Minilua

Contos Minilua: O amuleto (parte III) #108

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O Amuleto (parte III) final

Revelações

Por: Raimundo Fagner

Era uma vez, uma mulher de nome Marrie que queria muito uma filha. Seu esposo, Jacob, o chefe da colônia da região onde hoje é Stamford, nome que, a propósito, refere-se à família colonizadora da região, tentou por anos, mas nunca conseguiram uma criança.

Desesperada, vendo o tempo esvair-se levando sua idade junto, Marrie foi pedir ajuda a um mago que vivia na floresta perto das montanhas rochosas. Ele a ajudou, mas em troca disse que ela ficaria lhe devendo um favor, que seria cobrado quando ele julgasse necessário, E assim aconteceu. Nove meses depois nasceu Aurora, a primeira filha de Marrie e Jacob. Três anos depois do nascimento de Aurora veio Jack, o segundo filho do casal, completando a felicidade da família.

Aurora tinha uma beleza singular e cresceu rodeada de mimos, mas nem por isso tornou-se má pessoa. Pelo contrário, a bondade de Aurora chamava a atenção de todos na vila e arredores, inclusive do mago negro Oregon, que, para cobrar o favor, fez uma visita a Marrie e pediu-lhe a mão da filha.

Tendo o pedido negado, Oregon jurou se vingar, e, vendo que suas magias não funcionavam contra a pureza de Aurora, decidiu entregar-se ao demônio para ter um feitiço mais poderoso.
Para pagar o trato, Oregon teria que tirar a pureza de Aurora e colocar nela a semente do mal.

Aurora teria que dar a luz ao filho do demônio que escravizaria a Terra com fogo e enxofre.
Como os planos de Oregon foram frustrados, ele ficou condenado a ser um escravo do demônio para sempre, ou até que alguma descendente pura da família Stamford, virgem, fosse encontrada para concretizar o ritual profano…

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– Mas isso não tem cabimento mamãe!!! Reclamou Janice. Nós não somos da linhagem dessa Aurora!
– Na verdade você é, Janice. Você é …
– Mas como ??? questionou confusa.
– Você é adotada Janice.
O coração de Janice parou por alguns segundos. Suas pernas não se sustentaram e ela caiu no sofá.

– Seus antepassados mudaram de sobrenome por conta do que aconteceu. Seu pai, quero dizer, Otávio, sempre foi fissurado por essas coisas, histórias antigas, lendas, por isso nos separamos. Nós adotamos você em Stamford, ainda recém-nascida.

Soubemos que sua verdadeira mãe havia tentado matar você, que era louca. Otávio conversou com ela e acho que ela contou toda esta história. Eu não acreditava nisso, na verdade eu confesso até que havia esquecido essa lenda, mas então… eu recebi o telefonema da Zatana.
– É por isso que a senhora sempre me tratou mal – disse Janice, como que entendendo o porque da mãe… de Ester a tratar daquela forma.

– Isso não tem nada a ver, querida… eu só queria que você não tivesse tantos problemas quando crescesse, mas você sempre viveu de um modo que eu não aprovava…
– Brasília está destruída mamãe!!! A senhora não sabe pelo que eu passei, eu… tudo foi por minha culpa! – desabafou a garota – Eu passei por muita coisa ultimamente e a única coisa que eu quis em todo momento foi ter alguém pra me ajudar e… eu não podia contar pra minha… pra você!!! A culpa é toda minha… – lamenta.

– Não Janice – disse Zatana, a cigana – a culpa é toda minha. Eu entreguei o colar pra você quando ele abriu, naquele dia na feira, imaginando que ele a protegeria como protegeu Aurora,pelo menos por um tempo, mas ele apenas trouxe desgraça para o mundo.
– O pior é que ele não a deixa, mama – retrucou Alex.

– E não vai deixar a menos que o destruamos – respondeu ela.
– Isso é possível? – Questionou Janice, sentindo uma ponta de esperança e tentando esquecer a revelação que aconteceu alguns momentos atrás.
– Nós temos apenas esta noite. Pelo que você me contou a maldição está ficando mais forte e hoje faz exatamente 400 anos que tudo aconteceu.

Ele vai fazer de tudo para tomá-la, Janice.Nossa última chance é ir onde tudo começou e destruí-lo. Mas só você pode fazer isso.

