Contos Minilua: O shopping (parte III) #74

Bem, segundo o Waldenis, mais duas partes virão. Ansioso? Pode apostar que estou. A todos, é claro, uma excelente leitura! Ah, o e-mail de participação: Jeff.gothic@gmail.com!




O Shopping

Parte III

Por: Waldenis Lopes

Ela era linda. E ele a amava. Bem… Ele dizia que a amava.

A diferença de idade era grande, uns trinta anos talvez… Ela tinha apenas dezoito. Mas na cabeça deles isso não importava, afinal, estavam apaixonados.

Ele era um grande empresário, mas depois de uns furos em sua vida profissional, as pessoas do seu meio perderam a credibilidade nele. Ora, o que ele poderia fazer agora para ter sua reputação de volta?

Augusto era o seu nome. E ele estava construindo um shopping na cidade. O primeiro da cidade. Mesmo assim, ninguém estava ligando para tal fato. E daí que é um grande centro de compras? Esse tal de Augusto pode abandonar o projeto a qualquer hora! Pra que confiar em alguém como ele?

Isso o irritava completamente. Ao ouvir tamanhos rumores, Augusto decidiu ir com a construção do local até o fim, sem desistir. Todavia assim, ninguém ainda o dava crédito por isso. “Ele só quer aparecer” diziam alguns.

Certo dia, sua amante o procurou dizendo que queria uma decisão de sua parte. Ela não queria ser mais a outra! Os dois discutiram, ele a agrediu, ela saiu chorando, mas ainda assim o amando. Ele sentia como se estivesse afundando.

Era noite, e Augusto resolveu visitar o seu empreendimento em construção, já estava numa fase bem avançada. Todos os pisos estavam prontos, ele subiu até o último - onde ficaria a praça de alimentação - e visualizou seu futuro shopping. O que fazer para que ele já começasse sendo um sucesso? Ele passeou com seus olhos pelos pisos, quando olhou para o lado, um pouco distante, lá estava sua amante. Ele levou um leve susto e foi ao seu encontro.

— O que está fazendo aqui? Como conseguiu entrar?

— É uma construção meu amor, está cheia de aberturas…

Augusto notou que seus pulsos estavam feridos, como se ela os tivesse tentado cortar.

— Seus pulsos…

— Sabia que hoje eu tentei me matar, amor? Mas não consegui… Eu lembrei que estou grávida! Sabia?!

Um grande susto. Augusto arregalou os olhos.

— É… É… Me-me…

— É claro que é seu. Você é o único homem da minha vida! Eu já amo este bebê na minha barriga só porque ele é seu também! Seremos muito felizes juntos!

Mais essa. Se alguém descobrisse suas puladas de cerca, se alguém descobrisse que ele teria um filho bastardo, se alguém descobrisse… Seu nome afundaria na lama de vez. Seu esforço para com o shopping não significaria nada. Seus investidores o abandonariam. Um homem que não consegue lidar com sua vida pessoal não era digno de confiança diante dos olhos de muitos empresários renomados da cidade.

— Vai ficar tudo bem, minha pequena… –ele estava claramente nervoso e tentou disfarçar isso.

— Você ficou estranho… Mas não se preocupe! Nós ficaremos juntos meu bem! Eu fiz um ‘trabalho’ para que nós nunca nos separemos.

Um trabalho? Aquilo foi a gota d’água.

— Você fez o quê, Isadora?

— Uma macumba básica, meu amor! Ficaremos juntos para sempre!

Augusto se encheu de desespero, ele não poderia ficar com aquela mulher. Não que ele acreditasse em magia negra, mas aquilo era o cúmulo do absurdo. Ela estava louca. Pensamentos aleatórios brotaram em sua mente, e um deles fixou-se em sua cabeça. Sim, ele faria aquilo.

Com um abraço bem apertado, ele a beijou suavemente na boca. Ela estava sorrindo. Ele a encarou de perto, alisou seus cabelos loiros e sorriu. Isadora então gargalhou de felicidade.

—Se é isso que quer, meu bem. Nós ficaremos juntos. –disse Augusto, ainda a encarando em seguida desviando o olhar para o parapeito do piso, no qual estavam encostados.

—Eu sabia, Augustinho… Eu sabia.

Augusto empurrou Isadora com todas as suas forças. Ela o olhou com espanto enquanto seu corpo passava pelo peitoril ainda em concreto.

