Contos Minilua: No limite da amizade (final) #53

Adonnes, Filipe…Enfim, com quem Andressa ficará? A resposta é claro, nesta última parte do conto. Uma boa leitura a todos!




No limite da amizade (IV)

Por: Waldenis Lopes

Será possível que os homens só me enxergam como um pedaço de carne fresca? Gente! Isso é muito ruim! Ser objeto de desejo como as gostosonas da TV? Eu nem me visto de maneira vulgar para atrair estes tarados! Será que eu sou doce? Sou um perfume afrodisíaco que deixa estes caras loucos? Estes não, né… Afinal, foram apenas Adonnes e Filipe… Mas mesmo assim. Sinto-me extremamente desconfortável com tamanha situação.

Ontem o dia foi barra. Era apenas para ser um belo dia de sábado para um encontro amoroso entre dois namorados. Mas acabou sendo mais um dia decepcionante da minha vida. Fui à casa de Filipe para sairmos a um encontro, como fazia aos finais de semana com ele. Porém, ao me sentar bonitinha na sala de sua casa, ele diz que estávamos sozinhos, fecha a porta e tira a camiseta. Olha pra mim com um sorrisinho de tarado e diz que já era a hora de consumarmos nossa relação.

Não fazia nem cinco meses direito que namorávamos e ele já queria “aquilo”!? E eu, tonta como sou, pensei que ele fosse um cara diferente, pronto pra me respeitar, pra esperar, pra quem sabe, noivar e casar… Mas não! Mesmo eu contando tudo o que aconteceu comigo e com o Adonnes, ele fez aquela palhaçada comigo! Será que todos os homens são assim?

Bem que a Athena me disse. Filipe era da mesma laia do Adonnes, da mesma turma, e não merecia ser digno de confiança… Mas eu confiei, dei corda, e parei naquela situação, bem parecida por sinal.

Levantei bem rápido do sofá e já o enfrentei.

- Pode parar por aí, Filipe! Eu não acredito que você está pensando nisso! Pô cara! Depois de tudo o que eu te disse, de ter desabafado contigo daquela vez?! Você realmente quer isso?

- Andressa… Não seja tão ridícula! Eu realmente gostaria de esperar e tudo mais… Mas acontece que você é linda demais! Gostosa demais! E eu não estou conseguindo me segurar! Eu preciso do seu corpo, do seu cheiro, do seu gosto…

Ele se aproximou e começou a fungar no meu cangote, em seguida começou a me cheirar e a beijar meu pescoço. Fechei os olhos e pensei comigo: “Não posso cair nessa de novo… Não posso ser sonsa de novo! Errar uma vez é humano, mas já duas é burrice!”.

Filipe me segurou e me abraçou forte, continuando a me beijar. Olhei para a mesa de centro e vi um vaso de flores de porcelana que estava em cima. Afastei Filipe de mim, o olhei com carinho, ele sorriu de volta, o beijei… Meu último beijo. Ele tirou a bermuda…

Que otário.Cueca vermelha, coisa de pervertido. Quando ele veio entrelaçar seus dedos em meus cabelos e começar a me beijar na boca… O empurrei. Ele pulou para trás. Peguei o vaso da mesinha e taquei com toda a minha força em sua cabeça. O vaso quebrou. Ele cambaleou.

O empurrei de novo e o joguei contra a mesa de centro, que com o impacto se partiu, espalhando cacos de vidro sobre o tapete da sala e cortando as costas dele.

Como ele tinha trancado a porta da frente, que dava direto para o portão, saí pela cozinha e dei a volta pelo quintal. Meu coração batia muito forte, quase saindo pela boca. O calor que eu sentia era terrível, comecei a sentir a mesma adrenalina da vez que eu fugi da casa do Adonnes. Quando cheguei ao portão da frente, trancado. Pude ouvir a voz de Filipe lá de dentro:

- Andressa! Por favor… Me desculpe… Me ajude! Estou machucado, está saindo sangue… Não posso me mexer. Estou zonzo… Me perdoa… Me ajuda. Prometo não tentar nada… -Devo confiar?

Ouvi grunhidos de dor e em meio a eles, um choro engasgado. Filipe estava mesmo chorando? Olhei pela janela da sala. Ele ainda estava caído, tentando se levantar, realmente havia sangue em suas costas, lágrimas em sua face e também sangue descendo por uma cicatriz em sua testa, mas não parecia algo muito grave. Ele ficou acocorado, e me olhou de lado.

- Por favor, meu amor… Me ajuda… Faz um curativo… Vamos limpar essa bagunça e fingir que nada disso aconteceu, tá bom?

- É sério, Filipe? Posso confiar?

Ele se levantou.

- Eu prometo que tudo ficará bem, beleza? Tudo isso já é passado. Confie em mim. Vamos. Entra aqui… - Ele pegou a chave e estava destrancando a porta da sala para sair ao meu encontro.

Dei alguns passos pra trás e colei no muro do portão. Ele abriu a porta com violência e saiu furioso.

- EU DISSE ENTRA AQUI, ANDRESSA!

Tudo fingimento! Os cortes nas costas e o da testa não o impossibilitaram de correr até mim e de me prender contra a parede! Sua força era tanta que senti a dor de sua pegada em meus braços.

- Vamos, lá! Estamos sozinhos! E você é mulher, o sexo frágil… E VAI TER QUE CEDER! EU TE QUERO COM TODAS AS MINHAS FORÇAS!

- MAS EU NÃO VOU FAZER E PONTO! – e decidi - O NOSSO NAMORO TERMINA AQUI!

Usei todas as minhas forças e o empurrei, dei uma pesada na sua barriga que ele praticamente voou para o chão. Olhei aquela cena e me espantei. Como eu consegui fazer aquilo? O engraçado foi o ver cair de cuequinha vermelha no chão, com violência. Que mico. Olhei para cima e escalei o muro numa precisão geométrica, encaixando meus pés em cada falha de tijolos e de rebocos mal feitos. Lá de cima, eu disse para que ele pudesse me escutar:

- Escuta aqui, ex-namorado! Se vier atrás de mim, como o Adonnes fez, eu vou contar para o meu pai! Você sabe que ele é policial, não é? Então fica esperto! – Ele olhou para cima, ainda caído.

