Contos Minilua: Em cima da morte, procuro sorte! #272

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Hoje nós vamos apresentar para vocês um conto de terror com um pouco mais de humor enviado pelo usuário Elson Miranda.




Em cima da morte, procuro sorte!

- Bora lá que tô com pressa! Vem, vem, vem… Chega de enrolação que você já falou demais da conta, anda logo, parece até que está morto de preguiça.

- Que estória é essa de “bora lá”? Não vem que não tem, além disso, como já te disse, tenho um compromisso importantíssimo amanhã à tarde, algo inadiável, portanto me deixa dormir em paz e apaga a luz quando sair, eu estou morto sim, mas é de cansado. Ora vejam só!

- Ha, ha, ha! Só rindo mesmo. Escuta aqui ôh sem noção! Você está falando é comigo tá? Não tem desculpas, nem blá, blá, blá, não tem jeito algum de mudar nada, está decidido e pronto! Sacou?

- Tú tá me tirando o sono, caramba! Eu não vou ficar discutindo com a senhora, uma completa estranha a essa hora da noite, é algo ridículo! Assim do nada, é engraçado como a morte vem e quer acabar com a vida da gente!

- Não vem dar uma de “nervosinho” agora não tá bom meu querido? Para o seu conhecimento, não há negociação nesse tipo de coisa, chegou a hora mermão, é pá e pum! Você pode até pensar que isso é um jogo, só que não!

- Tá bom, desculpa vai? Mas é que isso me deixa muito nervoso, quero nem imaginar, se eu morrer minha mulher vai me matar quando ela voltar de viagem, ela é muito brava e além de tudo morre de ciúmes, não faz ideia do que ela faria se soubesse que eu e a senhora estávamos aqui sozinhos a esta hora da noite, ia ser uma muvuca daquelas, ela ia ficar com ódio mortal!

- De mulher brava e ciumenta eu já estou farta de conhecer, sabia que a Eva, aquela lá do Adão, era tão ciumenta que toda santa noite contava as costelas do pobre coitado? Um horror! Eu morria de rir diante daquela cena patética… ha ha ha
- Olha, a senhora até parece ser gente boa, então… é como eu já te falei e repito pela enésima vez que me sinto super bem, minha qualidade de vida melhorou muito, comecei uma dieta agora, na semana passada, só grelhados e salada, bebendo muita água, até comecei a caminhar todo dia de tarde, me dá uma chance vai? Olha só como a minha barriga está diminuindo!

- O importante nessa vida é morrer com saúde, não é mesmo? Ha ha ha.

- A senhora acha engraçado brincar com algo tão sério né? Então, se coloca no meu lugar, não dizem que a esperança é a última que morre? Me dá uma chance vai…

- A esperança é a última que morre, mas a minha paciência é a primeira! Acho que estou ficando velha mesmo viu! Pra quê estou aqui ainda te dando ouvidos? Olha só, eu ainda tenho um monte de gente pra visitar, na verdade já estou atrasada para alguns milhares e você está complicando demais a situação.

- Mas eu ainda sou muito jovem para morrer! Não dizem que a vida do homem começa aos 40 anos?

- A vida do homem começa aos 40 anos de idade e a morte aos 80 km de velocidade… ha ha ha

- Não gostei da piada! Nem um pouco mesmo…

- Escuta aqui meu filho, você nasce sem pedir e morre sem querer. Deveria ter aproveitado melhor o intervalo, agora a hora do recreio acabou, deixa de ser um bebê chorão e vamos embora logo, já estou ficando estressada, minha pressão até subiu! Olha só o que você está fazendo, está acabando comigo! Ninguém tem pena da Morte, ela que vá com seus problemas pra lá, né? Logo eu, que vago há tanto tempo sozinha, é triste viu! E fica todo mundo querendo pechinchar comigo na hora de me acompanhar. Todo mundo quer ir para o céu, ah… isso é bom! Mas ninguém quer morrer! Ninguém nunca quer me ver, sou chamada de “assombração”, “o grande mal” e outras coisas do gênero, isso é bullying, sabia? Mas não tem foice, nem capa preta, nem nada disso, esse povo tem cada imaginação! Quem precisa da Morte né?

