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Contos Minilua: O Homem do Olho Arregalado #239

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O Homem do Olho Arregalado

Por: Alessandro Souza

Era uma linda tarde de fevereiro na cidade de Lambari, RS. Todas as crianças foram pra pracinha brincar, aproveitando o clima mais agradável de 22ºC, quando o calor do verão tirou uma folga. Lá estavam os quatro amiguinhos inseparáveis brincando de pega-pega, correndo e gritando de um lado pro outro até não aguentarem mais. Lá estavam eles, Laurinho, Cecília, Otavinho e a pequena Gabi que era um verdadeiro ímã de sorrisos de pessoas adultas, tamanha sua fofura e esperteza.

Os quatro já estavam cansados de tanto correr, se é que isso era possível, eles eram quase incansáveis com toda aquela energia de criança, então foram para os balanços e brinquedos de se pendurar.

Laurinho e Cecília foram pros balanços, enquanto Otavinho se divertia desafiando a pequena Gabi que já foi direto fazer macaquices se pendurando de cabeça pra baixo, enquanto alguns adultos que passavam ali lhe lançavam olhares de preocupação.

– Desce daí menininha! Vai se machucar! Disse uma velhinha de mãos dadas com um garotinho que devia ter uns 5 anos.

De forma ágil, Gabi pôs suas mãos na estrutura onde suas pernas estão apoiadas e lança seus pés para o chão sem perder o equilíbrio. Ao ver a admiração da velhinha ela dá um sorriso, que é retribuído imediatamente.

Ela já estava acostumada com esse tipo de coisa, era melhor não contrariar porque assim a senhora ficaria satisfeita e iria embora, e ela poderia voltar às suas travessuras novamente. Mas antes que ela pudesse recomeçar, Otavinho chama a atenção deles.

– Ei, deixa eu contar uma coisa que ouvi esses dias! Disse ele com um sorriso esperto e todos ficaram curiosos. Provavelmente alguma coisa nova pra eles aprontarem.

– Vocês já ouviram falar do Homem do Olho arregalado?

Todos caíram na risada, menos Cecília, ela não gostava de histórias de terror. Ela teve pesadelos por dias seguidos depois que viu “O Exorcista” de madrugada escondida de seus pais em uma maratona de terror na TV. Não queria mais saber desse tipo de coisa.

– Homem do olho arregalado? Só se for o olho do cu. – Disse Gabi de uma maneira grotescamente fofa e todos riram inclusive Cecília. Aquilo foi um alívio cômico pra ela.

– Vocês podem rir agora, mas não ririam se o vissem. Ele é horroroso, tem a pele toda cinza como se estivesse apodrecendo, menos em volta dos olhos. Lá é vermelho sangue, porque ele não tem pálpebras.

Seus olhos ficam expostos todo tempo, e ele aparece te encarando em algum canto parado. Ele sempre fica te encarando até você perceber a presença dele e só aí ele vai começar a rastejar em tua direção e…

– Para com isso, Otávio! Já chega! Ninguém quer ouvir essas tuas bobagens! Diz Cecília olhando pra baixo completamente horrorizada! Os outros não deram atenção e queriam ouvir mais, Laurinho já ia chamar a atenção pra que Otávio continuasse falando, mas o próprio continuou.

– Não tem com que se preocupar Ceci, ele só aparece pra quem faz o ritual!

– Que ritual? -Pergunta Gabi curiosa.

– Um ritual satânico de invocação.

– Ai, credo, Otávio! Pra que ficar mexendo com essas coisas?_ Exclama Cecília, já lembrando do rosto terrível da garotinha possuída do filme que a aterrorizou.

– E como é esse ritual? – Pergunta Gabi ignorando completamente sua amiga medrosa e mostrando uma curiosidade fora do comum pelo assunto.

– Eu conto se todos prometerem fazer isso hoje à noite em suas casas. -Diz Otavinho com voz de desafio.

Cecília fica muda, Laurinho e Gabi sorriem um para o outro achando tudo aquilo divertido.

– Eu topo! – Diz Laurinho

– Vamos lá, diz logo! Fala Gabi impaciente.

– Pessoal, eu não quero saber. Não quero brincar disso, acho que vou embora. – Diz Cecília com voz tristonha.

– Nada disso, ou todos brincam ou eu não vou contar nada! Diz Otavinho.

– Isso aí não vale Otávio! Olha como tá a guria! Diz Laurinho preocupado com a amiga.

– Nem vem! Só tem graça se todos brincarmos, não vou excluir ninguém!

