Contos Minilua: O Menino e o Corvo #248

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O menino e o corvo




Por: Tiago Lelis

Em um orfanato chamado Santa Maria, havia um menino solitário, que andava e brincava sozinho. O menino morava no orfanato desde que era um bebê. Já tinha 14 anos e ninguém o adotara. O menino se chamava Samuel.

Ele não compreendia, sempre que chegava perto de outra criança, ela saia correndo ou o empurrava para longe. Sophia, que era uma das freiras que cuidavam das crianças do orfanato, sempre tentava aproximá-lo dos outros, mas nunca conseguia. Ela sempre foi amável e gentil com as outras crianças e elas retribuíam o carinho.

Sophia toda manhã, quando as crianças iam comer, ia para o quarto de Samuel, levar a comida dele e conversar um pouco. Samuel gostava de Sophia, ele a considerava uma mãe. Mesmo que as outras crianças não quisessem brincar com ele, Samuel era feliz. Ele tinha uma amiga e isso era o que importava para ele.

Havia outro garoto no orfanato que odiava Samuel, seu nome era Gabriel. Ele tinha chegado ao orfanato no mesmo ano que Samuel. Ele também nutria uma inveja de Samuel pela atenção que ele ganhava de Sophia e por causa disso ele fazia de tudo para humilhar Samuel na frente de todos.

Um dia, quando estava voltando da escola, ele entrou no orfanato e viu vários rostos tristes. Samuel ficou confuso e com medo. Foi perguntando o que havia acontecido. Quanto mais entrava mais via rostos tristes, e isso o assustava ainda mais, só parou quando Gabriel com a cara cheia de lágrimas deu um soco na cara de Samuel e disse ao menino a pior notícia de toda sua vida. Sophia havia morrido, e o culpado era ele.

Samuel ficou em choque no chão. Não podia acreditar na notícia, para ele era impossível. Logo Sophia, a sua única amiga? Não, não apenas amiga, mas uma mãe que nunca tivera e que nunca mais teria. Mas foram as últimas palavras que mais doeram no menino. A culpa era dele? Como assim? Samuel estava muito confuso e triste.

Gabriel disse que ela havia ido comprar um presente de aniversário para ele e acabou sendo assassinada em frente à loja.

Naquele dia, Samuel caiu na escuridão. Colocou as mãos no rosto e chorou. As crianças falavam algo, mas ele não escutava. A dor do punho de Gabriel era grande, mas ele não sentia. Ele já havia ido para o canto, e lá ficou chorando e lamentando.

Samuel ficou no seu quarto por um mês inteiro de luto. Não ia para escola, nem saia do quarto para comer.  Os que cuidavam das crianças no orfanato levavam a comida para ele. Mesmo assim o menino mal comia.

Samuel continuou assim, até que ele chegou. Com suas grandes asas negras. Como a noite sem estrelas ele pousou na janela e com seus olhos vermelhos como o mais puro sangue olhou para o menino, que ficou maravilhado com os seus olhos.

Samuel foi para perto do pássaro. Samuel reconheceu o animal no momento que o viu, aquilo era um corvo.  Ele esticou seu braço como um gesto para o corvo. O corvo voou para o ombro de Samuel. Samuel então estava feliz, afinal havia acabado de ganhar um novo amigo.

O corvo ia para o quarto de Samuel todos os dias, e todos os dias ficava no seu ombro. Mas um dia o corvo não entrou pela janela, ele ficou do outro lado, em um galho de árvore encarando Samuel, o chamando para ir lá fora. E pela primeira vez em semanas, Samuel saia do quarto.

O orfanato naquela tarde estava vazio.  As crianças estavam na escola e os outros estavam do lado de trás do orfanato fumando, como eles sempre faziam quando as crianças estavam na escola, tantos as freiras quanto os voluntários faziam isso.

Samuel passou em silêncio e saiu do orfanato. Continuou a seguir o corvo fora da casa. O corvo o levou até um parque. O parque estava estranhamente vazio. Mesmo nessa hora, deveria ter mulheres passeando com seus bebês ou pessoas caminhando. Isso deixou Samuel um pouco assustado, mesmo assim ele continuou a seguir o corvo.

corvo

O corvo adentrou pela floresta ao lado do parque com Samuel logo atrás dele. No meio da floresta ele viu que o corvo pousou em cima de uma porta pairando no ar.