-E eu não vou ser mais a boba não! Ainda mais contigo! Não pude ter contado pra ele na última situação, mas desta vez… EU CONTO! Tá avisado! Afasta-se de mim!

Pulei. Eu é que não iria me arriscar a tomar as chaves e sair pelo portão. Caí de mau jeito no chão e machuquei meu joelho, fiquei mancando, mas mesmo assim… PERNAS PRA QUE TE QUERO!

Quando estava no final da rua, ele abriu o portão e olhou em minha direção, como ele não sairia seminu na rua, pude voltar para casa tranquila… Ou quase. A expressão que ele fez ontem quando me viu já longe foi a de que perdeu o jogo.

GAME OVER, FILIPE.

Pude ser imbecil uma vez, mas outra? Não!

Eu conversei com a Athena pelo bate-papo, pois ela iria sair e não daria pra gente discutir este assunto pessoalmente. Ela não acreditou na ousadia do Filipe e me disse o que acho que todos diriam pra mim: “Bem que eu te falei! Não quis me escutar! Filipe e Adonnes, farinha do mesmo saco!” Nem fiz questão de responder, apenas mandei um tchau em emoticon e um beijinho. Porém, ela estava certa, completamente certa.

Domingo. Nem o aproveitei. O sábado foi demais pra mim. Não consegui falar com a Athena. Celular desligado… E ela não respondia aos meus e-mails. O dia foi passando, e eu fiquei enclausurada em casa, analisando a minha vida e pensando em várias ocasiões. Circulei pelo meu quarto e coloquei música alta para poder ouvir… Ai, Lifehouse… Adoro. Mas as músicas fizeram-me lembrar do Adonnes… Do “Donnes”. Puxa… Nossa amizade parecia tão verdadeira.

Estou com saudades.

Mas acho que só eu que estou sentindo isso. Que estou de certa forma, sofrendo. Sim. Sempre são as mulheres que sofrem mais com este tipo de coisa. Rompimento de relacionamento seja lá qual for. Será que ele não está com um pingo de saudades? Eu gostaria que ele estivesse.

Entrei na internet e convidei o Adonnes para voltar a fazer parte das minhas redes sociais… Peraí! O que eu tô fazendo? Tenho certeza que ele não quer mais me ver, nem pintada de ouro! Ou será que não? Mas… Se ele fosse casto, até que dava pra gente namorar… Pára! Não sonha Andressa! Isso é utopia! Deu pra perceber pela nossa última conversa! O Adonnes não vai mudar! Mas bem que podia…

Meu coração palpitou forte quando começou a tocar “You and Me”. Caí de costas na cama, olhei para o teto, fechei os olhos, me senti segura, me senti em paz. Não estava nem ligando para o que o Filipe poderia fazer durante a semana. Filipe… Depois de ontem ele nem me ligou nem nada. Será que eu consegui intimidar ele? Espero que sim.

Segunda-feira! Eita dia ruim! Poderia ser declarado um feriado. As aulas como sempre chatas. No primeiro horário, Athena estava muito distraída como se estivesse num país distante.

- Athena. Você tá bem?

- Ai, Andressa… É a vida, né?! Ontem eu descobri que gosto de verdade de alguém… E fui fazer uma análise de meus sentimentos… Não posso me aproximar dele… Mas me apaixonei.

Athena apaixonada!? Preciso saber quem é!

- Quando eu estiver pronta eu te falo. Estou meio aérea neste primeiro horário.

Quase comecei a rir quando ela começou a cantarolar os versos da música mais antigueira do Nx Zero.

- ♫Entre razões e emoções a saída. É fazer valer à pena. ♪ Se não agora depois, não importa. Por você posso esperar♪…

- Ai, Senhor… O negócio ontem foi sério viu?!

- Nem tanto. Ah! Ontem eu perdi o carregador do meu celular e ele descarregou, caso você tenha tentado ligar. E eu não entrei na net ontem por causa destes turbilhões de sentimentos tomando o meu tempo.

Ela só sabe me deixar mais curiosa!

Na hora do intervalo, andando distraída pelos corredores eu vi Filipe. Quando ele me viu virou o rosto fingindo que nem me avistou. Havia pontos na sua testa, da pancada do vaso que eu dei nele naquele odioso sábado. Percebi que eu o intimidei. Sorri. E eu não estava sentindo nem um pouco de ressentimento.

Eu estava andando sem a Athena pela escola. Ela tinha sumido. Quando o sinal do intervalo tocou, ela correu da sala de aula. Estranhei. Entrei no banheiro feminino para me arrumar, passar batom, arrumar o cabelo e tal. O banheiro estava cheio. Fofocas aqui e acolá, mas uma me chamou a atenção:

- Você soube garota? A Kátia tá afinzassa do Filipe!

- É! Parece que ele e Andressa romperam neste fim de semana!

- Mas a Kátia não é amiga dela?

- Nada! Só colegas! Dá nada não, boba! E cá pra nós… O Filipe é um gato!!

Quando elas me viram, se calaram e saíram desconfiadas do banheiro. Mais essa! A Kátia afim do Filipe? Que se dane!O sinal do fim do intervalo tocou. Enquanto todos os alunos voltavam para as suas salas, inclusive eu, ouvi a voz da Athena próxima à cantina, num canto desolado, falando ao celular. Ela parecia com pressa de alguma coisa. Cheguei perto para ouvir, sem que ela me visse.

- Você me entendeu direito? Eu não me importo com as suas atitudes! Eu apenas me apaixonei, aconteceu! E eu sei que você não foi para tão longe. Para nos encontrarmos, basta uma hora e meia de ônibus…

Com quem ela estava falando? Tava parecendo que era com um menino.

- Responde! Vamos nos encontrar? Vamos conversar? Eu já disse que eu não me importo com isso! Se você quiser, eu caio pra dentro mesmo!

Mas o quê…? Será a paquera dela?

