Minilua

Contos Minilua: Doppelgänger #228

E lembrando mais uma vez, que todos podem participar. Se preferir, encaminhe desenhos, matérias ou contos. O e-mail de contato: Jeff.gothic@gmail.com! A todos, uma excelente leitura!

Doppelgänger

Por: Matheus Filipe Oliveira

“Fecho os olhos enquanto minha vida se vai. O inexplicável, o enigmático portão da morte me
rejeitou. Me desperto ainda vivo ao ouvir as vozes da vida misteriosa: Abra os olhos…ele se foi. ” Era uma fria noite de Lua minguante, do mês de Abril. Tudo parecia estar parado, cada coisa perdendo sua forma e sua vida. Percebia tal situação enquanto caminhava com meus passos calmos, como se nada mais tivesse alguma importância.

Muitas pessoas inexpressivas caminhavam e casualmente contemplavam umas as faces das outras, afinal, quando estamos obcecados por problemas e preocupações, somos desprovidos de toda e qualquer capacidade de apreciar o espaço ao redor, ou de assistir a pessoas desconhecidas andarem de encontro a seus objetivos inúteis.

Era evidente que nenhuma outra pessoa estava a refletir sobre tudo isso. Todas andavam impacientes sem olhar ao redor, e sem aparentar alegria alguma. Mas na verdade, o que realmente tornava tudo cativante era aquela inexplicável atmosfera obscura que envolvia todos ali presentes. Como uma névoa melancólica abraçando pobres inocentes que tinham o azar de percorrer uma rua qualquer, na hora errada.Eu caminhava cada vez mais receoso e sentindo um leve temor, como se estivesse andando pelo lugar errado, mas no fundo estava ciente de que nada mais do que minha pobre imaginação estava me atormentando naquela noite medíocre.

Eu admirava os céus e as estrelas, naquele lugar era possível vê-las em todo o seu esplendor. Inconstantemente, pássaros voavam acima se dirigindo com pressa para seus ninhos, para encontrar suas famílias. Uma leve brisa gélida me tirou alguns segundos de reflexão. Senti um forte arrepio, não estava suficientemente agasalhado para enfrentar temperaturas descomunalmente
baixas.

Olhei ao redor e cruzei os braços, me inclinando um pouco para frente. Estava muito frio. Então percebi que não tinha dado atenção ao que eu avistei. Mais uma vez olhei ao redor, arregalando os olhos, fiquei horrorizado! Eu havia presenciado algo inexplicável. Estaria eu sonhando, ou sofrendo delírios? Todas aquelas pessoas haviam misteriosamente desaparecido em meio a uma névoa ainda mais densa do que estava antes.

Estava soprando uma ventania incrivelmente forte há um tempo atrás, se me lembro bem. Agora estava tudo estranhamente calmo, a não ser meu coração que batia desesperadamente de horror, enquanto eu procurava avistar qualquer pessoa, até onde minhas vistas alcançavam.

Eu estava sozinho. Continuava caminhando, na esperança de encontrar algo que provasse a mim mesmo que estava tendo alguma sorte de alucinação. Não conseguia me lembrar de forma alguma o motivo de eu estar percorrendo aquela rua interminável, e por deus, que rua era aquela! Como fui parar ali? A quanto tempo estava eu me deslocando naquela direção que parecia me reservar algum tipo de morte adiante?

Não consegui me lembrar de nada. Pensei em dar meia volta e voltar para onde eu estava antes, mas também não me lembrava desse lugar. A cada segundo eu ficava mais impaciente e apavorado com aquela situação inexplicável. Com muito medo, ergui minha cabeça e abri parcialmente minha boca para gritar, mas não gritei.

Esperava ainda que não fosse preciso fazer aquilo. Olhava atentamente ao redor com tamanha esperança de que alguém aparecesse indicando que estava perto de casa. Ou ao menos, perto de um lugar seguro onde pudesse pernoitar até me recordar do caminho de volta, mas nada acontecia.

– Tem alguém aí? – Gritei o mais alto que consegui.

Parei alguns segundos e me concentrei atentamente em ouvir alguma possível resposta à minha pergunta. Finalmente ouvi algum tipo de som, que não pareceu estar muito longe. Não fazia a
mínima ideia do que era, mas ouvir aquele ruído longe foi reconfortante. Poderia ser
alguém vindo.

Caminhei apressadamente na direção daquele barulho, aquela presença. Seria um animal? Pelo menos iria indicar que eu estava perto de algo real. Esfreguei meus olhos, eu estava tremendo de frio e medo, e me esforçava para encontrar qualquer coisa a não ser aquele triste e melancólico vazio que eu estava habitando.

Parei repentinamente de dar meus passos desesperados, eu havia avistado algo. Uma sombra humana estava parada na névoa. Seria alguém que tinha ouvido meu desesperado grito por ajuda? Essa pessoa, na verdade poderia também estar perdida. Mas quem era? Finalmente havia eu encontrado uma presença humana. Ficamos parados a uma certa distância, que não permitia que eu enxergasse a face daquele homem.

