Contos Minilua: O lobo #24

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                                                  O Lobo

Por: Igor Almeida

Ah… Malditos sejam os cientistas, para os quais algo só existe se puder ser visto, registrado ou documentado. Por este motivo, muitos já pereceram pelas garras do desconhecido. Sim caro leitor, existem neste mundo criaturas tão ferozes, mortais e inteligentes que sequer é possível haver conhecimento delas. Como visto em nosso primeiro conto, e como já dizia William Shakespeare, existem mais coisas entre o céu e a terra do que sonha nossa vã filosofia. Caso não concorde, convido-te a procurar por conta própria pelas pegadas dos homens-lobos. Mas esteja avisado: é um caminho sem volta que leva ou para morte, ou pior, para a maldição.          

                                                                                                                                                                                          N. “Splint” S.

Este é um registro de Sessões do paciente nº #33786, codinome: Lobo.

Nome: Edmund Emmingway

Idade: Aparenta por volta de 40 anos

Altura: 1,89m

Peso: 90,700 Kg

Cabelo: Curto, Castanho Escuro

Olhos: Pretos

Descrição da condição psiquiátrica: O Paciente sofre de comportamento esquizoide, frequentemente alucinando de forma a acreditar que pode se transformar em lobo. Diz também que tem muita sede de sangue e fome de carne. Acredita-se também haverem distúrbios de humor, pois o paciente sofre constantemente de surtos de agressividade, onde demonstra força e agilidade notáveis e só consegue ser contido com o uso de arma elétrica não letal, uma vez que nenhum dos enfermeiros consegue chegar perto dele. Demonstra também vastos conhecimentos de história da Europa, principalmente do período Vitoriano.

Alega ter nascido no ano de 1852. Ao ser admitido na clínica psiquiátrica surtou, jogando um enfermeiro para longe e causando graves lacerações ao braço e pescoço de outro. O enfermeiro Jones foi encaminhado ao centro cirúrgico onde levou pontos e está estável. A seguir, um resumo das suas sessões com o Doutor Elijah Robertson.

Sessão #1 – Quarta-Feira, 12/07/12:

Dr. Robertson: Boa noite, Edmund. Eu sou o Doutor Elijah Robertson. Agora são oito e meia da noite. Como está se sentindo?

Edmund Emmingway: Boa noite, Doutor Robertson. Sinto-me bem, obrigado. Apesar de este ambiente sem janelas ser um tanto opressor.

Dr.R: Bem, esta é a unidade de retenção máxima. Você sabe por que você está aqui certo?

E. E.: Ah sim… Claro. Como anda o pobre enfermeiro?

Dr.R: Ele tomou 5 pontos no braço e 4 no pescoço. Diga-me Edmund, o que te levou a atacar o bom moço daquela maneira?

E. E.: Fome, Doutor. Confesso sentir-me um tanto frustrado em não poder convencê-los da minha maldição.

Dr.R: Por favor, não continue. Já ouvimos suas histórias e você bem sabe que é por isso que você não melhora. Edmund, você tem de dar significado diferente a estas suas palavras. Procurar em seu interior o que este lobo e esta fome representam. Entender que eles não são literais.

E. E.: (Risos), Não doutor… O senhor que precisa entender que este lobo é literal. Mas enfim, acredito que no fundo já imaginem isso. Afinal por qual outro motivo me privariam da luz da lua?

Dr. R: Por favor, Edmund. Repense sua história. Analise seu comportamento. Nós nos reencontraremos daqui a uma semana.

E. E.: Vejo você daqui a uma semana Doutor.

Sessão 2# - Quarta-Feira, 19/07/12:

Obs: No dia 15/07, O paciente foi transferido da unidade de retenção máxima para um quarto coletivo, porém no dia 17/07, outro paciente chamado Alexander Smith o ameaçou com uma faca criada a partir de material da sala de artes. Alexander foi jogado longe por Edmund, após o mesmo tê-lo desarmado com um tapa. Apesar de haver sangue no chão, nenhum dos dois apresentava sinal de ferimento. Edmund foi transferido novamente para a unidade de retenção máxima.