-Aceita!? Ai, que ótimo! Nos encontramos então, queridinho! Amanhã? Já? À tarde? Beleza, então. Nossa terça-feira será ótima!

Um encontro…! Athena estava marcando um encontro!

- Então até amanhã. Estou ansiosa para te ver, seu otáriozinho. Beijos, Adonnes. Tchau!

A-a-a-adon-don-donnes????

Não consegui me segurar. Minha melhor amiga. Minha ouvinte e confidente. Escondendo-me isso? Ela realmente estava marcando um encontro com aquele safado? Fiquei de sangue! A fúria subiu minha cabeça, mas me segurei, e carreguei meu tom de voz para que não ficasse tão ofensivo.

-Athena.

Ela se virou. Seu susto foi tão grande que deixou seu celular cair.

- An-an-andressa? O que faz aqui?

- Eu que pergunto.

- Eu estava conversando com meu irmão…

- Irmão nada! O que significa isso? Perdeu o carregador, não entrou na net ontem… Duvido nada que estava de converseiro com o Adonnes usando outro celular!

- Bem, é que… Sabe… Liguei pra saber como ele tá… E…

- Não adianta se explicar. Eu ouvi o suficiente para poder encaixar as peças. Você se apaixonou por ele, fez sua declaração ontem e marcou um encontro hoje! Tô te assistindo, Athena!

- Eu iria te falar! Tudinho, tudinho! Juro!

- Depois de quê? De “cair pra dentro”? Ora, Athena!! Depois de tudo! Sabendo o que ele fez comigo! Que merdaa!

- EU NÃO PEDI PARA ME APAIXONAR POR AQUELE BANDIDO! ACONTECEU! SURGIU! MEU CORAÇÃO QUIS!

- Agora a culpa é do seu coração? Não! Não existe coração nisso! Existe falta de respeito por uma amiga! Que depositou as confianças em você, que confidenciou tudo a você, que pediu ajuda a você- as lágrimas jorravam dos meus olhos como cachoeira - Que compartilhava segredos com você, que jurava que nunca ficaria com a paquera da outra ou com alguém que nos tivesse feito sofrer! Athena! Por quê…?

- Por amor… Atração. Nunca quis ter me apaixonado por ele. Ontem, eu estava me culpando por isso, por estar sentindo isso por ele. Desliguei meu celular para que você não ligasse, não entrei na internet para não ver os seus e-mails. Passei boa parte do dia assim, me culpando. Mas o sentimento foi mais forte, aí eu usei o celular do meu irmão para poder falar com o Adonnes.

Ela começou a chorar.

- Me entenda, amiga! Foi por AMOR!

- Amor?! –soltei uma risada irônica - Como você vem me falar de amor? Isso é sem-vergonhice! Eu, cheia de problemas, e você ainda me solta uma dessas!

- O mundo não gira só ao seu redor não, Andressa mimada! O tempo passa e as coisas vão acontecendo e mudando! Nada sai do jeito que a gente quer! Do jeito que você quer! Se saísse, eu não estaria nessa muvuca!  

Aproximei-me de Athena e a olhei por alto.

- Muito bem! Faça o que bem entender! A vida é sua, você é livre não é? Então use desta sua liberdade… Ou melhor… Desta sua libertinagem!

Trocamos olhares de fúria. Como se dois navios de guerra estivessem guerreando em alto mar. Senti neste momento, um grande aperto no peito, uma pressão na garganta, uma lágrima escondida. Eu estava perdendo uma amiga? Uma amiga, não… A amiga. Aquela em que eu pude contar em todos os momentos da minha vida. É… Fazia mais de anos que eu conhecia a Athena, e eu sempre pude contar com ela. Ela, porém, raras vezes pediu minha ajuda. Que droga… Isso não estava acontecendo. Uma traição. Daquela pessoa em que eu mais botava fé. Uma punhalada nas costas.

Ela passou por mim e foi caminhando, mas antes falou:

- Sinto muito pelo Filipe. Você não merecia.

- Não preciso de suas condolências.

- Só estou dizendo da boca pra fora… Não sei nem qual é o seu nome, garota.

Aquilo foi como um raio que partiu o meu corpo ao meio.

- E faça bom proveito daquele “Safadonnes”!

- É Adonnes! E pode apostar que farei.

Naquele instante. Tomamos caminhos opostos.

Minha atitude para com ela, com certeza, não foi nada cristã. Talvez pudesse ser, mas como sou fraca, não consegui ter o domínio do meu lado humano.

 Não sei como será o futuro. Mas hoje não quero pensar em mais nada. Nem no Adonnes, nem na Athena e nem no Filipe. Muito menos na Kátia que supostamente está afim dele. Preciso de calmaria e de silêncio. Preciso ficar sozinha.

Quando voltava para a sala de aula, vi Samanta em baixo de uma árvore no pátio, cabisbaixa. Ela parecia triste, bem triste. Fui falar com ela e perguntar o que tinha acontecido.

- Briguei com a Kátia…

Naquele momento eu estava sentindo o mesmo que ela. A perda de um amigo.

- Eu briguei com a Athena.

Trocamos olhares de piedade e de dor. Ela começou a chorar, borrando sua maquiagem e deixando os seus olhos azuis mais brilhantes. Parece que a amizade dela com a Kátia era de muito tempo, muito significativa. A abracei. Foi um ótimo abraço, confortador, quente e consolador. Não quis perguntar o motivo da briga, ela também não me perguntou o motivo da minha. Esqueci o ficar sozinha, precisava de companhia. Ficamos ali, conversando durante um bom tempo até tocar o sinal para começar o quinto horário. Pois é, matamos o quarto.

Samanta e eu decidimos andar juntas e nos conhecer melhor, não bolamos nenhum plano para voltarmos com nossas antigas amigas, estávamos muito tristes para tal ato. Ela foi para a sua sala e eu para a minha. Athena, que costumava sentar do meu lado, foi para a primeira carteira de frente a mesa do professor, ao lado da janela. Eu só a olhei rapidamente e sentei no meu lugar, no canto da parede do lado da porta, na última carteira.

