Contos Minilua: A Garagem #122

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A Garagem

Por: Vitor Basílio

Sim, uma garagem me chamou a atenção. Duas coisas haviam contribuído para isso: admiração e coincidência. A primeira veio da minha fascinação por seu projeto, algo que eu, então um menino de 14 anos, não tinha visto em outras casas que conhecia. A garagem não era anexa a casa, mas sim independente, como se fosse um barracão qualquer que o dono, por uma simples questão de não saber em que transformá-lo, decidiu-se por estacionar lá seu carro, e assim continuou fazendo até sua função ficar estabelecida tacitamente.

A segunda consistiu no fato de ela ficar no meio do meu trajeto de volta da escola. Eu estava na oitava série, e costumava voltar para casa a pé, já que o colégio era próximo e a cidade tranquila, como eram antigamente as do interior. Foram essas duas circunstâncias que me aproximaram daquela garagem. Visto isso, vamos ao que aconteceu entre nós.

A primeira vez em que reparei nela de verdade foi num dia de Agosto. Fazia frio, apesar de estar próximo da hora do almoço. Eu consultei meu relógio de pulso, baixando os olhos por centésimos de segundo, e isso foi o suficiente para meu pé perder o ritmo e deslizar num montinho de terra e pedregulhos. Consegui me equilibrar e evitar uma queda, mas não que um pedregulho, impulsionado pelo movimento violento do meu pé direito, voasse e atingisse certeiro o pequeno portão cinza que separava a garagem da rua.

Virei a cabeça instantaneamente na direção do som e me deparei com ela. Fora toda pintada de amarelo claro, quase branco, com exceção do portão, também cinza como o outro. No mais, uma pequena lâmpada, encaixada num suporte de ferro enferrujado, pendia do teto.

Com medo de que os donos pudessem aparecer para verificar o que ou quem ocasionara aquele barulho, me aproximei devagar. Pousei as mãos no portão que atingira há pouco e um pensamento cruzou minha mente: pulá-lo.

Não seria nenhum problema, visto que ele era baixo, assim como o restante do muro. Olhei ao redor, sem avistar ninguém. Depois espiei a casa a qual a garagem pertencia e tampouco parecia haver alguém lá dentro. Sem pensar duas vezes, pulei pra dentro.
Aterrissei com um baque seco.

Cheguei perto da porta da garagem e tentei abri-la, em vão, pois estava trancada. Por que será que fui imaginar que ela estaria aberta? Talvez por já haver outro portão? Caminhei cauteloso até a parte de trás da garagem, a fim de dar uma olhada na casa e me certificar de que realmente não havia ninguém lá.

garagem 1

Uma distância de pouco mais de 3 metros separava uma construção da outra. Ambas eram pintadas com o mesmo tom de amarelo, mas as janelas, estilo basculante, tinham os detalhes em branco. A essa altura eu estava agachado, por estar próximo a uma janela grande e sem cortinas, por isso andei com dificuldade até me escorar na parede. Não ouvi o menor ruído vindo de lá de dentro, o que me deu mais coragem para espiar.

Ergui a cabeça devagar e olhei. Parecia ser a sala de jantar, a julgar pela mesa comprida de madeira, as cadeiras e um guarda-louça antigo, semelhante ao que a minha avó tinha. O que me deixou intrigado foi haver um prato azul colocado na ponta esquerda da mesa, acompanhado de um garfo, uma faca e uma taça. Todos levemente empoeirados, diga-se de passagem. Era essa a decoração daquele cômodo.

No centro havia uma passagem levando a um corredor, com um piso de madeira envelhecido, contíguo ao da sala de jantar, que muito provavelmente levava aos outros ambientes. As paredes eram brancas, e estavam descascadas em alguns pontos. Para mim, naquele momento, ela parecia mais uma casa velha e malcuidada do que assustadora. Quem seriam os moradores, um típico casal de velhos? E por que não estavam em casa justamente na hora do almoço? Ao pensar isso, olhei automaticamente para o relógio.