— Adeus, Isadora… Mas não vou atender aos teus caprichos.

Queda livre. Um baque.

Aquele episódio ficou logo conhecido. Mas não como realmente aconteceu. Augusto interferiu nos detalhes e saiu como o suposto herói da história.

— Eu estava no shopping, fazendo uma vistoria para ver se tudo estava como no planejado –dizia ele, diante de vários cidadãos e autoridades –quando vi aquela moça no último piso, encostada no parapeito e com uma expressão triste… Ela iria pular. –o shopping estava para ser inaugurado - Eu corri até ela gritando

“Não faça isso! Não! Não!” Mas ela sequer me deu ouvidos… Me aproximei, e ela se atirou. Consegui segurar a mão dela por alguns momentos, eu não soltaria de jeito nenhum, até trazê-la de volta para cima. Entretanto, aquela garota queria mesmo se matar e me forçou a soltá-la… Foi horrível.

Os parentes da moça se debruçavam em lágrimas no público. Outras pessoas também estavam muito emocionadas. Que belo mentiroso era este Augusto.

— Eu me senti responsabilizado com o que aconteceu… Antes dela se soltar de minha mão, ela me revelou seu nome, e disse para eu cuidar de sua família. É por isso que decidi ajudar financeiramente a família da moça!

Aplausos.

— E nomear o shopping com o seu nome! Digam olá para…

O SHOPPING ISADORA MENDO.

Augusto conseguiu elevar seu nome com aquilo. E seu empreendimento já estreou sendo um grande sucesso. Que homem bondoso…

Vinte três anos depois…

Breno correu desesperadamente para longe dali, atravessou a praça de alimentação como um foguete e se dirigiu para os quiosques de fast food mais afastados de lá. Ele não podia acreditar no que estava presenciando. Pessoas se matando? Ali, na frente dele? O espírito de seu pai o seguia, com uma expressão de poucos amigos, agora, flutuando sobre o chão.

— Se afasta de mim!!

— Meu filho! –ao dizer isso, Neandro sumiu.

Breno não conseguia conter suas lágrimas. Sua cabeça estava uma confusão! Ele precisava sair daquele lugar. Mas decidiu primeiro esperar a poeira baixar, ou as pessoas pararem de se jogar!

— Não tô a fim de ser esmagado por um suicida…

Ele escolheu ficar escondido num fast food que possuía mesas ‘escondidas’ atrás de uma parede de vidro. Breno se sentou, levou as mãos ao rosto e massageou suas têmporas.

— Ainda não estou me sentindo protegido… Mas pelo menos dá para ver quem se aproxima daqui… –sussurrou ele.

— Estamos presos!

Breno levou um baita susto ao ver Fabrício atrás dele.

— Como você faz isso? Parece que tem o dom de se aproximar das pessoas sem ser notado…

— Eu estava escondido aqui atrás o tempo todo! Só me abaixei por uns minutos pra catar uma moeda minha que caiu atrás da sua cadeira…

— Ah, tá… –Breno levou a mão ao peito, massageando-o e recuperando-se do susto.

— Eu não poderia te deixar entrar aqui sozinho, Breno.

— Eu, hein… Te encontrei na rua e você tava todo estranho… Parecia que tava fugindo de alguém, sei lá…

— Mas eu estava! Ah, deixa pra lá…

— Hum… Tenho que encontrar a Kelda! –se lembrou Breno –Ela tinha ido no banheiro e tudo isso começou a acontecer!

Fabrício sacudiu os ombros do amigo e elevou a voz.

— Esquece ela, maluco! Você tem noção do que tá acontecendo aqui, nessa porra? Ela já deve ter virado purê em algum lugar do shopping!

— Você por acaso sabe o que tá acontecendo aqui?

— Talvez eu saiba… Minha vó me contava tudo sobre este lugar… Mas é melhor sairmos daqui.

Breno ficou estático e olhou para frente. Um homem se aproximava.

— Quem será a figura? –perguntou Fabrício.

— Você consegue vê-lo?

— E porque não conseguiria?

— Porque aquela ‘figura’ é o meu pai…

— Seu pai! Que bacana! Ele voltou foi? Decidiu conhecer o filho?

— Ele não está vivo, Fabrício… Ele é um fantasma.

Fabrício virou sua cabeça lentamente e notou que o homem flutuava sobre o chão.

— Caralho! –e ficou pálido e sem forças.