Seria difícil conviver com aquele clima pesadíssimo. Mas eu tinha que ser forte.

As aulas acabaram. Esperei todos os alunos saírem. Athena nem olhou na minha cara e saiu apressadamente. Fiquei sozinha arrumando minhas coisas. Organizando as folhas do meu fichário e guardando meus livros na mochila. Antes de eu sair da sala, me celular deu um toque. Era uma mensagem de um número desconhecido. Meu coração se comprimiu tanto que eu fiquei com falta de ar. Será ele…?

“Estou com saudades, é sério. Precisamos nos falar. Nada, além disso, prometo. Entra na net hoje à noite, te espero.”

ADONNES.

Eu queria jogar o celular com toda a minha força contra a parede. Não sabia se eu estava feliz ou frustrada. O que ele quer comigo? Espero que possamos nos acertar. Ou não… Hoje eu vou jogar na cara dele essa historinha com a Athena! Ah, se vou!

E ele está com saudades! Ai, como eu sou otária…

Saí às pressas da sala e fui de encontro ao corredor, estava tão perdida em meus pensamentos que não estava enxergando um palmo a minha frente. Senti um impacto que me empurrou pra trás, meu fichário caiu e eu fui de encontro ao chão. Caí sentada. Meio zonza, olhei para os lados e depois para frente, quando olhei para cima, uma mão estava estendida pra mim, me oferecendo ajuda.

- Mil perdões, senhorita! Você está bem?

- Ah… O quê?

- Me desculpe, eu estava correndo sem olhar para frente e acabei esbarrando em você quando virei o corredor. Permita-me ajudá-la.

Era um rapaz. Um aluno da escola. Eu já o tinha visto antes, na biblioteca, nos corredores e na quadra de esportes. Eu sempre o achei um charme, mas nunca tive a oportunidade de conhecê-lo. Ele me ajudou a levantar, pegou o meu fichário do chão e me entregou.

- Me desculpe mesmo, senhorita!

- É Andressa.

- Ah, você é a Andressa. A que todos falam…?

Todos falam…? Como assim? Fiz uma cara de interrogação.

- Não pense que eu participo deste tipo de fofoca, eu só sei o básico. Mas pelo que sei, ele não te merece. O tal do Adonnes. E nem o tal do Filipe, que não é flor que se cheire… Bem, me desculpe mais uma vez… Quem sou eu para te dizer isso…

- Não. Tudo bem. Foi bom ouvir isso…

O Adonnes não me merece. O Filipe não me merece. Mas se eles não me merecem, quem vai me merecer? Uma garota que já passou por estas situações e que, atualmente, anda cheia de problemas. Será que eu sou exigente demais quando se trata de namoro? Não, acho que é por que eu quero viver a castidade na minha vida, por isso essas coisas acontecem.

- Então, tá… Né, Andressa… – ele ficou realmente sem graça - A gente se vê por aí, me desculpe de qualquer forma. –Ele foi saindo, eu o interrompi:

- Garoto, qual é o seu nome?- Ele se virou e pensou um pouco.

- Meu nome é Arthur. Eros Arthur. Prazer em te conhecer. – E saiu.

- O prazer foi meu…

Eros… Arthur. Que nome poderoso.

FIM DA QUARTA PARTE.

Parte V. Final

Noite de segunda-feira. Estava na hora de conversar com o Adonnes via MSN. Ele havia me aceitado nos seus perfis virtuais, e mandado um e-mail com o horário que estaria on-line. Oito horas em ponto. Adonnes entrou na rede.

- Oi. - comecei.

-Oi. – ele respondeu.

- Tudo bem?

- Gostaria que estivesse. Mas não está.

- Por que mandou aquela mensagem de saudades pra mim?

- Porque realmente estou com saudades. Eu caí na real, Andressa. O mundo não vale nada sem amor.

- Hum… Parece que você percebeu.

- Nestes meses em outra cidade, longe dos meus amigos daí, longe de você, percebi que a vida não vale a pena sem a confiança e a verdade.

- Posso saber o que te fez mudar de ideia?

- Além de eu ter me machucado emocionalmente aqui… De descobrir da pior forma que as minhas atitudes causavam mal para mim e para os outros, de ser usado como fiz com várias garotas…  Além de tudo isso, eu percebi que eu sou vazio.

Adonnes caiu na real?

- Adonnes… Fico até sem palavras. É sério mesmo?

- Sério! Eu era um conquistador barato, que não me aprofundava em nenhuma relação, que vivia a superficialidade. Eu estava praticando um esporte egoísta, pulando de galho em galho, tentando me satisfazer da maneira que eu achava que me faria feliz.

Nossa…

 - Mas viver do prazer da carne só por viver não é nada feliz… Eu preciso aprender a usar as coisas e a amar as pessoas, e não o contrário.

- Você sabe que tentava só alimentar seu ego, não é?

- Sim… Meu ego. De ser pegador, garanhão! Respeitado e admirado pela galera de farra… Mas eu não cheguei a ser um ninfomaníaco, obcecado por sexo. Mas eu viciei… E uma vez ou outra eu precisava me satisfazer.

- Você fazia isso porque pensava que não tinha nada a oferecer, senão um corpo e uma lábia de sedutor.

- Sim… Eu queria ser o sedutor, o cara.  

- No entanto você conseguiu me mostrar, pelo menos um pouco, do seu lado gentil e dócil. Do seu lado são. Do seu lado casto, de certa forma.

- É…

- Não precisa se esconder atrás deste tipo de vício, Adonnes. Eu sei que você deve ser inseguro. E eu não devo te censurar, devo lamentar por você. Você tem medo de uma proximidade pessoal, por isso usa a proximidade física.

- Eu tenho medo…? De quê?

- De se apaixonar! De sentir um sentimento verdadeiro por alguém, que te faça fazer de tudo para estar com aquela pessoa, de fazê-la feliz, de tratá-la bem. Você precisa de amor. Do verdadeiro amor humano.

- É… Você está certa. Mas sabe o outro motivo que me levou a lutar contra isso?

- Sim.

