Minilua

Contos Minilua: Frio em Uarapiranga #169

Sim, e desde já, contamos com a sua participação. O e-mail de contato: Jeff.gothic@gmail.com! A todos, uma excelente leitura!

Frio em Uarapiranga

Por: Rafael Tages Melo

Aquela cidade me chamava muito atenção e eu a havia visitado há muito tempo, sempre com amigos ou, ocasionalmente, acompanhado de uma garota a quem eu havia sempre devotado meus parcos interesses românticos. Anos depois, com meus trinta anos, e solteiro, depois de cumprir o labor que me ocupava, por algumas horas do dia, no laboratório de análises clínicas do município de Potenza, decidi passar outro fim de semana naquela cidade.

– Mas assim, do nada? – perguntou Arnaldo, um dos meus amigos mais próximos.
– Faz algum tempo que quero ir lá. Passar um pouco de frio.

Queria mesmo sentir um pouco de frio, porque sempre me notava engraçado no frio, sempre achava que os lugares frios, onde vestimos roupas mais pesadas, e nos protegemos mais, paradoxalmente nos deixam mais à mercê dos elementos, do ambiente, do cosmos, pois o vácuo do universo é frio, e eu me sentia, assim, em casa, filho do universo gelado e indiferente.

A ida, naquele fim de tarde, para a cidade fria foi tranquila, subi o pé da serra por volta das seis horas da tarde, que é quando inicia o pôr-do-sol. Não sabia onde ficaria, mas eu pensei que, em chegando à cidade, arranjaria um local para ficar tranquilamente, afinal esta não experimentaria alta estação até as férias de julho, onde os hotéis eram normalmente (ou anormalmente) lotados.

Era perto das sete horas da noite quando eu finalmente parei o carro na frente do primeiro hotel, depois de ver toda a cidade em um breve passeio. No hotel, eu disse para o recepcionista, um homem gordo, com um halo de fumaça ao redor do rosto devido ao cigarro que restava em um cinzeiro na pequena mesa à sua frente, que eu queria um quarto.

Com calma, ele se levantou do sofá, e procurou dentro dos armários que ficavam por trás do balcão as chaves de um chalé simples. Assinei o livro de hóspedes, verifiquei o valor e fiz o pagamento em cheque, e então ele me levou, sonolentamente, até um dos chalés disponíveis. O quarto era simples, limpo e arrumado, com aquele cheiro de madeira tão comum às construções rústicas, que eu ansiava por experimentar.

Como era noite, fiquei lendo um exemplar que havia trazido denominado “”Os verdes corvos da colina””, e depois de assistir um pouco de televisão no saguão e jantar, me voltei ao chalé e deitei-me, por volta das dez da noite. Fazia frio, e eu adormeci facilmente. Quando dei por mim, entretanto, me movia sentindo nas costas uma estrutura rochosa. Levantei-me, entretanto, com frio, e vi, admirado, aquela parede de pedra atrás de mim, à luz da lua.

Estava solto, abandonado no meio da noite, em um lugar desconhecido, no frio. Poucas coisas me atraíam, e me deixavam, ao mesmo tempo, completamente aterrorizado ao mesmo tempo, quanto a experiência terrífica de uma escuridão gelada. Quis correr, sem saber ao certo para onde, como é comum fazermos sem saber, quando nos encontramos na experimentação do medo, mas escorreguei e cai em cima de outra superfície dura.

Levantei-me, o tornozelo doendo. Tentava olhar, mas pouco enxergava, a escuridão me cegava. Olhei para cima, a lua estava lá. Tentei me acalmar: minha visão já se acostumava com o cenário, e pouco a pouco, eu conseguia divisar estruturas retangulares de pedra. Aos poucos podia ver, nas formas que surgiam que havia juntamente com as cruzes, as lápides: eu estava, realmente, em um cemitério.

Mas como? Havia dormido, tranquilamente, na cama do hotel. Como poderia ter acordado ali? Comecei a ficar assustado novamente, assim que a calma da possibilidade de ver as coisas havia passado.  Então, olhei para todos os lados, e comecei a procurar o melhor caminho para voltar.