– E quanto ao errante? – perguntou Alex.
– Temos que matá-lo.

A cigana entrou em seu quarto e pegou uma espada de prata.
– Isso pode matá-lo. Mas para isso alguém terá que chegar bem perto da besta.
– Tem certeza ? Questionou Ester, preocupada, afagando a cabeça de Janice.
– A criatura pode morrer, ela tem alguns poderes mas sangra, como nós.

Janice ficou tensa. Tudo aconteceu muito rápido… Pelo menos agora ela tinha resposta. Ela era descendente de uma família amaldiçoada e única a encontrar o amuleto, ainda virgem. Estava nas mãos dela, no seu ventre, a chave de tudo.

– Como você soube onde eu morava? – perguntou Janice à cigana.
– Depois do nosso encontro,procurei em meus livros de família fatos e documentos que comprovassem a minha teoria. O amuleto só abriria se a pessoa fosse descendente da família Stamford, uma vez que eles abençoaram o colar, para proteger a filha. Seu pai era bem conhecido na cidade, então… ficou fácil.

– Então é por isso que ”aquilo” me persegue, mas nunca conseguiu me pegar. E como não conseguiu ele levou pessoas próximas a mim!!! Meu pai… – lembrou-se amargamente.
– Calma querida… calma – afagou Ester.
– Por que você não me contou Ester? Por quê??? Lamentou a menina saindo da sala e indo para a varanda.

Alex acompanhou Janice. Lá fora estava muito frio. A neve caía fortemente e o chão encontrara-se coberto por um grande e espesso lençol branco.
– Vai dar tudo certo, Janice.
– Eu não tenho tanta certeza.
– Ei!!! – disse ele levantando o rosto da jovem com as mãos. Eu estou aqui meu amor e eu juro… eu juro pra você que vou fazer o que é certo.
– Oh, Alex – disse ela aninhando-se ao peito dele. Parece que te conheço a tempos… eu.. eu amo você.
– Eu também de amo, princesa.

Ele segurou por seu pescoço e a beijou profundamente, aquecendo um pouco seu corpo frio. Ela retribuiu o ato agarrando-o pelos ombros fortes e trazendo-a para si. Pelo menos assim a dor e a angústia eram momentaneamente aplacados.

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As coisas estavam prontas. O carro estava ligado. A neve que caíra impetuosamente havia cessado e uma lua cheia enorme (nossa!!! muito diferente do Brasil) iluminava o estranho céu de Stamford.
Zatana estava organizando os últimos apetrechos para a viagem com a ajuda de Alex. O plano era chegar nas prisões das montanhas, onde o Errante fora preso, e destruir o colar no local.
Janice estava observando Alex da varanda. Seus movimentos, seu corpo. Era lindo e ainda estava ajudando no momento mais difícil da sua vida.

– Você gosta dele não é querida ? – disse Ester, assustando Janice.
– Sim… – suspirou Janice – mas agora não é a hora dessa conversa, não é verdade Ester?
– Me desculpe por tudo Janice – disse Ester. Eu… só espero que algum dia você me perdoe.
– Como eu falei Ester, não é a hora pra falarmos disso. Vamos tentar sobreviver e depois conversamos.

A buzina da pick up ecoou alertando Janice e Ester. Chegou a hora. Elas entraram no veículo e partiram rumo à batalha final, onde tudo poderia acontecer.
– Aconteça o que aconteça, não percam a fé. A criatura fica mais forte quando sente o seu medo – alertou sombriamente a cigana.

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Eles chegaram até onde onde puderam no carro, dali em diante só seria possível a pé, pela trilha coberta de neve. Janice havia trocado de roupa e agora estava usando calças coladas de couro e botas, além de blusas e mais blusas de lã, para aquecer um pouco.
Começaram a caminhada. Deixaram a pick up em um canto da estrada. As chaves ficaram com Alex, que todo o tempo estava perto de Janice.

– Você não gosta de frio não é ? – perguntou.
– Não, é que… a situação é que é assustadora. Você acha que vamos conseguir?
– Eu espero que sim. Mas saiba, amor, que eu farei o que é certo pra você. Eu te amo.
– Eu também te amo, Alex.