- Descobri que o meu pai traía a minha mãe. Com várias mulheres. No trabalho dele e depois do expediente. Ela não sabe, mas eu já o pressionei contra a parede. Se ele não contar a ela, eu mesmo conto. E se minha mãe pedir divórcio, voltaremos para a nossa velha casa.

- Seu pai…? Adonnes! Um homem tão sério e culto?!

- Pra você ver… Eu não quero ser o reflexo dele. Eu não quero SER ELE! Estou muito triste com isso tudo, por isso decidi mudar.

Ele ficou um tempo sem digitar nada. Eu também não digitei mais nada. O silêncio no meu quarto era terrível. Decidi tirar uma dúvida:

- Por que você vai se encontrar com a Athena?

- Ela te contou?

- Não. Eu descobri e nós brigamos.

- Sinto muito. Mas eu queria falar com ela sobre o que ela está sentindo. Ontem, domingo, ela me ligou e fez a maior declaração de amor. Eu me assustei. Sabe, eu acho ela bonitinha e tal… Mas ela não faz o meu tipo. E eu não gosto dela, sabe, pra tentar um namoro.

- Sei…

- Eu iria… Não. Eu ainda vou. Amanhã à tarde me encontrarei com ela, e colocaremos tudo em pratos limpos. Ela é a sua amiga. Não quero nada com ela.

Toda aquela conversa estava me deixando tranquila.

- Eu vou tentar mudar Andressa! Eu preciso cortar o mal pela raiz! Eu tenho que começar a ser feliz! Pois o que eu fazia só me deixava mais triste e sozinho. Mas vou precisar de ajuda, vou precisar de você.

Quando li esta última postagem dele, me senti leve. Senti-me importante. Eu ainda significo algo para o Adonnes?

- Você ainda é minha amiga, não é?

Amiga…?

- Claro Adonnes. – fiquei sem graça - A partir de hoje, retornaremos com a nossa amizade.

Já que não teremos mais nada, além disso, decidi ser bem clara.

- Mas agora Adonnes, eu quero um jogo aberto, só poderei te ajudar se você realmente confiar em mim e me confidenciar o que te incomoda.

- Sim, Andressa. A melhor coisa agora que eu vou lhe oferecer, será sempre a verdade.

Sorri.

E conversamos por um bom tempo. Ele disse que iria sempre me mandar e-mails de como anda a situação em sua casa. Se o pai dele contar sua falta de decência a sua mãe, e ela perdoá-lo, é capaz deles continuarem juntos. Mas se ele não contar o Adonnes conta, e se houver divórcio, ele e sua mãe voltam para a antiga casa. Espero que a mãe do Adonnes saiba tomar a escolha certa… Rezarei para que nada de ruim aconteça com eles.

O seu mais leve olhar

Vai me fazer, facilmente, desabrochar.

Apesar de eu ter me fechado

Como um punho cerrado,

Você me abre sempre pétala

Por pétala

Como a primavera abre

(tocando de leve, misteriosamente)

Sua primeira rosa.

E.e cummings

Mais uma carta do meu admirador secreto. Desde terça-feira as recebo.

Hoje, sexta-feira, um dia lindo como qualquer outro, um dia de aula como qualquer outro. Estamos terminando o ano letivo… É… Foi um ano difícil, com coisas demais para a minha cabecinha de dezessete anos. Os preparativos para o baile de formatura começaram. Eu estava ansiosa, seria um baile estilo americano, e eu não tinha o meu par ainda.

Samanta e eu, agora, andávamos juntas. Athena estava sempre me olhando com aquela cara de: “Preciso falar com ela, preciso me desculpar.” A meu ver era isso que ela queria dizer. Eu estava até que bem. O último e-mail do Adonnes dizia que o a mãe dele pediu divórcio. Sim, ela não aguentou a humilhação. Se o pai do Adonnes tivesse só uma amante, até que ia, mas não, ele possuía várias. Ele vai voltar para a cidade, junto com a mãe dele. Ela tinha um bom emprego, e vai reassumir a vaga que ela deixou em aberto aqui.

Mas sabe. O meu sentimento de amor pelo Adonnes se transformou em respeito e cuidado. Eu quero estar por perto para esta nova fase em sua vida, esta fase de mudanças. Eu quero voltar a ser amiga dele, para que possamos compartilhar a verdadeira amizade. No limite da amizade entre um homem e uma mulher.

Intervalo.

Vi Kátia próxima à cantina, num canto não muito aberto, aos amassos com Filipe. Fiquei de cara. Ela realmente conseguiu. Não podia deixar aquela passar e fui ao encontro deles. Parei, os encarei e cruzei os braços. Os dois pararam a pegação, me olharam com indiferença e Filipe começou.

- Com ciúmes, gata?

- Nem um pouco… Eu terminei com você, lembra?

- Isso não importa, encontrei quem verdadeiramente me quer.

- Claro… Uma garota safada e mundana como você, Filipe! Isso você encontra em qualquer esquina, rodando bolsinha!                       

- Veja lá como fala comigo, Andressa! Eu te ajudei com o Adonnes aquela vez!

- Minha filha, isso já faz uns seis meses! Você acha que eu ligo? Eu sei que ele te traçou, e muitas outras garotas por aí!- Joguei na cara! Perdão Senhor!

- É, mas não significou nada!

- Nunca significa querida! Mas você sabe o resultado… Ele levou a fama de garanhão, e você… De rodada!

Filipe entrou na discussão:

- Cala a boca! Você não tem o direito de falar isso com a MINHA NOVA NAMORADA! Ouviu, Andressa!?

- Pois a sua EX-NAMORADA aqui tem um recadinho para você, Filipe… Ela não é a sua “nova namorada”, ela é a sua PIRIGUETE!- Os olhei com satisfação e vontade de rir, e saí com classe de perto deles. Senti um puxão no meu cabelo e quando dei por mim, já estava presa numa chave de braço da Kátia.

- Piriguete aqui é você! Que passou pela mão do Adonnes! Duvido nada que não rolou nada entre vocês, vaca!

Livrei-me rapidamente do golpe e empurrei os seus ombros.

