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Contos Minilua: Ele retorna #136

E com vocês, um dos contos mais divertidos que eu já recebi. A todos, é claro, uma excelente leitura! Ah, e-mail de contato: equipe@minilua.com!

Ele Retorna

Por: Aluízio Franco

 

Eis então que Jesus retorna. Mas resolve fazer isso em uma cidade pequena, do interior do Brasil. Era um dia calmo e tranquilo. Crianças brincavam, outras estudavam, homens trabalhavam e mulheres também. De repente as nuvens se abriram e uma forte luz chamou a atenção do populacho da pacata cidade.

Várias e várias pessoas presenciaram aquilo. Uma multidão se formou para contemplar a luz que descia do céu, e, nesse exato momento todos veem descer flutuando dos céus um homem alto de barba por fazer e cabelos ondulados que vinham até os ombros; esvoaçantes parecendo o guitarrista do Led Zeppelin. Usava uma túnica branca com um manto vermelho por cima e nos pés, sandálias no estilo romano com tiras de couro e sola de pneu. (sim, pneu)

As pessoas ficaram encantadas inicialmente, claro. Alguns duvidavam, achavam que era um truque do Criss Angel, mas era verdade afinal de contas. Tratava-se realmente de Jesus. O “chosen one” em pessoa. Ele desceu com os braços abertos e nas palmas das mãos as provas das feridas feitas há mais de dois mil anos.

Um belo e assustador coro de vozes angelicais acompanhava a descida do Deus encarnado. Muitos com medo e por uma boa razão. Muitos chorando, outros rezando, gente gritando “eu te amo, me leva com você!” (Sem notar que o cara estava acabando de chegar.) A massa estava alvoroçada, enlouquecida!

Enfim Jesus pousou serenamente sobre um banco da praça da cidade. A galera geral caiu de joelhos. Era muito empolgante. O ” Verbo” havia voltado e agora a humanidade estaria a salvo.

JC encarou a todos com seus olhos profundos e azuis como o mar do Caribe. Era magnífico. Ele então, desceu do banco, olhou para o céu, contorceu a boca de um jeito a expressar reprovação, apontou para o banco com as duas mãos e abriu os braços reforçando sua desaprovação por ter pousado sobre o banco. Balançou a cabeça em sentido negativo e balbuciou algo que pareceu ser “brincadeira, pô!” Enquanto ajustava a túnica em seu corpo.

Ele começou a andar em direção as pessoas, quando deu um tropeção em uma pedra solta na calçada. Bateu a ponta do dedo mindinho na quina da pedra solta. Foi algo muito doloroso e as primeiras palavras que a multidão ouviu foi um belo urro a plenos pulmões seguido de um “ai, caralho! Puta merda, rachei meu mindinho!”

Todos olharam espantados para o homem agachado sentindo dor em seu dedo mínimo. Logo JC se recompôs e notou que a galera se entreolhavam e depois olhavam para ele com dúvida. Ele ficou um pouco embaraçado, mas prosseguiu. Jogou os cabelos para trás e continuou a se aproximar da multidão e gritou:

– Eu quero saber quem é o prefeito dessa cidade!

Todos se olharam mais uma vez sem entender.

– Não ouviram? disse JC, o prefeito! Quem é o prefeito?

E do meio da massa ouve um idiota aos berros

– Eu! Eu sou o prefeito, Senhor!

O povo em peso ficou chateado e com raiva. A maioria pensava “Mas que merda! Esse filho da puta do prefeito é um ladrão safado e Jesus chamou ele primeiro? É foda! Nem a justiça divina funciona bem!”

O homem chega perto de Jesus e se ajoelha aos seus pés chorando, momento esse, que Jesus afasta-se um pouco retirando os pés com brutalidade das mãos do prefeito.

– Ah! Tá, disse Jesus de modo grosseiro. Para com isso. Levanta daí e para de chorar que ninguém te bateu.

Dito isso a galera se interessou mais pelo fato e calaram-se para ouvir o que JC tinha a dizer para o prefeito. Jesus aponta para a pedra em que havia tropeçado e diz:

– Eu tropecei naquela porcaria de pedra, machuquei o meu dedinho e a culpa foi sua.

Um pouco assustado com a situação o prefeito gagueja e pergunta:

– Minha culpa? Mas como pode ser minha culpa, Senhor?

Sem muita paciência Jesus responde.

– Ora, mas é o cúmulo do cinismo! Será que você vai querer mentir para eu também? Eu sou Jesus, amiguinho! Ninguém mente para mim!

O homem ficou com o rosto avermelhado diante de Jesus, sentindo vergonha do “Santo Homem” e da multidão.

– Mas isso é um absurdo, Senhor! disse o homem, o senhor desceu do céu só para me acusar de algo na frente dos meus cidadãos?

Jesus soltou uma imensa gargalhada. Daquelas risadas altas que deixam qualquer um desconcertado. Escandalosamente Jesus ria até perder o fôlego.

– Ah, meu Eu! Tudo bem, qual o seu nome? perguntou Jesus, enxugando os olhos com a túnica.

– Mas o senhor não é Jesus? Como pode não saber meu nome? questionou indignado o prefeito.