- Pois é… pensando dessa forma, ninguém quer saber da senhora mesmo, morreu… acabou! É como dizem: só morre, quem está vivo! É o mal necessário, o único mal irremediável, desculpa a força de expressão, vi isso num filme…

- É assim mesmo, as pessoas são ingratas demais, não entendem meu ofício, nem posso prestar condolências, imagina se eu entrar num velório e falar: “Deu certo!” E depois sair… ia pegar mal demais pra mim! Mas eu me preocupo com as pessoas, sabia? Pode não parecer, mas é a mais pura verdade, quero cair mortinha da silva se for mentira. Outro dia estava conversando com uma velhinha de uns 80 anos de idade no Facebook, aí eu falei algo muito engraçado, nem me lembro o que era, daí ela respondeu: “Hahaha… morri!” e eu fiquei muito preocupada, juro! Porque ela não respondeu mais, sumiu, pensei que ela tinha de fato morrido, quase morri de susto. Até que me lembrei de mim mesma e pensei: ué, mas eu não fiz nada.

- Como é que é o negócio? A senhora tem Facebook?

- Tenho sim, Facebook, Twitter, Whatsapp, Instagram… qual o problema de ser social? Estou seguindo muita gente no Facebook, eu cutuco geral, tem muitos que trocam mensagens comigo sem saber quem sou, mas eles adoram os meus posts, que bombam direto, minhas fotos de tragédias e acidentes recebem milhares de curtidas a todo instante, um arraso! Mas não add ninguém no meu perfil que não conheço tá? Tipo assim: só compartilho meu perfil com os mais chegados, gente mais distinta que sabe daquilo que está postando, ninguém merece mais as frases de Clarice Lispector no Facebook, porque tem gente que não tem nem onde cair morta e quer dar uma de intelectual, pobre é igual lombriga, quando sai da merda, morre! Ha ha ha, adoro!

- Rsrs, é verdade, sei como é… ontem um amigo meu postou: “Matando um leão por dia para sobreviver!” Isso é bem típico dele que não faz nada da vida, um zero à esquerda! Se ele morrer, nem fará falta aquele verme.

- Tá vendo? Procura entender o meu lado, eu não faço por mal, só estou fazendo o meu trabalho, não é lá grandes coisas, mas tem seus benefícios e além disso não pago impostos. Tem os suicídios dos imbecis, tragédias, acidentes,assassinatos, os idiotas que causam a própria morte por burrice, que merecem o prêmio Darwin Awards, esses eu fico com vontade de matar umas duas vezes só de raiva e isso tudo gera muitas horas extras, mas o pior é nunca poder tirar férias, isso ninguém merece, porque não tem como me substituir. Também não tenho plano de saúde, nem nada, acredita que nem seguro de vida eu tenho? Mas nem tudo é perfeito né? Só pra você ter uma ideia de tudo o que eu passo, agora chega de embromação e vamos indo que estou morta de fome.

- Fome? Desde quando a Dona Morte sente fome?

- Ué! O que mata não engorda! E tú acha que eu sou feita do quê? Que sou uma pedra para não se alimentar?

- Se quiser posso ir na cozinha preparar alguma coisa pra gente, gosta de pizza?

- Isso tá me cheirando a suborno…

- Não, não, juro que não, é só um agrado mesmo, desculpa pela minha grosseria no começo, mas é que você entra pela janela do meu quarto assim, sem mais e nem menos, no meio da noite e fala que chegou a minha hora e tal, fez todo aquele teatro, com ventinho gelado e tudo, acabei ficando nervoso! Desculpa aê…

- Tá bem! Já estou acostumada com todo tipo de gente! Foi nada não, mas… aí, aquela pizza tá de pé? Preciso matar quem está me matando! ha ha ha

- Ha ha ha. Tá de pé sim! Por favor, me acompanha até a cozinha. Você bebe alguma coisa? Fuma?