- E você que está com este tarado do Filipe, Kátia?! Que namoro é esse? Namoro de safadeza, isso sim!

Os alunos próximos ouviram a discussão e de repente já existia uma rodinha ao nosso redor gritando: “BRIGA, BRIGA, BRIGA!” Filipe, cagão do jeito que é se afastou e sumiu no meio da galera, é… Parece que ele odeia este tipo de confusão.

- Eu não quero brigar, Kátia! Já to te avisando, isso não vai levar a nada! Fica com o teu namorado, fica! E que sejam felizes!! – os alunos fizeram um “Uuuhhh…”

- E fico mesmo! E daí?! E posso te falar com todas as letras, sua idiota! O FILIPE É TUDO DE BOM!

- Que bom para vocês… Não vou dizer mais nada, porque pra mim, hoje, vocês não significam mais nada na minha vida!

Mais um “Uuuhhh…” dos alunos.

- Nunca precisou! Deixa eu te dizer uma coisa “Cinco meses de namoro com o meu ruivinho…” Você foi chifrada!! Hahahaha!! Antes de vocês romperem! Não… Desde que começaram a namorar, eu e Filipe já éramos amantes! Hahahaha!

Ela gargalhou e ajeitou os seus cabelos pretos cacheados e me olhou, rindo da minha cara.

Aí já era demais. Odeio traições! Filipe… Este duas caras. Eu não me contive… Depositei minha confiança nele, e ele me traiu durante o nosso relacionamento?! Arranquei Filipe da multidão e exigi uma explicação. Ele se calou. Como quem cala consente, acreditei. Todos os alunos me olharam com pena e começaram a comentar:

-Coitada, foi enganada.

-Traída, que malz.

- Tadinha da Andressa.

- Ela não merecia isso…

- Poxa… Que sacanagem desse Filipe, gente!

A Kátia sorriu com um sarcasmo tão grande que despertou a égua indomada dentro de mim. Num salto, pulei em cima dela, ela caiu no chão e comecei a estapear aquela “abençoada”, com todas as minhas forças. As lágrimas saltavam de meus olhos e minha respiração ficou ofegante, os meus urros eram de puro ódio! Kátia gritava por socorro.

Eu não estava nem aí. Precisava me vingar! Os meus golpes a faziam gritar de dor. Filipe me puxou com força pelo braço e me jogou pra longe dela. Cega de raiva avancei de novo, ele ficou na frente, impedindo minha passagem, e eu tentava driblá-lo para bater mais naquela criatura, que estava tentando se levantar do chão.

- ME DEIXA QUEBRAR A CARA DELA!!

-NÃO!

Filipe me deu um tapa tão grande na cara que eu rodopiei e caí no chão. Coloquei a mão no rosto, o olhei com espanto. O tapa doeu bastante, meu rosto queimava de dor. A expressão dele era impassível. Ele avançou, flexionou o joelho, curvou seu corpo e cara a cara comigo, disse: 

- Quer apanhar? Bem que você merece! Não pense que eu esqueci o que você fez comigo no sábado! Minhas costas e minha testa desejam que eu desconte.

Filipe me agarrou pelo pescoço e me ergueu. Ele estava me sufocando. Tentei me livrar. Os alunos ficaram chocados! “Que covarde!” Kátia o incentivava para que partisse minha cara ao meio. E ninguém surgia para me defender. Estou perdida…?

- LARGA A MINHA AMIGA, SEU OTÁRIO!

A voz de Athena chegou aos meus ouvidos e me deu forças para me livrar dele.

- Oi, Athena. Obrigada. – tossi.

- Não há de quê, Andressa. Não podemos jogar nossa amizade fora por qualquer besteira. Adonnes me contou tudo. Me perdoa?

- Sim, e você?

- Claro, fechou!

Samanta entrou no círculo e mandou Kátia parar de incentivar a briga. Kátia xingou Samanta sem nenhum pudor. Filipe a empurrou e ela caiu no chão. Kátia riu.

- Filipe! Pode parar! – Gritei.

- E quem vai me impedir?

- Espanca essas vadias, Filipe! Começando pela Andressa!

Filipe avançou como um touro furioso, seguindo ordens de sua mestra. Ele chutou Samanta, empurrou Athena e parou na minha frente. Preparou o punho para me socar. Fechei os olhos. Nenhum dos estudantes vai ajudar? Aquilo já tinha virado guerra! Até que ouvi uma voz gritando:

- SE AFASTE DA SENHORITA ANDRESSA! 

E depois disso ouvi o barulho de alguém caindo. Quando abri os olhos, vi Eros Arthur de pé na minha frente e Filipe caído no chão.

- Pode parar com isso! Virou bagunça agora é?-disse Eros.

- Bate nele, Filipe! – gritou Kátia.

- Quem é você? – perguntou Filipe.

- Sou o admirador secreto desta adorável dama, e você é o vilão desta história! Levante um dedo contra ela que você sentirá o poder de meus punhos!

Nossa! Ele era o meu admirador secreto? Eu me espantei. Eros falava de uma forma tão limpa e culta que dava vontade de rir. Athena, Samanta e eu nos entreolhamos surpresas. Afastamos-nos do meio da roda e ficamos assistindo. Kátia, do outro lado, mandava Filipe bater no Eros.

- Quer mesmo brigar, playboy?  

- Não. Mas se você quiser. Sem preconceito.

Eros Arthur… Não. Vou chamá-lo apenas de Arthur. Ele era bonito. Negro claro, alto, com cabelos ondulados e pretos. Seus olhos verdes esmeralda eram hipnotizantes. Todos gritaram briga. E eu também, hehehe!

Filipe avançou como um titã feroz pronto para a chacina, já Arthur, numa posição engraçada de luta, ficou parado esperando o avanço do inimigo. A rodinha para ver a briga cresceu. Os estudantes estavam eufóricos! Filipe tentou um soco de direita, mas Arthur bloqueou com seu antebraço esquerdo e, rapidamente, acertou de punho cerrado, o estômago de Filipe, que gemeu de dor. Consumido pela fúria, ele tentou de todas as formas dar um golpe de impacto em seu adversário. Não obteve sucesso.

