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Contos Minilua: O amuleto #100

E quem diria, não é mesmo? 100 contos postados. A vocês, o meu muito obrigado. E-mail de contato: Jeff.gothic@gmail.com! 

O Amuleto – Parte I

Por: Raimundo Fagner

RESSURGIR

Era ela que sempre sofria com as pegadinhas das meninas legais no colégio. Era ela a quem a mãe batia porque não tinha jeito de menina “normal”, porque, como usava roupas escuras e maquiagem forte, era uma “adoradora do diabo”. Era ela a quem os garotos da escola faziam piadinhas sobre o cabelo escuro liso, de “boi lambido”, sobre a maquiagem escura em volta dos olhos, sobre o batom vinho escuro ao redor dos lábios, sobre as roupas pretas…

Mas o que eles não sabiam era que por baixo daquela armadura fechada, por trás daqueles olhos escuros, havia uma garota doce, compreensiva e com uma mentalidade bem mais aberta do que a deles. Janice era uma garota que suportava mais que qualquer um suportaria. Mas ela estava se cansando. Ela estava começando a sentir falta de alguém pra compartilhar os momentos. Um amor. Um amigo. Mas ninguém lhe dava a chance.

Janice viajou para passar as férias com o pai em Stamford, Connecticut, bem no próximo ao limite com Massachusetts. Lá ela conheceu uma cultura belíssima, ficou encantada. Seu clima semi-frio não parecia em nada com o do Brasil.

As montanhas ao norte, as praias ao sul. as sensações na pele, a cultura… tudo. O pai de Janice, Otávio, adorava a filha, como era ela. Era pra ele que ela contava sobre seus problemas, ele a entendia, ela o amava mais que tudo, mas não podia morar com ele por decisão da justiça.

Bem, a vida as vezes prega peça nas pessoas. Muitas dessas às vezes ministradas por forças as quais nunca iremos entender. Janice acordou cedo porque o pai iria levá-la a uma feira cultural que existe todo ano nesse período na cidade. Ela estava excitada com mais esta história pra contar pra… bem, pra ficar guardada na memória.

O local era lindo, como aqueles que só aparecem nos filmes americanos. Havia um miniparque de diversões onde Janice lembrou os tempos de criança ao lado do pai. Andaram nos cavalinhos, comeram algodão doce, brincaram de tiro ao alvo e por último foram na roda gigante.

O brinquedo parou deixando ela e o pai parados lá no alto… por alguns minutos. Janice olhou pro horizonte e viu um lindo crepúsculo. O sol sumindo num beijo singular com o mar. As luzes da cidade se acendendo… aos poucos, tudo lindo. Janice ficou emocionada.

– Tudo bem meu amor? – perguntou o pai preocupado.

– Sim, papai… sim. Respondeu ela tentando esquecer que teria que voltar pra sua vida medíocre no dia seguinte.

Após a roda gigante eles caminharam, visitaram diversas barracas, até que ela avistou uma barraquinha cheia de utensílios exóticos. Havia vários colares coloridos com desenhos desconhecidos, símbolos que pareciam de outra época ou nação. Não havia ninguém lá, o que a fez achar estranho. Seu pai ficou um pouco pra trás atendendo o celular enquanto ela caminhava em direção à barraca. Parecia que alguma coisa a atraía até lá.

Foi então que ela o viu pela primeira vez. Brilhante, prateado… era o colar mais lindo que ela tinha visto na vida. Seu formato meio épico, sua corrente amarronzada dava um tom de antiguidade. E o pingente… ah, o pingente. Aquele círculo azul que parecia ser uma pedra preciosa era tão…

– Gostou do colar minha linda? – Assustou-a uma senhora saindo de debaixo da mesa. Ela usava brinco em apenas uma orelha, um turbante preto amarrado à cabeça com cordões cravejados de brilhantes. Seus olhos eram de um vermelho assustador. Suas unhas negras e o gato negro que acariciava no colo davam um ar diabólico à figura.

– Você gostou do amuleto, queridinha? – disse com sua voz falsamente doce percebendo que a menina ficou encantada pela peça.

