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Contos Minilua: O gato e o fantasma #147

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O gato e o fantasma

Por: Magno Barcelos

Eram por volta das vinte e três horas quando numa noite horrenda e entristecida, Ana Maria descia pela avenida escura e deserta de seu bairro. A penumbra de uma noite sórdida não escondia o temor no rosto pálido da criança amedrontada. Seus passos eram rápidos, fixos, mas a sensação gélida em seu abdome subia lentamente conforme respirava e ofegava.

Finalmente chegou em casa. Assustada, mas segura. Sentiu-se perseguida o tempo todo desde que deixara o colégio: uma sensação desesperadora, mesmo que não tenha notado uma alma viva sequer em seu encalço. Alma. Espirito. Ora velado, ora sentido. Às vezes um desconfortante sentimento, outras, enlouquecido. Coisas do além, tão próximas, tão temidas, no entanto, nesta noite, Ana Maria sentira mais forte uma aproximação despercebida e fora do comum.

Assombrada pelo incompreensível, a garota de 20 anos, aluna do curso superior de Licenciatura em Química, nada dissera quando passou pela sala de sua casa indo em direção ao quarto. Sua mãe, deitada num velho sofá da sala, estranhou a ausência da saudação da filha de todos os dias ao chegar à noite, entretanto, aconselhou-a suavemente a tomar um banho para jantar.

A estudante resolvera seguir a recomendação materna. Durante o banho quente, parou debaixo do chuveiro, de olhos fechados; horror este que emanava infindavelmente da garota a percorria; sentia cada gota escorrer no rosto.

Tentou esquecer o sentimento controverso que tivera ao se deparar com uma figura estranha na escola. “Não pode ser, meu Deus…!”, pensou ela, “… devo estar estudando muito! fantasmas não existem!”. Fantasmas, almas inseguras repletas de orgulho, de soberba, que percorrem este plano atordoadas querendo ou se vingar, ou avisar. De ambas as formas, Ana Maria estava inquieta e não queria pensar no assunto.

Levantou a cabeça e abriu os olhos. Todo seu medo sentido até então fora esquecido: ao contrário do que imaginava, substituído por um instante do mais absoluto terror: do outro lado do vidro escuro e respingado do boxe, quando mal se via os ornamentos enquadrados da cerâmica, uma figura disforme rastejava pelo chão do banheiro; criatura esta parecia ter sido cuspida das profundezas de um limbo infernal, e que neste ínterim percorria lentamente em direção a ela. De repente, um grito.

Não há nada que uma mãe não seja capaz de acalmar um filho. Tudo não passou de uma imaginação atordoada de reflexos do dia, do cansaço, dos estudos. A menina foi se deitar, mas antes mesmo que fechasse a janela, notou um conhecido espectro noturno a observando sobre quatro patas e caminhado soturnamente por cima do muro. Era um gato do mais profundo negror que a fez o coração palpitar ao vê-lo sair das sombras do pinheiro e encará-la de forma ameaçadora. Ela fechou as cortinas rapidamente e foi se deitar.

A noite foi tornando-se mais escura que a própria treva pode oferecer, a leve brisa na janela transformou-se tão gélida e forte que poderia ser ouvida como uivos sussurrados por seres invisíveis ao redor do cômodo, mas o sono da menina já a vencera e não a incomodava. Subitamente, ela ouviu um chamado.

Ouviu uma voz bem distante clamar por seu nome. A sensação foi estranha. Sua alma congelou instantemente. Nesse momento ela abriu os olhos e pávida, levantou-se sem ao menos olhar para a própria cama.

Um pavor repentino correu-lhe pela dorsal. “Senhor Jesus, o que é isso?!” – pensou ela com passadas firmes indo direto ao aposento dos pais. “Não é nada, filha! Não há ninguém lá!”. Dizia sua mãe ainda sonolenta. A garota estava com a pele branca, estarrecida. 

O pai da garota se levantou sem dizer nada e foi no quarto da filha. Não havia nada de anormal. Assustada, a garota voltou a se deitar. Rezou a oração do Pai Nosso e se cobriu com a coberta naquela noite fria.

A meia-noite passava e o sono foi lhe tomando. De repente, puderam-se ouvir novamente os sussurros chamando a garota, mas dessa vez ela não percebeu, pois já estava num estado profundo de sonolência. Foi então que por de baixo da cama surgiram horrendas mãos, pálidas e fantasmagóricas, que pareciam agarrar firmemente a moldura emadeirada da cama querendo sair. 

Várias outras foram surgindo em seguida, com longos braços esqueléticos parecendo vir de seres abissais. Ana Maria abriu os olhos. Estava estupefata! Tentou gritar, mas sua boca parecia estar asfixiada por uma espécie de mão. 

Imobilizada e paralisada, ela não via o que a fizesse estar daquela forma. Pensou que estivesse tendo um pesadelo. Mas que pesadelo seria este? Foi então que de imediato notou, agachado de cócoras sobre sua cintura, a verdadeira face de um ameaçador e vil diabrete: os grandes olhos e a pele umedecida corroboravam com o corpo macilento que respingava sobre a tez um líquido putrefato.