Todos os seus golpes pareciam não causar dor em Arthur, que bloqueava, ou desviava ou deixava que acertasse. E a plateia foi à loucura quando, atleticamente, Arthur deu um chute nas costelas de Filipe, que voou para longe, quase caindo de joelhos. Ele colocou a destra nas costelas e tentou se recompor.

Arthur não esperou.Como um lutador treinado para brigar, avançou rapidamente e socou Filipe no rosto, depois o segurou pelos ombros e deu uma pesada bem na barriga. Filipe cambaleou, mas não caiu. Saía sangue de seu nariz e de sua boca. Ele estava ofegante. Arthur correu e tomou distância. Todos que estavam vendo prenderam a respiração. Kátia fechou os olhos. Arthur correu e deu uma voadora que acertou Filipe em cheio.

Filipe caiu por terra. Derrotado. Humilhado. Todos urraram e comemoraram. Eu e as meninas ficamos embasbacadas. Eros era o nosso herói!

Antes de o sinal tocar, o diretor da escola apareceu. Athena, Samanta, Arthur, Filipe, Kátia e eu recebemos uma suspensão de três dias e com ela, uma dose extra de aulas de “como se comportar civilizadamente dentro de uma instituição de ensino.” Nem liguei. Filipe mereceu.

Athena e eu já não estávamos mais brigadas, Samanta agora era a nossa amiguinha e Arthur… Decidi conversar com ele. Sobre o seu suposto amor por mim.

- Foi amor à primeira vista?

- Digamos que sim, Andressa.

Não dei chance pra ele na nossa primeira conversa, estávamos nos conhecendo. E se ele também fosse um pervertidão do armário? Mesmo tentando não dar trela pra ele, Arthur tentava me conquistar, das maneiras mais românticas possíveis. Mandando-me flores, cartões e chocolate, que eu adorei!

“Amo como ama o amor. Não conheço nenhuma outra razão para amar senão amar. Que queres que te diga, além de que te amo, se o que quero dizer-te é que te amo?”

<span >Fernando Pessoa.

Suas mensagens eram de deixar qualquer garota nas nuvens. Mas eu ainda estava muito ferida para começar um novo relacionamento.

“Importante não foi o dia que te conheci, mas o momento em que você passou a viver dentro de mim.

“Se a natureza me oferecesse duas coisas e me mandasse escolher, eu não me importaria com a segunda, desde que a primeira fosse você.”

“Se você pensa que não é ninguém para o mundo. Tenha certeza que será o mundo para alguém, se ficar comigo.”

Um super fofo! Mega fofo! Hiper fofo! Mas ainda não podia confiar nele.

Passou mais duas semanas, e era véspera do baile de formatura. Eu estava louca, tentando encontrar o vestido certo, o penteado certo e o cara certo! É eu ainda não tinha par! O Arthur nem me pediu isso, e eu não vou ser a cara de pau e convidá-lo, já que estou bancando a difícil.

Athena iria com um de nossos colegas de classe. Acho que é uma paquerinha dela. Samanta iria com um dos bonitões do time de futebol da escola. E eu… Gostaria de ir com o meu herói, o Arthur.

Quando eu estava saindo do salão de beleza, vi de longe um garoto que era a cara do Adonnes. Ele estava parado, olhando para os lados da rua. Ele me avistou e acenou. Era ele. Ele correu ao meu encontro. Nos olhamos. Olhares de saudade. Nos abraçamos. Ele ficou de joelhos e pediu mais uma vez:

-Perdão. Eu sou um idiota.

- Levanta Adonnes! Pagação de mico!

- Você está linda.

-Obrigada! Quando voltou?

- Hoje mesmo, soube do baile da escola, acho que vou aparecer por lá.

-Por que só chegou hoje?

- Terminei os meus estudos na outra cidade, mesmo. Já tive minha colação de grau e formatura.

- Hum. Que bom.

- E como anda as coisas, Andressa?

- Está tudo bem? E você?

- Vai ficar bem… Já tem par para a formatura?

- Ainda não. Mas não quero ir com você!

- Eu também não iria te levar!

Sorrimos. Conversamos muito durante nossa trajetória até nossas casas. Ele não mudou muita coisa. Ele está mais calmo e parecia mais feliz. Fiquei contente com isso. Fui a casa dele, falei com a mãe dele e desejei boa sorte nesta nova fase da vida, ela agradeceu. Fui pra casa.

Mesmo se o Arthur não me chamar para ir ao baile, eu iria mesmo assim, sozinha. É um evento único que eu não poderia perder. Quando estava me ajeitando no meu quarto, ouvi um violão tocando na rua e a voz de Arthur entrando pela janela. Uma serenata. Ai, minha Nossa Senhora. Que romântico!

Ele estava cantando a música “Save me” da banda Hanson. Eu adorava aquela música. Corri para a janela e o vi. Ele estava de smoking preto, com um violão dedilhando as notas e cantando pra mim. Sua voz era linda. Não que ele seja um ótimo cantor, mas naquele momento, ele era o meu ótimo cantor. Meu coração respondeu a uma pergunta que eu fazia a ele há alguns dias.

Eu estou apaixonada?

Sim, você está. E este, ao que tudo indica, é o homem da sua vida.

Desci às pressas as escadas. Saí pelo portão e joguei-me em seus braços. O olhei com carinho e segurei sua mão. Ele parou de cantar, me olhou com doçura. Aqueles olhos verdes adentraram na minha alma como um ladrão adentra sorrateiramente em uma casa. Aquele olhar me conquistou. Vizinhos curiosos a parte, Arthur me perguntou:

 - Quer ir ao baile comigo?

- Sim.

A maioria de nós sente que os outros não vão tolerar tamanha honestidade emocional na comunicação. Preferimos defender nossa desonestidade alegando que isso poderia ferir as pessoas, e, tendo racionalizado nossa falsidade através da nobreza, iniciamos relacionamentos superficiais. O Adonnes possuía tal atitude, mas ele já está mudando, graças a Deus.

