Contos Minilua: No limite da amizade #45

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No limite da Amizade

Por: Waldenis Lopes

Eu não entendo estes sentimentos todos… É uma coisa que eu, não consigo explicar…Ontem, ele me beijou no banheiro da escola, uma coisa não tão comum quanto se parece. Afinal, não é nada educado um homem entrar no banheiro feminino.

Ele me disse que não podia mais aguentar, se segurar, e queria algo além de nossa forte amizade… Eu fiquei constrangida, sem saber o que dizer… Saí correndo do banheiro e fui depressa para a minha sala de aula. Ele não se atreveu a entrar, apenas disse que queria falar comigo depois da aula. Eu concordei e ele se foi.

Eu estava me sentindo muito estranha e ao mesmo tempo, feliz. Estranha em ter beijado um quase irmão pra mim, e feliz por saber dos seus sentimentos por mim. Adonnes era um garoto realmente bonito e extremamente simpático. Conhecemos-nos há pouco mais de um ano, num evento cultural que havia na cidade. Naquela época, eu realmente havia me interessado por ele, porém, ele tinha uma namorada. Então, nos tornamos conhecidos, depois colegas, amigos e enfim nasceu uma grande amizade entre nós.

Ele terminou o seu romance há alguns meses, ele me disse que ela o havia enganado, mostrado a ele que ela era outra pessoa, que ele não conhecia.

Isso acontece, às vezes… Nós nunca conhecemos tão bem uma pessoa. Mas é claro, toda regra há exceções. E minha amizade com Adonnes era esta exceção. Minha confusão se foi. Eu realmente queria subir mais um nível neste relacionamento. Um namoro. Quem sabe…?

Eu sempre sonhava com ele… Com seu sorriso e seu carisma. Seu rosto fino e delicado, seus olhos cor de mel, seus cabelos negros e sua voz suave. Mas eu o via só como um amigo… Agora, depois do que ele disse, um sentimento acordou dentro de mim.

O sinal da saída tocou e aquele beijo que ele me deu não saía do meu pensamento. Quando o vi me esperando no portão do colégio, meu peito queimou, e fui ao encontro dele.

- Já que amanhã não tem aula Andressa, gostaria que você fosse lá em casa. Assim, poderemos nos entender melhor.  -Adonnes dizia isso num tom de voz muito calmo. – Não se esqueça. Amanhã, às dez horas, na minha casa.

Confirmei com a cabeça e nos despedimos com um abraço. Só com um abraço.

Hoje, é o dia de colocarmos os pingos nos is.

Adonnes me esperava em frente à sua casa com um brilho no olhar. Seu rosto resplandecia de alegria.

- Que bom que você veio. Por favor, entre. Sinta-se a vontade.

Sentamos no sofá da sala. Uma sala grande e bem decorada. Já tinha ido diversas vezes à casa dele, mas desta vez, havia alguma coisa estranha naquele ambiente…

- Onde está a sua mãe?

-Ela saiu. Foi visitar uma tia minha e só volta à noite.

Suspeitei. Estávamos a sós. Sinal de perigo. Nunca tínhamos ficado sozinhos na casa dele. E aquilo me incomodava.

Então, Adonnes começou a falar. Dizia que estava apaixonado por mim, que cultivava este amor depois que nos conhecemos. E que quando terminou com sua ex-namorada, só pensava em mim. Ele fez uma verdadeira declaração de amor. Fiquei impressionada. Eu já esperava algo assim, parecido, mas ele me surpreendeu. Até que veio uma pergunta fatal:

-Andressa… Quer namorar comigo?

Aquilo caiu em cima de mim como uma bomba atômica. Eu pensei que seria mais fácil ouvir aquelas palavras, mas não foi. Vieram-me então diversos pensamentos. E se não desse certo? E se estragasse a nossa amizade? E se eu magoá-lo? Machucá-lo? Fiquei extremamente confusa! O que dizer? Eu sinto um amor fraterno ou romântico por Adonnes?

- Preciso pensar…

- Pensar pra quê, querida? Apenas diga que sim.