Novamente, me vi perdido ali. Pois havia várias e inúmeras tumbas e lápides e eu não sabia onde estava a saída. Tremia. Foi então que apreendi os sons, vindos tanto do ambiente, como majorados pela minha mente; a percepção daqueles fenômenos fez com que eu começasse a suar, e, ao responder a um espontâneo barulho que surgiu atrás de mim, eu comecei a correr, pelo corredor que se abria na minha frente, entre as lápides.

Depois de correr por um tempo, na luz pálida da lua, vi o que me pareceu uma pessoa, uma forma feminina, não muito alta, nem muito baixa. Meu coração batia forte, e o frio estava em todo canto, em mim, e ao meu redor. Parei e chamei:
– Ei. Você. Oi. Que lugar é este?

Ainda lembro até hoje que ela não me respondia. Lembro-me de haver pensado que, algumas vezes a gente pode ficar mais aterrorizado pelo silêncio do que por algum barulho. Hoje vejo que, momentos antes, eu havia sido aterrorizado pelo barulho, e agora, estava aterrado pelo silêncio poderoso e cruel.

 

– Ei – disse, clamando pela atenção da figura novamente.

A forma se moveu lentamente. Vi bem quando as maçãs brancas do seu rosto se viraram para mim, sob a palidez da luz da lua. Eu tremi, pois minha mente desenhou, no rosto daquela pessoa, algo mais assustador do que imaginava. Pois que ela estava sorrindo, um sorriso eterno e assustador, que já estava lá desde antes de seu rosto virar e me contemplar. Então, ela apontou para o céu, e vi, contra a escuridão, o braço no qual descia uma manga de um leve vestido:

– Os corvos estão vindo…
– Corvos? Como assim… eu não entendo…

Contra a luz da lua, no céu negro, eu pude divisar formas que vinham, pela noite, iluminadas parcamente pelo asteroide lunar. Demorou pouco para que elas tomassem o céu, e pude ouvir barulhos de asas ao longe, junto com crocitares. A garota, de súbito, atacou-me, pulando com as mãos em riste e atingindo, com elas o meu pescoço.

Quando dei por mim, ela estava tentando estrangular-me, enquanto ria, nervosamente, os olhos abertos e a língua de fora. Caímos ao chão terroso. Eu retirava a mão dela com calma, até que meu nervosismo, que havia diminuído, houvesse novamente subido a níveis assombrosos, então, nesta hora, eu usei de minha biológica superioridade masculina e a empurrei para longe, com força, me levantando.

Ela ainda tentou pegar a minha perna, mas o movimento que eu fiz expulsou a mão da moça e a deixou para trás, na escuridão, enquanto eu corria.
Gritando, eu acabei ouvindo uma voz, ao longe, enquanto divisei, aliviado, um facho de luz que se movia no horizonte.
 

– Socorro! Alguém! Ajuda! Foi então que finalmente consegui ouvir uma resposta:

  – Quem está aí?
  – Meu nome é Carlos! Por favor! Ajude!
 

Meu nervosismo começou a diminuir. Aproximava-me, finalmente, da luz. Um homem, segurando uma lanterna, gritou novamente:

– Alguém aí?
 – Eu, aqui! – gritei, o suor escorrendo na testa.

O homem parecia não me ouvir. Chegando próximo dele, eu parei de correr, ofegante, e pus as mãos nos joelhos.

– Uma menina estava ali… eu não sei como eu vim parar aqui. Pássaros… Em todo canto…
– E eu ouvindo coisas.
– Não, existem coisas mesmo lá… estranho… eu nem sei… porque eu estou aqui… O que é isso aqui?

O homem se virou e começou a andar, o facho de luz na sua frente.  
– Ei, ei – chamei-o. Ele não retornou. Foi então que pensei, pela primeira vez, que, ou ele era muito desrespeitoso ou não estaria me ouvindo, opções que considerei com cuidado, dadas as minhas circunstâncias ali. Corri atrás dele, mas então, ouvi atrás de mim um crocitar. Parei, e voltei-me com calma.

