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Contos Minilua: O Livro das Memórias (segunda parte) #266

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Hoje nós vamos continuar com o conto enviado pelo usuário Thiago Lelis. Leia a primeira parte.

O Livro das Memórias – Segunda Parte

Rodrigo estava abrindo a porta para o seu quarto quando Henry chegou. Ele o puxou pela camisa e o pressionou contra a parede. O impacto fez com que uma súbita dor se espalhasse pelas costas de Rodrigo. Um baque surdo foi solto pelo mesmo.

– Opa – disse Henry.

– Acho que eu usei força demais. Força do habito, sabe? –

Ele deitou o velho no chão, trocou de lado e puxou Rodrigo pelas costas pelo corredor.

– Me solte. – protestou Rodrigo com a voz baixa.

Ele não conseguiu juntar ar o suficiente para tal. Na segunda vez, veio com mais facilidade, e a voz saiu mais clara:

– Me solte! – Rodrigo usou suas forças para resistir ao puxão de Henry. Mas seu corpo doía como nunca. A dor o permitia apenas chacoalhar o corpo e em vão, já que não dificultou em nada para Henry.

– Você saiu correndo feito um louco, sabia? E bem no meio da conversa.

– Eu… – Rodrigo não conseguiu completar a frase e gemeu de dor.

– Não precisa dizer nada. Pelo menos, não agora. Escute-me primeiro. Eu tenho coisas a dizer. Coisas importantes.

Ao chegar à sala, Henry levou Rodrigo até a poltrona e o jogou sem nenhum cuidado. Isso acabou impactando nas costas de Rodrigo que doíam muito. Henry pegou o livro em cima da mesa e tomou seu lugar na cadeira a frente.

– Continuando, de onde paramos? Você leu o livro e ficou surpreso, não é mesmo? Você correu e eu tive que ir atrás de você. Para ser sincero, eu tentei ser gentil, mas você não me deu escolha. Fiz o possível para não machuca-lo. E para que tanto drama? Eu não quebrei nenhum osso. Eu teria ouvido se tivesse quebrado. Mas que tal deixar esse assunto pra lá? Vamos voltar aos negócios, é agora que as coisas ficam interessantes.

– Eu não cairei em suas palavras, demônio. O que você já fez comigo… O que mais eu poderia dar? – disse Rodrigo com a voz de um condenado de olhos fechados, com medo de abri-los – Você já tirou tudo que eu tinha e mesmo assim quer mais?

– Eu ainda não tirei nada de você. E vou continuar assim se você cooperar comigo até o fim.

Rodrigo, já contendo a dor, abriu os olhos.

– Tire esse disfarce!

– Está falando desses pontos azuis? – Henry apontou para os olhos

– Eu acho que não.

– Eu sei o que você é. Não precisa continuar com a farsa.

– Não você não sabe. Apenas pensa que sabe. E eu irei continuar com esses olhos.

– Por quê?

– Porque você se simpatiza com eles. E foram eles que me fizeram entrar nessa casa para começo de conversa.

– Eles são uma ilusão

– E o que isso muda?

Rodrigo não disse nada.

– Ótimo. Assim está melhor.

Henry se levantou e espiou pela janela para ver que o sol estava cruzando o horizonte, deixando a lua pelo céu com sua escuridão cheia de estrelas e comentou:

– A melhor coisa que tem em morar longe das cidades é à noite. Com nenhuma poluição luminosa, da para aproveitar a visão do céu escuro. Eu gosto de pensar que as pequenas luzes das estrelas estão sendo sufocadas pela imensa escuridão do espaço. Você sabia que muitas dessas estrelas já estão mortas? Os pontinhos que vemos são quase como almas sem corpos percorrendo o espaço até se darem conta de que seus corpos se foram há muito tempo.

Rodrigo não disse nada. Ele continuou a encarar Henry com olhos medrosos.

– Não me olhe desse jeito. Eu apenas estou tentando quebrar o gelo. Eu ainda sou eu. De fato, eu estou agindo conforme minha aparência permite ser. Ignore o interior e aceite o exterior, pensei que era isso que vocês humanos faziam? Então para que mudar agora? A ilusão é boa. Então por que não seguimos adiante e ignoramos isso que acabou de acontecer?