E. E.: Doutor Robertson, como vai?

Dr. R: Muito bem Edmund, obrigado. Este é um registro de sessão com o paciente Emmingway, Edmund. São oito horas. Diga-me Edmund, ouvi falar de uma briga que ocorreu no seu quarto coletivo

E. E.: Ah sim. Aquele maníaco psicopata do Smith. Ameaçou-me com um formão de talhar madeira! Honestamente Doutor, esperava mais da segurança deste local.

Dr. R: E você o apertou contra a parede até quase sufocá-lo?

E. E.: Perdoe-me Doutor. Mas aquele formão, por mais que fosse inofensivo, despertou-me meus instintos animais. Não fosse o fato de aquele lugar ser fechado como uma caixa, aquele pobre homem teria virado comida.

Dr. R: Por Deus… Ehm… Já que você tocou neste assunto Edmund. Conte-me mais sobre esta maldição da qual você tanto fala

E. E.: (Suspiros) Bom… Eu sei que o senhor não acreditará em mim. Mas o fato é que eu sofro da maldição dos filhos de Lycaon. Os Homens-Lobo, ou como seu povo gosta de chamar, Lobisomens. Diferente do que se pensa, não é a lua cheia, mas sim qualquer raio lunar que nos transforma de nossa forma humana à fera terrível que se esconde por baixo da nossa pele, Embora seja na lua cheia que temos mais controle e poder sobre a maldição, podendo nos transformar a nosso bel prazer. De certo o senhor reparou que há manchas de sangue no quarto coletivo, certo?

Dr. R: Sim. Interessante mesmo. Pode me explicar como elas foram parar lá?

E. E.: Mas claro Doutor. Aquele sangue é meu. Quando bati no formão na mão de Smith, o mesmo naturalmente cortou a minha mão, fazendo escorrer algumas poucas gotas de sangue. Porém a mesma maldição que me faz predar meus convivas também me confere força e agilidade, um fator regenerativo quase instantâneo e uma longevidade fora do comum.

Dr. R: Edmund. Eu como um homem de ciência, me recuso a acreditar em tais coisas. Acredito, porém, que tudo isso que você me contou faz todo o sentido para você. Acredito que esta “maldição” que você criou ao redor de si é na verdade uma mistura de desejos seus reprimidos e que agora te assombram. Estudarei melhor seu caso, mas já lhe prescreverei uma medicação a partir de agora. Tenha uma boa noite Edmund.

E. E.: Boa noite Doutor.

Sessão #3 – Quarta-Feira, 26/07/12:

Após a Sessão 2# o paciente começou tratamento com diversos medicamentos psicoativos a fim de tranquilizar e estabilizar seu humor. Foi notada uma melhora e no dia 23/07 o paciente foi mais uma vez transferido para um quarto coletivo. Desta vez não houve imprevistos e a Sessão pode ocorrer em consultório. Devido à medicação, porém, nesta sessão o paciente estava extremamente ofegante.

Dr. R: Este é um registro de sessão com o paciente Emmingway, Edmund. São oito e trinta e dois da noite. Boa noite Edmund. Vejo que agora não houve problemas com seus companheiros de quarto.

E. E.: Boa noite… Doutor…

Dr. R: Acredito que esta seja a primeira vez que visita o meu consultório certo?

(O paciente acenou com a cabeça que sim)

Dr. R: E o que acha dele?

E. E.: Muito… Fechado…

Dr. R: Está falando sobre o fato de não haverem janelas certo?

(O paciente acenou com a cabeça que sim)

Dr. R: Não se sente bem?

E. E.: Os… Remédios…

Dr. R: Ah sim… Eles têm esse efeito no primeiro mês. O que você está sentindo?

E. E.: Minhas mãos… Tremem… Sinto-me… Cansado…

Dr. R: Isso é bom. Significa que a medicação está funcionando corretamente. Acredito que você não tenha nada para conversar hoje certo?