Nunca ouve temor mais intenso e disforme com que estar de frente a uma monstruosidade como aquela. A figura encarava Ana Maria bem fixamente e ela, nada fazia. Não conseguia. Seus braços e pernas estavam intactos parecendo-lhe que estivessem presos por mãos fortemente cerradas.

O semblante de medo da garota foi sendo substituídos por tristeza e lástima. Não tardou para sentir-se sufocada por mãos que lhe apertavam o pescoço enquanto o portador da morte a observava friamente sobre ela. Tudo acabou no instante seguinte.

Anos mais cedo:

O velho local em Aracruz antes conhecido como ADM, de logradouro Avenida Morobá e cercado de grandes árvores como eucaliptos e salgueiros, era distinguido dos demais centros profissionalizantes por ser de iniciativa municipal e atender a demanda da mais recente grande fábrica de papel e celulose da região.

Deveras de grande dimensão para ministrar vários cursos dos mais diversos. Grandes áreas eram cercadas com verdes de gramíneas que percorriam entre galpões e estalagens prediais devido às práticas em questões. Dos vários funcionários que trabalhavam no local, um senhor, carrancudo e taciturno, Rubens, de quem não gostava muito, era vigia há anos e trabalhava a noite numa escala das 22:00 às 6:00 do dia seguinte.

Trazendo sempre consigo sua garrafa de café de preparo bem forte para espantar o sono, todos os dias Rubens sentava em sua cadeira perto da entrada do galpão e observava a ampla área campestre encontrada à sua frente.

Certa vez, enquanto comia uns biscoitos na calada da noite, um curioso animal aproximou-se dele. Era um gato, tão negro como a nefasta escuridão daquela noite de inverno. Vendo o animal perto, o senhor Rubens pôs a jogar – lhe pedaços de biscoito, que foram bem recebidos.

No entanto, ao parar de alimentá-lo, o gato miava, pedindo-lhe mais. Daquele dia em diante, seja qual fosse o momento em que o senhor Rubens chegava para misantrópica rotina e sentava em seu banco, estava lá o místico felino esperando-o. Certa vez o gato não apareceu e o vigia de poucas palavras ficou preocupado.

Tratando-se de sua única companhia por longas horas da noite, foi em busca do animal. Ao avistar um vulto bem de longe no vasto campo parecendo o bichano, foi verificar. A área estava gelada; a noite mais uma vez engolia a mais débil luz incandescente dos raros tocheiros ao redor da área.

O vulto que ali residia nos arbustos, desapareceu, deixando apenas Rubens sozinho em uma neblinada e inexplicável região fétida. “Negrejas tua alma, animal do desconhecido! Apareça e não me fazes de bobo, demônio!”. – Pensava rispidamente o homem enfurecido. No instante seguinte, ouviu-se apenas o bater do coração do moço naquela noite fria e estranha; o ar úmido e de baixa temperatura aglomerava mais a temida sensação que estivera sentindo por aquele breve momento.

Ao olhar para baixo, em seus pés – sem ao menos saber se realmente queria isso –, uma criatura aparecera de repente, temerosa e derradeiramente repugnante. Rubens ficou paralisado diante daquele ser asqueroso…E nunca mais fora visto desde então.

O desaparecimento do vigia repercutiu por alguns dias, tendo várias hipóteses, dentre ela, até uma fuga de desespero.

A polícia fez uma vistoria pelos arredores, mas não encontrou nada. Conjecturas diversas, chacoteada por alguns, foi de que a própria figura icônica do gato havia matado o homem e enterrado ali por perto, contudo, os investigadores não encontraram nenhum sinal de escavação.

Algumas semanas doravante, na própria agência, foram surgindo relatos dos mais estranhos a respeito de possíveis avistamentos de Rubens andando pelos grandes corredores à noite.

A senhora Arlete, uma das faxineiras, diz tê- lo visto de relance sentado em seu banco encostado no galpão – o mesmo nunca fora retirado de lá –; uma das alunas, sem conhecer pessoalmente o homem, relata ter sentado ao lado de um senhor de idade que apresentava as mesmas feições contadas a ela posteriormente; alguns rapazes do curso de elétrica predial dizem também ter encontrado no banheiro um senhor nunca antes visto; mas o que se tornou indiscutível entre os relatos, foi a frase que o suposto homem dizia a si mesmo em palavras audíveis sob uma mínima presença de quem fosse: “não encare o gato preto”.

Anos mais tarde, a oferta dos cursos cessou e por um longo período a ADM parou seu funcionamento, servindo apenas à palestras ou encontros esporádicos.

Recentemente em colaboração com a Prefeitura Municipal de Aracruz, houve a implantação do Instituto Federal do Espirito Santo, o IFES; no entanto, os relatos foram esquecidos. Até os dias de hoje é comum ver ou ouvir um gato de pelos escuros percorrendo sorrateiramente os corredores da escola.

A lenda fora esquecida, mas uma aluna, recentemente, ao se sentar numa cadeira no corredor e conferir o resultado de um exercício avaliativo que acabara de fazer, sentiu a presença de um senhor de idade sentar ao seu lado e entristecidamente dizer: “não encare o gato preto”.

Fim.