Contos Minilua: O dia em que a Terra parou #121

E este sim, um dos contos mais hilários que já recebi…E olha, eu garanto que é divertido. E-mail de participação: equipe@minilua.com!




O Dia em que a Terra parou

Por: Elson Miranda

ganhador

Sábado, 7 horas da manhã, marretadas no apartamento de cima (maldita reforma…), acordei com uma tremenda ressaca, a noitada anterior foi violenta, cheguei às 4 da madruga.Puta dor nas costas, minha esposa Rosicleide me fez dormir no sofá, isso depois de falar um monte na minha cara, levei até uns tapas, mas deixa isso prá lá.

Vou para o quarto tentar uma reconciliação com a minha patroa, mas ela ja tinha se mandado para o trampo, trabalha como operadora de caixa de supermercado, ultimamente ela anda muito estressada. Vou para o banheiro, dou uma mijada de quase 2 minutos, de dar inveja a um cavalo. Escovo os dentes, me olho no espelho, estou meio pálido, jogo água na cara e volto pra sala. Pego o jornal que tinha trazido do trabalho no dia anterior, vou conferir o resultado da mega sena acumulada da última quarta-feira.

Retiro o bilhete de aposta da carteira, todo amassado. Dou uma olhada nas manchetes, CPI do cacete, médicos cubanos, assaltos, etc. Minha atenção se volta para o resultado do concurso 1525 que diz que há somente um ganhador, apostador do RJ, pensei brincando: “Quem sabe não é desta vez que deixo de ser motorista de coletivo…” jogo as mesmas dezenas a dez anos, já sei os números de cabeça.

Primeira dezena… confere, segunda… confere… terceira, quarta, quinta e sexta dezenas… conferem… Puta que pariu! Ganhei na mega sena… sinto um aperto no coração, o chão se abrindo nos meus pés, falta de ar… vou para a janela tentando respirar e não acreditando no que estava acontecendo. Será que ainda estava dormindo e sonhando?

Lá embaixo na pracinha de frente ao prédio, alguns aposentados jogando dominó, crianças brincando, senhoras puxando carrinhos voltando da feira, na banca de jornais aquele simpático velhinho de boina branca que todos os dias me cumprimenta com um cordial bom dia, agora estava me encarando e de repente começou a sacudir o saco com a mão e a acenar pra mim freneticamente e eu pude ler perfeitamente em seus lábios que diziam pausadamente a seguinte palavra:

L-A-R-G-O… Despistei olhando para o prédio de frente, aquela minha vizinha gostosona que nunca olhava para mim e que sempre fechava a janela na minha cara, agora estava com a janela escancarada e nua, de quatro em cima da cama, arreganhando a bunda pra mim, de repente ela pulou da cama e segurou um cartaz que dizia: “Oi lindo, por 10 mil, te dou até o ouvido esquerdo, beijos…” Tento disfarçar, me afasto da janela… meio tonto com tudo aquilo acontecendo…

Ligo o rádio, Transamérica FM, locutor dando a dica de alguns bailes, mandando um salve para algumas comunidades, de repente ele fala: “E o nosso muito bom dia, para o mais ilustre morador de Madureira, bom dia Sr. Armando Vasconcelos da Silva…”, desligo o rádio assustado, meu Deus o que está acontecendo? Vou para o banheiro, suando em bicas, melhor tomar um banho.