Depois da colação de grau chegou o momento que todos esperavam. O baile! Estava lindo! Todos estavam felizes! Não sei se o Filipe e a Kátia estavam, pois estavam discutindo como crianças perto da mesa de frios. Que babacas. Nem olhavam mais na minha cara, to nem azul.

Adonnes apareceu no baile com sua prima. Olhou-me de longe e acenou. Ele estava bonito, claro! E estava feliz. Espero que ele continue assim. Esta fase de transformações na sua vida será muito difícil, ele irá cair muitas vezes, pensará em desistir, mas eu estarei ao seu lado, ajudando-o, e rezando para que Deus o guie nesta empreitada.

Athena sorria para as paredes. Samanta estava gargalhando com o seu esportista bonitão. As duas usavam vestidos de gala lindos! O de Athena era de um azul turquesa bem discreto, que combinava com seu cabelo de mechas azuladas e com a sua pele morena. O vestido de Samantha era de um rosa claro extravagante, rodado, parecia roupa de boneca. Ela parecia uma Barbie! Já o meu, era amarelado, com um belo laço no peito e nas costas, de caimento reto que ia até meu tornozelo.

A noite estava perfeita.

Antes da dança principal, fui tomar um licor de chocolate na mesa de bebidas, quando estava prestes a beber, Adonnes se aproximou, encheu sua taça e me ofereceu um brinde:

- À nossa Amizade.

- À nossa. –e continuei - À sua luta contra o pecado.

- Amém.

Brindamos.

Os seus olhos cor de mel brilhavam. Os meus também. Depois de tanta confusão e de escolhas erradas, estávamos nós dois, ali, vitoriosos. Conseguimos driblar nossos problemas, nossas diferenças, nossa imaturidade.

- Estamos amadurecendo, Andressa?

- Estamos sim. E continuaremos a amadurecer pelo resto de nossas vidas.

- E isso é bom?

- Claro que é, afinal, a vida é cheia de surpresas. E a cada batalha vencida nós ganharemos mais experiência nesta trajetória que é viver. Mais maturidade.

 Custa tanto ser uma pessoa plena, que muito poucos são aqueles que têm luz ou a coragem de pagar o preço… É preciso abandonar por completo a busca de segurança e correr o risco de viver com os dois braços. É preciso abraçar o mundo como um amante. É preciso aceitar a dor como condição da existência. É preciso cortejar a dúvida e a escuridão como preços do conhecimento. É preciso ter uma vontade obstinada no conflito, mas também uma capacidade de aceitação total de cada consequência do viver e do morrer.

Nós precisamos viver o cada dia. Nós precisamos aceitar as nossas dificuldades e lutar contra elas. Nós precisamos saber saborear a aurora como um milagre de Deus. Nós precisamos viver um dia de cada vez.

O salão foi invadido por uma música, meio melancólica, mas eu achava aquela música super linda. “Innocence” de Avril Lavigne. Eu sabia a tradução, e naquele instante eu estava me sentindo assim, pois:

Essa inocência é brilhante
Eu espero que isso permaneça
Esse momento é perfeito
Por favor, não vá embora
Eu preciso de você agora
E eu vou me prender a esse momento
Não o deixe passar. 

Quase comecei a chorar. Eu estava ali, me formando! Acabou a encheção de saco dos professores, a pressão para tirar notas boas, o acordar cedo… Ou talvez não.  Meu professor de português sempre falava que depois do ensino médio, enfrentaríamos a selva! E que diploma de segundo grau não serve mais pra nada, nem pra dependurar na parede da sala de estar. É… Ele falava desse jeito. Hahaha.

E é sério. A concorrência será grande. Faculdade, mercado de trabalho… Afs! Acho que eu vou tirar um ano de férias antes de começar a pensar nisso tudo, afinal, eu mereço!

Arthur se aproximou de mim. Pegou minha mão e a beijou. Então, finalmente ele fez a pergunta que eu esperava:

- A dama aceitaria namorar com este nobre cavalheiro?

- Não sei o que dizer…

- Diga sim.

- Tô brincando! Sim!

E finalmente nos beijamos. Um beijo doce. Um beijo de um príncipe.

Apresentei Arthur para Adonnes. Eu esperava ciúmes de ambos. Mas os dois deram um aperto de mão forte e se cumprimentaram como verdadeiros homens.

- Cuida bem dela Arthur. Estarei sempre por perto. - disse Adonnes.

- Pode deixar Adonnes. Cuidarei. Espero que sejamos bons amigos.

- Idem.

Foi anunciada a música principal. Dançaríamos estilo valsa. Era uma música linda, apenas no instrumental, com um belo arranjo, lento e apaixonante. Arthur me levou até o meio do salão, Athena correu para perto de nós com sua paquera, Samanta ficou um pouco distante e Adonnes com sua prima ficaram longe do centro, mas dançariam também.

A música começou a tocar.

Naquele instante, só existia aquele momento em minha vida, em minha juventude, em meu peito.

Arthur me cochichou no ouvido:

- Prometo que serei o melhor namorado da sua vida. Irei te respeitar, cuidar e amar você. Entenderei sua liberdade e espero que você entenda a minha.

Aprendi que não posso exigir o amor de ninguém… Posso apenas dar boas razões para que gostem de mim… E ter paciência para que a vida faça o resto…

- Eu prometo que tentarei ser a melhor namorada da sua vida. Irei te respeitar, ser protegida e amada por você. Entenderei sua liberdade e que entenda a minha também.

Sorrimos. Encostei minha cabeça em seu peito e continuamos nossa valsa romântica. Ele me conduzia tão bem que eu me sentia como se estivesse flutuando.

Em relação ao futuro? Prefiro não saber. Se nosso relacionamento dará certo? Não sei. Se Eros Arthur também for um taradão do armário? Espero que não! O que importa é que nós traçaremos nossos destinos, com cada escolha que iremos tomar.

E o futuro está nas mãos de Deus.

Na luz dos teus olhos eu me encontrei

Nos teus braços fortes posso descansar

Eu não acredito que o amor eu achei

Perdido no meio de um infinito lugar…

O meu coração.

FIM!

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