— Fica de boa. Pelo que eu pude notar, ele não pode fazer nada contra nós. E eu sou filho dele, então…

— ELE É UM FANTASMA, DESGRAÇA! DROGA! NÃO CONSIGO ME MEXER!

— De boa, Fabrício… Fica de boa.

Neandro se aproximou dos rapazes.

— Vai fugir de mim?

— Não… O que você tem a dizer?

— Você está sentindo vontade de se matar?

— Não, ainda bem que não! Por quê?

— E o seu amigo?

Breno olhou para Fabrício.

— Está Fabrício?

— Não, graças a Deus! Só estou com medo do seu pai agora…

— Ufa, ainda bem. –suspirou Neandro.

— Como se explica isso… Pai…?

— Como você tem uma ligação com o fato de dezoito anos atrás, hoje, você não sente o desejo de se atirar do quarto piso. O mesmo vale para todas as pessoas que você conhece que estão aqui dentro.

— Ah, ainda bem… Mas, peraí… Ligação com o acontecido de dezoito anos atrás?

— Você nasceu neste shopping, Breno. Sua mãe te deu a luz no banheiro do primeiro andar. Foi naquele momento que todas as pessoas neste lugar começaram a se suicidar.

— Quem lembra! –disse Fabrício, agora mais calmo. O fantasma parecia inofensivo.

Neandro e Breno o fitaram com desprezo. E desconcertado, Fabrício disse:

— Eu fico quieto…

— Então… Eu tenho essa ligação só porque nasci neste shopping? Mas e daí? Porque as pessoas se matam nele?

— Então… Não é só isso… Tem outra história por trás…

Um barulho muito grande começou a ecoar por todo estabelecimento.

— O que tá acontecendo, pai?

— Ela sabe que eu estou falando com você! Ela não vai me deixar terminar de explicar! Façam o seguinte, vão para o subsolo! Lá é o único lugar onde ela não tem poder!

— Ela quem? –perguntou Fabrício.

— Isadora. Isadora Mendo… Ela não deixará ninguém sair daqui! –falando isso Neandro desapareceu, mais uma vez.

— Quem é Isadora Mendo… Peraí… Mendo! –disse Breno, saindo dali com seu amigo e correndo a toda velocidade em direção à escada mais próxima.

— Você entendeu Breno? O nome do shopping é o nome de uma mulher que se matou aqui antes da inauguração oficial! Faz uns vinte e três anos!

— Então será que ela é a causadora destes incidentes? O de anos atrás e esse de agora?

— Não tá na cara? Espírito vingativo é assim mesmo, doido!

Isadora era o próprio shopping? Aquilo era realmente possível?

Enquanto os dois corriam, eles ainda viam as pessoas se dirigindo como zumbis para o peitoril do quarto piso, e jogando-se de lá.

Breno notou que ainda havia pessoas normais e que não estavam agindo como corpos sem alma. Ele as conhecia. Bem que o seu pai disse. Quando elas viram Breno e Fabrício correndo, começaram a segui-los. Nessas horas de desespero, quando surge alguém se dirigindo para algum lugar apressadamente, na mesma hora todos pensam que ela sabe para onde está indo.

— Estão vindo atrás da gente! –disse Fabrício.

— Deixa! Eu as conheço! E como eu as conheço, elas não estão com vontade de pular!

Eram oito pessoas que seguiam os rapazes.

Quando eles desceram para o terceiro piso, ouviu-se um grito atrás deles.

Uma criatura de estatura baixa coberta de pelos surgiu ali e começou a atacar os jovens que estavam atrás de Breno. Fabrício ficou novamente pálido e seus joelhos começaram a tremer. Breno puxou o braço do garoto e continuaram seu caminho, sem olhar para trás. Eles chegaram ao térreo e entraram numa loja de roupas masculinas. Decidiram esperar um pouco, pois ainda chovia pessoas na praça central, que era onde ficava a escada para o subsolo.

— Quê que foi, Fabrício? Por que você ficou assim ao ver aquele bicho?

— Era o pé de garrafa! –disse alguém.

Caíque saiu de trás do balcão da loja.

— Assim já é demais! Vocês dois tiveram aulas com ninjas por acaso? –falou indignado Breno.

— Olá, meus amigos. No fim das contas eu precisava vir, Breno. Tive outro sonho na noite passada, nele tive a certeza que precisava estar aqui.

— Que bom. Mas… O que é pé de garrafa?