Água fria, pensamento a mil… de repente alguém bate na porta, minha cunhadinha gostosa, Rosilene, que mora com a gente já a 2 anos e meio e não fala comigo a dois anos, desde aquela vez que joguei um xaveco furado. Ela fala com voz manhosa: “Armandinho meu amor, se o sabonete cair é só chamar que eu tô aqui pra pegar pra você, se é que você me entende…”

Fiquei estarrecido, pernas bambas… só consegui falar: “Valeu!”. Saio do banho e vou para o quarto, visto uma bermuda, camiseta regata (sinto a minha barriga maior que antes), volto pra sala, o telefone toca, é o Sr. Antônio dono da padaria da esquina, já vou logo falando que minha dívida de cinco meses vai ter que esperar mais um pouquinho, ele fala: “Não é nada disto Sr. Armando (estranho ele não me chamar de “Seu safado”), ele continua, eu estou ligando para te desejar um bom dia e pra falar que aquela minha filha que é balconista aqui da padaria e o que o Senhor vivia cantando e chamando de gostosa, está indo aí no seu apartamento levar um cesta completa de café da manhã e o seu jornal…

Caramba, tem cinco meses que eu passo pela rua de trás para não passar em frente à padaria, fugindo deste maldito. Deixo o telefone cair no gancho, foi o tempo de tocar de novo, era o gerente do banco (Em pleno sábado ??), perdoando as dívidas, me falou que estava liquidando os últimos 12 anos de prestações do apartamento se eu comparecesse na agência para abertura de uma conta especial… falei obrigado e desliguei num impulso.

Minha sogra (megera desgraçada, ficou viúva e veio de mala e cuia morar com a gente) entra na sala com uma bandeja, o jogo de chá que ela ganhou no casamento dela a mais de 50 anos, entrou falando: “Meu filho querido, venha tomar um café da manhã caprichado, você precisa recompor as energias depois da noitada de ontem…” fiquei desconcertado…

A campainha toca, entra o porteiro, vascaíno doente, com a camisa do Flamengo e cantando: “uma vez Flamengo, sempre Flamengo…”, ele fala: Bom dia Armandão, vim trazer suas correspondências pessoalmente, as cartas de cobrança eu deixei com minha irmã, é que ela é secretária executiva e está desempregada, assim ela está negociando suas dívidas e já está se familiarizando com a sua documentação…

Com a porta ainda aberta, entra um cara que eu nunca vi na minha vida, chegou falando: “Fala tio, quanto tempo!”, eu perguntei: “Quem é você?”, ele respondeu: “Sou o teu sobrinho neto Dilsinho, lá de Minas, vim morar uns tempos com vocês… a propósito, o tio Totinha manda lembranças lá de Mato Grosso do Sul e pediu se o Senhor pode dar uma força pra família dele, a coisa lá tá feia…”, daí eu falei indignado: “Eu nunca te vi na vida e nem sabia que tinha um tio Totinha (??) no Mato Grosso do Sul”.

Resolvi sair de casa, tinha urgência de chegar na rua, bati a porta da sala com força, não estava mais acreditando no que estava acontecendo, parecia aquele programa Além da Imaginação, já no corredor, na porta do elevador tinha dois sujeitos de terno, um deles falou:
“- Bom dia Sr. Armando, queira por gentileza entrar no elevador”, eu perguntei desconfiado: “ - Quem são vocês afinal de contas?”, o outro que pareceu ser o mais velho me respondeu:
“ -Nós somos agentes da Receita Federal e estamos aqui para proteger nosso futuro investimento”.

Eu falei que não sabia o que eles estavam falando e disse que ia descer pelas escadas, estava precisando fazer um pouco de exercício físico. Antes de chegar na portaria, eu dei uma espiada se não tinha alguém me vigiando na saída. Tinha um grupo de umas 50 pessoas, todos os meus colegas de trabalho, vizinhos, gente que eu nunca vi mais gorda… vestindo camisetas com minha foto estampada, segurando faixas, parecia a saída da casa do Big Brother…

Continuei descendo as escadas até chegar na garagem, tinha que fugir daquilo tudo. Quase dei um troço, meu chevette 86 não estava na vaga… eis que a porta da garagem se abre e eu vejo minha esposa Rosicleide entrando com um Audi S8 novinho e berrando: “Olha benhêêê!!!”… aí eu perdi os sentidos e cai desmaiado…

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