Um uivo de lobo ecoa pelas montanhas. Todos olham pra cima pela floresta de vegetação escassa. As árvores são distantes umas das outras e a maioria está sem nenhuma folha por causa do inverno. A lanterna tem pouco papel, já que a lua brilha inquestionável no céu. Outros uivos, agora estão mais perto.

– Vamos aumentar nosso passo – disse Zatana – Balaam fará qualquer coisa para nos impedir.
Um tremor faz todos pararem, aflitos. As respirações ficaram ofegantes. Tudo começou a escurecer. Eles olharam pra cima e viram uma mancha negra tomar conta da lua.
– Ele está vindo – sussurou Zatana.

Escuridão total. Todos ficaram em silêncio por alguns instantes. Passos começaram a ser ouvidos. Janice aperta o braço de Alex.
– Vai ficar tudo bem – diz colocando-a atrás de si e puxando a espada da bainha.
– Se algo der errado, sigam sempre o norte, entenderam ??? – alertou Zatana.
Um barulho para a direita. Todas as lanternas se viram para lá e só o que se avistou foi a poeira de neve deixada. Outro barulho para o sul, mais poeira.

Os galhos das árvores rangem de forma horripilante fazendo todos ficarem ainda mais tensos.

Um lobo pulou em cima de Alex e o derrubou no chão. Todos gritaram e perceberam que à frente existiam mais três. Alex segurou no pescoço do lobo evitando que sua face fosse dilacerada.
Num impulso, Janice pegou a espada caída no chão e golpeou o lobo na cabeça, deixando a espada cravada no crânio do animal, enquanto o mesmo se debatia dando os últimos uivos. Os outros lobos começaram a uivar. Os olhos cor de fogo deles brilhavam na escuridão enquanto milhares de uivos ecoavam de todas as partes.

– Não podemos lidar com todos eles!!! – alarmou Alex, ferido no braço e arrancando a espada da cabeça do lobo. Temos que correr. Agora!!!
Não esperaram mais nada. Dispararam numa corrida frenética rumo ao norte. Os lobos os perseguindo ferozmente. Alex ia atrás e cada vez que um lobo se aproximava ele golpeava com a espada.

– VAMOS!!!! MAIS RÁPIDO!!! – gritou Alex.
A corrida estava cada vez mais difícil. O frio e a neve dificultavam a corrida, ainda mais que estavam subindo a montanha. A floresta estava inclinada, qualquer deslize faria o azarado deslizar desfiladeiro abaixo.

Correram mesmo assim o mais rápido que puderam até que chegaram em terra plana. A floresta ficando para trás, agora adentravam em um espaço aberto, amplo. Vários metros à frente uma ponte feita de cordas e piso de madeira levemente separadas.
Eles correram desesperadamente e entraram na ponte, caminhando. Os labos, por algum motivo inexplicável não chegaram perto da ponte.

As cordas rangeram, fazendo gelar ainda mais os corações de todos. O vento frio fazia a ponte balançar. Abaixo, uma queda de mais de 200 metros em um rio de águas turbulentas que mais abaixo se uniriam ao mar.

O castelo era enorme. Sua posição ficava ainda mais majestosa vista de cima, sendo que estava isolado, cercado de ambos os lados por desfiladeiros. O local perfeito para aprisionar alguém.
Mesmo temerosos, eles caminharam e atravessaram a ponte, chegando à entrada da magnífica construção. A lua voltou a brilhar enquanto eles adentravam no recinto. Por ser muito antigo, as janelas não tinham vidros e a luz da lua entrava livremente.

Eles subiram as escadas, devagar, em silêncio, iluminando o caminho com as lanternas, observando cada sinal de uma possível ameaça. Zatana começou a pronunciar frases em uma língua desconhecida, como que para afastar a besta, que começou a rondá-los imerso na escuridão, soltando seus sons condenados.

Janice olhou para baixo e viu uma menininha de vestido branco subindo a escada com uma boneca na mão. Ao iluminar o rosto dela, Janice apavorou-se ao ver que ela estava sem os olhos e com a boca costurada. Olhou para a janela e viu um homem se jogar do penhasco.
– Não parem!!!. Vamos!!!

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Chegaram na parte das celas nas masmorras. Era um lugar fétido, com esqueletos nas celas, um cenário desolador. Zatana organizou o material necessário para o ritual.
Fez um círculo com sal grosso e desenhou símbolos que Janice desconhecia. Colocou uma bancada de pedra no centro e um livro de capa grossa, como casca de árvores. Ao redor do grande círculo Zatana colocou velas amarelas, assim como em outros pontos do local.