Aproximando-se de mim estava uma daquelas aves estranhas, enorme e verde, e eu gritei, enquanto sentia meu ser se contorcer.
Foi então que acordei. Em minha cama, naquele chalé simples e rústico. Estava tudo silencioso, tranquilo e escuro, e o frio continuava a me cercar. Puxei o cobertor, e me enrolei na escuridão daquele recinto, esperando ansioso por um novo dia.

Na manhã seguinte, acordei e tomei meu banho. Saí para uma caminhada, mesmo antes do desjejum. A cena bucólica daquele vilarejo fazia com que me sentisse aconchegado, e ao mesmo tempo, rememorava minhas lembranças juvenis.
O cenário do interior podia, às vezes, me dar a sensação de um mundo um pouco mais bonito.

Por vezes, entretanto, eu refletia que isso era apenas a minha observação e não necessariamente tinha qualquer base na realidade. Almocei em um dos restaurantes pequenos daquele vilarejo. No recinto, havia mais uma pessoa, se alimentando na mesa de canto daquela casa campesina. O arroz e o feijão estavam bons, apesar da comida não ser de forma alguma a razão pela qual eu estava gostando da experiência de almoçar naquele lugar.

Comi devagar enquanto observava o céu nublado e chuvoso, e sentia que o frio já começava o seu trabalho. Enquanto terminava o almoço, as nuvens se agregaram com maior afinco, assim o clima ficou ainda mais ameno, e a luz do dia quase foi completamente ofuscada enquanto o dia ficava nublado. Enquanto mastigava mais um pouco do baião de dois, olhei para cima. Algumas aves sobrevoavam o céu.

Terminei o almoço e paguei. Dirigi-me novamente ao meu chalé, passeando, calmamente, nas ruas da cidade, e observando a sua regular agitação de mais um dia comum, mais um dia de labuta como outro qualquer.Abri a porta, sentindo o cheiro do quarto, e fui até a cama, onde, sentado, retirei a jaqueta. Queria descansar um pouco. O frio impingia a descansar pela tarde, então continuei a ler o livro que havia trazido, enquanto me recostei no travesseiro branco e macio daquele chalé.

Depois de haver lido por algumas horas, e me admirar com a narrativa a respeito de uma vila fundada sob uma maldição, coloquei o livro no criado mudo, e adormeci.
Já era quase noite quando acordei, mas a luz do dia ainda podia ser observada, o lusco-fusco. Um raro momento de inusitada beleza. Eu senti saudade de pessoas que passaram; boas pessoas. Não sabia nem mais porque estava ali. Fiquei com vontade de voltar para a cidade, já havia desfrutado o suficiente da minha acanhada folga.

Apesar do frio, que aumentava a cada minuto, abri a veneziana para observar a paisagem bucólica e adentrar ainda mais no sentimentalismo que começava a afogar o meu ser. Sentei no pequeno banco que ficava do lado de fora do chalé. Foi então que vi aquele pássaro, que bicava alguma coisa em cima de um galho de árvore próximo a um jardim.

Era um pássaro um pouco grande, com um bico reto, as pernas proeminentes e fortes. Eu não sabia muito de pássaros, mas eu considerava que ele podia muito bem ser um corvo. E um corvo particularmente estranho, no que tocava a suas penas, porque ele era preto, mas havia um brilho esverdeado que, aqui e acolá se deixava transparecer, em sua movimentação frenética.

O olho, ao contrário, pelo que eu pude observar tendia para o carmesim. Eu nunca havia visto um pássaro com estas qualidades antes, e fiquei curioso por um momento. Até que a criatura aparentemente notou a minha presença e, sobretudo, o meu olhar, e ficou parado, voltando a sua mira inquisitiva e quase humana à minha pessoa.

Tremi um pouco, e voltei para dentro do chalé. Até que eu fechasse a porta, o pássaro ainda continuava me observando. Senti-me um pouco estranho e, depois que fechei a porta e sentei-me à mesa que ficava na antessala, quase esbocei um sorriso, por ter fugido e me escondido de um pássaro; de toda forma, eu estava um pouco mais nervoso que o normal, principalmente em razão daquele sonho bizarro. Então, virei-me para pegar meu telefone.

