Minilua

Contos Minilua: O terror #141

Sim, e para participar, não tem mistério. Para tal, envie o seu texto para: Jeff.gothic@gmail.com! A todos, uma excelente leitura!

O Terror

Por: Bruno Darkness

Não sou escritor, nem sequer acredito que esta seja uma história de ficção, pois apenas a transcrevo aqui as palavras e visões que me vieram em sonhos. Por horas eu o ouvi gritar em minha cabeça, quem eu não sei, mas sei que estava desesperado, eis suas palavras combinadas a minhas descrições de meus sonhos:

“Por que eu não o ouvi? Todo esse sofrimento, esse horror, poderia ser evitado se eu tivesse o ouvido! Deus! Por que comigo? Alguém, qualquer um que puder me ouvir, me ajude! Eu preciso de ajuda, por Deus!”

Foi assim que os sonhos começaram, seguidos dos eventos a seguir, nos quais eu vivenciei como espectador de um sonho, como um fantasma observando os humanos, sem poder fazer contato com eles. Em alguns momentos, eu mesmo estive como dentro das pessoas que observei, mas não pude tomar decisão alguma, apenas compartilhar de seus sentimentos. E do terror.

Era noite, estava frio como em uma noite de inverno, a lua estava cheia e brilhava sobre o manto escuro coberto de jóias que formava o céu, era uma visão estupenda, pois naquela noite tudo parecia medonhamente belo, a noite parecia estar viva, como se tivesse se enfeitado para algum grande espetáculo que estava para acontecer. Logo estava dentro de uma casa, uma que nunca estivera antes, mas tinha a sensação de saber exatamente onde cada cômodo ficava. A porta do quarto se abriu e uma pequena mãozinha pálida agarrava a maçaneta e um garotinho de cabelos loiros e grandes olhos azuis chamava por seus pais, estes perguntaram impacientes o que ele queria:

– Quero dormir com vocês – respondeu o garoto.

– O que foi? O que você tem medo filho? – Perguntou sua mãe.

– Tem um monstro debaixo da minha cama. Ele vai me comer.

– Ele não vai te comer – disse o pai – Aliás, ele não existe.

– Existe sim! – Retorquiu o garoto – Ele falou comigo!

– Volte para seu quarto – Interrompeu o pai – Volte para seu quarto e durma! Eu tenho que trabalhar amanhã cedo, você não pode ficar.

O garotinho, vencido, voltou para seu quarto, era inútil tentar convencer os adultos da existência de um monstro debaixo da cama. Já no quarto, ele se cobriu da cabeça aos pés, tremendo de medo, de início senti pena de seu medo infantil, pensando em como as crianças tem medo daquilo que não conhecem, porém meus pensamentos se dissiparam quando as cortinas da janela se mexeram como o soprar do vento, mesmo a janela estando fechada.

O garoto pareceu se envolver ainda mais no cobertor, as sombras do quarto escuro começaram a se mover, de uma maneira estranha e irregular, o feixe de luz que vinha da janela pareceu estreitar, sendo esmagado pelas sombras, sons começaram a surgir dos cantos mais escuros do quarto, risos, baques, leves arranhares de unha, até que finalmente pude ouvir um som abafado, mas continuo, um toc vindo da madeira da cama, depois outro e outro.

Agora o garoto formava uma bola, tremendo convulsivamente sobre o colchão, uma gargalhada abafada veio da parte de baixo da cama e de repente, eu vi olhos, vermelhos sangue, com um fulgor louco, capazes de fazer qualquer um congelar só por um mero vislumbre. Então pela primeira vez na visão eles olharam diretamente para mim.

Assustei-me e percebi que agora estava novamente no quarto do casal, o homem jazia dormindo, virado para o lado externo da cama, com o corpo meio desnudo, a mulher não estava mais na cama, ela caminhava sonolenta até a porta. Olhei novamente para o homem, enfurecido por ele não dar ouvidos ao filho. Alguma força que rege os sonhos me arrastou para junto da mulher, que descia as escadas até a cozinha, obviamente em busca de um copo de água, as luzes estavam apagadas e ela seguia automaticamente até a porta do cômodo.

Creio que passei alguns minutos observando-a procurar um copo entre as sombras no armário, ir aos tropeços a pia, encher o copo com água e beber, gole por gole, eu a vi executar os movimentos lentamente, como se tudo aquilo acontecesse para perceber cada detalhe do lugar, cada movimento por mais sutil que fosse, até mesmo observar o quão bela aquela mulher era.

Senti um choque e como se eu estivesse dentro da mente daquela desconhecida, tive uma forte sensação de estar sendo observado pelas costas, o choque veio com a imagem de um rosto na janela, uma cabeça branca e com cabelos emaranhados, sorrindo com lábios sádicos e um olhar cheio de ódio, me virei junto com ela, mas nada havia na janela e ambos sentimos certo “alívio pós-susto”.

