Contos Minilua: O Banquete do Órfão #204

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O Banquete do Órfão

Por: Mariana Rocha

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“Bon appétit” foi o que eu disse ao servir o jantar. Senti-me orgulhoso com a refeição que acabara de preparar. Lentamente, os meus mais profundos desejos estavam sendo realizados naquela noite memorável. O garotinho que um dia já viveu em minha pele se sentiria honrado pelos meus atos. A infância não havia sido fácil para mim.

Desde pequeno, nunca tive uma vida normal. Aos 6 anos de idade, meus pais morreram e me deixaram com uma prima distante. Bêbada e sempre drogada, a mulher não foi capaz de cuidar do seu pequeno “estorvo” e o doou para um orfanato de quinta.

Preferia ter morrido afogado em vômito ao ter que ir parar naquele lugar. O local parecia abandonado, como se fosse jogado às traças. No meio de tanto mato e sujeira, seria um milagre se ele estivesse situado no mapa oficial da cidade. Lá, ninguém tinha vida.

Todos eram tratados como lixo e obrigados a comer uma comida tão nojenta que não serviria de refeição nem para os porcos. Como se não fosse o bastante termos sido abandonados ou rejeitados pelos nossos pais, nós, órfãos, ainda tínhamos que lidar com o total esquecimento da sociedade.

A diretora dali era quem eu mais odiava. Não perdia uma oportunidade de bater nos seus “pedacinhos de merda”, como ela mesma nos chamava. Até quando o “pedaço” em questão não estava fazendo nada. Eu, como um dos mais velhos, fui quem mais apanhou. Sempre em silêncio. Completamente calado. Já não podia mais suportar aquilo. Tinha que fazer algo para me livrar daquela situação.Foi então que eu tive uma brilhante ideia. Ideia essa que logo se tornaria a minha maior obsessão. Mas não podia correr riscos.

O plano deveria ser perfeitamente executado, caso contrário, iria pôr tudo a perder. A cada dia que passava, pensava numa maneira diferente de como iria executar meu plano. Ao ficar mais velho, fui amadurecendo e me tornando mais sábio, assim como meus pensamentos. Como estratégia, comecei a me passar por bonzinho, fazendo tudo que me mandavam fazer e comendo toda porcaria que me era servida, sem dizer uma palavra de objeção. Aquele tratamento não era moleza, mas só em pensar no que iria realizar no futuro, conseguia conter minhas lágrimas de sofrimento. Assim, consegui ganhar a confiança da diretora aos poucos.

Ao completar 18 anos, finalmente pude sair daquele lugar. Mas isso não era o que eu queria por hora. Meu principal objetivo era ficar. Simplesmente por um motivo: vingança.Me ofereci à diretora para continuar no orfanato. Em troca, ajudaria com as crianças. Como ela trabalhava praticamente sozinha, logo concordou e aceitou minha proposta.

Consegui convencê-la de me deixar trabalhar na cozinha depois de muito insistir. Mal podia esperar para começar. Nas primeiras semanas trabalhando, fui obrigado a servir apenas “mato”.

A comida já não era tão ruim como antigamente, mas ainda não preenchia os “buracos vazios” nas barrigas daquelas pobres crianças. Essa foi a desculpa perfeita que aquela mulher encontrara: continuar servindo porcaria, mas uma porcaria mais refinada. Entretanto, isso não seria um problema. Logo tudo iria mudar. Em um final de semana, decidi sair do orfanato pela primeira vez em muito tempo.

O mundo lá fora não parecia tão melhor que o mundo que eu conhecia. Pessoas não respeitavam as outras e queriam levar vantagem em tudo. Ninguém era gentil e ajudava o próximo. Não havia nada de belo naqueles humanos, além das roupas e objetos que ostentavam.

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Ao sair daquele lugar, eu tinha um objetivo em mente: encontrar quem deu início à minha tragédia. Aquela que era responsável por tudo de ruim que me aconteceu: a prima distante dos meus pais. Confesso que, no começo, achei que ela já estivesse morta. De fato, seria uma pena, já que parte do meu plano não sairia como esperado. Mas, para a minha surpresa, depois de algumas investigações, finalmente consegui localizá-la. Coincidência ou desgraça, a mulher morava a poucos quilômetros do orfanato. E foi ao descobrir onde aquele ser maligno morava que o meu ódio por ela só aumentou.