– Nós só temos uma chance! Não importa o que ouçam ou que vejam ou o que sintam. Não importa a sensação de morte que inunde vossos corpos. Não saiam do círculo!!! – alertou a cigana.
– Vamos acabar logo com isso, por favor – lamentou Janice, assustada.
Zatana se preparou sacudindo as mãos e salpicando um líquido na espada ao passo que dizia palavras desconhecidas.Alex segurava firmemente a espada enquanto olhava carinhosamente para Janice, para dar-lhe coragem.

Sons de ossos quebrando ecoaram no ar. O odor do enxofre estava ficando mais forte a cada segundo. Gritos horripilantes, arrastar de correntes, crianças chorando, chicotes… a escuridão agora rondava o círculo e os espíritos condenados ficavam mais presentes a cada palavra pronunciada pela cigana, que falava bem alto no momento.

Um vento sobrenatural começou a soprar ao redor deles fazendo as chamas das velas balançarem. Uma voz familiar ecoou no ambiente.
– Ja-janiceee… disse a voz em sussurro.
Janice olhou para o lado e viu um corpo de movendo em sua direção, de dentro da escuridão.
– Papai!!! – disse a garota enchendo os olhos de lágrimas, indo ao seu encontro.
– Não!!! Disse Ester segurando-a pelos ombros – Não é real!!!
– Eles estão me machucando, filha. Me ajude… – chorava Otávio enquanto alguma coisa o puxava para dentro da escuridão.

Ao olhar para o outro lado, Janice viu Debbie, banhada em sangue, sem o lábio inferior ser dilacerada por facas enquanto gritava de dor.
– AGORA JANICE!!! – gritou Zatana. DESTRUA O COLAR AGORA COM A ESPADA.
Um urro dantesco estremeceu o castelo. As paredes tremeram. Milhares de almas renegadas tentavam adentrar no círculo, sem sucesso. Janice, mesmo apavorada e com as mãos trêmulas, segurou a espada com as duas mãos, levou-a ao alto…
– Acabou! – disse dando um golpe certeiro no amuleto, que despedaçou-se em milhares de pedaços.

Uma explosão de luz azul arremessou todos ao redor a vários metros. Como uma bomba atômica, a força do raio apagou as velas, derrubou tudo que estava ao redor.
Aos poucos e meio tontos, todos se levantaram e voltaram à pedra central. Janice estava ferida na testa, por onde saía um fino filete de sangue.

– Ah não, você está bem amor? – disse Alex, limpando a testa da moça com a manga da camisa.
– Sim, estou bem Alex.
Um cheiro de enxofre invadiu o ar e eles olharam em direção de um barulho de ossos quebrando. Por trás de Zatana, viram olhos como de fogo brilharem na escuridão. Zatana sentiu o hálito podre da besta no seu pescoço… e riu. Riu um sorriso malévolo.

– Conseguimos! Exclamou ela olhando nos olhos do Errante e acariciando sua face.
Os outros estavam trêmulos de medo mas ao mesmo tempo assustados com a cena. Como??? Ninguém estava entendendo nada.
– Mama!! O que diabos está acontecendo??? Saia de perto dele!! – bradou Alex empunhando a espada.
– Você devia ter mais respeito pelo seu antepassado, querido.
– O que ??? – Exclamou Ester.

– Agora não há nada que impeça que o ritual prossiga. Alex, prepare-se!!!
– Me preparar para quê ???
– Você é o descendente direto de Oregon. Isso mesmo, Oregon tinha um filho com uma senhora do vilarejo. Antes de se tornar o errante ele fez com que a linhagem que viria tivesse que concretizar o ritual para que ele ganhasse a liberdade. O herdeiro teria que nascer na mesma geração da descendente Stamford. Mas, ops, eu esqueci de contar essa parte – disse irônica.
– Mas… mas…

– Eu entreguei a sua alma para o demônio Alex, para que finalmente se cumprisse o pacto feito a exatamente 400 anos atrás.
– Você me usou ? Minha própria mãe me usou ??? – repetiu incrédulo.
– Então era tudo um truque ? – disse Janice não acreditando no que estava ouvindo.
– Eu tinha que fazer vocês acreditarem. A única coisa que protegia você era o amuleto que você destruiu. Ownnt, que peninha.