- Só não bebo veneno, fumar mata sabia? Ha ha ha. Serve um uísque duplo pra mim e sem gelo, por favor, odeio coisa gelada, já bastam os defuntos. Eu já passei da hora do meu turno mesmo, melhor relaxar.

- É por aqui, vá na frente, cuidado quando descer a escada, não quero acender a luz e incomodar o…

- Ahhhhhhh…

- Dona Morte, a senhora se machucou?

- Eu caí feio, rolei escada abaixo! Acho que torci o tornozelo, tá doendo demais…

- Não sabia que a Dona Morte sentia dor…

- Deixa eu torcer o seu pé também pra ver se é bom… e para de me chamar de “Dona Morte”, de “Senhora”, não sou mulher, que coisa!

- Ué! Com este nome e aparência, se não é mulher, é o quê?

- Não te interessa, a curiosidade matou o gato. Busca uma bolsa de gelo pra colocar aqui no tornozelo, faz alguma coisa seu palerma!

- Quanto estresse! Calma! Peraê que já volto.

- Ai, ai, ai…

- Calma, calma, pronto… já está se sentindo melhor?

- A bolsa de gelo até que tá ajudando, mas eu não gosto desse frio na pele!

- Toma o teu uísque, vou ver se tenho um gelol por aí.

- Valeu mesmo! Obrigada de coração! Ai, eu mal consigo pisar no chão! Uma dor mortal!

- Olha, vamos fazer o seguinte: a senhora… desculpa… “você” toma seu uísque, come a pizza e fica aqui em casa para descansar um pouco, pois está com o tornozelo machucado mesmo, pode deitar no sofá se quiser…

- Hum… é um caso para se pensar! A pizza é de quê?

- Calabresa e eu ainda vou colocar um queijo extra por cima… vai ficar uma delícia!

- Agora você tocou no meu ponto fraco, eu adoro pizza de calabresa… hmmm! Sou capaz de matar por uma pizza de calabresa! Óh, vou abrir uma exceção, mas por favor, não conta pra ninguém tá? Bico fechado, seu eu ficar sabendo que você espalhou, eu juro que te mato, heim? Estou confiando em você, e tem mais, eu só faço isso uma vez na vida e outra na morte. Eu vou te dar mais uma semana de prazo, mas só porque você foi camarada comigo, mas quando eu voltar não vai dar para adiar mais de jeito nenhum, nem a pau! Eu já vou ter que dar uma desculpa danada dessa vez.

- Poxa! Nem sei como te agradecer, você é gente fina! Obrigado, te devo minha vida! Uma semana dá para resolver um monte de coisas.

- Tá, tá, tá… agora serve aí a pizza que estou morrendo de fome…

- Ha, ha, ha, ha… essa foi boa!

E assim, eu e a “Dona Morte” demos várias gargalhadas pela madrugada afora e conversamos muito, ela me contou vários casos, piadas. Dona Morte e eu ficamos meio que “amigos íntimos”, até mesmo pelo Facebook.

Hoje à noite é o dia marcado para ela voltar, sei lá, a gente se apegou tanto que estou até com saudades dela, vou preparar uma bela pizza de calabresa para recebê-la e já deixar o uísque no ponto, sem gelo do jeito que ela gosta… vai que cola! Mas também, só por garantia, vou colocar um monte de bolinhas de gude na escada, pois o seguro morreu de velho… ha ha ha.

Acho que vou ter uma boa morte, mas não sei quando, pois nossa amizade é verdadeira, não tem aquele ditado que diz: “Em cima da morte, procuro a sorte”, então…

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