Naquele ponto, não sabia quem odiava mais: aquela que me abandonara ou a que passara a vida me maltratando. Seja como fosse, o que seria delas estava bem guardado, só esperando uma oportunidade para ser revelado. Assim, eu voltaria a pôr em prática uma das minhas táticas antigas: me fazer passar de bonzinho. Na verdade, era uma das poucas coisas que eu sabia fazer direito. Já as outras, bem, seriam postas à prova horas mais tarde.

No dia seguinte, fui à casa da mulher que me desprezara e me apresentei como a criança abandonada por ela. Para a nossa surpresa, ambos estavam mudados. Aquela jovem que só vivia bêbada e drogada agora estava direita. Casada e com dois filhos, parecia uma senhora respeitável. Mas eu conhecia, de fato, quem ela realmente era.

E uma mudança externa não seria suficiente para me convencer. Por outro lado, aquele menino frágil e medroso, agora estava doce e gentil. Bem, isso aos olhos alheios. Tivemos uma longa conversa e logo ela acreditou que eu a perdoara e queria me aproximar para criar um novo vínculo.

Não tive que tentar por muito tempo até convencê-la de ir ao jantar que eu ia preparar no orfanato mais tarde naquele dia. Como não era bobo, disse-lhe que aquele lugar era esplêndido e que havia mudado minha vida. Mal sabia ela que tal mudança fora para pior. Voltando ao orfanato, logo preparei o cenário perfeito. Fiz o que deveria ser feito para que o meu plano saísse como planejado. Tudo deveria parecer muito bom para ser verdade.

Bem, de fato, nada era real ali. Só a minha sede de vingança. Ao chegar ao local, a mulher ficou surpresa, pois tudo parecia muito quieto e inabitável. Disse-lhe que aquilo era normal, já que as crianças comiam mais cedo e já estavam dormindo, e a diretora deveria estar muito ocupada no seu escritório. Ela acreditou na minha desculpa esfarrapada e prosseguimos para a sala de jantar.

Ali, o meu grande show estava prestes a começar. A mesa se encontrava impecavelmente arrumada para o jantar que iria servir. Pratos e talheres pareciam milimetricamente dispostos. Os copos estavam brilhando, quase gritando para que fossem usados.

Um vaso vermelho com violetas estava minuciosamente posicionado no centro da mesa. “O jantar já pode ser servido, priminha!”, disse com um grande sorriso no rosto. Ela achou estranho mais ninguém estar ali, mas falei que a diretora não gostava de ser incomodada quando estava ocupada e depois iria jantar sozinha, então logo concordou em comermos só nos dois.

Rapidamente, trouxe toda comida que preparara, servi os dois pratos que estavam sob a mesa de madeira e enchi os copos com um suco avermelhado. Depois de tanto comer porcaria, finalmente iria comer algo que por anos ansiava: carne. E das boas.

Enquanto comíamos aquela carne assada e bebíamos aquele suco peculiar, eu e a desgraça em forma de gente estávamos rindo e conversando sobre a vida. Eu contava como minha vida fora incrível naquele orfanato. Já ela me dizia como fora infeliz na sua juventude e me dava mil desculpas ridículas para explicar o porquê de ter me abandonado. - Não tem problema, querida.

Eu compreendo. Foi o melhor para todos. Coma a sua comida, senão vai esfriar - disse com a dissimulação que aprendi quando criança. - Como você é compreensível. Acho que fiz certo ao te deixar aqui. Não poderia ter feito melhor.

- Ah, você nem imagina… Está gostando do jantar? - perguntei como se sua opinião me importasse. – Ah, sim, querido, está ótimo – respondeu, sorridente, com um brilho nos olhos. A hipocrisia oculta daquela cretina me enojava. Não tinha mais tempo a perder. Agora, era tudo ou nada.

- Sabe, - disse ao me levantar e jogar o guardanapo sobre a mesa – devo dizer como preparei esta incrível refeição - declarei, enquanto ela não prestava a devida atenção e levava, compulsivamente, a comida à sua boca. - Primeiro, achei que não seria nada fácil, já que não tenho muita prática com culinária. Mas depois, vi que meu desejo de vingança me daria uma força… E que força. - Desejo de vingança?