– Ele é… lindo – disse Janice, tocando-o.

– Ele é uma preciosidade. Dá época da colonização do nosso país.

– Aposto que é. Retrucou Janice não disfarçando sua ironia.

– Você duvida criança ???

Janice percebeu que os olhos da mulher adquiriram um tom mais escuro.

– Durante a guerra de independência havia na nossa cidade uma jovem belíssima de nome Aurora. Era tida por todos como um anjo na terra. Era bondosa, educada, virgem… os rapazes adoravam-na, mas ela nunca se interessou por ninguém. Mas havia um homem, um feiticeiro das trevas, Oregon, que queria a garota para ele e para conseguir tal feito vendeu sua alma a Balaam, o demônio da cobiça.

Quando fazia compras, Aurora foi hipnotizada e levada para a casa do feiticeiro no meio da floresta para ele concretizasse seu ritual profano. Ele teria que possuí-la e gerar nela o filho do demônio, que escravizaria a humanidade com fogo e enxofre. Felizmente os pais da moça foram alertados por um garoto que viu o feiticeiro levando Aurora e, juntamente com uma multidão que odiava bruxos, chegaram a tempo.

Oregon foi preso na mais alta masmorra nas montanhas do norte onde morreria de fome e frio. Mas a lenda diz que Oregon não morreu pois não concretizou a sua parte do trato. Ele secou lentamente e se tornou um súdito de Balaam, uma alma condenada a viver entre o inferno e a Terra, sem nunca ter paz, um Errante.

– E o que tem a ver essa história com esse colar?

– Esse era o colar usado por Oregon quando foi capturado. A família de Aurora o abençoou e transformou-o num símbolo de segurança para a filha, um amuleto. Mas embora todos os esforços Aurora adoeceu e morreu de forma misteriosa.

Disseram que após o atentado ela passou a ver coisas e ter pesadelos que a deixaram louca. O colar foi jogado no mar junto com seu corpo nas proximidades do mar da nossa cidade. Foi encontrado por pescadores que o venderam pra minha família a gerações. E hoje ele está aqui, estava esperando por você.

Janice segurou o colar nas mãos e observou o contorno do pingente. Meio pesado. Ela percebeu que a pedra do colar estava sobreposta a outra parte. Ela mexeu e a peça abriu revelando em seu interior um espelho no lado direito e no esquerdo uma frase em alguma língua que não conhecia. Os olhos da cigana se arregalaram de susto e rapidamente ela disse para Janice levar o colar com ela.

– Eu… eu não posso senhora. Se ele for mesmo uma relíquia, como a senhora diz, deve custar caro.

– Não, não não, doce menina. Leve-o… É um presente pra você… tudo bem…

– Mas eu…

– Janice, filha!!! Desculpe a demora – disse o pai voltando até ela – Vamos embora?

– Vamos…  Disse ela colocando o colar no bolso e agradecendo a vendedora.

De longe a cigana olhava meio assustada para a menina e seu pai.

– Então começou…  – disse afagando a cabeça do seu gato negro enquanto um relâmpago cortava o céu.

                                                                    >>><<< 

Janice não conseguia dormir. Olhou no relógio: 4:00 da manhã. Não sabia o que a incomodava. Quando deu por si, percebeu que segurava o pingente do amuleto em seu pescoço. Respirou fundo imaginando que dali a algumas horas estaria naquela droga de vida em Brasília. E foi pensando nisso que finalmente adormeceu.

A porta do guarda-roupa se abriu sozinha. Tudo estava escuro e a única luz que entrava no quarto era a da lua, pela janela de vidro. Olhos prateados brilhavam por entre as roupas. Um braço comprido, cinzento, com mãos e dedos compridos e ressecados saiu do armário.

Uma perna comprida e fina saiu por cima do braço e da mesma forma o outro braço e perna saíram. A figura disforme soltava um som sem sentido, como o som de ossos quebrando misturados com gemidos interrompidos. Era o som de mil almas do inferno tentando se libertar.

