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Contos Minilua: O ceifador (parte III) #149

Pois é, e com vocês, a última parte do conto. O e-mail de contato: Jeff.gothic@gmail.com! A todos, uma excelente leitura!

O ceifador (parte III)

Por: Lucas Rodrigues

O cemitério está tomado pelas trevas devido ao poder maligno do ritual, que neste momento tem seu início, poderia ser impedido, mas as forças do mal e da morte são rápidas e habilidosas quando querem atingir objetivos sórdidos e sombrios, na busca de saciar a incansável sede de poder dominante, que abomina qualquer lei ou código de conduta pacífico.

As trevas que consomem o cemitério tem a mesma medida da sede de vingança que consome a mente de Pedro, pois este perdeu um amigo muito querido, a dor e o ódio são os sentimentos mais presentes quando acontece algo dessa natureza… André morreu para em seguida ser vingado, e Pedro jura isso com todas suas forças… não vai deixar a morte de seu amigo passar em branco, como se não tivesse acontecido.

O ritual está em fase de consumação, quase perto do fim, mas algo falta: a alma de André! Esta precisa ser usada para que o processo seja concluído e finalmente fazer o ceifador obter sucesso em sua conquista. No castelo, a criatura continua a dizer palavras completamente distantes da compreensão humana, a luz vermelha se intensifica, as chamas das velas aumentam cada vez mais, uma verdadeira cena que traumatiza as mentes mais impressionáveis deste planeta.

Os quatro heróis se preparam para enfrentar o mensageiro da morte, indo até o castelo, lugar onde ele se encontra em sua forma demoníaca realizando o terrível ritual mortífero. Usando sua perna direita, Oliver arromba a porta com um chute tremendo, quase destruindo-a por completo.
Ele toma posição de líder, antes ocupada por Pedro, que agora é nada mais do que um fiel escudeiro ou talvez um vice-líder, mas isso é o que menos importa.

O quarteto corre em velocidade máxima, adentrando no castelo, que por sinal, seu interior é bem escuro e quase não dá pra ver os objetos que nele se encontram.
A primeira sala do castelo é pequena, de pouquíssimo espaço, logo no fim dela há um corredor bastante escuro por onde nossos heróis entram e correm para impedir a concretização do ritual.

– Afinal, qual a origem desse desse castelo? -pergunta Pedro para Oliver
– Há muito tempo… a quase mil anos atrás, esse castelo pertencia à uma família rica, dos tempos medievais. O rei deste castelo fez um pacto com a morte, no caso o ceifador, o pacto consistia em fazer com que o rei ganhasse vida eterna, em troca o ceifador poderia matar todos da sua família no momento certo, restando apenas ele, que iria viver pra sempre.

O ceifador não aceitou esse tipo de negócio, um bom tempo se passou, o ceifador matou quase toda a família do rei, que já suspeitava do ceifador desde o início. O rei, vendo que os lados de fora do castelo tinham um um terreno espaçoso, viu a oportunidade de enterrar todos os seus entes queridos ali mesmo. Realizando esse feito, viu sua economia falir, seus servos já não estavam mais satisfeitos e foram embora.

Então, ele teve como única alternativa soterrar o castelo, e procurou o ceifador para que fizesse o castelo chegar ao subsolo. O rei abandonou aquele lugar, as pessoas que passavam por lá transformaram aquele local em um cemitério. O ceifador não compartilhou com o rei sobre o ritual em nenhum momento. – responde Oliver:

-Ele fez o castelo emergir para que tivesse a chance de realizar o ritual, talvez ele estava planejando isso desde o começo. – afirma Pedro.
Lívia pergunta sobre o coveiro:
– Antes de entrarmos nesse cemitério lembro de ter visto um coveiro, se ele estivesse aqui talvez ele poderia saber mais informações.

-Eu tenho que fazer uma revelação… – fala Oliver, em um tom melancólico.
– Mas que revelação? -pergunta Pedro, curioso.
Oliver é direto em sua resposta:

– O coveiro é o meu pai… eu vi o momento quando vocês chegaram, mas meu pai estava tendo um ataque cardíaco. Vocês entraram no cemitério e eu aproveitei para sair das sombras e ajudar o meu pai, mas já era tarde, ele já estava morto, não aguentou a dor que sentia e partiu sem dizer adeus. – revela Oliver, bastante comovido.
– Que triste. – lamenta Flávia.
Lívia não aguenta mais correr tanto:

– Será que esse corredor não acaba nunca!? Tô ficando cansada, já corri demais….
– Quanto mais passos damos, mais segundos se passam e o ritual fica mais próximo de seu fim! —- alerta Oliver:
– Essa aventura vai marcar a minha vida! —- diz Pedro.
Oliver afirma sorrindo para pedro:
– Pode ter certeza que também irá marcar a minha.

