Contos Minilua: O Outro Lado

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O Outro Lado - Por Leonardo Gustavo Campos

Capítulo 1 - Quebra de Paradigmas

Acordei como num dia qualquer: o Sol batendo no rosto porque teimei em deixar a janela aberta durante a noite, uma perna sobre a coberta e a adjacente por debaixo dela; cabeça doendo por dormir pouco e jogar muito e uma forte dor no braço esquerdo por dormir sempre jogando o peso para cima dele.

A casa estava silenciosa, mas nada fora do habitual. Meus pais costumam ir trabalhar durante o dia e eu já fico sozinho em casa sem problemas, eu estava me acostumando a essa vida e era algo que me deixava muito em paz. Desci as escadas que davam em direção à sala, fui à cozinha e fiz meu estoque de comida, estava tão desnorteado pelo fato de ter acabado de acordar que nem escovei os dentes, apenas comi o suficiente e levei o restante para o quarto, entrando assim no meu “mundinho” como costumava dizer minha mãe.

Eu costumo deixar as janelas abertas em meu quarto para que a vizinha saiba que estou “vivo”, pois às escondidas ela me vigia a pedido da minha mãe e, vez sim ou vez não, aparece batendo na porta perguntando se eu estou com fome. Na casa da frente vive um garoto que não me recordo o nome verdadeiro, porém, joga o mesmo jogo de RPG Cards comigo, seu nome no jogo é LORD_HUNTER; de vez em quando mandamos sinais que inventamos para dar uma pausa para o banho ou atender ao telefone, mas hoje ele parecia bem calado e focado, o que não era estranho, mas me deixava desconfortável, já que eu não tenho muitos amigos e uma vida social pouco ativa. Apenas ignorei e liguei meu computador.

O dia corria como num piscar de olhos, eram 10:30 quando acordei e, de repente, já eram 15:40. O dia passava rápido na frente daquele computador, mas eu tinha a sensação de já ter passado por tudo aquilo. Sabe… Aquela sensação estranha de Déjà- vu…

Dizem também que quando fazemos demais alguma coisa, “ligamos o automático”, então pensei comigo mesmo que aquelas poucas horas eram de uma jogatina normal no meu “mundinho”. Acabei aquela partida e dei uma espreguiçada de vitória com um sorrisinho de canto de rosto, algo típico de um vencedor tímido e arrogante, ao mesmo tempo.

Com o movimento da espreguiçada, olhei pra rua e notei que ela estava vazia, como se todos resolvessem dormir naquele dia, a não ser por um senhor com roupas esfarrapadas que passeava lentamente, agarrado a um saco de pano mais esfarrapado ainda e olhando sempre pra frente, como se buscasse algo no horizonte.

Além disso, algo me chamou a atenção: o garoto com quem jogava ainda estava na frente do computador, porém, não o vi em nenhuma partida ativa do jogo… Talvez estivesse evoluindo algum herói novo no modo Singleplayer, ou estivesse jogando outra coisa, mas o modo com o qual ele olhava atentamente para aquela tela de computador exigia muita concentração, o que me fazia pensar que ele estava jogando o tempo todo.

Tentei acenar, na tentativa de chamar sua atenção, mas nada o desconcentrava. Como eu tenho uma visão não muito boa por conta das horas e horas em frente ao computador, não pude perceber se ele estava ou não mexendo o mouse ou digitando e, além disso, desisto fácil das coisas, então deixei pra lá e voltei a jogar.
A próxima partida acabou mais rápido do que a outra. Parecia um jogador inexperiente e suas cartas não eram lá essas coisas.

Eu desliguei um pouco o monitor do computador para descansar os olhos; esfreguei-os e coloquei meus óculos de descanso para ler um pouco; aqueles óculos me incomodavam pelo seu tamanho exagerado. Eu tinha um lugar especial para ler e costumava ficar lá quando o dia estava ensolarado: a sacada do quarto dos meus pais. Fui em direção ao seu quarto e, pra minha surpresa, a porta estava trancada. Pensei comigo mesmo que aquele dia não poderia ter ficado mais estranho, até porque meus pais, em hipótese alguma, lembrar-se-iam de trancar aquela porta…

A não ser que estivessem tentando esconder alguma coisa, talvez. Voltei para meu quarto e tornei a mexer no computador, procurando por episódios de séries que costumava assistir, coloquei um e deitei na minha cama, me ajeitando em posição fetal e confortável, como sempre. A partir desse momento as coisas começaram a ficar esquisitíssimas: eu acompanhava a série episódio por episódio e aquele era o último episódio lançado recentemente (justo o que faltava para eu continuar a sequência da série), porém, parecia que eu já havia assistido, pois os acontecimentos não me eram estranhos.

Corri para pesquisar quando ele havia sido lançado e estava tudo nos conformes, como deveria estar, ou seja, deveria ser inédito. Mais uma vez um movimento involuntário me levou a olhar para fora da janela e lá estava o cara, olhando freneticamente para aquela maldita tela de computador. Pode parecer normal um nerd focado no seu mundo, mas aquilo era perturbador, pois ele mal se mexia e, agora com os óculos, eu notava que ele mal piscava.

Meus olhos tornaram a olhar para a rua e lá estava o senhor de roupas esfarrapadas encostado em uma parede e olhando em minha direção. O que me assustava naquele senhor não era o fato de ele estar me olhando e sim o modo como ele olhava; estático, sem esboçar expressão, como se estivesse pensando em um julgamento apenas por olhar em meu rosto.

Comecei a ficar assustado com tudo o que estava acontecendo. Eram eventos esquisitos para mim. Talvez ficar enfurnado demais naquele quarto tenha reduzido a minha sanidade, ou talvez eu simplesmente tenha parado para prestar atenção às coisas ao meu redor. “Que seja… Ficar parado esperando o dia acabar não vai resultar em nada”, pensei comigo mesmo.

Eu saí um pouco de casa e aquela rua parecia um deserto, só se ouvia o som do vento e um pouco longe ainda dava para ouvir o som de alguns carros, mas parecia que a vida em todo o lugar havia simplesmente desaparecido […].

Continua…

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