Antes de Cecília poder falar qualquer coisa para se defender, Gabi vira pra ela e fala:

– Cecília, se tu não brincar disso com a gente eu não ando mais contigo!

Todos olharam abismados pra Gabi, aquela era uma chantagem muito cruel, ainda mais visto que a Cecília era uma criança tímida e bastante carente de afeto. De qualquer forma, aquela medida desesperadora funcionou e Cecília aceitou com um simples tá, dito com o rosto abaixado tentando conter as lágrimas.

– Seguinte então! Vocês têm que ficar sozinhos no quarto de vocês e falarem isso. Otavinho tira um papel amassado do bolso e lê em voz alta.

”E do canto escuro do quarto ele não para de te encarar, pois através de seus olhos arregalados sua alma ele vai roubar.” Vocês devem repetir isso três vezes e olhar pra trás. Ele vai estar parado, no escuro olhando pra vocês. Dependendo de como for a iluminação vocês vão ver só um par de olhos enormes, encara…

Cecília começa a soluçar. Estava chorando de medo. Aquelas crianças não tinham ideia do trauma que poderiam causar com aquilo.

– E o que ele faz? Ele machuca a gente? – Pergunta Laurinho:

– Isso vocês vão contar amanhã! A brincadeira é todos contarmos nossas experiências amanhã aqui!

– Feito! – Gabi responde e todos voltam a brincar de novo. Mais tarde eles vão embora, garantindo que todos haviam decorado a frase no caminho, eles foram se separando em direção as suas casas. A noite chega.

Cada um deles fez o ritual em um horário diferente. Gabi era a mais afobada sobre o assunto e assim que seus pais foram dormir ela já estava sentada na cama com toda a coragem proferindo três vezes “e do canto escuro do quarto ele não para de te encarar, pois através de seus olhos arregalados sua alma ele vai roubar”.

A mesma coisa fez Laurinho e Otávio. Otávio teve certo receio, apesar de a ideia ter sido dele. Tinha ouvido essa história de um primo dele que vivia em outra cidade, quando foi visita-lo na casa dos seus tios com seus pais. Ele disse que uma menina da cidade fez o ritual e o Homem do Olho arregalado apareceu pra ela com olhos enormes com a boca aberta sem emitir um som sequer. Dizem que antes de morrer ela teve seus pés mastigados.

– E do canto escuro do quarto ele não para de te encarar, pois através de seus olhos arregalados sua alma ele vai roubar. Disse Otavinho três vezes após criar coragem, eram 02h30 da manhã.

Foi um momento tenso para Cecília, ela queria mentir para os amigos que tinha feito e matar esse assunto de uma vez. Mas eles saberiam que ela teria mentido, e Gabi ficaria furiosa com ela, a chamaria de covarde e não iria querer mais andar com ela.

Mas não era só isso, no fundo ela estava com a sensação de que aquele monstro iria aparecer e matar ela pelo simples fato de ter mentido, como um castigo. Talvez ele viesse na forma da garota de “O Exorcista”, só que com olhos enormes saltando das órbitas.

– E do canto escuro do quarto ele não para de te encarar, pois através de seus olhos arregalados sua alma ele vai roubar. – Disse ela pela primeira vez, eram 04h30 da manhã. Ela só conseguiu dizer a terceira vez às 05h37. Depois disso ela se cobriu até a cabeça, apesar de ser uma noite quente de fevereiro.

No outro dia todos se reuniram na pracinha e sem perder tempo já sentaram em círculo para comentar o que houve na noite passada.

– Eu não vi nada, Otávio! Tu é um mentiroso mesmo! Disse Gabi, que no fundo estava aliviada mesmo por não ter visto a terrível figura apodrecida a encarando com olhos horrendos.

– Eu não vi nada também! Acho que não é pra todos que funciona. E tu, Laurinho? Viu algo? Pergunta Otavinho.

– Nada! Mas teve uma hora que a porta do meu quarto se abriu e eu tomei um baita susto! Mas era a minha mãe me xingando por estar acordado.

Cecília estava quieta. Foi Gabi quem mais uma vez assume a situação e quebra o gelo perguntando pra amiga:

– E tu Cecília, viu alguma coisa? Ele apareceu pra ti?

– Claro que não! Percebi que nunca foi a gente que ele queria ficar encarando esse tempo todo.

– Então quem? – Perguntou Laurinho se adiantando.

– Quem está lendo esse texto, responde Cecília sorrindo.