Pedro retribui o sorriso, sorrindo de volta, ele vê naquele homem forte e destemido uma segunda figura paterna… Pedro vê Oliver como o verdadeiro herói. Oliver é afro-descendente e suas técnicas de lutas foram aprimoradas desde quando era criança.

Vendo uma luz no fim do corredor, Pedro finalmente se alegra, pois o momento para impedir o ritual é agora! A criatura logo se espanta ao ver Pedro, Oliver, Lívia e Flávia chegando à sala de estar, a sala onde o rei e seus familiares se reuniam para conversarem, e onde ocorre o macabro ritual.

O demônio lança um rugido estremecedor que demonstra sua raiva, quase prevendo o fracasso do seu plano, mas não deixa barato e chama os espectros malignos utilizando, novamente, a sua linguagem oculta e de compreensão árdua.Os espectros são espíritos corrompidos, suas formas são de difícil descrição, eram negros e emanam energia maligna por onde passam. 

A criatura sai do centro da sala, que é onde está desenhado o pentagrama dando um pulo indo para a parede, como se fosse uma aranha. A luz vermelha enfraquece, mas o ritual não está terminado. Para Pedro é o momento certo de agir e acabar com esse maldito procedimento que pode colocar a vida destes jovens em jogo.

Os espectros malignos surgem rapidamente, são cinco, um deles traz a alma de André, a última peça para finalizar o ritual. O demônio dá a ordem e diz para seus servos assumirem suas formas de combate… ou seja, suas formas demoníacas.

A criatura flutua no ar e volta à sua forma comum, a forma fantasma, voltando como ceifador. A mortalha ressurgi e o corpo vai se desintegrando, restando apenas os pés e as mãos, a foice se materializa e vai até as mãos de seu usuário, o ceifador está de volta! Cansado de ficar só observando, Oliver dá a ordem:

– Muito bem pessoal, é agora! Pedro segure muito bem essa espada. Flávia e Lívia, procurem se afastar, se quiserem participar da luta há um armário logo ali à esquerda, pode ter algumas armas.
As duas exclamam uníssonas:
– Tá legal!

O espectros se materializam e se transformam em demônios, apenas três, pois os outros dois cuidam da conclusão do ritual usando a alma de André. Os três demônios ficam em posição, prontos para atacar, os três tem diferentes aparências, o primeiro tem a cabeça parecida com a de um leão e um corpo de um lagarto, o segundo é bípede e tem um rosto mascarado e veste uma armadura cinza, seu corpo é robusto e de grande volume.

O terceiro tem cabeça de cobra e corpo parecido com o de um inseto, bastante peludo e com asas de mosca. Todos os três tem uma pele com tonalidade negra, seus olhos são vermelhos, da cor do sangue. Encaram com bastante fúria o quarteto que está pronto para o que der e vier. Pedro, já pronto pra atacar com sua espada se sente intimidado:

-Eles estão olhando pra nós… parece que estão com muita raiva, não, raiva não, ódio, estão com muito ódio, dá pra sentir isso de longe. Isso é terrível.
– Eles vão atacar… prepare-se. – diz Oliver.

Os demônios atacam correndo em direção aos dois, Flávia e Lívia vão até o armário para ver se conseguem armas para poderem entrar na batalha. O demônio com cabeça de leão pula sobre Oliver com muita selvageria, e tenta morde-lo, mas Oliver fica se esquivando dos dentes afiados daquele fera vinda do inferno, e crava seu cetro mágico no olho direito do demônio.

Vários litros de sangue são derramados através do olho da fera, Oliver se levanta do chão e vai ajudar Pedro que luta contra o demônio com corpo de inseto. Pedro tenta lhe golpear com a espada mas o demônio é rápido o bastante para prever seus movimentos, ele bate suas asas de mosca e faz um zumbido insuportável, o mesmo que Pedro tinha ouvido anteriormente.

Pedro cai no chão e não suporta ouvir o barulho estridente, eram vários zumbidos combinados, Pedro sente que vários insetos estão o rodeando. Oliver pega seu cetro e corre em direção ao demônio, que por ter uma cabeça de serpente lança um olhar maligno para Oliver – como se fosse um flash vermelho – que cai estático no chão.

Oliver começa a ver ilusões, dentre essas ilusões ele vê um esqueleto pegando fogo e rindo como se estivesse gostando daquilo, o esqueleto está preso em um pau, um esqueleto de uma pessoa sendo queimada. Enquanto Oliver fica tendo ilusões e Pedro tenta se livrar do zumbido, Flávia e Lívia tentam abrir o armário chutando a porta:

– Essa merda de porta não quer abrir! Que droga! – reclama Flávia.
– A madeira é bem resistente e… AAAAAAAAHHHHH!!!! -assusta-se Lívia, olhando para trás e percebendo o demônio mascarado correndo em sua direção.