Rodrigo continuou quieto. Não tinha coragem de proferir qualquer palavra.

– Olha, o trato ainda continua o mesmo. Você fica com o livro por um tempo não determinado, tendo livre liberdade para usa-lo nesse meio tempo. Curto, simples e fácil de entender, não? O trato se baseia nisso. Agora eu irei falar do que está por trás das estrelinhas. Primeiro, com tempo indeterminado, não sabemos dizer o quão longo pode ser. Anos, no mínimo. Caso você morra durante a posse, o livro voltará a ser de propriedade do meu cliente. Segundo, quanto à parte de usá-lo, o livro faz certas coisas. Você não poderá usa-lo contra mim ou o cliente a quem represento. Fora isso, não há restrições. No entanto, se essa condição for quebrada, a posse do livro passara para meu cliente imediatamente. E pronto. Esses são os termos do contrato. Então, aceita? –  finalizou Henry!

Rodrigo engoliu em seco e disse:

– E se vo-você estiver mentindo. Demônios mentem.

– Eu já não te disse. Eu não sou demônio.

– Então o que você é?

– Você me julga por estúpido, por acaso? – disse Henry estressado.

Rodrigo se estremeceu na elevação de voz do Henry. Tomou um pouco de coragem e perguntou:

– O que é esse livro?

– Em poucas palavras: Esse livro é uma relíquia de um tempo antigo, esquecido pelo seu povo.

– O que ele faz?

– Você não precisa saber muito. – Henry voltou a sorrir – Mas, eu acho que tem uma coisa que pode agrada-lo.

– E seria?

– A habilidade de modificar suas escolhas do passado. Você não acha isso perfeito? Com isso você poderia alterar qualquer merda que você já fez.

Rodrigo pensou nisso. A primeira coisa que veio em sua mente foi sua família, há muito tempo perdido. Pensou na noite do ocorrido e na sua covarde e estupida atitude. E pensou no sonho e na possibilidade de torna-lo real.

– Eu…

– Hã? Eu não escutei direito.

– Eu… poderia voltar no tempo, então?

– Sim! Eu ainda prefiro o termo: viajar pelas memórias. Mas sim, poderia.

A ideia de poder consertar o seu erro era tentadora. Tentadora até demais.

– Então eu vou. Eu aceito a sua proposta. – Rodrigo disse com certo desgosto.

Henry contorceu sua boca em um grande sorriso

– Bom. – Ele entregou o livro a Rodrigo.

– Como fechamos o contrato? – Perguntou Rodrigo segurando o livro.

– Aperte minha mão – Henry estendeu-a para Rodrigo – E poderemos dizer que está feito.

Rodrigo olhou para Henry e hesitou. Deixou o livro no colo e esticou a mão para apertar a de Henry. “Não faça isso”. Perfurou a voz em sua cabeça. A mão tremula parou no ar. Vai dar merda como sempre. “Quem garante que ele não esteja mentindo? Seja racional. Não se arrisque”.

Por um momento, Rodrigo pensou em obedecer à voz. Por pouco deixara o medo dominá-lo mais uma vez como tinha feito por todos esses anos, mas se ele deixasse o medo dominá-lo, como sempre acontecia, ele seria um escravo do medo e da loucura. Então, um vislumbre do sonho que teve naquela manhã passou em sua cabeça. Ele se lembrou das coisas que não sentia e fazia ha muito tempo. Queria sentir isso mais uma vez, e dessa vez seria real. Ele, então, decidiu ir em frente. Não seria mais escravizado pela voz e seu medo. Soltará as correntes da covardia e agora iria seguir em frente com sua determinação de consertar tudo.

“Você se arrependerá”, ameaçou a voz em desespero. “Esse não é o verdadeiro ele, e você sabe disso! Vai se deixar cair na ilusão dele tão fácil assim? Eu sei que você ainda pode resistir. Resista!”. Rodrigo ignorou a voz e apertou a mão de Henry. A voz se calará em um grito final. Dessa vez para sempre!