A figura distorcida saiu arrastando-se em direção à cama de Janice de uma maneira anormal. Lançava a perna por cima do ombro e se rastejava para depois lançar a outra perna, um ritmo macabro. O odor de enxofre se espalhou em todo o quarto fazendo Janice se mexer na cama.

Ela abre os olhos meio sonolenta e vê um vulto retorcido se aproximando. Ela desperta alarmada, acende o abajur mas nada vê além da porta do guarda-roupa roupa aberta. Janice levanta e vai desconfiada até lá fechando-a. Volta correndo e se senta na cama, passa a mão ao redor do pescoço como que para aliviar alguma dor. Uma mão sai de debaixo da cama para agarrar a perna de Janice mas ela se deita antes que ele consiga.

Ela começa a sentir oscilações no colchão da sua cama, como se alguém que estivesse debaixo tentasse subir por dentro.

– Mas que droga é essa ?? Diz assustada.

A força é tamanha que levanta um lado do colchão. Janice solta uma grito o colchão volta ao chão de súbito.

– Papai??? Disse ela tentando disfarçar o pavor que corria em suas veias. Papai o senhor sabe que não gosto desse tipo de brincadeira…

Silêncio. Janice suspirou e se achegou para a beirada da cama. Deitou-se e foi baixando a cabeça aos poucos para ver o que tinha embaixo da cama, mesmo amedrontada. Ela levantou lentamente a borda da colcha. Estava escuro.

O que viu foi uma figura disforme subindo pelo outro lado em cima da sua cama. Janice sentiu o peso de alguma da coisa do lado dela, o odor de enxofre ficara mais forte. Ela gelou, ficou quase paralisada. Uma lágrima escorreu pelo rosto invertido da jovem, que subiu lentamente a cabeça. Ela se colocou de joelhos, mas não ousou olhar pra trás. A figura macabra chegou bem perto do pescoço de Janice e emitiu sons estranhos, como se fizesse um esforço muito grande para dizer pequenas palavras.

– Eu vim te buscar!!!

Foi a voz mais diabólica que Janice já tinha ouvido. Ela não segurou o pânico e soltou um grito ao mesmo tempo que saltou da cama com tanta força que colidiu com a parede, batendo a cabeça. Ao olhar pra cama ela não viu nada, mas também não esperou, saiu correndo.

O errante saiu de debaixo da cama de repente e agarrou a perna de Janice. Ela olhou para seus pés e arregalou os olhos ao ver a figura macabra que se apresentara a ela. O rosto ressecado, olhos grandes de uma inclinação terrivelmente infernal. Sua íris era prateada e brilhava tanto que chegava a cortar milhares de almas no desespero. Eram os olhos da dor, da fome, do sofrimento.

Ele começou a puxá-la para debaixo da cama. Ela gritava pelo pai mas ele não ouvia. Era isso ou… não, ela não podia pensar nisso. Mas… será que o demônio havia… Ela não conseguia completar o pensamento. O desespero a fez socar com cara do monstro com o pé livre e conseguiu escapar.

O errante a perseguiu enquanto ela corria em direção a porta. O som dos ossos quebrando e os sons que saiam do monstro enquanto ele corria pela parede e pelo teto era aterrorizantes. Janice conseguiu fechar a porta a tempo.

Em desespero ela olha para o corredor. Não pensava que o quarto do pai ficasse tão longe, no fim do corredor. A luz rala estava piscando nos abajures. Acendiam e apagavam num ritmo que não podia ser acompanhado.

Ela começou a chamá-lo para ver se ele saia na porta. Nada. Ela caminhou em direção ao quarto do pai. Passo por passo. Começou a correr, ofegante, amedrontada. A luz apagou.

– Droga! Droga!…

Quando a luz voltou que ela olhou para a porta do quarto  viu o ser e seu corpo retorcido a olhando profundamente com os olhos prateados, olhos de ânsia, olhos famintos, imóvel, como uma estátua. A luz piscou novamente e ele não estava mais lá. Janice encostou-se na parede colocou as mão da cabeça ajeitando os cabelos. Não sabia se era real, se era um pesadelo. Ela escutou ranger de dentes no teto e som de ossos se quebrando.