Flávia percebe sua amiga em apuros e dá o último chute na porta. Esse foi decisivo! A porta do armário é destruída com o chute de Flávia e de lá várias espadas e adagas caem, Flávia pega uma espada.

Lívia cai no chão ao perceber o demônio mascarado se aproximar, ele olha para ele fixamente, Lívia chora e se desespera achando que vai morrer, aquela máscara demoníaca lhe dá bastante medo, mas para sua sorte Flávia toma a frente e usando a espada que pegou no armário corta o demônio ao meio e em seguida decepa a cabeça do monstro.

A máscara cai no chão e Flávia pisa em cima quebrando-a, ela também crava a espada com bastante força no olho do demônio, já decapitado e morto. Lívia desvia da poça de sangue que se formou e abraça a amiga agradecendo-a por ter salvo a sua vida. Durante o abraço, Lívia percebe que Pedro está sendo atacado pelo demônio cabeça de serpente, vendo essa cena ela pega uma adaga e lança contra o monstro.

A adaga perfura o olho do monstro, tornando-o vulnerável e dando a oportunidade para Pedro atacar, pois ele já se recuperou do transe. Pedro pega a espada e olha para a criatura com um ódio fervoroso, a parte no meio com a espada, ele dá um giro e faz um outro corte no monstro e em seguida o parte no meio, jatos de sangue se lançam contra o ar.

As partes do corpo do demônio caem no chão juntamente com seus órgãos expostos e uma poça de sangue funda e pegajosa é formada depois da execução realizada por Pedro, que se sente um justiceiro após ter matado aquele monstro. As ilusões vistas por Oliver acabam já que o demônio que as fez foi morto, Oliver se levanta do chão com a mão na cabeça, olha para Pedro, e fica feliz por vê-lo vivo:

-Pedro! Que bom que você tá vivo garoto! – diz Oliver correndo para abraçar Pedro.
– Oliver, não é hora pra comemoração, eu posso estar vivo, mas o ritual tem que ser impedido. —-explica Pedro.
– Tudo bem, tome o meu cetro, ele irá proteger você das energias negativas, use ele para parar o ritual, bata o cetro no centro do pentagrama com toda a força. Você consegue, eu sei que você consegue.

-Tá legal… isso será pelo André… vou vingar a morte dele nem que seja a última coisa que eu faça nessa vida. -diz Pedro segurando o cetro e olhando para ele como o objeto que garantirá a sua vitória contra o ceifador.

Flávia, quase chorando, alerta para que Pedro seja rápido:
– Depressa pedro, eles já estão com a alma do André, eles vão terminar o ritual.
-Rápido Pedro, e lembre-se: se não o ritual for feito, vocês três se tornarão os novos mensageiros da morte! -alerta Oliver, fazendo Pedro lembrar das consequências que a conclusão do ritual pode ocasionar.

Pedro larga a espada, o cetro é seu objeto de confiança neste momento, ele corre para tentar impedir a concretização do ritual, porém, o ceifador, que há pouco tempo só observava a batalha contra os demônios, finalmente decide agir:

-Não vou deixar que estraguem meus planos, seus mortais patéticos!
O ceifador se teleporta, indo do ponto onde estava até o ponto onde está Oliver. Ele surge atrás de Oliver, e com sua foice o decapita cruelmente, Lívia e Flávia testemunham a horrorosa cena e gritam de medo. Pedro percebe o ocorrido e vê a cabeça de Oliver rolar pelo chão como se fosse uma bola de futebol.

Um rastro de sangue é formado pela trajetória que a cabeça de Oliver percorreu. O corpo do caçador de monstros cai no chão completamente estático, sem qualquer sinal de vida. As duas garotas ficam pálidas e suadas, e suas expressões não mudam, continuam sentindo horror continuamente depois da cena que viram. Pedro não aguenta e se ajoelha:
-NAAAAAAAAAOOOOO!!!! Porque!?… Porqueeeeee!!!!

Os outros dois espectros colocam a alma de André no centro do pentagrama, a luz vermelha novamente se intensifica, só que desta vez mais intensa do que antes. Pedro, ajoelhado e se sentindo derrotado, olha para trás, e vê um raio vermelho emergir do pentagrama e atravessar o teto do castelo.

Uma lágrima desce do seu olho e escorre pelo seu rosto. Seria uma lágrima de derrota? Ainda não era o momento para se pensar em derrota. A luz se enfraquece aos poucos até desaparecer por completo, o pentagrama é desfeito e as velas vermelhas se apagam num piscar de olhos. Pedro pensa: “Eu devia ter sido rápido… eu fracassei, botei tudo a perder.”