Vinte para uma da tarde. Minha mãe já devia estar preocupada por eu ainda não ter chegado. Melhor deixar a investigação para depois. Dei meia-volta e corri de volta pra casa.
Ao chegar, e depois de ouvir um pequeno sermão da minha mãe, meus pensamentos voltaram àquela casa e a garagem. Será que eu deveria ir lá mais uma vez? E se os donos aparecerem e me pegarem espiando? Algo me dizia que a desculpa da curiosidade não iria colar, a menos que fosse mesmo um casal de velhos morando naquela casa.

Eu já conhecia e me aproveitava da bondade inerente de pessoas de idade, era assim que eu conseguia com que minha avó fizesse os doces que eu tanto gostava ou comprasse brinquedos que meus pais proibiam. Mas seria a mesma coisa com velhos desconhecidos? Bom, era uma aventura nova para um menino de 14 anos, e eu não podia desperdiçá-la assim tão facilmente. Decidi voltar lá à tarde, pois teria mais tempo para explorar a casa.

Fiz o meu caminho tomado de ansiedade, por isso cada passo parecia mais curto que o outro. Quando cheguei à última esquina, a primeira surpresa: a porta da garagem estava aberta. Estaquei onde estava e olhei para todos os lados à procura de alguém, em vão. Andei mais um pouco e notei algo que me escapara, o portão da rua estava fechado. Talvez tenham deixado aberto por uma questão prática, se já há um, por que fechar o outro?

E mais, supostamente alguém saiu com o carro, logo não havia nada de valor lá dentro. Enquanto eu fazia essas conjecturas, minhas pernas me levaram até a garagem. Parado ali comprovei que seu interior estava de fato vazio. E mesmo a porta estando aberta e sendo dia, dentro da garagem era escuro. Curiosamente, a lâmpada que pendia do teto estava acesa. Um ímpeto de entrar nela desceu sobre mim. Mas e se os donos me pegassem lá dentro quando voltassem? Não tem problema, vai ser uma coisa rápida, só olhar e pronto.

Sem pensar mais, pulei. Dessa vez, o portão chacoalhou de leve e percebi que uma grossa corrente fechada por um cadeado enorme de prata o mantinham trancado. Entrei na garagem com cuidado, com um temor de que a porta, que era de enrolar, como as das lojas, pudesse cair, me deixando preso e forçado a dar explicações aos proprietários e a meus pais. Além de escuro, dentro da garagem era abafado, até parecia uma estufa.

Tateei pelas paredes e não havia nada, prateleiras ou ferramentas penduradas, tampouco no chão se encontravam latas de tinta ou pneus velhos. Uma réstia de luz conseguiu vencer o breu e vi que não havia forro, só a armação de madeira sustentando o telhado. Que choque ao voltar para fora e reencontrar o ar fresco e a luz do dia. Resolvi dar mais uma olhada na casa, agora que sabia que não havia ninguém lá dentro.

Fui até a mesma janela da manhã e olhei. Tudo continuava igual, menos a mesa, agora posta com uma toalha branca de bordados verdes e com um prato azul na ponta direita, também acompanhado de garfo, faca e uma taça. Parecia uma mesa de almoço, mas por que os donos a puseram e depois saíram? Teriam ido comprar comida?

Aquilo me deixou intrigado e um pensamento passou pela minha cabeça: será que eles haviam deixado alguma porta aberta? Se eles “esqueceram” a porta da garagem aberta, talvez tivessem “esquecido” uma da casa também. Será que eu não estava sendo otimista demais? E isso já era passar dos limites, entrar na casa alheia.

Pular o muro é inofensivo, qualquer menino faz isso para buscar uma bola que caiu no quintal ou apanhar frutas da árvore do vizinho. Agora entrar na casa é uma quebra do contrato social, ainda mais sem ninguém lá dentro. Quando dei por mim, estava parado em frente à porta da cozinha. Uma sensação ruim percorreu minha espinha, me fazendo tremer. Como cheguei lá? Não quis saber, tinha medo da resposta.

Encarei a porta. Era branca e lisa, levemente manchada pela ação do tempo. Levei a mão direita até a maçaneta e a porta se abriu levemente, sem ruído. Entrei com cuidado. A cozinha era simples. Uma geladeira amarela, um fogão azul e armários de madeira. Na pia, copos e louças recém-lavados. Continuei andando devagar e entrei no corredor que tinha visto pela janela. Ali dentro era tão quente como a garagem.

