Contos Minilua: Gravatas #198

E sim, lembramos que todos os temas são aceitos: suspense, mistério, terror, enfim! Sinta-se à vontade a participar! O e-mail de contato: equipe@minilua.com! A todos, uma excelente semana.




Gravatas

Por: Forasteira

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Desapareci, mas não como as pessoas costumam desaparecer. Meu corpo continua lá, estirado na cama dos mortos, mas minha alma e minhas faculdades mentais não permanecem em algo sólido, feito de carne, ossos e cartilagem, há um bom tempo. Sei que meu corpo ainda não foi consumido pelas larvas (larvas filhas da puta), estamos conectados de alguma forma. Isso é irônico, pois estou ofegando mesmo sem respirar, cansando sem andar e pagando contas sem nada utilizar.

Almas peregrinas me rodeiam. Sempre me esqueço de um detalhe: sou uma das almas peregrinas, e as que me rodeiam pensam de mim o mesmo que penso delas. Eu era apenas mais um blazer, mais uma gravata, mais uma pasta de couro na multidão. Trens e metrôs lotados de gravatas. O nó que aperta o pescoço e as cordas vocais, pois os engravatados não tem voz, é como uma corda pronta para te enforcar.

Um mar de gente, mas nenhuma delas é pensante ou protestante. Abaixe a cabeça, assinta, engula a seco, releve, é assim que funciona o dia-a-dia bucólico de nós engravatados. O mesmo despertador irritante, o mesmo levantar preguiçoso, a mesma água que lava a cabeça e por aí vai. Você bate a canela na quina da cama e grita “Puta que pariu!”, mas quem o ouviu além de seu vizinho idiota? Ninguém. E é assim que funciona o ecoar de sua voz, é inútil.

Como ouvi uma vez em uma canção: “Coração bate, o cérebro lateja, a alma flutua, o corpo rasteja”. Pois as palavras podem ser mais verdadeiras que as expressões faciais, principalmente quando não são permitidas serem ditas.

Mas quem liga, afinal, somos apenas gravatas. Listradas, de bolinhas, com um personagem de seu desenho favorito ou repleta de formas abstratas, apenas gravatas. Gravatas e nós, nós bem apertados.Não importa se você chegou um minuto antes, ou dez minutos depois do horário do expediente, sempre terá de ouvir merdas de seu chefe, pois “Os resultados não são suficientes,” e “você precisa se esforçar mais se quiser continuar nessa empresa.”, afinal “Nós somos um escritório renomado e qualquer erro, principalmente de sua parte, pode destruir todo um império.”.

O melhor momento do dia é quando seu horário de almoço chega, e então você pode comprar seu café usual, subir até o terraço e admirar a cidade que, mesmo repleta de concreto e, pior, de engravatados, ainda tem sua beleza, beleza essa que você não pode aproveitar, pois está se matando (literalmente) para cumprir seu trabalho, ou ao menos tentar. O ar parece mais puro e leve, comparado ao do escritório, lotado de engravatados e mentes pequenas, rarefeito e denso.

Por algumas vezes, você já chegou a ir até a mureta do prédio que o divide entre a terra firme e uma queda livre de trinta andares, mas respirou fundo e escorou-se novamente à parede que, de tão acostumada às suas visitas, já possui uma marca de seu terno nela, como a assinatura de um grafiteiro.

Já repetiu isso inúmeras semanas, mas, um dia, resolveu tomar coragem e… pular. Sim, pular. Ou, como você e todos nós, engravatados suicidas, gostamos de classificar: voar. O ato de desatar o nó da corda que está em seu pescoço, o ato de tirar os sapatos e o terno e deixar o café apoiado à sua esquerda no beiral que te separa da eternidade, esses são só demonstrações do que vêm pela frente.

Mas o verdadeiro ato, aquele de uma peça de teatro, foi quando você jogou sua gravata pelos ares. Ah, digno de palmas e de um Oscar de melhor atuação. Nem Leonardo DiCaprio poderia te ultrapassar, e olha que ele tem um número considerável de prêmios da Academia…

Finalmente você pula, olhando para o céu. As nuvens estão bonitas hoje, não estão? Olha! Aquilo não é um coelho no felpudo? Ah, deixa pra lá. Voltemos ao que interessa: seu “voo”. O tempo psicológico sempre funcionou de forma irritante e incompreensível, e sua queda de segundos durou minutos para você. Não, não foi igual aqueles clichês em que sua vida passa diante de seus olhos como um filme dirigido por Steven Spielberg ou coisa do gênero. Foi como se você tivesse entrado num vão no espaço/tempo e criado seu próprio espaço/tempo! Incrível!

O baque do seu corpo contra o chão não foi ouvido, pois o murmurinho que circulava a sua volta (ou pelo menos em volta daquela Amoeba de carne moída) dominava o ambiente. Gritos, conversas, pessoas dizendo “Esse não é aquele cara do 15º? Eu sempre soube que ele tinha problema.” Mas ninguém, de fato, se importava, pois você era só mais um engravatado, só mais um engravatado suicida, e logo todos se esquecerão de você, o cara do 15º, e voltarão as suas vidas bucólicas e entediantes, sem ao menos perceber que eles têm um nó amarrado em volta do pescoço, pronto para ser desatado ou apertado.

Porque a alma flutua, mas o corpo rasteja.

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