Como assim? - indagou, um pouco assustada, agora olhando para mim, e deixou o garfo cair no prato ao desistir de encher a boca com mais um pedaço grande de carne. - É isso que você escutou, vadia. Meu desejo de vingança. Ou você comprou essa história patética de bom moço compreensível?! Faça-me o favor. Rapidamente, a mulher tentou se levantar e eu a empurrei de volta à sua cadeira.

- Não tão rápido, querida. Agora você vai me escutar - amarrei seus braços e pernas na cadeira com uma fita adesiva que havia escondido perto da mesa. – Sabe como preparei essa comida? - ela permaneceu em silêncio, com um olhar amedrontado. - Bem, antes de dizer o modo de preparo, irei falar o animal que foi usado.

Ou melhor, a vaca. Porque era isso que aquela vadia era. A que me abandonara começou a gritar. - Por que está gritando, mocinha? Sabe, aqui é um lugar abandonado pela sociedade. Ninguém vai vir montado num cavalo branco para te resgatar. Isso só acontece nos contos de fada. E acredite, este é seu maior pesadelo - não me segurei e soltei uma boa gargalhada que há tempos estava presa na minha garganta.

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Ela ficou histérica, e quanto mais gritava, mais aquilo me agradava. Fui até a sala e liguei a velha vitrola amarela. Uma música clássica cairia bem naquela hora. No meu momento de glória. E a música em questão era “Isn’t It a Pity”, cantada por Nina Simone. - Bem, você quer que eu comece por onde? Por como eu matei aquela porca imunda ou o modo que, prazerosamente, tirei suas tripas para preparar essa incrível refeição que você acabou de comer? - a mulher não aguentou e vomitou.

– Hum, sabia que você ia gostar dessa parte – me aproximei e empurrei sua cadeira para o chão. – Pois bem, começarei do começo – disse ao me aproximar do seu rosto de desespero que agora se encontrava na horizontal. Assim, contei tudo que havia sofrido nas mãos daquela diretora e o que fizera com aquela maldita mais cedo naquele dia. Disse-lhe, também, que as crianças nem sonhavam com o que acontecera, pois estavam lindamente deitadas e dopadas. O sono profundo iria durar por muito tempo ainda.

Tempo suficiente para um assassinato acontecer. Minha convidada não parava de vomitar por causa do horror que escutara e pela “ajudinha” que coloquei em seu suco. Enquanto ela se encontrava em agonia, peguei o jarro vermelho e, com toda minha força, bati na cabeça dela, deixando-a, assim, inconsciente. Por um momento, parei para apreciar a boa música que ecoava nas paredes velhas daquele orfanato. Quase em deleito, escutei atentamente o que era cantado.

Não era íntimo do idioma, mas sabia muito bem o significado daquelas palavras. “Ah, não é uma pena? Não é uma vergonha? Como quebramos o coração um do outro e causamos dor um ao outro”, disse em voz baixa, repetindo aquele trecho da música que não saia da minha cabeça. De repente, olhei para cena que criara, na qual a personagem em questão estava em maus lençóis. Toda suja, já estava quase se afogando em seu próprio vômito, mas não seria dessa maneira que ela iria morrer.

O que eu havia preparado era bem pior. A desamarrei da cadeira e levei o seu corpo desacordado para a mesa da cozinha. Tirei toda sua roupa e peguei a maior faca que existia naquele lugar. Ah, como eu sonhara em usar aquele lindo artefato algum dia. E esse dia finalmente chegara. Mas aquilo não era mais novo pra mim. Era a segunda vez que o usava naquela noite. Cuidadosamente, cortei o seu pescoço, para que assim pudesse coletar algum sangue que jorrava na jarra que segurava.

Quando tinha o suficiente, fui para a segunda parte do ato. Levei a faca até a barriga em busca de carne fresca, e fui seguindo para outras partes do corpo igualmente carnudas. Tirei tudo que prestava e joguei fora o que era lixo. Moí toda a carne que retirara e comecei a preparar o meu novo prato e mais uma jarra de suco. Desta vez, o cheiro me parecia mais agradável. Ouvi as crianças murmurarem e fui até seus quartos logo depois de limpar a cozinha, colocar os restos da vaca no freezer e desligar a velha vitrola.