– Eu sou Jesus, seu idiota! O que tem isso a ver com eu saber o seu nome? Nunca te vi na vida! Primeira vez! disse JC.

– Mas eu pensei que o Senhor soubesse de tudo! insistia o prefeito.

Ah, tá! Já entendi. disse o “Verbo”. Você é daquele tipo de pessoa que distorce o assunto, fica se esquivando, fugindo, não responde o que a gente pergunta, não é? Vou te explicar então. Seguinte! Eu sou Jesus, tá? Mas não faço levantamento pro IBGE. Não sei seu nome, não sei sua idade, se você é gay, nada disso. Só vou ficar sabendo quem é você, sua história aqui na Terra, seus erros, etc, depois que você me disser o seu nome, capisce?

Do nada, cortando totalmente a conversa de Jesus com o prefeito, surge um grito do meio da multidão.

– “Ser gay é pecado?”

Jesus olha para a multidão: – Quem pergunta?

Um pequeno e franzino “rapaz alegre” levanta a mão. Jesus olha admirado para o garoto afeminado.

– Eita! (Sai de mim.) Bom, depende! responde Jesus.

– Depende? Depende de que? insistiu o rapaz.

– Oras minhas bolas, depende de tudo! Por exemplo, para eu, ser extravagante, exagerar no jeito gay de ser, fazer suruba de boiolas, essas coisas são pecado. Eu julgo pecado. Mas se você tem um companheiro só, não enche o saco de ninguém com essas idiotices de casar em igrejas, não faz essas viadagens, evita esse tipo de babaquice, aí não é pecado não. Mas depende. Têm dias em que depende até do meu humor.disse JC.

– O senhor é contra gays? mais uma vez perguntou o rapaz.

Jesus, já sem muita paciência, coloca as mãos na cintura abaixa a cabeça e respira fundo. Então olha para o rapaz com uma mão levantada apontando o gay e responde:

_ Vou terminar aqui com o prefeito e depois falo com vocês, tudo bem?

O rapazola consentiu com um aceno de cabeça e um sorrisinho safado para então voltar ao seu lugar, quieto no meio da multidão. Enquanto isso o prefeito esperava pela atenção de Jesus.
– Certo continuou Jesus. Vai, seu nome.
– É Antônio. respondeu o prefeito.
Jesus deu uma encarada no sujeito. – Antônio? Uhn. Deixa eu ver… É, Antônio, você é gay.

– O que? disse espantado o prefeito, enquanto Jesus deixava escapar um riso cheio de chuvisqueiro.
– Não, estou brincando.- disse Jesus aliviando o prefeito. – Mas agora vou falar sério. Quantos Antônios você acha que existem no mundo?
– É…
– Não! Mais nada! Deixa de ser burro. Não sei se sinto pena de você ou de quem votou em você._ disse zangado Jesus e continuou repreendendo o homem. – Quero saber seu nome completo, estúpido! Só aqui nessa multidão deve ter uns mil Antônios. Diz seu nome inteiro.

– Antônio Vitor de Jesus.
– “De Jesus”? – questionou JC, vai se foder! Quem te deu esse nome?
O prefeito já angustiado, gaguejou e disse. – Meu pai.
– Mi, mi, mi, mi, mi – Jesus satirizou o gaguejar do prefeito. – Me lembra de bater no seu pai. Onde já se viu! “De Jesus”. Mas deixando isso pra lá, vamos falar sobre você, senhor Antônio Vitor “de Jesus”. Você trai sua esposa…

Antes que o Messias prosseguisse com as acusações o prefeito o interrompeu.
– Opa! Espera aí, puta sacanagem! O senhor vai me entregar assim? Na frente de todo mundo?
– “Puta sacanagem” é você fazer uma suruba com suas três secretárias que são casadas e ainda levar a Flavinha, filha da sua faxineira dona Otávia, ao motel. Isto que é uma puta sacanagem. Fez agora aguenta! disse Jesus de forma ríspida.

A mulher do prefeito começou a xingá-lo lá do lugar onde estava. “Vagabundo”, “filho da puta”, essas eram as formas mais brandas de insulto que saia do meio do povão.
– Porra, Jesus, me dedurar para minha mulher na frente de todo mundo, é foda! disse amargurado o prefeito.

– Não. Nem se importe com isso. disse JC. A questão é a seguinte. Você foi muito corrupto nessa cidade. Roubou igual rato. Superfaturou um monte de obras, espalhou nota fria para todo lado. Embolsou o dinheiro do asfalto que a cidade está precisando e não fez a reforma da praça, sendo que recebeu a verba para isso. Dessa forma, essa porcaria de pedra que quase quebrou meu dedo, é culpa sua e você será punido por seu crime.

A multidão ficou totalmente descontrolada com as revelações canalhas sobre o prefeito e sua péssima administração. Vaias e gritos misturados com xingamentos pesados explodiam da massa que chegou até a esquecer da presença do “Santo Homem” entre eles, mas o prefeito inflou o peito e gritou.
– Espero que me xinguem bastante e cometam bastante pecados contra os mandamentos de Deus na frente de Jesus! Quero levar muita gente comigo!