Agora vamos terminar com isso que eu já estou ficando com sono– disse Zatana, rindo maldosamente, enquanto o Errante lambia os lábios com sua língua de serpente e soltava sons roucos e entalados.
– Mama, como a senhora pôde…??? – lamentou Alex – Eu tenho nojo de você agora. Vergonha de ser seu filho.- Desdenhou – Mas saiba que eu não vou deixar você fazer nada com a Janice, entendeu ?

– Oh meu querido, eu não vou fazer nada com ela querido, você vai.
Zatana levantou as mãos falando palavras desconhecidas. Alex parou de se movimentar. A espada de sua mão caiu.
– Alex… – preocupou-se Janice.

Alex foi arrastado violentamente para perto do Errante que prontamente lhe mordeu o pescoço. Ele soltou gritos de dor que fizeram Janice estremecerem, mas não resistia, estava paralizado.
Zatana continuava com suas frases de magia enquanto Janice tentou correr para ajudar mas foi segurada por Ester, que prontamente pegou uma arma de dentro da bolsa.
– Fique atrás de mim, Janice – ordenou aflita.

Ela nunca tinha vista Ester tão assustada.
A besta soltou Alex que chorava e soluçava como uma criança. Um tremor sacudiu o local. Alex veio se arrastando, deitado ao encontro de Janice mas Zatana apontou a mão em forma de símbolo satânico e Alex se contorceu para trás fazendo um estalo em sua coluna. Seus dedos se curvavam de dor.

Seus membros começaram a estalar e se contorcerem numa dança macabra que Janice fez questão de não ver. Alex soltava gritos dolorosos. Em outro estalo Alex voltou à posição normal mas foi levantado para o ar, levitando de braços abertos e pés sobrepostos, em forma de cruz.

Havia muito barulho como se milhares de almas condenadas clamassem por socorro na sala junto com um vento sobrenatural. Em seguida a força sobrenatural o virou de cabeça para baixo, deixando-o em forma de cruz invertida enquanto a cigana pronunciava palavras solta, compassadas e fortes.
De repente, silêncio.
– Alex… – chorava Janice olhando por entre os braços de Ester e levantando a mão, querendo tocá-lo.

Os olhos do rapaz se abriram, estavam negros. Alex voltou à posição normal e pousou.
– Chegou a hora – disse Zatana, vitoriosa ao passo que o monstro soltava urros infernais.
– Corra, Janice – ordenou Ester.
– O quê??? retrucou Janice, mais assustada ainda.
– Não discuta. Corra o mais rápido possível. A chave está no casaco dele, ali no chão.
– Mas e você???
– VAAI!!!

Janice não esperou mais. Pegou o casaco no chão e saiu correndo para tentar escapar. Ester começou a atirar no monstro e em seguida mirou na cigana mas o Errante entrou na frente.
Num salto, ele pulou cima de Ester e a derrubou.

Soltou um urro tenebroso bem próximo do rosto dela, fazendo cair de sua boca podre, muita baba marrom, que melou o rosto da mulher.
– Alex, pegue a garota!!! Gritou a cigana.
Alex saiu em disparada e Zatana mandou o Errante sair de cima Ester. Ela começou a falar palavras esquisitas e em seguida encostou a mão na barriga de Ester que pegou a arma no chão novamente enquanto sangrava pela boca.

>>><<<

Janice saiu do castelo o mais rápido que pôde, ouvindo tiros ao longe. Já do lado de fora, Janice observou a lua brilhante no céu e lembrou o caminho a seguir. E os lobos??? Não era hora pra isso. Grande foi o susto quando ela viu Alex sair correndo do castelo atrás dela, como um animal faminto.
Ela saiu em disparada, travessou a ponte de madeira e cordas correndo desesperadamente enquanto ouvia as madeiras rangerem. Uma delas soltou, caindo no abismo mas Janice conseguiu chegar do outro lado, no campo.

Sem parar, ela percebeu que uma nuvem baixa se aproximava. Ela vinha rapidamente, cobriu a lua e fazia um barulho como de milhares de asas batendo.
Foi então que Janice percebeu que eram gafanhotos. Eles atacaram-na, voaram por todos os lados, milhares!!! Janice não conseguia ver para onde estava correndo. Entrou na floresta, ouviu o uivo dos lobos, parou um pouco para tentar ver em meio à multidão de insetos que voavam ao seu redor e batia em seu corpo.

