Minilua

Contos Minilua: O casebre #128

E desde já, agradeço o carinho de todos os participantes. Sem vocês, acreditem, nada disso faria sentido. E-mail de contato: Jeff.gothic@gmail.com!

O casebre

Por: Ninno Darcq

Histórias de fantasmas e assombrações são contadas a gerações, muitos dizem não acreditar, outros, de fato, não acreditam, entretanto, para a tristeza destes, existem evidências por todo lado de que um mundo sobrenatural vislumbra nossa realidade, provas disso existem até mesmo na Bíblia, ou, para os que acreditam apenas no homem, William Shakespeare disse uma vez: “ há mais coisas entre o céu e a terra do que supõe a nossa vã filosofia.”

O fato é que essas coisas existem, claro que não tão intensas e frequentes hoje em dia, como foram no passado, nas épocas de matas virgens e pouco desbravadas pelo homem, em épocas em que o homem não buscava desvendar a fundo o desconhecido.

Em tal época, encontramos um homem chamado Jorge, este se desprendera de sua família muito cedo, caindo assim no mundo, trabalhando muito pra ganhar pouco, vivendo de fazenda em fazenda, enfrentara as mais diversas situações para ganhar o pão de cada dia. Foi vaqueiro, açougueiro, colheu café, cacau, trabalhou com foice, enxada, machado, facão.

Tornara-se um homem com diversos talentos, e muito conhecido por todas as regiões por onde passava, já dormira ao relento, no meio do mato, outras vezes em casebres abandonados, dividindo espaço com ratos, cobras e escorpiões, sempre levando consigo apenas seu estimado facão de 18 polegadas e a bolsa de couro que ele mesmo confeccionou, nela iam poucas mudas de roupas, um par de chinelos, um punhal, e os poucos trocados que ganhava entre um serviço e outro.

Certo dia chegara a uma fazenda, estava muito cansado, buscava abrigo e trabalho, nem que fosse apenas temporário, mas pedia piedosamente que lhe dessem um prato de comida. O velho Augusto era um homem muito generoso, sempre acolhia andarilhos em sua fazenda, lhes oferecia emprego e abrigo, mas eles nunca ficavam muito tempo, sumiam misteriosamente sempre nas primeiras noites.

Augusto logo descobrira o motivo de nenhum vaqueiro querer ficar em sua fazenda, o casebre que dispunha para os vaqueiros era mal assombrado, havia uma entidade que cercava aquele lugar e não permitia que ninguém fizesse morada lá por muito tempo. Ainda assim ofereceu a Jorge o emprego e o que comer, mas antes de fecharem acordo ele o alertou para o mal que assombrava o casebre, mas Jorge, que já enfrentara diversas situações que causariam medo a muitos, ignorou esse fato, dizendo que nada o assustaria nessa vida.

Assim, a noite caía e Augusto já se recolhera para sua casa, junto a sua família, enquanto Jorge ficava do lado de fora do casebre fumando seu cigarro de fumo e observando a noite cobrir o céu como um longo manto negro de veludo, logo os sapos e os grilos começavam seu show noturno. Findado seu cigarro, Jorge deu uma cuspida no chão, se espreguiçou e se coçou, e entrou porta adentro, mergulhando na escuridão do casebre.

Energia elétrica era coisa de que eles nunca tinham ouvido falar, a forma que usavam para iluminar era ascender uma fogueira no meio da casa, assim, Jorge o fez, ficou na beira do fogo, vendo as chamas consumirem a lenha seca e estralar repetidamente. Não tardou para que o sono chegasse, assim se dirigiu ao local em que dormiria, uma espécie de beliche muito alta, cerca de dois metros e meio do chão e ligada por uma estreita escada feita com pedaços de madeira rústicos, chamavam tal acomodação de barcaça.

Subiu, meio preocupado com o ranger de alguns degraus, mas chegou em cima, iluminou, com um pedaço de lenha em chamas, a superfície onde se deitaria, e logo estendeu a esteira de palha, puxou o velho lençol que fora deixado por Augusto e se deitou.

A claridade da fogueira ainda alimentou o quarto por um longo tempo, até que somente as brasas ardiam transmitindo um brilho laranja a todo o ambiente. Quase pegando no primeiro sono, Jorge ouviu algo se mexer lá embaixo, mas não conseguia ver lá de cima, pois a beirada da superfície onde dormia se estendia a mais de dois metros de onde ele estava, assim, apenas pôs-se a ouvir o que se passava lá em baixo.

A lenha ainda crepitava, quando madeira começou a ser quebrada e jogada ao fogo, logo um clarão se fez por todo o ambiente, e Jorge fazia jus ao título de corajoso que ganhava mundo afora, pois apenas observava curioso e atento, começou a ver a sobra de quem quer que fosse que estava lá embaixo, passando pra lá e pra cá, depois ouviu barulho de água fervendo, estava até achando engraçado, até que a água que fervia foi jogada na fogueira, mergulhando todo o ambiente na mais horrenda escuridão. O silêncio foi perturbador e Jorge começava a ficar temeroso.

Achando que estava no cume do acontecimento, Jorge agarrou seu facão de 18 polegadas, ao qual tinha grande apreço e que lhe servira em muitas horas de apuros, e ficou à espreita, mas o silencio que se fazia no ambiente não parecia normal, parecia proposital, até mesmo os grilos e os sapos se calaram. Tal entidade que estivesse lá embaixo, não tinha saído. Mil coisas passaram pela cabeça do amedrontado Jorge, entre essas coisas, descer dali pela escada e correr porta afora, gritar para que o dono da fazenda o viesse acudir, pra que não ficasse sozinho naquela situação.

Quando se preparava para levantar e descer as escadas, Jorge sentiu o leve trepidar na superfície onde estava, logo depois, ritmicamente, ouviu o ranger da escada, o que fez seu coração gelar, estava subindo a escada, degrau por degrau. O forte coração de Jorge ameaçava sair pela boca a qualquer momento, na total escuridão Jorge não veria seu visitante no momento em que despontasse a cabeça na beirada de barcaça, mas ele sabia que aquela assombração continuava a subir lentamente, o que o torturava ainda mais.

A angústia sufocava seu peito a ponto de o fazer gritar desesperado, e pular no chão, abrindo caminho pelo mato até chegar na porta da casa do seu Augusto, a porta foi aberta, mas nesse momento, Jorge se deu conta de que estava sonhando, pois acordou ainda na barcaça dentro do casebre, e, para seu maior desespero, a entidade continuava a subir.

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