Contos Minilua: O colecionador de órgãos #178

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O colecionador de órgãos

Por: Lucas Rodrigues

Enfrentando um trânsito terrível, Vitor, que saíra de sua casa há pouco tempo, se mostra mais impaciente com a lentidão dos carros e sua pressa pra ir ao trabalho aumenta a cada segundo. Passado todo o sufoco no engarrafamento, o rapaz de pele morena e porte atlético, deixa seu carro em um estacionamento qualquer e vai direto para a empresa em que trabalha.

Seu emprego é de guarda noturno, trabalha incansavelmente vigiando as ruas desertas em horários considerados perigosos, pois o bairro está repleto de bandidos e traficantes de drogas, além dos ladrões de carros, que era algo típico daquele bairro que ninguém ousava ficar andando pelas ruas até tarde da noite. Vitor, com sua moto, faz a patrulha noturna, como sempre faz durante os dias em que trabalha… Apenas mais um dia normal… Por enquanto.

Um carro, em altíssima velocidade, corre pelas ruas batendo em hidrantes, postes, quebrando vitrines de lojas… o motorista estaria bêbado, talvez. Vitor entra na rua 34, mesma rua em que o carro maluco faz sua corrida desenfreada, ele é surpreendido quando de repente vê o rosto do motorista do carro, é o seu irmão Tiago, que vive uma vida completamente desregrada que se resume em mulheres, festas e bebidas… e drogas também.

Vitor dá ordem de prisão, mas Tiago não ouve e continua rodando o carro, totalmente sem direção, colocando em risco a vida dos cachorros e gatos que ficam passeando pelas ruas nas madrugadas.

Vitor acelera sua moto para ir atrás do carro de seu irmão rebelde, porém, o veículo dá a meia volta e vai em direção a Vitor e sua moto. Tiago atropela o irmão sem escrúpulos, a moto voa e cai em cima de um carro vermelho, Vitor é arremessado para longe devido ao impacto do atropelamento caindo em um canal. Bastante ferido e completamente sujo, Vitor perde a consciência tentando se levantar para sair do canal de esgoto.

Vitor acorda em um lugar estranho… parece ser um hospital de emergência.

 Não se lembra de quase nada do que aconteceu, quer voltar ao trabalho o quanto antes, quando tenta se levantar daquela desconfortável cama de hospital, percebe que está amarrado com cabos de aço. Rapidamente ele se desespera e se dá conta de que não está em um hospital comum… Parecia uma espécie de sala de tortura. Vitor grita por socorro, mas parece que ninguém lhe ouve:

 -Socorro!!! Me tirem daqui!!! Eu tô preso!!!… Socorro!!! -grita o rapaz, euforicamente desesperado.

Tentando se libertar daqueles grossos cabos metálicos, Vitor se debate na cama, mas não obtém sucesso.

A porta, até então trancada, abre e um médico simpático aparece no quarto. Vitor logo pergunta:

- Pode me dizer que lugar é esse? Aposto que não é um hospital de verdade.

- Não se preocupe, está em um lugar que você nunca vai esquecer. - diz o médico, com um sorriso cínico e bastante suspeito.

Vitor tenta lhe arrancar informações mais valiosas:

- Mas que tipo de hospital é esse que trata seus pacientes dessa forma!? Amarrando-os com cabos de aço… isso só pode ser ideia de um psicopata!

  - Psicopatas? Não sei do que está falando… - diz o médico, pegando uma injeção e olhando fixamente para Vitor.

Vitor olha com medo para a injeção, que tem um líquido vermelho… mas não parece ser sangue de humanos… era sangue de animais doentes, pois o mesmo tem uma coloração com um vermelho mais escuro. O médico pula, com uma força sobre-humana, em cima de Vitor e se prepara para lhe aplicar a injeção. Vitor se assusta e fica mais apavorado:

 - O que vai fazer comigo? Você… você é um louco! Quero saber quem me trouxe pra cá e o que querem de mim!