- Já acordaram, crianças? – perguntei, tranquilamente, ao me aproximar da porta do quarto e limpar as mãos no meu avental. - Sim. E estamos com muita fome, André. – disse um dos meninos enquanto esfregava os olhos. - Pois hoje é o seu dia de sorte! Cassilda viajou e teremos um belo jantar. Chega de tanto mato! Sabe o que será? Carne! - Ebaaaa! - as crianças gritaram como num coro sincronizado. Os meninos, voando, rapidamente foram para a sala de jantar, para comer aquilo que tanto ansiavam.

Mal me aproximara da mesa, a campainha tocou. - Boa noite. Gostaria de saber se Vera está aí - perguntou o marido da minha mais nova refeição. - Ah, ela está - respondi, convidando-o para entrar com um gesto. - Ela está falando com a diretora do orfanato sobre alguns planos futuros, mas pediram para não serem incomodadas. Você sabe como as mulheres são… Melhor obedecer!

- Ah, sim. Tudo bem, eu posso esperar - sentou-se no sofá acompanhado dos seus dois filhos. - Mas vocês chegaram em boa hora. Estava prestes a servir o jantar para as crianças. Vocês querem se juntar a nós? – perguntei, enquanto mostrava com o braço as crianças na mesa esperando para devorar a comida. - Vamos, pai. Estou morrendo de fome! - insistiu o caçula, puxando a camisa do pai.

- Já que ele quer, por quê não? - Vocês tiveram sorte. Hoje temos um prato especial - disse, enquanto me acomodava na cadeira e prendia o guardanapo na gola da minha camisa. - E o que é? - os meninos perguntaram, curiosos. - Nada demais. Apenas uma carne de vaca à primavera – respondi com um leve sorriso no rosto. Após aquele jantar magnífico, me sentia completamente satisfeito. E não falo apenas no sentido de ter matado a minha fome naquela noite memorável. Falo de ter matado também a minha sede.

A sede de vingança. E para minha sorte, meus planos saíram melhor do que jamais imaginaria. Porém, eu não poderia deixar que a euforia do momento me distraísse. Ainda tinha algo a mais para me encarregar. Depois que as crianças foram dormir de verdade e meu novo convidado descansava contra sua vontade, peguei o resto de comida que sobrara e preparei um último prato. Desta vez, para a pessoa mais especial. Com o prato nas mãos, desci as escadas em direção ao porāo do orfanato.

Ninguém podia entrar ali, porém, quando mais novo, sempre dava um jeito de escapar e ir para aquele lugar. Lá era o meu refúgio, onde eu tinha as minhas melhores ideias. Ao entrar no local, agora sem ter medo de ser pego, o ambiente se encontrava significativamente escuro. Mas eu o conhecia muito bem para saber onde cada objeto estava localizado. E um deles em questão era o que eu procurava. Fui até uma cama velha que estava ali e fiquei observando-a por um tempo.

Lembrei-me das noites chuvosas em que escapava da minha e me refugiava naquela. Sempre com medo. Com medo do que poderiam fazer comigo no dia seguinte, ou ainda se me pegassem naquele lugar. Mas o risco que eu corria sempre valia à pena, pois era lá que eu podia criar meu mundo. Rapidamente, meus pensamentos se encerraram quando escutei aquele gemido. Aquele ser desfigurado que repousava acabara de acordar.

Com o pescoço preso por uma corrente e suas pernas e braços amputados, não poderia se mover por muitos centímetros. Não poderia nem gritar, pois não faria nenhuma diferença. Logo, meus olhos mudaram de foco. Agora não mais olhava para a cama que usava como refúgio, e sim para aquela que me fazia sentir a necessidade de fugir: Cassilda, a diretora do orfanato.

Tirei a venda dos seus olhos e o pano de sua boca e disse que se ela tentasse alguma gracinha, seria pior. Como se aquele ser pudesse fazer alguma coisa senão gritar como uma criança amedrontada. Do mesmo jeito que eu gostaria de gritar quando levava uma de suas surras. - Como vai meu pedacinho de merda favorito? - perguntei com um ar de deboche.

- Está com fome? Seu jantar está pronto. Hoje teremos um prato especial: carne de drogada. Amanhã será corno estúpido ao molho madeira. Bon appétit! E assim, ao perceber o desespero que ocupou o seu rosto, consegui me realizar pela última vez naquela noite. Mal poderia esperar pelo dia seguinte.

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