— É aquele bicho que vocês viram lá fora! Ele foi invocado para aprisionar as almas das pessoas que ainda estão vivas.

— Invocado?! –engasgou-se Fabrício - Minha vó contava a lenda desse bicho! Morro de medo até hoje! Na lenda diz que para se livrar dele, tem que atravessar um ponto de água ou acertando o umbigo branco dele.

— Isso não funcionará. –e continuou - Estranhamente eu hoje acordei conhecendo informações sobre este lugar. E também, eu trouxe esta medalha –ele as mostrou para os seus amigos, estava em seu pescoço - no sonho a moça me dizia que nos protegeria do mal que existe aqui.

Breno contou sobre o encontro com seu pai para Caíque.

— Então vamos para o subsolo. Parece que essa tal de Isadora ainda não tem forças o suficiente para nos atingir diretamente. –Caíque estava assumindo uma posição de líder.

— Precisamos encontrar a Kelda, Caíque! Eu a conheço! Ela está viva em algum lugar!

— NÃO, BRENO! –Caíque elevou sua voz — A Kelda não virá conosco…

— Mas por quê? Você ficou louco, cara?

— O Caíque tem razão, Breno. Ela não pode vir conosco.

— O que deu em vocês dois?

— Quem você acha que estava me perseguindo quando você me encontrou na rua, Breno?

— Co-como… Como assim, Fabrício? –Breno estava ficando perplexo.

— Aquela guria é louca, meu amigo! Ela não me queria neste shopping hoje!

— Não é possível!

— Ela insistiu para você vir, não é mesmo Breno?

— De certa forma sim… Até disse que poderíamos fazer algo mais depois do passeio…

— Ah, essas piriguetes… –riu Fabrício.

Caíque olhou para fora. O tal pé de garrafa estava se aproximando. Fabrício se jogou para trás do balcão e ficou ali. O monstro os viu e saltitando com seus pés de vidro entrou na loja. Ele era um bicho-homem coberto de pelos e com o umbigo branco a mostra.

— O que faremos? –gritou Breno, olhando com nojo e medo aquela criatura folclórica.

— Algo que os filmes de terror não ensinam…

Caíque segurou sua pequena medalha dourada e começou a recitar uma oração. Isso fez com que a criatura se debatesse com todas as forças no chão.

 — A Cruz sagrada seja a minha luz, não seja o dragão o meu guia. Retira-te satanás, nunca me aconselhes coisas vãs. É mau o que tu me ofereces, bebe tu mesmo os teus venenos!

O pé de garrafa parara de se debater e foi desaparecendo aos poucos. Breno e Fabrício ficaram embasbacados. Caíque era a pessoa mais espiritualizada dentre eles.

— Isso foi do balacobaco, otário… –disse Fabrício, ainda espantado.

— Eu nem me lembrava que você era religioso e tal… –cochichou Breno.

— O que importa é a fé não é mesmo? E isso eu tenho de sobra.

Os três saíram da loja e agora iam ao encontro da entrada que dá passagem ao subsolo.

— Pessoal, não é pra gente se separar mesmo! – Fabrício andava com as mãos no ombro de Caíque — Valeu, Caíque… Eu morro de medo daquele bicho…

— Caíque, você disse que o tal pé de garrafa foi invocado… Mas por quem? Se essa tal de Isadora ainda não tem forças e tal…

— É só pensar um pouco, Breno.

Não podia ser viável.

— A Kelda?

— Sim, a Kelda! Ela é uma bruxa… Sabia disso?

Kelda estava ainda no banheiro feminino, longe de onde os garotos estavam. Ela conversava com alguém, mas, não havia ninguém ali!

— Precisava mesmo deste banho de sangue, senhora?

— Eu preciso do máximo de almas mortais para poder me materializar, Kelda.

—Entendo.

— Aquele maldito Neandro alertou seu filho sobre mim… E agora ele e seus malditos amigos se dirigem para o subsolo!

— Os amigos deles? Não era só um? O tal do Fabrício? Eu o aterrorizei para que ele não viesse.

— Você aterrorizou o amigo errado! O perigoso é o Caíque! Aquele cristãozinho desgraçado.

— O que devo fazer, senhora Isadora?

— Deve impedi-los de chegarem ao subsolo. Eles não podem conversar com aquela pessoa… Minha influência não chega até lá.

— E depois?

— Traga Breno até aqui… Afinal de contas… Ele é o meu bebê…

Continua…

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