- Vai saber na hora certa. Agora fique parado, não vai doer nadinha…. hahahahahaha —- diz o médico, dando uma risada maléfica.

 Vitor toma coragem e com muita rapidez cospe na cara do doutor, que larga a injeção e cai da cama tentando limpar seu rosto melado de saliva. Usando a força bruta de seus braços musculosos, Vitor consegue se libertar dos cabos de aço aos poucos, um por um. O médico, com bastante nojo, limpa seu rosto com um pano e procura a injeção, que caiu dentro da lata de lixo. Revoltado com a atitude petulante de Vitor, o médico esbraveja:

- Vai se arrepender por isso seu cretino… não vai escapar de nós tão facilmente!

Vitor se liberta definitivamente dos cabos de aço, dá um pulo e abre a porta. Desesperado para encontrar uma saída, ele entra por diversos corredores, todos mal iluminados com apenas uma lâmpada. Em um corredor, Vitor se depara com um extintor de incêndio, sua ideia é arrombar a porta que dava no final do corredor. Vitor pega o extintor, se aproxima lentamente da porta cuidadosamente, sem fazer um barulho, o silêncio domina o lugar completamente e o desespero de Vitor aumenta.

A única luz do corredor começa a piscar sem parar, Vitor se abaixa pensando ser alguém que vinha por trás para lhe pegar, mais vê que não é nada e continua indo até a porta. Já próximo da porta, Vitor olha para trás para ver se há alguém e vê o corredor bastante escuro, tão escuro que parecia ser um portal para o inferno.

Diante da tremenda escuridão que observa, Vitor sente um frio na espinha e seu sangue gela completamente, ao perceber que alguém está por perto… alguém está próximo, e não é algo de se negar a temer.

Vitor arromba a porta com o extintor e vê mais um corredor, este está mais iluminado, com apenas quatro lâmpadas fluorescentes. Um vulto passa rapidamente no final desse corredor que dava para outro. Vitor corre, largando o extintor no chão, para ver o que é.

Chegando no final do corredor percebe que não há ninguém, mas dá alguns passos, pois há outra porta no final deste corredor. Virando para trás, com aquela mesma sensação, Vitor se depara com um homem de capuz preto portando um tubo enferrujado e uma mangueira pequena. O homem diz:

- Durma…

 Ao mesmo tempo em que lança em Vitor um gás sonífero através do tubo que traz consigo.

Vitor, mais uma vez, acorda se sentindo em um lugar que nunca viu em sua vida, uma sala grande, iluminada com apenas três lâmpadas prestes a queimar, com paredes metálicas e diversas mesas com diversos objetos estranhos, uma sala completamente fechada e sua saída é oculta.

Ao seu redor, ele percebe uma espécie de máquina de tortura, com diversas agulhas, facas e tesouras, prontas para lhe fazer uma operação. Vitor, dessa vez não está preso, mas não sabe como escapar daquele monte de objetos pontiagudos em sua volta, que parece mais um monstro mecânico programado para torturar suas vítimas… e é exatamente isso que ele é. Vitor pergunta ao tal homem, o mesmo homem que viu no corredor:

- O que pensa que está fazendo?

O homem está amolando um facão enorme. Não está mais com um capuz, mas usa uma máscara de palhaço e uma roupa preta. A máquina de tortura para, o homem se aproxima de Vitor com o facão na mão. Vitor o olha bastante assustado e suando frio. O homem faz um comentário que deixa Vitor com mais medo ainda:

 - Você é a vítima mais fácil que eu já tive… portanto vou aproveitar o máximo, arrancando tudo o que tem dentro de você, até não sobrar nada.

A pupila de Vitor se dilata, e o seu suor aumenta cada vez mais. O psicopata é nada mais do que um assassino que é fanático por órgãos, sente prazer em maltratar suas vítimas até o limite da crueldade. Vitor não acredita mais que irá se salvar, seu destino é morrer nas mãos de um colecionador de órgãos.

O homem se prepara para golpear Vitor com o facão, ele ergue seu braço e diz: - É o seu fim!

