Contos Minilua: Let’s Play #56

E na medida do possível, prometo revisar todos os textos enviados. Sei que não será fácil, mas como eu sou brasileiro… (risos). Um bom halloween a todos!




Let’s Play

Por: Arwen Bathory 

Desde quando me entendia por gente, bonecas eram minha grande inspiração.

Adorava quando mamãe chegava do trabalho com um embrulho rosado e fitas coloridas, e que eu logo descobria que era uma linda boneca.

Atualmente, tenho 17 anos, e continuo ganhando bonecas e comprando também, já que possuo um trabalho razoável.

Meu quarto é repleto dessas adoráveis formas e a última que adquiri chegou hoje. Ela é um fascínio. Era uma Pullip, daquelas com olhos enormes e feições sérias. Sua pele, diferente das minhas outras bonecas, revelava ser muito mais macia e lisa, como se fosse mesmo pele, e não plástico. Seus olhos enormes e assustadoramente brancos brilhavam contra a luz e sua boquinha pequena e fechada fazia-me rir. Era muito linda.

Passei a mão delicadamente em seus cabelos negros extremamente longos e lisos e a coloquei em destaque numa nova prateleira em meu quarto. Eu estava feliz por tê-la sem nenhum defeito, pois, o preço estava bom demais para uma boneca daquela qualidade.

O dia correu normalmente monótono e, quase umas dez da noite resolvi desligar o computador.

Como eu sempre fazia toda vez que ganhava ou comprava bonecas novas, coloquei a pequena de olhos brancos deitada em minha cama, tomei um banho quente e relaxante, dei boa noite aos meus pais e fui dormir.

Fiquei admirando a boneca por um bom tempo, analisando suas unhas cuidadosamente pintadas de preto, seus cílios longos, seus olhos brancos que pareciam brilhar ainda mais no escuro, seus lábios sem sorriso, suas lindas roupinhas…

Adormeci tranquilamente e tive um sono sem sonhos.

Ao acordar, senti-me muito estranha.

Passei a mão nos meus louros cabelos involuntariamente e os descobri cacheados. Como, se eram lisos como os da boneca? Mas onde estava minha boneca? 

Desci da cama e coloquei uns chinelos felpudos que eu não tinha. 

Eu estava usando uma roupa de cetim perolado com babados no decote e na barra, a roupa com a qual eu também não dormira.

Estranhei meu quarto. Ao invés das prateleiras com milhares de bonecas de vários tipos, agora tinham puffs coloridos, bichos de pelúcia, tapetes e uma mesinha linda com bule de chá e umas xícaras.

O que estava acontecendo? 

Tentei chamar meus pais, mas eles não responderam.

Como se eu soubesse de tudo, entrei no banheiro. Um banheiro lindo, todo azul claro com poucos tons de “aqua” e branco. Tinha uma banheira toda desenhada, água morninha nela e um patinho de borracha bem engraçado.

Resolvi andar mais pela minha nova casa.

Descobri uma escada para o andar de baixo, então, a desci.

Eu me encontrava agora numa sala de fato muito bonita, toda rosa com móveis brancos, almofadas muito coloridas, bichos de pelúcia e aroma de biscoitos. Biscoitos? 

Havia uma cristaleira lindíssima no cantinho da sala. Abri-a, peguei uma bandeja prateada e dirigi-me ao que pensei ser a cozinha.

Era a casinha mais assustadoramente bela que eu já havia visto, e de fato se parecia muito com a minha enorme casa de bonecas que mantinha em meu quarto…

Tive um tipo de insight e me desesperei. 

Para ter certeza de que não era loucura, olhei para os lados da casa e percebi que não tinham paredes e que dava muito bem para ver meu quarto. Meu verdadeiro quarto.

De repente escuto passos e vejo uma menininha muito pálida com roupas um tanto medievais e cabelos negros extremamente longos e lisos passar na frente da casinha.

- Querida, venha pegar os biscoitos!

- Já vou, mamãe. - A garotinha sentou-se na posição de lótus e tombou a cabeça, me encarando com aqueles enormes olhos esbranquiçados de tão claros que eram. 

Ela enfiou sua mão dentro da casinha, pegou-me pela cintura e me levou mais perto de seu rosto. Ela agora fazia uma expressão muito brava.

- Quando eu lhe colocar no quarto… Apenas fique no quarto.

E então ela colocou-me de volta naquela cama fria cheia de bichinhos fofos, levantou-se e saiu do quarto.

Vi a hora de minha fuga, mas, sem rota.

Não me importei muito com aquilo e peguei uns livros de baixo da minha caminha, fiz um tipo de escada com eles e subi até chegar à chaminé. 

Quando consegui, saltei, mas caí e bati a cabeça, no que não me lembro mais de nada.

Quando acordei novamente, estava deitada na cama.

Como não ouvi nada e nem vi a menina, tentei me mover, mas não consegui. 

Movi os olhos lentamente, observando tudo e por fim descobri estar presa em fios quase invisíveis.

Então escuto a sua voz:

- Eu disse para ficar no quarto… - fui puxada brutalmente contra a parede por àqueles fios e novamente me deitei, e tudo sem nem mesmo eu querer.

Eu queria chorar, mas, não podia, pois em minha face estampava-se o sorriso mais belo do mundo.

A menina pegou-me e novamente levou-me mais perto de seu rosto.

- Agora você vai sentir tudo o que eu senti durante anos! Brinque comigo…

Depois desse dia, passei anos brincando com a garotinha, que foi crescendo, me deixando de lado, até que me botou a venda na Internet.

Agora estou numa caixa, indo para uma nova casa, onde espero fazer minha dona muito, muito feliz.

Receba mais em seu e-mail
Topo