- Mas eu não tenho certeza…

- Não tem certeza…? Hum… Sei. Existe outro cara que você está gostando, por acaso?

- Não é nada disso, Adonnes… Só estou com medo. Medo de não dar certo. Uma amizade virar namoro. E se nos magoarmos?

- Garanto que isso não irá acontecer. E nosso namoro, se não der certo, não estragará a nossa amizade, disso eu tenho certeza.

- Ok. Tudo bem. Mas mesmo assim… Preciso de um tempo para analisar a situação.

- Ouça-me, Andressa. Eu gosto muito de você… Não! Eu te amo! Estou apaixonado por você! Quer mais prova de amor do que estas palavras? Diga-me que eu faço! – o tom de voz de Adonnes mudou. Ele parecia inquieto, desesperado em ouvir minha resposta. Ele estava muito estranho. Diante daquela postura, me calei e o observei com atenção.

- Eu dou tudo o que você quiser! Diga-me! O que quer? Joias? Dinheiro? Roupas? Passeios? Peça qualquer coisa que eu te darei! –Seu olhar pacífico se transformou num oceano com vastas ondas. Ondas turbulentas. Ondas violentas.

Ele começou a ficar impaciente. Eu conhecia pouco deste lado de sua personalidade. Da última vez que o vi assim, foi quando sua ex esqueceu-se de avisá-lo que estava indo viajar para outro estado. Quando ela voltou, eles discutiram.

Adonnes me segurou pelo braço, suavemente e começou a me beijar.

- Você não me quer? Diga que não quer este corpo aqui. Eu te desejo! Sonho com você todas as noites. E eu te quero!

O quê? Adonnes me beijava e me agarrava, passeava com seus lábios pelo meu pescoço e me alisava. Ele estava louco? Onde estava todo aquele respeito? Sentia-me abusada. Ele queria me possuir, me ter como um troféu, seu prêmio. Afastei-me dele e fiquei em pé.

- Eu não quero nada! Não vai me deixar pensar? Então essa é a minha resposta! Que abuso, Adonnes! Que atrevimento! – Eu estava escondendo o meu medo, minha insegurança, naquele momento tentei ser o mais firme possível.

- O que houve queridinha? Pensei que me desejava também… Tudo bem. Deixarei você pensar por alguns instantes… Enquanto isso eu vou ali ao meu quarto e já volto. – Um sorriso de malícia surgiu em seus lábios e Adonnes se afastou e saiu da sala.

Puxa vida… E agora? Eu não sabia o que dizer, não conseguia nem pensar direito. A única coisa que passava pela minha cabeça era a ideia de ir embora. Ai não… Adonnes havia trancado o portão… Estou prisioneira neste calabouço? O muro era muito alto, que droga… Nunca fui fã de educação física, e eu não tenho tanta audácia para pular qualquer muro. Como eu poderia sair daqui sem deixá-lo nervoso? Precisava inventar alguma desculpa… E depressa!

- Andressa! Andressa! – Sua voz cantarolava o meu nome. Ele estava armando alguma.

- O-oi… – respondi insegura. O leão estava se aproximando para abocanhar sua presa. Engoli em seco quando vi aquela imagem.

Adonnes estava seminu. De cueca vermelha e me encarando com intensidade. Seu corpo era lindo, admito. Um falso magro com os músculos pré-definidos. Sua pele branca era mais clara nas partes ocultas pelas roupas. Ele passou as mãos pelos cabelos lisos e negros e colocou as mãos na cintura.

- O que faz no quintal, Andressa? Procurando algo?

- Estava pensando aqui… Olhando para o céu, sabe…?

- Você fica tão linda quando mente… Seus olhos castanhos reviram-se e seu rosto fica rosado. Adoro isso. Vamos! Responda minha pergunta. Seja minha namorada e começaremos este relacionamento em grande estilo!

Meu Deus! O que ele tá pensando? Que pecado! Que falta de moral! Cadê a castidade nisso tudo? Sou de uma família cristã! Apesar de eu não ser lá essas coisas… E tem as minhas “ficadas” na escola… Mas isso era demais! É o cúmulo do absurdo! Sexo?! Antes do casamento?! Eu não podia acreditar… Os relacionamentos anteriores de Adonnes possuíam tal ato? Ele nunca me contara nada sobre isso! Ele mentia para não discordar comigo? Ele sempre dizia que só faria amor quando encontrasse sua alma gêmea, com aliança no dedo… Nunca por diversão! Eu fiquei embasbacada.