Lívia e Flávia mudam de forma, a pele das duas ganham uma coloração amarela, os olhos ficam vermelhos e os dentes começam a ficam mais afiados. As duas ganham armaduras pretas com uma cabeça de bode próximo da região do busto. Também ganham umas tiaras grossas e metálicas, mas de cor preta. O ritual se concretizou…

Pedro fracassou em sua tentativa frustrada em querer salvar a sua vida e a de suas amigas… ou melhor ex-amigas. Flávia e Lívia, agora que o ritual se concluiu, se tornam guerreiras do caos e da destruição, aliadas ao ceifador, para servi-lo e cumprir os mandamentos que ele ordena. Pedro observa horrorizado a transformação das duas. O ceifador flutua e vai para a frente de Pedro e debocha dele:

– E então? O que o herói vai fazer agora? A auto-confiança havia lhe subido à cabeça, agora é o fracasso que irá!

-Eu não entendo. Porque eu também não virei um guerreiro das trevas? Afinal de contas, eu é quem iria liderar conforme você planejou. – questiona Pedro, ainda ajoelhado e com a cabeça baixa.
– Este maldito cetro protegeu você… a energia positiva presente nele se fundiu à sua aura e fez com que você fosse imunizado! -diz o ceifador com sua voz distorcida e macabra.
Pedro se levanta e decidi ainda acabar com o ceifador:

– Se pensa que vou desistir facilmente, está enganado… ainda não acabou. Esta minha derrota foi apenas momentânea, você irá cair, agora mesmo!

Pedro usa o cetro e bate com ele no chão. O cetro brilha e uma intensa explosão de luz acontece, fazendo boa parte do castelo se desintegrar completamente, ser reduzido a pó. O sol aparece no horizonte, está amanhecendo. O chão começa a tremer, Pedro entra em desespero pois não aconteceu o que havia pensado, achava que o ceifador seria desintegrado junto com o castelo. O ceifador questiona Pedro a respeito de sua coragem:

– Isso é incrível… você é um digno desafiante da morte. Já parou pra pensar que você é o único humano que desafiou a morte ficando de frente com o mensageiro dela?
– Me diz o que ainda pretende… porque a terra está tremendo desse jeito!? Não me diga que ainda me quer como seu servo!? — pergunta Pedro.

– Ainda estou pensando em o que fazer com você… nem tente escapar deste cemitério, porque não vai conseguir.
Flávia e Lívia voam, permanecem flutuantes no ar e ficam ao lado do ceifador. Flávia, agora como guerreira das trevas, propõe:

– Eu sugiro que mate-o senhor. Já não precisa mais desse reles humano. É apenas um objeto descartável e inútil.
– Dê uma boa lição a ele, ele merece. – diz Lívia, em um tom de crueldade.
O ceifador ergue a sua foice, a terra começa a tremer ainda mais forte. Pedro olha para sua esquerda e vê uma onda de crânios se aproximar. O desespero toma conta de seu espírito, ele corre para tentar se salvar. O ceifador controla a “tsunami” de crânios humanos, uma tentativa de impor mais medo em Pedro, para ele se entregue e passe a servi-lo como aliado.

A onda de crânios fica mais maior e consegue atingir Pedro, que se afoga no meio daquelas cabeças mortas. O sol começa a nascer e ganhar forma, iluminando um pouco mais o cemitério. O ceifador para de controlar aqueles inúmeros crânios e com seus poderes telecinéticos tira de dentro da montanha de crânios o corpo de Pedro, já desacordado.

O ceifador toma sua decisão e finalmente decide o que fazer com Pedro:
– Eu poderia matar você… mas é um humano muito bem dotado de coragem, seria um desperdício ter que descarta-lo. Não há outro jeito.

O ceifador possui o corpo de Pedro, entrando pela boca dele. O corpo de Pedro fica cinzento, e uma mortalha surge para lhe cobrir. A foice vem em direção a ele e Pedro a pega. O ceifador agora no corpo de Pedro poderia controla-lo livremente, comandando as duas guerreiras das trevas Flávia e Lívia. Pedro e o ceifador são um ser só, se unificaram… agora Pedro é o ceifador, e irá comandar suas duas servas do mal.

Pedro ceifador, dá sua primeira ordem para suas servas:
– Este corpo humano até que é bem confortável…. nunca havia feito isso antes. Mas agora me ouçam: Destruam toda a cidade e espalhem o caos e a destruição, matem todos… sem sobreviventes.

– Sim, mestre! – exclamam as duas, uníssonas.
Flávia e Lívia voam supersonicamente, indo direto para a cidade. Em uma questão de segundos, os prédios da cidade caem como se fossem pinos de boliche, a destruição havia chegado ao mundo…
Flávia e Lívia ficam destruindo boa parte da cidade, enquanto isso, Pedro, ou melhor, o ceifador, observa a destruição e o caos se espalharem pela cidade. O apocalipse das trevas começa… e a humanidade sucumbe.