– Au-Ro-ra – disse a voz macabra.

Janice voltou de seus devaneios inoportunos e olhou novamente para a porta do quarto. O ser estava lá, agachado como um animal. Num piscar de olhos ele havia se aproximado e ficou perto de Janice só que no teto, como uma aranha.

Ela estava paralisada demais para correr. Deveria morrer ali mesmo e tudo estaria acabado… Sim, era a melhor maneira. Mas e seu pai? O que havia acontecido? Tomando forças de dentro de si Janice correu rapidamente na direção oposta, o ser a perseguiu como uma presa mas ela conseguiu abrir a porta do banheiro e entrar.

Antes de concretizar o ato o monstro colocou a mão impedindo que ela fechasse a porta. Ele empurrou de um lado e Janice do outro, gritando, aflita, enquanto ele soltava urros infernais. A porta se fechou. Janice aos prantos trancou a porta enquanto o monstro a esmurrava pelo outro lado. O barulho parou. Ele teria ido ???

Novas pancadas na porta, mais fortes e lentas. Janice foi se afastando da porta sem tirar os olhos dela até que encostou na pia. Temia o pior. Mais uma vez as batidas pararam.

– Me deixa em paaaaaaaaazz!!! Gritou ela desesperada…

– Papaaaaiii!!! chorava ela – Papaaaiii!!! Seu soluço se confundia com suas lágrimas.

Ela sentiu um hálito quente e fétido balançar os seus cabelos. O choro engolido deu lugar ao desespero. Janice foi se virando lentamente, mas antes que conseguisse dizer ou fazer alguma coisa as mãos cinzentas e frias do errante quebraram o espelho e agarraram-na pelo pescoço.

Sem pensar duas vezes ela se debateu, conseguiu se soltar e saiu do banheiro enquanto o monstro saía através da brecha aberta. Correu desesperadamente pelo corredor. O monstro veio correndo violentamente soltando seus urros apavorantes. A porta do quarto estava trancada. Ela bateu desesperadamente gritando pelo pai. Nada. A porta abriu no último instante e ela conseguiu fechar a porta antes dele chegar mais perto. Ela trancou e olhou pro quarto a procura do pai.

A cama estava lá. Tinha alguém embaixo. O barulho lá fora havia cessado. Janice caminha lentamente para a cama. Será que ele está… ah meu Deus… não, podia ser. Seria o fim para ela. A pessoa que estava na cama estava totalmente coberta, não havia resquícios de sangue. Seu coração acelerou mais ainda, numa mistura frenética de medo e ansiedade. Sem mais esperar ela puxou o lençol que cobria.

Otávio dormia com uma criança. Estava nu, completamente nu. Em outro momento isso seria constrangedor, mas agora só o que ela queria era abraçar o seu pai. E foi o que fez. Pulou na cama e abraçou-o fortemente enquanto as lágrimas corriam. Ele acordou lentamente e a viu chorando.

– Janice, meu anjo… o que… O que aconteceu? Por que você está assim?!

Ela não conseguia soltá-lo. Só queria ficar ali, protegida.

Ele segurou seu rosto com as mãos e olhou nos olhos e voltou a abraçá-la, colocando sua cabeça embaixo do queixo.

– O senhor não ouviu nada?

– Não meu amor. O que aconteceu??

– Foi horrível papai… nem sei por onde começar.

– Calma meu anjinho… Calma. Shiii… shhhh. Papai está aqui agora tá bom?

Ele cheirou seu cabelo e inalou profundamente o cheiro de aloe vera que saia deles.

– Você cheira tão bem Aurora.

Os olhos de Janice se arregalaram. O susto foi tão grande que a fez gelar. Ficou imóvel. Não sabia o que fazer. Ah não. Não era seu pai. Ela sentiu quando seja-lá-o-que-fosse-aquilo suspirou e mordeu sua orelha e pescoço enquanto sussurrava só nome de alguém que ela não conhecia.