Eu estava novamente no quarto, o homem na cama, mas desta vez ele se retorcia e fazia caretas, pude ver dentro de sua mente e assisti seus sonhos numa espécie de filme: ele sonhava estar num altar de pedra, velas iluminavam uma caverna enquanto diversos homens o rasgavam a pele com instrumentos de tortura, ele estava acorrentado e nada podia fazer senão gritar. Acordou, suava em seu leito, respirou pesadamente por algum tempo até que de súbito olhou na minha direção e pulou assustado para fora da cama, achei que ele podia me ver, entretanto percebi que não quando o ser que estava atrás de mim cambaleou para frente.

Era um homem alto e esguio, sem pele, seus músculos e nervos estavam expostos e pareciam podres, eis que então a criatura estremeceu e litros de sangue jorraram de sua boca, num exibicionismo diabólico, o sangue que caia sobre o chão e a cama, enegrecendo-a e parecendo distorcer suas formas em versões indescritivelmente perversas de suas originais. O homem correu, correu sem olhar para trás e a coisa gritou enfurecida por sua fuga, retorcendo-se esquizofrenicamente de modo que causaria a mais profunda repulsa e pavor em qualquer um que a olhasse, por mais resistentes que seus nervos fossem.

Minha visão se modificou para dentro do homem que fugia desesperado, de modo que eu via com seus olhos e sentia seu terror, mas nada podia fazer além de observar. Fora do quarto, as sombras dançavam, paralelas a qualquer lógica que rege a relação entre luz e escuridão. Gargalhadas ecoavam pelas paredes e marcas apareciam e desapareciam nelas, causando a impressão de garras arranhando os cômodos e causando um barulho insuportável, às vezes dentre as trevas rostos se formavam poucos centímetro do fugitivo e provocavam-no aversão ao escuro e sua falta de definição fórmica.

Um extenso corredor se formou e por mais que o homem corresse, ele parecia interminável, ainda sim, mãos sombrias saltavam dos cantos fora da vista e tentavam agarrá-lo, outras entidades malignas emergiam do escuro para confundir e derrubá-lo e as gargalhadas crescentes pareciam enlouquecê-lo.

Ouviu o grito de sua mulher e lamentou não poder escapar de seus perseguidores para poder acudi-la, saltou para uma porta e agarrou a maçaneta com tamanha determinação que não poderia errá-la, ao abrir, deu para o quarto de seu filho e eu pude ver da mesma forma que ele, o garoto estava no chão, o quarto fervilhava em um vermelho dançante e caótico, uma criatura negra, magra e de tronco e braços compridos se projetava pela metade para fora da parte debaixo da cama, segurando a cabeça de seu filho contra o chão, seus olhos vermelhos sangrentos fixos no garoto, enquanto este se debatia e esgoelava de terror e agonia.

A coisa olhou para nós, sim, para nós, pois eu senti seu olhar atravessar o homem e me atingir também, e com um movimento brusco e cruel de seu pulso inumano exibiu o rosto da criança, estava arrebentado, metade sem pele, uma parte dos ossos da face esmagada, ele inteiro estava ensanguentado, mesmo assim ele gritava por seu pai, gritava desesperado por ajuda, o monstro então bateu várias vezes seu rosto contra o chão violentamente e esfregou-o arrancando o que lhe restava de pele, suas garras perfuravam a carne do garoto, então a criatura o desmembrou com pancadas e torções nos tecidos que ainda prendiam os braços e pernas ao corpo.

Por algum feitiço maldito, o garotinho ainda estava vivo e agonizando, o sangue se misturava em engasgos aos gritos do menino e num ultimo grito de socorro, pereceu sob a mordida poderosa da criatura que decepou a carne do menino ainda vivo.

A visão horrível se desvaneceu nas lágrimas do homem, que correu, mais de terror do que por vontade de sobreviver, agora descendo as escadas aos soluços, apenas para ver uma figura humanoide branca, sorrindo sadicamente para ele enquanto segurava a cabeça estupefata de sua mulher em uma mão, e uma faca de açougueiro na outra. Não estava mais dentro do corpo do homem agora, eu podia vê-lo num buraco escuro com suas mãos segurando sua cabeça, como se esta estivesse prestes a cair do pescoço ou que fosse perder o controle da mesma, podia ouvi-lo clamar por sua família e repetir a frase: “Por que eu não o ouvi?”

Acordei de meus sonhos, assustado como nunca antes, já era quase manhã e comecei a escrever tudo aquilo que vi, não fora tudo apenas um pesadelo, e posso ouvir a escuridão voar pelo céu, a mesma força maligna do sonho, procurando por uma nova vítima para satisfazer sua insaciável sede de sangue. Olho pela janela e percebo que o céu está tão belo quanto em minhas visões. Temo por mim! Não, os sons!

Posso ouvi-los aqui no meu quarto, eles me querem! Eles me querem! Sei que me viram nas visões, mas eu não queria ter visto nada, quero esquecer! Quem quer que ache estas notas, não sei se ainda estarei vivo, mas saiba que aqueles monstros que tememos quando crianças, que quando crescemos julgamos ser apenas imaginação, a criatura debaixo da cama, a coisa que nos olha pelas costas, as sombras que se transformam nos cantos escuros, todas elas existem. Eles são reais!