Foi um “cala a boca” geral. Um silêncio sepulcral. Todos calaram-se com os olhos arregalados ao se darem conta de que aquilo era um julgamento. O prefeito era o primeiro e qualquer coisa que dissessem poderia acabar comprometendo-os. No entanto JC adiantou-se sobre o fato de estarem todos condenados na verdade.

– Hei! Hei, hei. Alto lá! disse Jesus. – Quem você pensa que é para achar que pode usar meu nome para ameaçar as pessoas?
O prefeito sentiu-se intimidado.
– Desculpe, Senhor. Só quis…
– Quis ser egoísta. – interrompeu Jesus, fazendo o prefeito baixar a cabeça. JC continuou. – Você é egoísta. Você e todo o resto da humanidade. Por isso é que vim dar um fim nisso! E você vai primeiro por conta do meu dedo que bati na porra da pedra que estava solta na calçada da praça que você não consertou.

Com a declaração de Jesus o prefeito, vendo que estava tudo perdido, agora cobrava explicações.
– Como “dar um fim nisso”? O senhor não veio salvar a todos nós?
Perguntou o prefeito com o rosto gordo, vermelho e suado. Jesus deu outra de suas longas gargalhadas excêntricas antes de responder.

– Eu? Salvar vocês? Salvar de quê? E com o dedo em riste para a multidão, JC bramiu grosseiro. Vocês são a maior ameaça que existe aqui na Terra! Vocês querem que eu salve vocês de vocês mesmos? O caramba! Vou é foder com tudo!
Isso foi mais que o suficiente para provocar um caos completo. O pandemônio estava instalado. Gritos de medo e lágrimas de decepção estavam nas faces de todos. Mas eis que no meio da anarquia, uma voz desesperada ruge tentando buscar providências.

– “Mas o senhor não é Deus?” questiona um cidadão.
– E o quê tem isso a ver? respondeu JC sem nem se preocupar com quem perguntava.
-“Ué, mas Deus ama todo o mundo! Todos nós somos filhos de Deus!” insistia o cidadão.
– Ah!exclamou Jesus. – Então agora Deus tem que amar todo mundo! Todo mundo é bonzinho, é filho de Deus, mas quando eu precisei do povo, foda-se eu, né?

Outro cidadão, dessa vez uma mulher, colocou-se em meio a discussão com o “Homem Folha”, para buscar a sobrevivência da raça humana.
– Mas ninguém que está aqui te crucificou, Senhor! Por que devemos pagar pelo crime dos outros?_ perguntou a mulher.

A confusão e o “corre, corre” pararam. Jesus olhou para a mulher que parecia ser uma advogada. JC estava visivelmente decepcionado.
– Depois de tanto tempo eu esperava que vocês tivessem um argumento melhor! disse o Inri. – De inocentes o inferno está lotado! Eu não vou exterminar vocês porque me crucificaram anos atrás. Vou matar vocês porque ninguém aqui é melhor que a galera que me pregou naquela cruz! Dá uma boa olhada à sua volta, minha filha. Vocês foderam com tudo.

É carro, é roubo. Morte então? Vish, não dá. Sem contar que ninguém ajuda ninguém sem querer ganhar alguma coisa em troca!

– Mas o Senhor não pode nos culpar sem nos julgar primeiro. Isso não é o que esperamos da justiça divina. emendou a advogada.
– Mas você ainda insiste? Ironizou Jesus. – Quando eu fui para Gólgota, não tive perdão. Carreguei uma merda de uma cruz pesada pra caralho. Nem água me deram! Sem contar as chicotadas que eu levava de um guardinha filho da puta. Até hoje eu não gosto de polícia por causa disso. E não bastasse eu me foder todo no meio do caminho, ainda me fincaram uns pregos de mata-burro nas mãos e nos pés.

Até hoje tenho os buracos nas mãos e olha que já fazem mais de dois mil anos! E agora que toquei no assunto, fiquei até preocupado com isso. Talvez pode ser diabetes, porque essas coisas não fecham nunca. Bom, mas enfim, vocês já estão mais do que julgados e não tem nenhum inocente aqui!
Um novo alvoroço tomou conta dos cidadãos.

A algazarra de vozes cresceu, mas agora não estavam mais pedindo clemência, estavam todos com raiva e indo contra Jesus, o qual, só fez cruzar os braços sobre o peito e encarar a multidão em fúria. Frases como “Isso é ridículo” ou “Cara presunçoso de uma figa…” e “Este é o demônio nos pregando uma peça!

Pega ele e mata com fogo!” Eram ouvidas aos berros vindas dos cordões.
Então, para o espanto e terror de todos, um clarão assustador com um calor infernal desceu do céu em forma de raio e atingiu o prefeito, fazendo-o explodir em milhões de pedaços, espirrando pedacinhos dele nas pessoas mais próximas.

Respingos e tasquinhos de vísceras voaram na túnica do “Escolhido”. JC olhou para os respingos e deu um sacolejo na túnica para se livrar dos pedacinhos de carne.
– Cacete, exagerei. Era só para fritar.balbuciou Jesus.