Num impulso ela tentou se soltar. Mas Otávio, ou melhor, “aquilo” a agarrou pelos punhos e jogou-a na cama, subindo em cima. Um pavor sem precedentes invadiu o corpo da pobre moça. Ele a desejava, seu pai… “aquilo” a desejava. Ele liberou sua língua no pescoço dela e ela pôde sentir a bifurcação que havia nela, como língua de serpentes, fria, pegajosa.

– Você pertence a mim, Aurora.

– Eu não sou a porra dessa Aurora!!! Me deixa em paz… disse ela liberando lágrimas de desespero e raiva, raiva por não ter com se defender.

“Aquilo” segurou os punhos de Janice com a penas uma mão e com a outra começou a acariciar suas pernas. Como estava de vestido pôde sentir as mãos duras e frias escorrendo por seu corpo. Ela tentava se mexer mas o ser era pesado demais. Ele se aconchegou entre as pernas de Janice, abrindo-as.

– Não vai demorar – disse o demônio com voz calma, descolando seu rosto do pescoço da moça. Ao olhá-lo, Janice viu, com pavor, que os olhos estavam negros e cheios de veias nervosas que saiam através do seu rosto. A boca do demônio foi se abrindo e ela vislumbrou os dentes pontiagudos que se levantaram e desceram violentamente no pescoço de Janice, fazendo-a soltar um grito de dor.

O sangue começou a manchar os lençóis brancos. A vida foi sumindo do corpo de Janice numa dor que não podia ser medida. Ela tentou se mexer, mas de nada adiantava. Ela olhou uma última vez para o seu predador e viu o sangue escorrendo pela boca dele.

– Chegou a hora – disse ele adentrando o seu ventre violentamente.

Janice soltou um outro grito e acordou do seu  pesadelo sendo acalmada pelo pai.

– Janice!! Janice!!! gritava o pai, assustado – foi só um pesadelo meu amor, só um pesadelo.

Janice estava descontrolada, aflita.

– Ele está vindo me buscar, pai… ele vem me buscar – disse sussurrando, com olhos arregalados, como louca.

Nesse instante um cheiro assustadoramente familiar para ela invadiu o quarto: enxofre. Houve estalos no teto como se algo andasse no telhado. Sons como de gargantas cortadas começaram a ecoar pelo quarto. Tudo começou a tremer. Os quadros das pareces caíram. A janela de vidro explodiu fazendo Janice e Otávio se jogarem ao chão.

– Mas o que diabos está acontecendo? Perguntou pai assustado.

Janice estava mais que assustada, estava no limite. O pai, entendendo que a filha não estava bem a segurou e braço.

– Vamos meu amor… temos que procurar um lugar seguro.

Ao passar pela janela ele viu rapidamente a cidade sucumbir ao caos do terremoto. O céus estava enevoado e num tom vermelho sangue sobrenatural. Ele falou para correrem o mais rápido possível. A casa estava desabando.

No corredor, eles depararam-se com a figura sombria do sonho de Janice. O errante, a alma condenada os olhava estático. Janice gritou ao pai que tinham que fugir.

– Janice, me escuta – falou quase sussurrando – vamos correr. Você foge pela janela e pula na piscina okay? Eu estou atrás de você. Um, dois, vai!!!

E começaram uma corrida frenética em direção ao quarto de Otávio.

A figura diabólica veio furiosa, com olhos flamejantes, sedento por sangue. Janice e Otávio entraram no quarto. Trancaram a porta mas o monstro batia com força descomunal. Não ia durar muito.

– Janice, meu anjo. Me escuta.

– Ele veio me pegar papai!!! – chorava Janice.

– Não, não, não ninguém vai pegar você meu amor. Eu vou enfrentar ele, okay.

– NÃO, PAPAI, POR FAVORRR – suplicou ela.

– Não esqueça, peça ajuda e…

– Não!! Eu não vou sem você – disse desesperada agarrando-se ao colo do seu pai. Papai, por favor, por favor não me deixe sozinha… por favor!!!