- Eu tranquei as duas saídas para a rua existentes nesta casa… Você está sozinha comigo… Nós dois… E você será minha. Quero você, Andressa. Agora!

Eu segurava as minhas lágrimas que tentavam escapar dos meus olhos. Ele queria se aproveitar de mim? Quem era aquela criatura? Aquela simpatia que eu admirava nele se desfez. A sua beleza estonteante se tornou feiura. Não era o Adonnes que eu conhecia na minha frente, mas alguém dominado pelo desejo da cobiça.

Ele me chamou gentilmente. Eu não poderia resistir. Ele é mais forte, mais alto, e está no controle. O jeito era entrar no jogo do inimigo. E esperar um milagre, ou um jeito de sair dali. O acompanhei até seu quarto. Ele se deitou na cama e pediu que eu respondesse a tal pergunta.

- Tudo bem, Adonnes. Já que você insiste. Aceito ser sua namorada. Só me dê uns instantes para eu tirar minha roupa… Onde fica o banheiro?

- No final do corredor. Não demore. Quero comemorar minha conquista.

Conquista? Estava certa! Eu era o troféu! Algum tipo de aposta que ele deve ter feito com seus amigos babacas. Pensava em gritar, a plenos pulmões. Mas isso mancharia a minha imagem e a dele. Todos os vizinhos me conheciam. A melhor amiga do “Donnes”. O jeito era fingir… Botar o meu lado atriz em prática e quem sabe, escapar. Mas eu precisava de uma coisa… Onde será que Adonnes escondeu as chaves do portão?

Eu estava envergonhada… De calcinha e sutiã. Demorei um pouco para voltar ao quarto dele, pois eu estava vasculhando a casa. Não encontrei as chaves da minha salvação. E Adonnes estava sentado na beirada da cama me esperando…

- Você é tão linda. Seu corpo é tão perfeito. Sempre o quis. Sempre. Permita-me começar o nosso momento romântico…

Ele colocou suas mãos na minha cintura e começou a beijar minha barriga e desbravar minhas curvas com seus lábios. Eu não estava sentindo prazer, muito pelo contrário, muita repulsa. Parecia um animal a me lamber, um vira-lata que não se alimentava há dias. Que merda… Comecei a acariciar seus cabelos, para que ele não pensasse que eu não estava gostando…

Visualizei o seu quarto… As chaves não estavam em nenhum lugar aparente.

Adonnes me jogou na cama. E já queria me despir completamente. Eu o interrompi.

-Espera! Aproveita mais um pouco… E pode deixar que eu mesma tiro minhas peças íntimas.

Tô num abismo sem ponte! Ele realmente vai querer sexo! Se eu o empurrasse, batesse, não iria adiantar, pois se eu fizesse isso, continuaria trancada.

Deitada de costas na cama, Adonnes se pôs de joelho e se despiu… Que droga! Ele estava nu na minha frente! E “animado” ainda por cima. Que medo! Mas… Espera aí… Havia algo reluzente na cueca que ele acabara de tirar… Não acredito! As chaves estavam lá! Minha chance de fuga…

Levantei e fiquei de pé na cama. O chutei de brincadeira e o joguei de bruços nela. Eu estava bancando a “policial malvada”… Que ridículo.

- Uohoho! Andressa! Não conhecia este seu lado malvado! Miau, meu amor!

Colocando o pé na cabeça dele, eu disse:

- Você agora é o meu prisioneiro queridinho… Você quer sexo? Quer fazer amor? Prepare-se para ir às alturas com esta malvada aqui!

-É assim que eu gosto! Vamos lá, meu bem! Castigue-me! Tem umas cordas em baixo da minha cama. Amarra-me, vai! Vamos deixar isso aqui divertido.