(O paciente não respondeu, apenas acenou com a cabeça que não).

Dr. R: Muito bem. Neste passo, na próxima semana já deverá estar em quarto particular. Irei vê-lo então em seu quarto. Podem levá-lo daqui.

Sessão #4 – Quarta-Feira, 02/08/12:

Esta é a última entrada de registros do paciente 33786, codinome Lobo. Também é o último registro de ponto do Doutor Elijah Robertson, de dois enfermeiros e três policiais. Após esta entrada o paciente simplesmente desapareceu.

Dr. R: Este é um registro de sessão com o paciente Emmingway, Edmund. São oito e quarenta e três da noite. Perdoe-me pelo atraso Edmund. Como está se sentindo hoje?

E. E.: Estou me sentindo deveras bem Doutor, muito obrigado.

Dr. R: Edmund? Você… Tem tomado os remédios?

E. E.: (Risos) Por que a surpresa na voz bom doutor? Surpreso por eu recusar que me arranquem a vida por meio de suas drogas? Ou talvez surpreso pelo fato de eu estar mais altivo do que nunca?

Dr. R: Bom… Eu vejo que você gostou do seu novo quarto certo?  Você sempre reclamava de não haver janelas nos seus outros quartos.

E. E.: Ah sim claro! Janelas, bom doutor. Veja bem o motivo de eu adorar as janelas. Não percebe que noite clara está hoje? Não percebe bom doutor? Embora não precisasse, a lua vem me banhar hoje com todo seu resplendor. Não doutor. Não tente fugir agora

Dr. R: Enfermeiros! Polícia! Socorro!

E. E.: Pode gritar a vontade doutor. Chame o máximo de pessoas possível. Quero que todos testemunhem o que um banho lunar faz para um filho de Lycaon.(Risos)

Enfermeiro 1: Por Deus! O que é isso!

Enfermeiro 2: Polícia! Rápido!

Dr. Robertson: Não, não! Me largue! Me lar…

Enfermeiro 2: Meu Deus! Não, por favor!

Policial 1: Mas o que..

Após este diálogo outro policial chegou ao quarto, descarregando seu revólver. 40. Embora os cartuchos e a arma tenham sido encontrados, os projéteis nunca foram encontrados. Um policial que estava a alguns metros da porta do quarto, com plena visibilidade do policial que realizou os disparos foi encontrado e interrogado, ao que relatou ter visto uma criatura semelhante a um grande cão ou lobo em duas patas puxar violentamente o autor dos disparos para dentro do quarto. Ele por sua vez, fugiu.

A polícia chegou ao local na manhã do dia seguinte e embora o chão do quarto onde estava o paciente Edmund Emmingway estivesse com o chão absurdamente sujo de sangue, não havia sinal de corpos ou qualquer fragmento que nos levasse a uma pista do paradeiro dos mesmos.

Testemunhas anônimas relatam que na noite de 02 de Agosto de 2012 pode ser visto um enorme vulto de forma indefinida, mas que lembrava ao mesmo um homem muito alto e forte e um cão. A noite de 02 de Agosto também foi uma noite de lua cheia e céu bem limpo.

O paradeiro dos enfermeiros Jim McShawn e Douglas Sparson é desconhecido. Dados como mortos no dia 07 de Agosto.

O paradeiro dos policiais Ernest ‘Ernie’ Laurel e de Richard Stanson é desconhecido. Dados como mortos no dia 07 de Agosto.

O paradeiro do doutor Elijah C. Robertson é desconhecido. Dado como morto no dia 07 de agosto.

O paradeiro de Edmund Emmingway é desconhecido. Uma vez ouvidas as gravações do doutor Robertson, é procurado pela polícia de Auckland e cidades vizinhas.

Relatório realizado por Nathan Spencer

 Departamento de Polícia da Cidade de Auckland,

Ilha Norte,

 Nova Zelândia

15/08/12

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