– Vamos meu amor, pule.

A porta foi destruída num golpe fulminante. Pedaços dela voaram pelo quarto.

– VAAAAI!!! gritou o pai, empurrando a pela Janela.

Antes que pudesse dizer mais nada o demônio segurou pelo ombro e o arrastou para as sombras. Janice caiu dentro da piscina. A pancada da água nos seus ouvidos cessou o barulho dos gritos do seu pai. Ela nadou o mais rápido que pôde para a rua e começou a gritar por ajuda. A cena que viu foi desoladora.

Pessoas feridas, sangrando, adultos e crianças correndo desesperados em busca de ajuda enquanto o tremor derrubava casas, abria abismos nas pistas, engolia carros, fazia explodir postos de gasolina, um verdadeiro caos.

Lá dentro, o demônio arrastou Otávio pelo corredor e o arremessou com força na parede, bem em cima de um retrato de Jesus. Do lado do quadro havia uma cruz de prata que um padre havia dado a Otávio. Ele não pensou duas vezes quando agarrou a peça e enfiou no olho do monstro. A cruz parecia queimá-lo.

O ser saiu se debatendo pelas paredes e sumiu dentro do chão. Otávio correu ao seu quarto cambaleando, ainda tonto da pancada, pegou sua arma dentro da gaveta e saiu correndo em meios aos estilhaços que a casa estava virando.

Ao chegar perto da escada se deparou com a figura macabra, furiosa, babando e com um líquido negro escorrendo pelo rosto. Ele puxou sua arma e disparou vários tiros na criatura que veio em sua direção como se as balas fossem de papel.

O ser o agarrou com suas mãos longas e o encarou. Otávio o olhou e viu que o olho destruído estava se recompondo, era um olhar que transmitia dor. Otávio viu a própria morte nos olhos dele. Num golpe bruto, o errante o arremessou escada abaixo, fazendo cair sobre a mesa de vidro da sala.

Um dos pedaços do vidro perfurou a coluna de Otávio e atravessou seu corpo fazendo-o sentir uma dor agonizante. Queria morrer logo mas a dor dizia o contrário. Ele abriu os olhos, marejados de lágrimas, e viu a figura diabólica se mover no teto, como uma aranha, e virar a cabeça em 90° simplesmente para olhar sua dor.

Um sorriso macabro apareceu no rosto da criatura que pulou do teto em direção a ele, lambeu seu rosto com a sua língua de cobra. Otávio não podia se me mexer.

– O que… é você??? O que você quer??? disse Otávio fazendo uma força descomunal para falar.

– Eu… sua morte!!!

O monstro abriu a boca de Otávio, e foi introduzindo sua mão lentamente. Otávio se debatia enquanto a mão fétida atravessava seu corpo, devagar fazendo faltar em seus pulmões. O ser arrancou o coração de Otávio e o retirou pela garganta.

Segurou-o como um troféu o comeu como se fosse o mais saboroso prato. Janice entrou correndo pela porta destruída e viu a cena mais terrível da sua vida. Seu pai olhando-a com a boca escancarada e o demônio acocorado ao seu lado devorando seu coração.

Ela soltou um grito de horror que fez o monstro desaparecer na sombra. Os tremores pararam. Janice correu junto ao seu pai, chorando, inconsolável. Ela agarrou-o por debaixo dos braços e saiu arrastando-o rumo a porta, e depois pelo jardim, sempre gritando por ajuda. Algumas pessoas vendo a cena, se comoveram e ajudaram a menina.

O céu estava escuro, havia amanhecido. A chuva começou. Mas não era uma chuva comum. Era uma chuva que estava lavando toda a parte boa de Janice, a única pessoa que realmente a fazia bem, feliz. Janice soltava gritos de dor, inconsolada, agarrada ao seu falecido pai que ainda estava de olhos abertos, assustados.

Janice mal percebeu que todos à sua volta comentavam assustados, uns corriam para se proteger, outros gritavam que era do fim do mundo, pois a chuva não era de água, era de sangue.

FIM DA PRIMEIRA PARTE

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