Alex apareceu por trás e agarrou violentamente pelos cabelos. Janice se espernou, deu uma cotovelada nas partes baixas de Alex, que estremeceu. Ela conseguiu se soltar e correr um pouco, mas os gafanhotos a impediam de ser ágil. Alex a derrubou e arrastou-a pelos cabelos.
– AHHHH!!! gritava Janice. Pare!! Alex, por favor pare!!!

De nada adiantava. No fundo ela sabia que não era o seu amado que estava naquele corpo. Tentou se soltar o máximo que pôde,até que desistiu. Estava cansada de tudo, queria que tudo acabasse.
Alex colocou-a nos ombros e atravessou a ponte. Janice estava entorpecida de dor, de desespero. Tudo pelo qual lutou, pensou que daria certo, havia acabado. A humanidade estava condenada.
Um baque no solo a fez levantar a cabeça e ver o corpo de Ester, dilacerado, suas tripas estavam expostas, manchando o branco chão de vermelho.

A mandíbula estava solta, arregaçada. Uma dor descomunal acrescentou-se ao coração da pobre garota. Agora sozinha. Completamente.
– Por quê Deus ??? – soluçava. As lágrimas quentes derretiam a neve no caminho íngreme até a entrada do castelo – O que eu fiz de tão errado para merecer isso?
Alex riu.
– Seu Deus não pode me impedir. A hora dele ainda não é agora – falou com voz grossa e horripilante.
– ahhhhhh!!!- chorava.
Janice tentou se debater, em vão, enquanto entravam no castelo.

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Alex colocou Janice em uma mesa de pedra e prendeu seus pulsos numa corrente. Ela olhava pra cima, sem forças pra lutar. Alex tirou a calça dela, deixando de calcinha, tirou suas blusas e casacos, deixando-a seminua.
Também desceu as próprias calças, tirou a camisa, e ficou de sunga. Prendeu as pernas da moça e subiu em cima da mesma de pedra, enquanto Zatana observava, com olhar de desejo, excitada por estar vendo.

O errante estava no canto, acocorado como um sapo, com os olhos de fúria.
Alex beijou a barriga de Janice e passou a língua ao redor do umbigo.
– Que pele macia Aurora… disse com voz grave.

Ele se ergueu um pouco e se sustentou nos braços fortes enquanto olhava a bela face da garota. Mordeu sua orelha, seu pescoço e sussurrava que era uma honra tirar a pureza dela assim com era uma honra para ela gerar o destruidor de mundos.
– Eu falei que faria o que era certo, não falei Aurora? – disse quando se preparava para penetrá-la.
As lágrimas escorriam por sobre o rosto sem expressão de Janice, que não demonstrou nenhum sentimento quando sentiu Alex adentrar no mais íntimo do seu ser.

Um filete de sangue escorreu das partes íntimas da moça, comprovando que a mesma era pura. Alex iniciou um ritmo frenético dentro de Janice enquanto ela apenas fechava os olhos e chorava.
O prazer estampado na cara de Alex indicava que ele estava encontrando seu orgasmo. Acelerou o ritmo e inseminou a semente do mal no útero de Janice, soltando gemidos altos, enquanto Zatana acariciava suas costas e observava com prazer a tenebrosa cena.

Alex fechou os olhos e quando os abriu estavam normais. O errante soltou um urro descomunal que estremeceu o local. Uma nuvem de sombras o envolveu e ele simplesmente desapareceu nas sombras. Sua missão se cumprira.
O semblante doce voltou ao rosto de Alex que, desorientado, saiu de dentro da garota, assustado, desacorrentou-a e a segurou nos braços.

– Ah meu deus!!! Ah meu Deus!!! – disse segurando a cabeça da garota. – O que você fez? O QUE VOCÊ FEEEEEZ??? – gritou para a mãe. Me desculpe!! – chorou para Janice… Me des…
– Ora Alex, não seja tolo – ironizou Zatana.
Alex encheu-se de ira, pegou a arma que estava no chão e avançou contra a mãe, empurrando-a contra a parede e apontando a arma para a testa dela.
– O que você fez com a gente não tem perdão – ameaçou chorando.
– Você terá coragem de matar sua própria mãe?

