que parecia ser a realidade. Mas quando seus olhos fitaram o filete de sangue que havia surgido no piso, sua mente quis com todas as forças correr dali. O líquido vermelho se estendia e virava a esquerda no corredor, o zelador com seu jaleco branco surgiu arrastando o machado e parou em frente ao espelho.

- Parece um pouco assustado - o faxineiro olhou a si próprio no espelho.

Ele agarrou-se a porta, buscando algo que fosse sólido e seguro.

- Hmm…- abotoou lentamente alguns botões do jaleco.

O estranho continuou ajeitando sua roupa e se olhando no espelho, numa paciência que parecia infinita. Era o mesmo zelador com que conversara antes, mas o machado e o sangue tornavam tudo incompreensível e assustador.

- O que está acontecendo aqui? – perguntou ele com a voz trêmula.

- Acho que se eu lhe contasse o senhor não reagiria muito bem, então… Acho que devo omitir alguns fatos por enquanto.

Tudo ficou em silêncio de repente, a chuva parecia não cair mais e o barulho dos carros na pista desapareceu. O estranho se desviou do espelho e olhou diretamente para ele, que ainda se agarrava a porta. Ele virou o rosto e fitou a nevoa lá fora, uma vastidão de silêncio e escuridão.

- O que é isso? – seu coração ainda saltava no peito.

- Isso é o que eu posso chamar de representação do vazio – sua voz era lenta e arrastada.

- Mas isso não faz sentido… - sussurrou alto o bastante para que ele ouvisse.

- Assim como isto - ele ergueu o machado -representa sofrimento. - Ele deslizou a lâmina do machado sobre o antebraço esquerdo fazendo um corte profundo. - E isto é dor.

O sangue vermelho escuro jorrou do corte e formou uma poça enorme sobre o piso branco, ele estava horrorizado com aquilo, um arrepio percorreu seu corpo e pensou que fosse desmaiar.

- Isto não é real, não é real… -sussurrou.

-Não parece real pra você? – A voz dele suava estranha e provocadora. - Que pena, pensei que estava sendo claro. Bom, me desculpe por isso. Talvez eu deva ser mais direto.

O zelador ergueu o machado até a lâmina quase encostar nas suas costas, com a força das duas mãos ele lançou a pesada lâmina, ela cortou o ar fazendo um breve assobio e aterrissou no ombro dele. A dor lancinante invadiu seu corpo e ele caiu de joelhos gritando, com as mãos tremendo ele puxou o cabo e retirou a lamina do seu ombro. O sangue começou a pingar no chão e formar uma poça, confuso ele ergueu os olhos e viu o estranho se aproximar lentamente.

- Por quê? – As palavras saíram lentas e entrecortadas por lampejos de dor. - Por que isso?

O estranho de jaleco pegou o machado do chão e se preparou para mais um golpe.

- Porque algumas pessoas não sabem apreciar o fim justo que tiveram.

Algo tocou em sua cabeça e de repente tudo ficou escuro. Uma luz azul e vermelha piscava freneticamente, mas sua visão estava um pouco turva para que pudesse identificar o que era. Um som alto e familiar ecoou em seu ouvido, pessoas gritavam palavras de ordem e homens de uniforme corriam de um lado para o outro.

Sua visão melhorou um pouco e ele pode ver uma massa amorfa sendo retirada dos restos do que parecia ser um carro. Não havia um rosto para observar, mas aquele corpo em pedaços lhe parecia familiar.

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