Quando estava na metade do caminho, notei que a luz de um cômodo no final do corredor estava acesa. Apurei os ouvidos, mas não escutei vozes ou qualquer outro barulho. A sensação ruim voltou a descer pela minha espinha, era hora de ir embora. Dei meia volta e saí com a maior calma que consegui reunir, para evitar que quem quer que estivesse lá dentro notasse alguma coisa.

Enquanto voltava pra casa, eu tentava me convencer a não voltar mais lá. Minha curiosidade já estava mais que satisfeita, não havia sentido em retornar. Eu entrei na garagem, quase fui pego, o que mais eu poderia querer? Infelizmente, uma espécie de obsessão em saber algo a respeito daquela casa, de conhecer seus moradores, latejava dentro de mim. E se eu perguntasse pra minha mãe se ela sabia quem mora lá? Era a maneira mais simples e prática de descobrir alguma coisa.

Quando cheguei em casa, minha mãe estava lendo na sala. Quando me viu, perguntou aonde eu tinha ido. Disse que na casa de um amigo. Ela sorriu e voltou a ler seu livro. Fiquei ali parado, hesitante em perguntar ou não a respeito da casa.

- O que foi, filho? – disse ela sem tirar os olhos de sua leitura.

Pensei mais um pouco e resolvi falar, afinal. Pior seria ficar na dúvida.

- Mãe, eu queria perguntar uma coisa – eu comecei, olhando para o chão.

- O quê? – respondeu ela, baixando o livro e se acomodando melhor na poltrona.

Falei tudo, ou melhor, quase tudo. Disse sobre a casa ficar no meu caminho de volta da escola e de como a garagem me chamou a atenção. Obviamente omiti minhas incursões secretas. Minha mãe fechou o livro e o colocou no braço da poltrona. Tirou os óculos e se endireitou no assento.

- Olha filho – começou ela – eu conheço essa casa. Até onde eu sei, ela pertenceu a um casal de idosos. Eles faziam parte de uma família tradicional aqui da nossa cidade, os Alcântara. A senhora morreu há uns cinco anos, devido a uma pneumonia. E o senhor cometeu suicídio, por conta de ter entrado em depressão depois da morte dela. Ele se matou naquela garagem, com um tiro na cabeça. Isso aconteceu há dois anos, se não estou enganada.

Um arrepio tomou conta de mim. Senti como se todo o meu corpo tivesse se transformado em gelo. Olhei fixamente para a minha mãe.

- Então a casa está abandonada? – curiosamente minha voz saiu normalmente, sem vacilar.

- Mais ou menos – respondeu a minha mãe – parece que o único filho deles ainda vai lá de vez em quando para manter a casa em ordem, mas na maior parte do tempo ela fica vazia.

- Entendi. Obrigado, mãe!

Ela sorriu e voltou a sua leitura. Subi para o meu quarto, tentando digerir o que eu havia acabado de escutar. Casal de idosos, senhora morta, pneumonia, cinco anos; senhor morto, suicídio, na garagem, dois anos; único filho, de vez em quando, vazia a maior parte do tempo. Eu tentava confrontar isso com as minhas experiências recentes naquele lugar.

Entrei no meu quarto e deitei na cama, encarando o teto. Algo não batia nessa conta. Por que a mesa arrumada, primeiro para um e depois para dois? E a porta da garagem aberta? A louça recém-lavada, a luz do quarto acesa? Será que eu e o único filho do casal apenas coincidimos de aparecer por lá no mesmo dia? Se fosse o caso, que sorte a minha de não encontrar com ele. Porém essa explicação não soava convincente e algo ainda me incomodava.

E em meio a tanta agitação interna, acabei dormindo. Quando acordei, já passava de nove e meia da noite. Desci, comi alguma coisa e depois fui tomar banho. No banheiro, um pensamento me assaltou: voltar àquela casa pela última vez. Instintivamente refutei aquela sugestão, como se eu tivesse desviado de um soco, tanto que cheguei a escorregar de leve no chão do boxe. Voltar lá era algo fora de cogitação, ainda mais depois do que a minha mãe havia dito. Saí do banheiro novamente perturbado com tudo aquilo.