Tentei ligar para o Arnaldo e não consegui. Logo, o mesmo ficou fora do ar. Decidi ligar a televisão então. Sentei-me na borda da cama, e liguei o aparelho pelo seu controle remoto. O único canal que consegui sintonizar era de um programa de auditório, e algumas pessoas participavam em um daqueles famosos jogos de perguntas. Não era o melhor passatempo, mas por ora era o que me restava. Não demorou muito, entretanto, para que mesmo aquele canal começasse, aos poucos, a sofrer uma interferência.

Dentro em pouco eu estava vendo apenas riscos e garranchos do que deveriam ser as pessoas, e ouvindo quase nada de suas vozes. Então, enquanto eu me levantava para utilizar a tática dos desesperados, qual seja bater de leve no aparelho, a cena sumiu inteiramente, deixando na tela apenas riscos esparsos e alguma estática. Então eu ainda passei os canais, tentando achar algum outro programa, e, em percebendo a futilidade da tarefa, desliguei o aparelho. 

Lá fora já anoitecia, e eu jazia deitado na cama, lendo o livro. O frio, contudo, aumentava, e eu não me recordava que fazia tanto frio ali naquela cidade. Ventos fortes começaram a correr, fazendo barulho nas venezianas. Ouvi, lá fora, o barulho de alguma coisa caindo ao chão, e não identifiquei o que era. Fiquei ali, absorto e entretido na leitura, até que a luz caiu, momentaneamente.

Eu andei pelo quarto até achar a minha mala e peguei uma lanterna que eu havia trazido. Tentei me comunicar com a recepção, sem conseguir, pelo interfone que ficava próximo da porta de madeira rústica. Olhei pela janela, e a escuridão era total no terreno daquela hotelaria. O jeito foi tentar adormecer, para que o tempo passasse. O frio com certeza fazia a sua parte. 

Levantei-me, depois de algum tempo, sem que houvesse mais energia no meu quarto. Tentei, tateando pelo recinto, comunicar-me novamente com a recepção, sem sucesso. O vento passava cortante, fazendo barulho tanto nas venezianas entreabertas de alguns chalés das redondezas, quanto na vegetação adjunta. Abri a veneziana e vi a escuridão quase total do terreno do hotel.

Algumas vezes eu via formas passando nos céus que era, mas julgava serem pássaros noturnos ou mesmo morcegos. Tentava ali, não pensar em maiores possibilidades. Foi quando eu ouvi um barulho na porta. Era leve, e eu não podia ouvir bem por causa de todo o barulho que o vento já fazia. Fui até a porta, a lanterna em punho. Perguntei quem era. Uma voz saciou minha curiosidade. 

Era um garoto.
– Senhor, você sabe o que está acontecendo? Você sabe onde estão meus pais?

– Seus pais?
– Sim, eles saíram, e eu não sei onde eles estão! Está muito frio!
– Calma, pega aqui esta jaqueta.
                       

Eu fiz sinal para que ele entrasse e coloquei a jaqueta ao redor dos ombros do menino, no escuro, enquanto olhava pela janela. Ouvi alguns barulhos ao longe e nada mais, que não consegui identificar, logo seguidos por mais ruídos que finalmente divisei.  Eram definitivamente passos, de alguma correria. Ao longe também consegui escutar gritos. E depois novamente o silêncio sepulcral.

O garoto tentava observar pela janela alguma coisa, a despeito do escuro, mas, creio, que por um medo ancestral, ele, ainda que não houvesse visto nada tangível, deixou a janela em paz e foi se esconder nas cobertas da cama. Eu já não sabia mais o que fazer. Alguns gritos, ou o que pareciam gritos ainda eram ouvidos ao longe. Depois de algum tempo, eu ouvi um barulho que parecia próximo, ainda que não tão próximo assim, mas no meio daquele silêncio, consegui divisar bem o que me parecia como um grito de socorro. Então eu liguei aquela lanterna, e pedi para que o garoto esperasse.