– Você matou milhares de pessoas, sua ordinária, e ainda me faz uma pergunta dessas???
Eles se encararam por um tempo, Zatana estava séria. Alex abaixou a cabeça, desolado.
– Não. Eu não posso ser igual a você…- disse, saindo da frente da mãe.
– Mas eu posso! – disse Janice, surgindo de repente e enfiando a espada na garganta de Zatana, que prendeu-se à parede.

O sangue escorreu pela boca da cigana, que se debatia tentando livrar-se da espada, enquanto Janice empunhava-a ainda mais. Alex apenas fechou os olhos quando viu o golpe final de Janice ao degolar o pescoço da maldita mulher.
Janice sentou-se sobre a mesa, ofegante, vestiu suas roupas enquanto Alex observava-a, triste. De repente, um barulho colossal ecoou no ar. Era como se o mundo estivesse desabando. E estava.
Alex olhou pela janela e viu que toda aquela região em que se encontrava o castelo estava desmoronando.

– Temos que sair daqui!!!
Janice e Alex desceram as escadas de mãos dadas. Os tremores estavam fazendo a antiga construção ir ao chão. Teto e paredes estavam desabando atrás deles.
Conseguiram sair da construção mas não pararam. Janice olhou para trás e viu tudo desabando e caindo no desfiladeiro. Uma avalanche de pedras e neve se formou e estava descendo violentamente.
– Ah meu deus!!!
– Corre amor, Corre!!!

Eles correram o mais rápido que puderam. Entraram na ponte de madeira, mas quando estavam na metade, a avalanche que caía no penhasco cortou as cordas fazendo-os descer em queda livre. Eles se seguraram nas cordas e ficaram pendurados pela parte que não caiu.
– Janice!!! – gritou Alex
– Alex!!! – respondeu ela, apavorada.
– Janice, meu amor, suba!!! Vamos, suba!!!

Janice começou a subir, seguida por Alex, apoiando os pés nas brechas entre uma tábua e outra. Estavam chegando no topo quando uma madeira que Alex pisou se quebrou, fazendo escorregar e gritar. Janice olhou aflita, mas ele tentou manter a calma e pediu que ela continuasse.
A neve começou a cair. Janice começou a sentir pontadas no ventre. Ela conseguiu subir e estava a espera Alex, mas uma das cordas se partiu.

Alex parou de se mover e o vento forte da nevasca balançava-o na escada de um lado para o outro. A outra corda começou a ranger. Janice estendeu a mão para Alex.
– Pegue minha mão Alex, Vamos!!!!!
Alex a olhava assustado, mas tentou confortá-la.

– Vai dar tudo certo – disse levando a mão esquerda para segurar na de Janice – Vai dar tudo…
A corda se partiu no exato momento em que Alex segurou na mão de Janice, deixando ponte cair até se perder de vista no desfiladeiro. Mas Alex era muito pesado e estava arrastando Janice para baixo.

– Me solte, ou vamos morrer Janice.

– Nãããão!!! – disse a garota chorando, desolada. Eu não… não posso perder você também. Por favor Alex, Vamos!!!! – dizia, puxando com todas as forças para cima.
Alex começou a escorregar.
– NÃÃÃOO!!! – gritou Janice… Por favor não…
– Não perca a fé Janice, faça o que tem que ser feito para salvar o mundo – disse Alex.
E não aguentando mais, Alex escorregou por entre os dedos de Janice, caindo no abismo rumo à morte.

As lágrimas caíram como cachoeira dos olhos da garota. Que se virou em posição fetal e lamentou aos gritos. Uivos de lobos acompanhavam os gritos de lamentação de Janice, que depois de um tempo se levantou e entrou na floresta.

>>><<<

Janice entrou na pick up. Sua barriga estava doendo mais. Ela levantou a camisa e assustou-se ao ver que ela estava crescida. “Não é possível”!!! Ela sentiu que algo empurrava sua barriga, como se tentasse sair.
Desconsolada, Janice iniciou sua descida daquelas partes altas. A neve estava forte e dificultava a visão.

