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Contos Minilua: O Livro das Memórias (terceira parte) #267

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Hoje nós vamos continuar com o conto enviado pelo usuário Thiago Lelis. Leia a primeira parte. Leia a segunda parte.

O Livro das Memórias – Terceira Parte

Rodrigo se aliviou pensando que estava fazendo a coisa certa. Henry puxou-o pelo braço, pegou sua cabeça e a bateu com força contra o livro. Rodrigo não teve tempo nem de perceber o golpe até sentir uma dor na cabeça e apagar de vez. Até…

– Onde eu estou?

Rodrigo se perguntou no meio de uma súbita e profunda escuridão que parecia infinita naquele lugar desconhecido. Só que as palavras não saiam. Apenas pensamentos surgiam. Sua boca, ele não sentia.

Acabou percebendo que não sentia mais seu corpo. Quando tentava qualquer movimento aleatório, a resposta era o nada. Não sentia o ar vir e ir de seus pulmões. Não sentia o coração pulsar o sangue por todo o seu corpo. Não sentia o calor, ou sequer o frio em sua pele. Será que ainda teria um? O vazio absoluto parecia ser a única certeza que tinha. E sua mente vagava nele sem sentido algum.

Eu morri? Ele se perguntou. Será esse lugar aonde os mortos vão? E, como uma resposta, uma luz surgiu do outro lado da escuridão. Apenas um ponto branco em uma tela negra. Rodrigo tentou seguir em frente, para o ponto branco onde encontraria a saída daquele lugar. Ele tinha certeza disso. Mas sem corpo algum, ele não sabia como se orientar ou como se movimentar, então como chegaria lá?

Então esse é o meu castigo? Será isso algum tipo de lição?  Ele não soube dizer por quanto tempo ficou lá na escuridão observando o ponto branco, até que a escuridão foi cada vez mais tomada pelo ponto branco. Foi então que ele sentiu uma luz muito forte bater em sua visão, em seus olhos…

Os primeiros segundos acordado foram de desespero. Quando o ponto branco absorveu a escuridão foi como recuperar anos de vida em um corpo morto. Deitado no chão, Rodrigo puxou o máximo de ar possível em uma inspiração para sentir os pulmões funcionando novamente.

Usou a mão direita para bater no peito e se certificar de fazer seu coração pulsar, mas errou e acertou a cabeça com o antebraço. Tentou com o outro braço e só acertou a perna esquerda. Sentiu-se como um bebê tentando aprender a controlar seus membros. Seu coração começou a pulsar sem que ele precisasse bater e seus olhos foram se acostumando com a luz e ele quase conseguia distinguir as formas dentro de uma sala.

– Desculpe pela demora – disse uma das figuras que tomavam forma na sala. Ela esticou a mão – Tive que fazer alguns ajustes, mas agora está tudo bem. – a voz dela vinha com um chiado, que foi diminuindo aos poucos.

Rodrigo acalmou-se. Conforme a sua respiração voltava ao seu ritmo. Relaxou e tentou levantar o braço. O movimento foi quase perfeito. O erro foi consertado pela figura que o puxou pelo braço levantado. A figura o segurou por poucos segundos para que ele se acostumasse com as pernas. Quando soltou, ele quase caiu. Mas, com as duas mãos segurando-o no chão, ele recuperou um pouco a orientação e conseguiu se levantar. Conseguiu se manter em pé. Mesmo que cambaleasse um pouco, ainda conseguia conservar a firmeza.

Ao se acostumar com a luz, ele deu uma olhada ao redor da sala. A sala era feita com paredes de ferro enferrujado. Quadros com pinturas com tons sombrios estavam pendurados na parede, um elevador do outro lado e uma porta com uma placa que dizia levar as escadas ao lado do elevador. No canto, sem o chiado do começo, ele ouvia o pingar d’água que formava uma poça.

– O que você acha? – perguntou a figura esticando os braços.

Rodrigo se virou para ver a figura que o tinha puxado e tomou um susto ao vê-la.

– Quem é você? – Rodrigo perguntou caído no chão.

– Que vergonha, Rodrigo. Por acaso, você não reconhece seu bom amigo Henry?

– Henry… Isso é você?!

Henry tinha abandonado o terno preto e agora vestia um casaco de couro e um jeans rasgado. Seu rosto também havia mudado. Os olhos de céu azul haviam sido engolidos por um mar vermelho. Seu cabelo ajeitado estava bagunçado e suas feições suaves estavam mais violentas. Agora ao invés de um homem de negócios honesto ele parecia um bandido de rua violento.

– Eu perdi aquele rosto no caminho pra cá. Acontece de vez em quando.

– Então esse é o seu rosto verdadeiro?

– Será? Só posso dizer que é um dos meus favoritos.

– Onde eu estou?

– Isso é o livro.

– Estamos dentro do livro?

– Estamos dentro de nós mesmos. De você, para ser mais exato. O livro possibilitou olharmos o seu interior. E você parece bem mais sombrio e… desgastado por dentro.

Rodrigo ficou olhando ao redor, contemplando o recanto acabado e os quadros que o cobriam. Reconheceu alguns como momentos de sua vida, outros pareciam rabiscados demais.

– Agora, para entrar nas memórias, é só seguir pelo elevador do outro lado – Henry apontou para o que parecia ser um daqueles elevadores modernos.

– Então eu poderei… – suspirou fundo – voltar para onde eu quiser?

– É mais uma questão de “quando”.

– Que botão eu aperto quando chegar lá?

– Você saberá no caminho. Antes de tudo, eu tenho uma má notícia – disse ele com falso desgosto – é agora que nossos caminhos se separam. É a sua memória e seu objetivo. Sua missão para ser completada.