Antes que Vitor - que está totalmente imóvel de tanto medo - tivesse seu abdômen rasgado, o psicopata é golpeado na cabeça por trás… alguém fez isso para salvar a vida de Vitor e impedir a sua morte dolorosa. O assassino cai no chão já inconsciente. Vitor, com sua visão um pouco turva, consegue ver uma sombra… era seu irmão, Tiago, que veio lhe salvar.

Tiago está armado com uma barra de ferro, olha para Vitor com tristeza por ver o irmão passar por uma experiência desastrosa e macabra. Tiago larga a barra de ferro e vai até o painel de controle e desativa a máquina de tortura, as agulhas, tesouras e facas que cercam Vitor abaixam lentamente indo para o subterrâneo que é onde fica o motor da máquina. Vitor corre para abraçar o irmão, os dois se abraçam amigavelmente, mas Vitor ainda quer saber o porquê dele estar dirigindo sob efeito de drogas na noite passada:

- Tiago, obrigado por me salvar, achei que eu ia morrer. Mas me diz uma coisa: porque você tava dirigindo aquele carro daquela forma? Parecia que você estava drogado, entorpecido, sei lá…

- A forma como eu estava agindo tem tudo a ver com esse cara… ele me ofereceu a pior de todas as drogas. - Revolta-se Tiago, apontando o dedo para o psicopata que ainda se encontra desacordado no chão.

- Que tipo de droga ele ofereceu? Quero que você me conte tudo. -diz Vitor, disposto a saber toda a verdade por trás do maníaco.

 - Siga-me. - diz Tiago, com a cabeça baixa, indo em direção a uma parede, que mais parece uma passagem secreta.

 Aproximando-se da parede, Vitor estranha o comportamento de Tiago diante de todo esse mistério intrigante. Tiago levanta a cabeça olhando para a parede e conta a verdade:

- O maníaco me ofereceu um emprego… para assassinar pessoas e sequestrando-as para que ele terminasse o serviço. O término desse serviço era a retirada total dos órgãos das vítimas. Esse monstro me fez inalar um gás alucinógeno que me deixou completamente descontrolado. Era esse gás que fazia com que eu agisse daquela forma… eu sou viciado em drogas, você sabe muito bem disso, mas nunca tinha me sentido daquela forma, foi horrível.

Vitor tenta acalmá-lo:

- Está tudo bem agora, já passou… agora só preciso saber porque ele faz isso… e aonde estão os órgãos destas pessoas, aonde ele guarda!?

- Está bem atrás desta parede… - diz Tiago, olhando para a parede fixamente.

Tiago vai até um outro painel de controle, que faz abrir a parede, e aperta um botão verde. A parede vira e por trás dela surge uma vidraça enorme, com vários órgãos dentro, é neste local que o maníaco guarda os órgãos de suas vítimas para depois consumi-los e saciar sua fome. Vitor, vendo todos aqueles órgãos empilhados, não aguenta e acaba vomitando no chão. Tiago se agacha e chora por não fazer absolutamente nada para reverter a tragédia.

- Tantas vidas perdidas… - lamenta Tiago.

 Os órgãos eram bastante variados: rins, fígados, pâncreas, cérebros, intestinos e até mesmo corações fazem parte da coleção do maníaco.

Vitor corre para tentar achar uma saída e escapar daquela sala. Olha para todos os lados e não vê nenhuma porta que seja uma saída. Tiago o alerta:

- Não há como sair daqui, teremos que morrer, esse é o único jeito de aliviar nosso sofrimento.

- Claro que não Tiago, você está errado, sempre há uma saída… tem que haver. Não podemos ficar nesse circo de horrores.

 O maníaco recupera a consciência, se levanta e pega a barra de ferro que Tiago usou para lhe golpear. Vendo Tiago agachado no chão chorando e Vitor olhando para as paredes completamente distraído, o maníaco vai até a um cofre que fica perto da mesa de tortura.