O menino ficou com medo da porta. Não queria entrar nela, pensou que algo de ruim vinha daquela porta. O corvo foi ao ombro de Samuel e olhou nos seus olhos como se quisesse convencer Samuel a entrar. Samuel não conseguia resistir ao encanto nos olhos do corvo, então foi à porta e a abriu. Deu uma olhada para dentro dela e sorriu.

Entrou nela junto com o corvo e só saiu dela ao anoitecer. Quando saiu já não era mais o menino que Sophia conhecera. Seus olhos haviam mudado, ele perdera o tom castanho e ganhara um mais vermelho, parecia-se com os olhos do pássaro.

O mais estranho era sua sombra, ela se mexia de um lado para outro como se tivesse ganhado vida própria ou fosse possuída por seres do outro lado da porta.

Samuel chegou ao orfanato à noite. Ele olhou pela janela, as crianças, as freiras e os voluntários estavam na cozinha comendo o jantar. Ele abriu a porta e caminhou até a cozinha do outro lado. Uma das freiras pegou no ombro dele enquanto ele andava, mas antes que pudesse falar algo o corvo voa do ombro do menino e corta seu pescoço com o bico.

O sangue jorrou do corpo numa quantidade impressionante. O menino parou um pouco e deu um pequeno sorriso, a festa nem havia começado e sangue já havia sido derramado. Virou-se e continuou a ir em direção à cozinha.

Todos que estavam na cozinha não viram de primeira o mal que o menino carregava em seu ombro, e alguns não tiveram nem tempo de perceber a presença do menino. Ele entrou com sangue em sua camisa e olhou com um sorriso para todos.

Os mais próximos foram mortos rapidamente pelo corvo e pelas criaturas soltas da sombra do menino. Três voluntários que estavam na ponta do outro lado tiveram tempo de pegar uma faca cada um para atacá-lo, mas Samuel os pegou.

O primeiro que veio para cima de Samuel teve sua faca arrancada da mão e sua garganta cortada, jogada na cara de quem estava atrás dele. O terceiro avançou em Samuel apontando a faca em sua cabeça. O menino se esquivou com facilidade, pegou a mão que segurava a faca e o fez enfiar no coração.

Samuel ainda estava na entrada da cozinha com uma expressão de indiferença no rosto, ele se vira e ri, com um prazer imenso. Ele apenas parou de rir quando ouve um som bem baixinho de choro vindo de baixo da mesa. Ele anda bem devagar e quando olha para baixo tem uma bela surpresa.

O som do choro vinha de Gabriel, o menino que havia batido e botado a culpa nele. Gabriel cobria seu rosto cheio de lágrimas com as duas mãos para evitar ver a cena tão terrível ao seu redor.

Samuel sorri – Oi, chorão – ao ouvir a voz, Gabriel tira as duas mãos do rosto e vê Samuel sorrindo com o rosto todo ensanguentado. Ele então tenta correr para fora, mas a simples visão do lado de fora o faz recuar e vomitar.

Samuel pega sua cabeça, carregando-o para o lado de fora enquanto Gabriel suplica para Samuel parar. Samuel o levanta para ficar cara em cara e diz: Essa cena estava tão linda. Por favor, não a estrague. Gabriel tenta mais uma vez, soluçando, suplica com seu rosto saltando em lágrimas sem parar.

Com um único movimento Samuel arranca a cabeça de Gabriel e começa a rir. Demorou um pouco para o menino parar de rir, mas o seu sorriso continuou. Ele não parava de olhar a cozinha. Ele achou aquela cena bela. Corpos destroçados e sangue por toda parte, para ele não havia nada mais lindo. Apenas o olhar do corvo podia interrompê-lo, mas o corvo estava ao seu lado maravilhado com a obra prima que Samuel havia feito.

Algum tempo depois, saíram do orfanato e foram à floresta. A porta ainda estava lá. Não ficou surpreso, afinal a porta o servia agora. O corvo o havia tornado rei do mundo, e agora nada podia impedi-lo de espalhar caos e sofrimento.

O menino sorria e o corvo sorria com ele.

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