Porém enquanto eu trocava de roupa no meu quarto, minhas defesas baixaram e comecei a considerar que talvez fosse uma boa ideia ir até lá mais uma vez, porque assim eu poderia encerrar aquele assunto. Essa resolução me pareceu razoável e decidi fazer minha última visita no dia seguinte, na volta da escola. Resolvida essa questão, pulei na cama para continuar lendo o meu livro de cabeceira, na esperança de que ele me distraísse um pouco.
Segunda-feira.

Fiz o caminho de volta devagar, parando para observar tudo, desde os pássaros empoleirados nos fios dos postes até a organização dos pedregulhos soltos do asfalto. O medo e a excitação se misturavam perigosamente em mim. Por fim cheguei ao ponto derradeiro, a linha do trem.

Parei e olhei para os lados, desejando que um trem cheio de vagões passasse por ali e demorasse muito, quem sabe até eternamente, que seja, o tempo suficiente para eu voltar a mim e considerar tudo aquilo loucura e ir logo pra casa. Mas não, nada era assim tão fácil. Já que o trem não viria, eu fui.

Assim que deitei os olhos na casa e na garagem, veio o primeiro sobressalto. O portão da rua e a porta da garagem estavam abertos, ou melhor, escancarados. Cheguei perto devagar. Será que o filho do casal estava lá? Se fosse o caso, por que ele havia deixado os portões daquele jeito? Parei em frente à garagem. Dessa vez o seu interior estava claro, e eu não vi nada, carro ou qualquer outra coisa.

Entrei no quintal e resolvi arriscar uma olhada pela janela da sala, como das outras vezes. Enquanto me aproximava, ouvi vozes vindas de dentro. Minhas pernas pararam e fizeram menção de girar e sair dali, mas algo as deteve, talvez a adrenalina, ou uma descarga estúpida de curiosidade em descobrir a quem elas pertenciam.

Continuei e me escorei na parede embaixo da janela. As vozes eram animadas. Além delas, escutei também barulhos de talheres batendo contra o prato. De repente, uma voz masculina se destacou, fazendo com que as outras duas silenciassem:

- Já estou levando a salada e a carne – o seu tom era jovial, de uma animação genuína e inabalável.

As vozes da sala assentiram. O que estava acontecendo lá dentro? Quem estava almoçando? Mais uma vez uma sensação ruim desceu pela minha espinha, só que bem pior. Então escutei o dono da voz jovial vir até a sala e dizer:

- Aqui estão.

Sons de cadeiras sendo puxadas e talheres. Acho que era melhor eu ir embora, agora, mais do que antes, eu poderia ser pego. Mas eu desistiria assim tão facilmente depois de chegar até ali, perguntou uma voz dentro da minha cabeça. Está bem, vou olhar com cuidado pra ver quem está lá e pronto, assunto encerrado. Comecei a erguer o corpo devagar.

Assim que tive um vislumbre da sala, parei e ajeitei a cabeça. Na ponta esquerda, uma senhora com um vestido cinza comia tranquila, cortando a carne em tirinhas. Na outra ponta, um senhor de terno escuro tomava uma taça de vinho. E no meio, um rapaz de camisa vermelha olhava satisfeito para os dois, quase não cabendo em si de felicidade.

- Mãe, pai, eu senti tanto a falta de vocês – disse ele com a voz levemente emocionada.

A senhora e o senhor sorriram e cada um apertou as mãos do rapaz. Um estalo de discernimento e pavor rachou meu cérebro. Minhas mãos eram duas barras de gelo, minha camiseta se inundou de suor. Como se isso não tivesse sido suficiente, algo ainda mais aterrorizante aconteceu. Por instantes indefiníveis, pude ver através do senhor.

Sem me importar com mais nada, virei e corri. Ao chegar em casa, fui direto tomar banho. Quando desci para almoçar, minha mãe perguntou o que tinha acontecido. Respondi que estava muito suado por conta da educação física. Ela não acreditou muito, mas aceitou a explicação.

Nunca contei a ninguém o que vi. E também nunca mais voltei a passar perto daquela casa. Comecei a fazer outro caminho para voltar da escola. Demorava mais, porém não havia nada de errado com nenhuma casa. Contudo, só fiquei mesmo tranquilo quando terminei o colegial e fui pra faculdade. Não ouvi mais falar sobre a casa e a garagem. E francamente, tomara que tenham sido demolidas até o último tijolo.

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