– Eu tenho que acabar com isso. Tenho que acabar com isso!!! Tenho que abortar!!
Um cervo apareceu do nada na frente da pick up e foi atropelado. O impacto fez o animal tombar sobre o vidro e desviar o volante do veículo. Janice gritou, quando o carro saiu da estrada e desceu um barranco a toda velocidade, deslizando sobre a neve.
O veículo batia lateralmente nas árvores secas e rodava de um lado para outro até que bateu numa última, que ficava na beira de um abismo. Seria uma queda de mais de 50 metros num lago de águas gélidas.

A árvore rangeu. A pick up desceu ainda mais para a beirada, de onde Janice pôde avistar sua queda.
– Então é assim que deve acabar… Eu aceito… – disse quando as lágrimas caíam no pára-brisa.
Mais rangidos. A pick up caiu numa queda majestosa do alto da colina. Janice vislumbrou a água se aproximando.
Impacto.
Escuridão.

>>><<<

Janice acordou sonolenta no quarto de um hospital. Ao pé da sua cama estava uma senhora de cabelos negros, nos seus 40 anos, que se animou ao vê-la acordar.
– Finalmente você acordou, minha flor. – disse ela com voz suave.
– Tia Mindy??? – disse Janice meio desorientada. Onde eu…
– Calma, calma… você sofreu um acidente. Sua pick up caiu no lago. Você teve tremenda sorte em sobreviver.

Janice olhou pra sua barriga, estava normal. Seria tudo aquilo um pesadelo???
– Seu bebê também foi salvo.
– O que ??? alarmou-se ela.
– Sim… ele está no outro quarto, no berço. Ele é lindo, forte e saudável. Por que você não me falou que estava… Janice!!!

Janice não esperou a tia completar a frase, saiu em disparada para o quarto do lado. Ele era o único bebê nascido naquele dia. Janice parou em frente ao berço. Observou-o.
Ele era realmente muito lindo, olhos azuis, aparentemente normal. Será que… ???? O bebê sorriu para ela. O que estava acontecendo??? Será que tudo não passou de um sonho ?
– Os médicos disseram que você teve uma gravidez difícil, pelo que eles perceberam. Ainda não encontraram os donos da pick up. Como você foi parar lá ? Daqui a pouco uns policiais vem conversar com você.

Janice desviou o olhar da tia para o bebê, que soltava gritinhos de felicidade enquanto mexia os bracinhos tentando tocá-la. Ela encheu os olhos de lágrimas, pegou um travesseiro na cama ao lado e começou a asfixiar a criança.
Vendo o gesto louco, Mindy tentou impedi-la, gritou por socorro. Os enfermeiros seguraram Janice que gritava feito louca.
– ELE É FILHO DO DEMÔNIO!!! ELE TEM QUE SER MORRTOO!!!
Eles a sedaram. Mas antes de apagar ela viu o bebê sorrir diabolicamente para ela do colo da tia.

>>><<<

13 ANOS DEPOIS…

“O pânico toma conta da população de Stamford. Uma senhora de 53 anos foi encontrada crucificada de cabeça para baixo na parede da sala de sua casa. Vizinhos afirmam que o adolescente Jason, de 13 anos, é o responsável. As autoridades estão à procura… à procura…
Oh meu Deus o que está acontecendo?!

Aquelas pessoas estão desesperadas!!! Filma lá, filma lá!!! Você aí de casa pode ver… elas… elas estão morrendo. Está tudo sendo destruído. Aquele que vem ali é.. oh meu Deus é Jason. Por onde ele passa tudo esta… morrendo…”
Uma explosão veio destruindo tudo. A câmera do repórter caiu lateralmente e quem assistia o noticiário pôde ver Jason levitando e em seguida, alçando um voo violento, que abriu uma cratera no chão e finalizou a transmissão..
Janice estava na sua cela. Era tida como louca. Estava vendo o noticiário quando guardas vieram ao seu encontro.

– Precisamos falar com a senhora.
– É tarde demais… sussurrava.
Uma força descomunal arrebentou a parede do quarto de Janice, em Brasília. Um furacão impetuoso a levantou pelos ares e matou todos no local. No alto, em meio ao furacão, Janice olhou nos olhos do filho do demônio… seu filho.
– Eu não esqueci de você, mamãe – disse olhando com olhos flamejantes e voz demoníaca.
– AHHHHHHHHHHHH!!! gritou Janice enquanto ele comia seu coração.

FIM???