– Mas você não vai voltar. Que nem meu pai e minha mãe.

– Como assim? Do que está falando? – disse eu enquanto ligava a lanterna e abria a porta — Voltarei rápido!

Saí correndo, pois tinha medo de que não conseguiria alcançar os gritos se não me deslocasse de forma célere. Olhei ao longe a administração e recepção daquela hotelaria completamente vazia de movimentos e sem nenhuma iluminação. Comecei a descer o terreno escuro daquele conjunto de chalés, até que cheguei a uma pequena estrada inclinada que seguia até a rodovia asfáltica.

O grito de socorro estava quase sumindo, mas eu continuei à frente, com a lanterna, apontando freneticamente para um lado e para o outro, tentando definir o caminho a seguir naquela escuridão que me engolfava. Ouvia barulhos, mas continuava correndo, e o medo, refleti eu, ainda que de forma atrapalhada, nos pode pregar peças; que seria aquilo tudo, pensava, senão uma peça elaborada?

Continuei apontando a lanterna nervosamente para todos os lugares que via, e nada. Então uma mulher gritou por socorro, próximo da entrada da cidade. Eu ouvi, nitidamente. Corri afoito, quase tropeçando nas pedras da estrada rústica, até que senti os meus pés no asfalto liso. Continuei seguindo sem saber nem o que nem porque, afogando-me em uma poça de nervosismo. O que estaria acontecendo ali, porque aquela mulher estaria gritando? Meu nível de adrenalina subiu. Reconhecia, porque sabia:  já havia experimentado o gosto da ansiedade. Esta aparecia súbita, atrás da língua, e o meu corpo latejava com as batidas do meu coração. Eu sabia.

Contudo, não poderia saber ainda o que iria encontrar, de fato. Foi quando vi uma mulher no chão, que eu presumi ser a que gritava. E perto dela, havia uma movimentação. Tal como o grito que ela deu, novamente, num lapso eu vi, sob a luz da lanterna que jazia em minha mão, aquela fila: uma linha de pessoas, ainda que não propriamente arrumada de forma metódica, mas uma linha desordenada mesmo assim, de pessoas andando todas umas atrás das outras.

A princípio, o que me veio na cabeça foi justamente a forma alheia que as pessoas ali demonstravam, andando a esmo, digo, desordenadas, uma atrás da outra, sem que se preocupassem com a mulher que ali gritava por auxílio. Cheguei perto dela, e ela chorosa continuava ali, no chão, desolada. Mesmo quando cheguei, ela continuou chorando, olhando para aquela fila de pessoas que continuavam andando, alheios a ela.

Peguei no braço dela e perguntei ainda que não soubesse se dividiria minha atenção com a estranha procissão de pessoas ali, na nossa frente, ou com os seus cuidados. Perdi-me um pouco nos pensamentos e então me voltei e perguntei novamente a ela:

– A senhora está bem?

Ela não me respondia e continuava chorando. – Vamos, se levante – eu disse, ainda também, tão confuso quanto ela, puxando-a pelo braço direito.

Ela se deixou levantar, ainda que olhasse para outro lugar e não diretamente para o meu rosto. Continuava chorosa, olhando para a sua esquerda. A curiosidade finalmente me bateu enquanto eu olhava aquelas pessoas andando naquela fila, e vi ainda perplexo, que mais pessoas apareciam, na frente, perto da entrada da cidade, e por trás das ruas próximas, todas andando em fila, todas seguindo, mas para onde?

Foi então que eu percebi que a mulher olhava para um determinado local, e que as filas de pessoas andavam também naquela direção. Eu não consegui me conter, e o coração eu sentia dentro de meu ouvido, bombeando o sangue com força. Eu apertei o braço da mulher.

– Senhora, o que está acontecendo?
Ela finalmente me olhou, e chorosa, respondeu-me.

 – Meu filho e meu marido foram… com estas pessoas… eu, eu não entendo. Eles estavam comigo, andando, na praça, e então começaram a andar… – a mulher parou de falar, pois não conseguia mais conter o soluço.