Não acredito! Ele realmente queria que eu o amarrasse? Minha chance. Nem deve ter passado pela cabeça dele as minhas verdadeiras intenções. Peguei as cordas, ele ficou de costas na cama, e eu o amarrei. Seus pulsos em cada lado da cabeceira. Seu olhar era de prazer. E ele estava esperando que eu começasse. Que confabulasse com sua fantasia doentia…

Daí, vesti toda a minha roupa.

- O que está fazendo, Andressa?

- Não ficaria mais excitante com um showzinho de “strip-tease”?

- Opa! Mas é claro! Vamos! Comece!

Disfarçadamente peguei a cueca dele e a escondendo nas minhas costas peguei a chave. Joguei a cueca em sua direção. Ele, num urro de alegria e energia, começou a se remexer na cama, impossibilitado de movimentar as mãos.

- Andressa, começa logo! Estou doidinho!

Que cego! Olha só o que o prazer da carne faz com uma pessoa… Eu estava a um passo da minha liberdade. Era só sair de lá sem que ele o notasse. Aproximei-me dele e beijei sua testa.

- Espera só um pouquinho, Adonnes. Eu vou ali pegar um som para colocar uma música para nos animar, beleza? Onde posso encontrá-lo?

- O meu celular tem mp3 e tá na sala, em cima da mesa de centro. Pega ele e põe no alto-falante!

- Tudo bem, amorzinho… Volto já.

Saindo do quarto dele e passando pela cozinha, logo depois pela sala, fui ao encontro do quintal e ao portão. Procurando a chave certa naquele molho, testei algumas no portão e consegui destrancá-lo. Voltando até o quarto dele, decidi jogar umas verdades na sua cara.

Mas… Ele havia se soltado.

Como? Ouvi uma porta fechando. E Adonnes surgira atrás de mim… Vestindo suas calças jeans e me encarando com desprezo…

- Que bonito, hein? Tentando fugir… Pensa que eu não vi você olhando para a minha cueca, doida para pegar as chaves? Eu não sou tonto, Andressinha. Agora, você não sai mais daqui. Se não quer fazer por bem… Irá fazer por mal!

Ele tá falando de estupro?! Eu to no sal!

Adonnes me agarrou com violência. E me sacudiu como se eu fosse uma boneca de pano. Falava com voz alta e alterada.

- TIRA LOGO A SUA ROUPA!

-NÃO! SEU MALUCO PERVERTIDO! EU NÃO VOU TIRAR! E EU NÃO TE QUERO! VOCÊ É LOUCO!

-O que houve com você, garota? Pensei que você tinha uma queda por mim!

-Essa queda não existe mais! Por você eu não caio nem com rasteira!- e continuei - O que aconteceu, Adonnes? Ama-me tanto assim que me quer de qualquer jeito? E ainda assim? Desrespeitando-me? QUEM É VOCÊ?

- Apenas me obedeça… E ficará tudo bem…

- O quê? Você acha mesmo que eu vou perder minha pureza desta forma? Eu sou cristã, meu filho! E sem aliança no dedo, nada feito meu bem!

Adonnes me segurou pelo braço.

- Eu te quero…  E EU VOU TE TER… AGORA! VOCÊ É MINHA!

A adrenalina tomou conta do meu corpo, e sem nem pestanejar, chutei a parte mais vulnerável do homem, bem entre as pernas, ele gemeu e caiu no chão, contorcendo-se de dor. Pulei a janela do quarto como uma ninja e fui de encontro ao portão. Lá dentro, Adonnes soltou um grito que me apavorou:

- Amanhã tem aula, Andressa! E amanhã… Você não me escapa!!!

OUVIU??!

Aquelas palavras chegaram ao meu ouvido como um tsunami, arrasador, destruidor. Estremeci nas bases, gelei, mal conseguia caminhar. Livrei-me das chaves de sua casa. Reuni forças e saí correndo a todo vapor para um lugar seguro. Mas que coisa… O que eu iria fazer? Como eu iria fugir? Adonnes, de agora em diante, era o pior psicopata que poderia existir. E eu era a sua caça. Sua vítima predileta. O seu próximo alvo. Preciso de um plano… Urgente!

Continua…

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