Contos Minilua: Nódoa #106

Bem, e para participar, não tem mistério: Para tal, envie o seu texto para: equipe@minilua.com! A todos, uma excelente leitura!




Nódoa

Por: Luis Valença

- Sarita é uma menina moderna, querido. É só uma fase - sua mãe sempre dizia, tentando acalmar os ânimos do homem que não aceitava que sua filha chegasse em casa depois da hora estipulada. O ano era 1974 e uma moça de família farrear pelos becos de Salvador era inaceitável.

–Venha cá sua vadia! Eu sei daqueles pederastas com quem você anda! Acho que os tapas que você levou não deram jeito nessa sua cabeça de merda! – E lá vinha Dona Célia para segurar o velho antes que fizesse alguma miséria. Mas nada que a pobre fizesse poderia diminuir o ódio que pai e filha cultivavam um pelo outro.

As coisas já não eram mais as mesmas naquela casa que ficava incrustada numa das infinitas ruelas da cidade. Sarita mudara, mas seu pai não mudaria e sua mãe insistia em pôr panos quentes na situação. Mas mal sabia ela que seu marido não iria aguentar por muito mais tempo.

- Ela já tem 21 anos, Célia, está na hora de arranjar um marido e sair do meu pé – Dizia Seu Adamastor à esposa enquanto tomava seu café, sempre com açúcar demais.

- Mas querido, ela é só uma criança, não sabe direito o que faz, ela já está terminando a Escola Normal, espere só até ela arrumar um emprego e nós ajudamos ela a comprar uma casinha - mordia os lábios toda vez que falava na casa; morria de medo que ele perguntasse o porquê de dar uma casa a uma moça solteira.Morria de novo só de imaginar a reação dele quando soubesse que Sarita queria arrumar um emprego de jornalista; - jornalista no estrangeiro - a moça suspirava.

Dona Célia era uma boa mãe, fazia de tudo por sua única filha. Quisera ter outros, um casal, como sempre sonhara, mas o destino lhe dera um ventre podre, incapaz de segurar por muito tempo um bebê. Sarita fora um milagre, na época ela e seu marido haviam feito uma promessa e conseguiram alcançar essa graça.

Mas Sarita era diferente das mulheres da sua época, era uma libertina, como seu pai insistia em dizer (vagabunda). Pensava em sair de casa, correr pelo mundo, conhecer pessoas e trabalhar com moda; as revistas que conseguia comprar com o dinheiro que pegava escondido falavam de uma revolução que estava acontecendo lá fora, uma revolução de roupas, idéias e conceitos. Uma revolução onde as mulheres é que mandavam. 

Feminismo. Era isso que Sarita pensava ser, uma feminista. Se os homens podiam, por que ela não? Até que o inesperado aconteceu. No começo seus pais pensavam que ela havia engordado um pouco, mas aí vieram os enjoos. Sarita estava grávida. 

- Quem é o pai, sua cachorra? Diga antes que eu quebre suas pernas! - Seu Adamastor estava vermelho de raiva, à beira de um ataque do coração. 

- Me deixe em paz seu velho sebento, pensa que eu não sei que a noite você sai pra pegar as putas da Ondina e deixa minha mãe chorando? Aliás, ela é uma idiota mesmo de continuar com um nojento que nem você!

Sarita ficara lívida. Sua própria explosão a assustara tanto que acabou se arrependendo do que dissera quase no mesmo instante em que terminara de falar. Sua mãe chorava cântaros no quarto. Já não tentava falar mais nada para controlar o marido (o olho roxo gritava pouco mais que o silêncio). O que viria era inevitável.

- Sua cachorra safada, vai levar a maior surra da sua vida! – gritava Seu Adamastor enquanto desafivelava o cinto. Mas Sarita cansara de apanhar, de sofrer, de ficar presa naquela casa, naquele pedaço de mundo sujo e esquecido pela liberdade. Libertou-se. Pegara um castiçal de aço que estava em cima da mesa e acertara com toda a força, todo o ódio que podia existir num ser, bem na nuca de seu pai. O velho caíra morto, a cervical partida ao meio.

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