Ele digita o código para abri-lo e dentro do cofre há uma bomba-relógio. O maníaco cronometra o tempo em que a bomba deve explodir e coloca em 2 minutos. Vitor percebe o maníaco em pé portando a bomba e avisa a Tiago:

- Tiago, cuidado, ele acordou!!!

 - Vocês não vão escapar tão facilmente de mim, terão que morrer!!! - esbraveja o maníaco, disposto a tirar a vida dos dois irmãos a qualquer custo.

Com uma rapidez impressionante, o maníaco se aproxima de Tiago e pega-o pelo pescoço, apertando com força, minimizando a respiração do rapaz. A bomba tinha uma fita adesiva que colava em qualquer lugar, o maníaco aproveita essa oportunidade e cola a bomba no abdômen de Tiago com a fita, em seguida ele amordaça Tiago com um pano sujo de sangue. Ele ameaça, dando um aviso a Vitor:

- Por ter me traído, seu irmão irá ter uma morte dupla…

- Como assim uma morte dupla? O que pretende fazer? - pergunta Vitor, desesperado.

 - Vou dar um tiro na cabeça dele…. -ameaça o maníaco sacando um revólver calibre 38.

- Espera, calma, não faz nada com ele, por favor, eu te imploro, deixa meu irmão em paz, eu é que mereço morrer no lugar dele. - clama Vitor, pedindo misericórdia ao maníaco.

- Coloquei uma bomba-relógio nele, vai explodir em 2 minutos, você precisa ser rápido o bastante para realizar a tarefa que vou lhe ordenar a fazer. Traga os 28 corpos que estão no armário principal, são cadáveres de pessoas que eu matei há alguns dias, devem estar em decomposição, mas os órgãos ainda devem estar apetitosos. Se não trazê-los em 2 minutos, seu irmão vai morrer com um tiro na cabeça e também bombardeado em mil pedaços.

- Onde fica esse armário? - pergunta Vitor.

O maníaco pega um controle remoto e abre uma outra passagem secreta no lado direito da sala. Uma abertura bastante alta, por dentro uma escuridão ameaça a coragem de Vitor em adentrar no local. Mas antes de entrar, Vitor pede algumas explicações:

- Quero que me fale se esse lugar em que estamos é a parte subterrânea do hospital.

-  É claro que é. Eu trabalho para o Dr. Swan, o médico que lhe atendeu quando estava no quarto. É ele que me orienta para coletar órgãos de pessoas inocentes, ele usou uma campanha falsa de doação de órgãos para atrair mais pessoas, mas não funcionou.

Então, ele me contratou como um assassino de aluguel, para matar pessoas e retirar todos órgãos dela. Ele me ofereceu este laboratório para que eu fizesse experiências com os órgãos e também com os cadáveres, usando um mutagênico para modifica-los.

Durante esse tempo, eu alimentei um desejo de consumir os órgãos e o doutor me deu total permissão para saciar a minha fome. Eu e ele compartilhamos do mesmo desejo. O plano principal é usar alguns órgãos modificados e recoloca-los nos cadáveres para que eles retornem a vida, só que como mutantes zumbis. O Dr. Swan quer criar um exército deles, no começo não concordei com a ideia, mas ele me convenceu.

- Então esse é o plano…. Eu já devia saber…. Vocês dois são verdadeiros monstros. - diz Vitor revoltado.

- O tempo está acabando… presumo que não queira perder seu irmão tão cedo. - alerta o maníaco.

- Tudo bem… eu vou trazer os corpos… mas quero que mantenha meu irmão, me prometa isso.

- Pare de falar, vá logo, antes que eu mude de ideia!!!

Vitor entra na abertura, a escuridão é imensa e amedrontadora. Vitor tem apenas 2 minutos para fazer a vontade do maníaco para que a vida de seu irmão seja salva. Uma tarefa difícil, que irá traumatizar Vitor pelo resto de sua vida… mas nada para Vitor é impossível, pois não desperdiçará sua coragem neste teste de sobrevivência.

Continua…

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