– Melhor desse jeito. – Comentou Rodrigo baixinho.

– Mas não se preocupe – Disse ele alto, contorcendo sua boca em um grande sorriso – Nós ainda nos veremos. Um dia… – E ele desaparece num piscar de olhos. Deixando as suas últimas palavras ecoarem pelo recanto. Um dia…

Rodrigo estremeceu ao som do eco. Por um momento, ele sentiu-se arrependido. Por um momento, sentiu a maldição que acabou de aceitar pesar em suas costas. Contudo, deixou as duvidas de lado e pensou no sonho, e no quão bom seria viver naquela realidade.
Ao terminar a pequena meditação ele andou em direção ao elevador dando uma última olhada ao recanto. Tudo aquilo era inacreditável para ele, mesmo assim lá estava ele indo seguir o seu maior desejo. Iria dar adeus aos anos solitários na cabana; as noites de sofrimentos, aos pesadelos e a voz em sua cabeça. E com esse passo, teria uma nova vida. Rodrigo entrou no elevador.

O elevador tinha um cheiro bom de pinheiro e uma aparência limpa se comparado à sala em si. Olhou para os botões no canto. Teria que apertar o botão do 19º andar. Aquele tinha sido o dia. Devia ser o certo. Ele o apertou e o elevador fechou as portas ligeiramente e sem nenhum barulho.

Uma voz feminina anunciou os andares enquanto o elevador descia. 1º andar. 2º andar. 3º andar. Cada vez que chegava mais perto do 19º o elevador mudava. As luzes piscavam e na troca entre a luz e o escuro, a transformação ocorria. Suas paredes ficavam cada vez mais sujas, apodreciam. O cheiro de pinheiro ficava cada vez mais fedorento, como se no fundo ficasse o esgoto.

10º andar. 11º andar. Nos últimos andares ele respirou pela boca. Ignorando o cheiro podre e toda a ferrugem que se espalhava pelo elevador. Ele pensou no que tinha acontecido. Na sua mulher, no seu longo cabelo negro e em seu perfume natural. Pensou em seus olhos castanhos e no doce gosto dos seus lábios. Pensou nos seus filhos e como o tempo deles juntos haviam sidos os melhores momentos da sua vida. Ele finalmente se reencontraria com a sua família. 16º andar. 17º andar. 18º andar. Ele fechou os olhos e sorriu. 19º andar.

Rodrigo abriu os olhos. Era noite e ele estava deitado na cama. Sua mente parecia uma bagunça por completa. Lembrou-se da vinda de um homem – que não era homem – para a sua casa com uma proposta simples que foi complicando e… O que mais? Sim, tinha uma sala. Ele sabia que na sala tinha encontrado alguém e estava se preparando para alguma coisa, só que não sabia o que.

– Que sonho esquisito – murmurou para si e se confortou na cama.

Ele descansava bem, até que sentiu algo. Tinha algo a mais na cama. Ele tocou e sentiu uma mão. No mesmo momento, ele pulou da cama, fazendo a dona da mão se levantar e olhar para ele com olhos cansados.

– Querido? – disse a dona da mão – Teve outro… – ela caiu na cama e dormiu antes de terminar a frase.

Rodrigo se assustou com a imagem da mulher e correu para o banheiro. Ele achava que nada daquilo podia ser real. Que aquela mulher que ele amou e teve filhos estava viva. Ele olhou para o espelho do banheiro e viu que sua pele enrugada estava lisa outra vez. Seu cabelo grisalho voltou ao loiro vivo de quando era jovem. Ele repassou a história toda. Do homem de terno, do livro e de tudo. Realmente havia funcionado, ele estava mais uma vez jovem e com toda a sua família viva. Ele tocou em sua barba mal feita para sentir que realmente estava acordado, que nada daquilo era o sonho.

Sentiu os fios arranhando sua mão para ver se era real. Sentiu o seu cabelo entre os seus dedos e pode ter certeza. Agora a vida solitária como um velho isolado havia sido tão real quanto qualquer sonho. E iria continuar assim a menos que ele… Toda a felicidade repentina é interrompida quando ele se lembra do ocorrido. Precisava sair imediatamente. Voltou ao quarto e balançou sua mulher até acorda-la.

– Júlia, acorde. Precisamos sair, agora. – disse Rodrigo.

– Agora? Ainda é madrugada. Me acorde pela manhã.

– Não, tem que ser “agora”. Levante, eu vou buscar as crianças.

– As crianças, por quê? – Ela se levantou e olhou para ele estressada e sonolenta – Rodrigo, o que está acontecendo com você?

– Eu te explico depois. Agora nos temos que ir.

Ele saiu do quarto e foi no dos seus filhos. Não é tarde demais. Esse foi seu pensamento, ainda dava para salvar todos. Ele abriu a porta do quarto e ligou a luz. Sentiu um frio percorrer por sua espinha assim que viu o quarto vazio. Um grito vindo do sótão chamou a sua atenção e o fez correr em sua direção.

Sua mulher se levantou. Acordada pelo grito, ela pulou da cama e seguiu o marido

– Rodrigo? O que aconteceu? De quem… – Se interrompeu assim que olhou para dentro do quarto vazio.

– Onde estão as crianças? – disse ela subitamente acordada e assustada. Ela seguiu Rodrigo, tentando chamar a sua atenção. Rodrigo, em meio ao desespero a ignorou, pegou a escada do teto e subiu nela quase instantaneamente.

No sótão, puxou a corda pendurada no ar e a luz se acendeu. Um grito de horror sufocou na sua garganta ao ver o que ele mais temia.

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