Contos Minilua: Inefável #203

E sim, lembrando mais uma vez, que todos podem participar. Sabe como é: enviando contos, matérias, desenhos, enfim! Sinta-se à vontade ok? O e-mail de contato: equipe@minilua.com! A todos, uma excelente leitura!




Inefável

Por: Waldenis Lopes

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E mais uma vez entreguei aquele pedaço de papel surrado para estranhos dentro de um ônibus. Nele eu pedia ajuda para mim e para a minha família. Qualquer quantia era bem vinda; moedas é o que mais recebo, quando recebo. Ao contrário de outras crianças, eu não vendo balas ou amendoins, eu apenas peço e conto com a caridade de estranhos.

Seria muito mais fácil se eu tivesse uma cesta cheia de guloseimas para vender; as pessoas dentro dos coletivos estão sempre em busca disso, mas infelizmente não tenho. O pouco que consigo é para comprar algo para que eu e meus irmãos pudéssemos comer durante o dia, enquanto nossos pais catam papelão e latinhas na rua.

Hoje eu até que dei sorte. Talvez por eu estar sujo, com um pé descalço - o outro com um tênis esculachado - e por estar cheirando mal, as pessoas acabam me dando moedas para que eu saia logo de perto delas. Eu sinto muito, não queria estar imundo desse jeito… Mas eu não tenho onde me lavar.

Da última vez que fui de encontro à um pouco d’água, fui expulso quase aos chutes por um policial que passava perto de onde eu estava - uma fonte perto de um shopping na grande cidade onde “moro” - ele me lançava palavras ofensivas e me chamava de “trombadinha” e “drogado”. Não moço, eu não sou nada disso.

Eu nunca roubei e nunca usei drogas. Já me ofereceram, mas nunca aceitei. Imagina só, eu, que já mal tenho o que comer, me viciar em entorpecentes e acabar tentando sustentar o vício. Como sustentá-lo? Roubando. Não, não quero isso pra minha vida. Ou pro meu ensaio de vida.
Recolhi os papéis sujos que normalmente entrego para as pessoas.

Acho melhor assim, pois falar em um ônibus em movimento não é nada legal, ainda mais quando ele está lotado e quando você sabe que ninguém ali vai prestar atenção em você, ainda mais se você é uma criança mendiga. Alguns dos passageiros devolveram o papel, tenho certeza que muitos nem leram.

“Oi, me chamo Matias Duarte e estou passando necessidades com a minha família. Portanto, se você pudesse me ajudar com qualquer quantia, seja ela R$ 0,50 R$1,00 ou R$2,00 eu ficaria imensamente grato. Que Deus te abençoe.”

Recebi muitas moedas de uma moça loira séria, que sequer olhou para mim. Continuei recolhendo os papéis e recolhendo também as poucas moedas que me davam. Espero que ninguém vire para mim e diga ‘vá estudar, menino! Pare de pedir’ Como eu queria estudar. Se eu pudesse escolher, não estaria aqui não. Nem lembro porque os meus pais decidiram sair da nossa cidade natal pra tentar a sorte aqui, nessa imensa selva de pedra.

A gente já tinha pouco, as economias que eles tinham para a viagem já estavam acabando e meu pai não conseguia emprego aqui. Eles então disseram que a gente voltaria. Seria ótimo. Meus pais pegariam o restinho do que sobrou daquelas economias que usaram para nos trazer para cá, para a “cidade grande cheia de oportunidades”. Eu não via a hora de voltar pra minha terra. Porém, fomos assaltados. No fim, ficamos sem dinheiro para aluguel, para comida, para nada. E então, acabamos aqui, na rua.

Acho que já faz uns dois anos…
Se eu fico triste com isso? Sim, é claro! Ainda mais com dois irmãos mais novos esperando eu voltar com pelo menos um pão para aquela rodoviária que virou o nosso lar temporário. Nós nos alojamos bem nos fundos dela, perto do lixo, da sujeira… Do que nos tornamos.

Antes de eu descer do ônibus ouvi uma voz me chamando. Era uma mulher velha, que me chamava com a mão, me mostrando o meu papel. Aproximei-me dela cabisbaixo, mas uma pessoa que não iria ajudar. Peguei-o e me virei, ela cutucou as minhas costas.

- Não use de forma errada este dinheiro, criança - disse, dando-me uma nota de cinquenta reais.
Me belisquei rapidamente para saber se aquilo não era um sonho. Agradeci animado àquela doce senhora (não era mais velha, não) e saí do ônibus aos pulos. As moedas sacudiam nos bolsos da minha bermuda surrada enquanto meus pés procuravam locais sem pedras para poderem se apoiar e me levar de volta à minha casa. A rodoviária. Mas como eu sou burro, acabei me maravilhando e me perdendo por completo naquele momento; eu segurava a nota acima da minha cabeça, com as duas mãos, olhando-a contra o sol para ver se era de fato verdadeira.

Sim, era. E como eu havia dito, minha burrice e falta de atenção me fizeram perder a nota. O dinheiro que garantiria quase uma semana de alimentação, o orgulho dos meus pais catadores e estômagos cheios com refeições de bolachas, pães, leites e quem sabe até algum sanduíche vindo de alguma padaria, quem sabe até o churrasquinho do seu Omar! Porém, tudo foi por água abaixo quando eu fui assaltado.

Foi muito rápido, quando vi, o cara já tinha tomado a cédula de minha mão e corrido em disparada pelo caminho oposto ao meu. Quando dei por mim já estava correndo atrás dele, usando toda a minha força e vigor - os quais eu já possuía pouco - mas acabei pisando com o meu pé descalço em alguma pedra pontuda que me fez dar um salto de dor e cair no chão. Sangue. E ao longe, o sujeito - provavelmente algum dos garotos que ficavam na cracolândia - fugia com a minha sonhada e futura refeição.

Sentia meus olhos queimarem e as lágrimas escorrerem. Rolei para o gramado e continuei deitado, caído, desolado. Sentia a ferida na sola do meu pé e a esperança me abandonar lentamente. Os pensamentos que tive em relação àquele dinheiro foram desaparecendo aos poucos, não adiantava mais pensar nele, não tenho mais aquela grana. Tudo o que me restava eram as moedinhas; moedas essas que se espalharam pelo caminho enquanto eu tentava alcançar o ladrão do meu sonho momentâneo. Que bosta. Levantei e, mancando, fui em busca das moedas que caíram de meus bolsos.

Nove reais e uns quebrados… É o que tem pra hoje.

Isso é apenas a maneira que é
Algumas coisas nunca vão mudar
Isso é apenas a maneira que é

Comprei alguns pães, uma caixinha de leite e a manteiga mais barata. Pensei que o dinheiro não iria dar, mas deu. Pedi para a moça da padaria me dar uma faca de plástico descartável, pensei que ela iria recusar, mas me entregou sem protestos. O balconista colocou o que comprei numa sacola plástica e me entregou, desejando uma boa tarde. Que estranho, as pessoas não costumam me dar uma boa tarde, nem um bom dia.

No caminho, pensei na senhora que me dera os cinquenta reais. Pensei no moleque que me roubou e no balconista que me desejou uma boa tarde. Na minha cabeça, o placar estava: bondade: dois; maldade: um. Desde que comecei a viver nas ruas tenho recebido apenas maldades, e às vezes pior do que ela… O desprezo. É a pior sensação do mundo. As pessoas sempre pensam o pior de gente como eu, de quem mendiga, de quem está sempre sujo, de quem sempre carrega um olhar tristonho exigindo compaixão. Por isso, hoje estou espantado com as atitudes que me deparei.

Continua…

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