Fiquei ali, a lanterna ainda frenética, indo da mulher até as filas intermináveis que apareciam como minhocas de todos os locais. Eu comecei a ficar nervoso, e puxei-a pelo braço. O vento empurrava as nossas roupas e ameaçava derrubar as altas árvores que jaziam próximas. Ela gritou ainda mais uma vez.
                       

– Não! Eu quero ir até onde eles estão, quero procura-lo

– Algo está acontecendo aqui, está muito estranho – eu balbuciei enquanto a sentia puxar o braço. Em resposta apertei mais a minha mão, e ela começou a puxar o corpo com mais força, para longe de mim.

 Então que ela começou a andar, próximo àquelas pessoas, e começou a sacudi-las, uma a uma, e elas não lhe respondiam. Assim que ela lhes soltava, eles continuavam a andar de novo, como se nada houvesse acontecido. Ela continuava uma a uma, empurrando as pessoas apáticas, perturbando a fila em que elas seguiam, embora não o bastante para que a fila se perdesse completamente. Com a cabeça baixa ao chão, elas continuavam seguindo.

O barulho foi muito pequeno, quase imperceptível. E a visão que se seguiu tirou-me o ar dos pulmões. Senti que ia desfalecer completamente. Tenho impressão que caí pra trás quando finalmente dei por mim, e ouvi a criatura proferir os sons mórbidos que ela emitiu. Não me lembro de tudo o que ela disse, pois quando percebi, corria, e atrás de mim a mulher ficou. Na correria, algo de quase imperceptível, humano mesmo, diria, aguilhoou-me a consciência, e então eu voltei àquela hotelaria desolada apenas pelo menino, para que ele não ficasse abandonado ali, e puxei-lhe os braços para que entrasse no carro enquanto ele também não sabia o que acontecia, enquanto ele também se revoltava. 

Desci aquela serra, e quando o dia amanheceu eu estava perto da cidade mais próxima, Laturita, e levei o garoto para a delegacia do menor, o deixando próximo do prédio e instruindo-o lhe para que ele requeresse ajuda das autoridades competentes. Dirigi-me para casa, apesar de que, depois daquilo tudo, não me foi possível encontrar minha antiga vivência como eu a havia deixado.

Eu havia presenciado um julgamento, o julgamento ultra-dimensional, sabia eu sem saber como podia saber de tal coisa. Ainda hoje lembro (apesar de que tremo quando me pego pensando nisso) daquela criatura. Ela tinha asas negras que se estendiam contra o céu. A face era de uma ave, juntamente com o corpo esguio. Ela pousou, fortemente, no chão, na frente da moça, cujo destino eu ignorei na minha fuga desesperada. E as palavras que ela proferiu diziam guturalmente, que em suma, aquela cidade e as pessoas que partilhavam a sua herança estavam condenadas, por gerações e gerações de amoralidades.

E que finalmente agora, o fruto de sua maldade estava maduro, pronto para a colheita. Então por fim, a criatura riu, sim; ou ainda, tentou o melhor que pode emular tal atitude. Do que ela expôs, com poucas palavras, a ênfase foi no julgamento das diversas gerações das pessoas que moravam ali, naquela serra, que havia sido erigida sob uma maldição antiga, de forma que, aparentemente eu fui poupado porque não possuía vínculo algum com a região, tampouco aquela pobre mulher deveria ter, nem o menino.

Desta parte só conjecturo. E tremo, enquanto penso na criatura e sua sentença. A certeza da sentença. A irrevogabilidade da sentença, do peso de uma autoridade que eu não conhecia, que nenhum humano conhecia ou poderia conhecer. E eu tremo ainda, porque acredito que este conhecimento não me é permitido, que não posso tê-lo sem que algo me seja tirado. Sinto medo e percebo-me vigiado às vezes.

Em outras vezes, penso que, se algo iria acontecer, já deveria ter acontecido. E então me tranquilizo: é a única forma de poder continuar a minha vida, minha pequena vida alheia aos mistérios e aos julgamentos de entidades que o gênero humano não pode conhecer sem desesperar-se.