O que eu vislumbrava era somente uma sombra, a forma de um homem da mesma altura que a minha. Com o passar de alguns segundos meu crescente medo tomou conta de meus pensamentos. Por que estava parado? Ele não mostrava nenhuma reação. Eu procurava com todas minhas forças manter a calma, até que me decidi. Eu precisava avançar. Apenas mais alguns passos e eu poderia discernir quem estava a minha frente.

Lentamente, avancei um passo em sua direção. Ele ainda estava imóvel, e eu ainda não conseguia ver. Eu poderia muito bem dizer algo, mas já estávamos imóveis a uma distância consideravelmente pequena fazia um tempo. Se essa pessoa nada havia dito, porque diria eu? Estava ele esperando que eu me aproximasse, para me identificar? Ou desejava ele me fazer algum mal?

Aquelas eram as possibilidades nas quais minha mente se agarrava. Precisei reunir muita coragem, mas finalmente principiei a caminhar em sua direção. Me esforcei para não pensar em mais nada, qualquer pensamento indesejado me faria retroceder.

Percebi o movimento que ele havia feito quando notou que eu caminhava a seu encontro. Aquilo me fez parar. Ele levantou levemente a cabeça, sem demonstrar preocupação alguma. Fiquei atento a cada minúsculo movimento daquela criatura, como se eu naquela hora estivesse prestes a sofrer um golpe.

Procurei estar preparado para qualquer tipo de reação violenta. Sem pensar em mais nada, apenas avancei rapidamente. Eu não suportava o fato de não saber quem estava ali e o que se passava em sua mente. Me aproximei com cuidado até ser capaz de ver aquilo. No exato momento em que a névoa se desfez, contemplei uma imagem improvável, impossível, aterrorizante. Não fui capaz de fazer mais nada a não ser fechar meus olhos instantaneamente, implorando para que eles estivessem me enganando.

Gotas de suor desciam lentamente pelo meu rosto, minhas mãos tremiam, minha pele havia ficado extremamente pálida. Mas eu estava tão horrorizado que mal pude mover um único músculo após ver aquela face hedionda. Estaria eu tendo algum tipo de pesadelo angustiante?

Assim como uma criança em sua cama, amedrontada pela noite resolve abrir seus olhos para provar para si mesma que nada mais habita seu quarto…eu abri meus olhos, na esperança de ver qualquer imagem diferente, qualquer face humana que provasse que eu estava a salvo. Imenso horror e ódio imediatamente brotaram de minha mente.

Aquilo…não, de maneira alguma poderia estar acontecendo! Completamente apavorado e pálido, eu permanecia imóvel diante daquela face.

A face da aflição.
A face da angústia.
A face do pesar.
A face da infelicidade.

A face da morte. Eu pude contemplar naquela noite o triste aroma do fim, e apreciar silenciosamente a maior desgraça com a qual ninguém mais ousaria se deparar. Aquela, meus caros irmãos e irmãs, era minha própria face. Meu próprio rosto bem à minha frente.

Sem demonstrar emoção alguma, ele me olhava. Mas de uma maneira totalmente diferente. O olhar de um predador faminto desejando se alimentar de sua presa, ele me horrorizava. Parecia que já estivera me seguindo a muito tempo.

Eu, assim como que olhando a minha imagem em um espelho qualquer, reconheci meus olhos. Meus olhos…meus olhos! O que estavam eles fazendo em sua face? Como seria possível a existência daquela situação? Eu não soube explicar a mim mesmo. Ele permaneceu silencioso, e seus olhos famintos…penetravam friamente dentro dos meus, quase os perfurando.

Aqueles olhos pareciam falar claramente que meu ódio por ele era exatamente idêntico a sua aversão pela minha imagem. Um de nós não possuía o direito de respirar. Não era certo permitir que essa besta, essa criatura desumana exalasse vida. Será que eu não era real? Ou seria ele a criatura que invertia a ordem do que é natural?

O encontro repulsivo, me fazia odiar cada vez mais a mim mesmo. Aqueles olhos, malignos, repulsivos…eu jamais havia usado meus olhos para perfurar a sanidade de uma pessoa. Esse não poderia ser eu! Esse monstro que roubava minha existência, minha aparência, meu direito de viver… me fazia esquecer quem eu realmente era. E quem sou eu? Nada poderia ser mais incerto, eu não deveria mais existir.

Sentindo uma extrema e mortífera aversão à minha própria aparência, olhei profundamente dentro de mim mesmo, principiando a fazer o que jamais algum homem se atreveu a fazer… Eu segurei minha respiração, permitindo assim que o triste mundo continuasse bailando ao redor de seu próprio ser. A noite escurecera tudo ao redor. Eu podia finalmente ouvir meu coração bater alegremente enquanto meu desespero se tornava mais calmo do que a suave brisa que percorria solitária toda aquela rua interminável.

Eu morria durante aqueles segundos opressivos. Enquanto eu morria, consciente da maior realização já feita…ele parecia cada vez menos oprimido pelos seus próprios olhos. Selei minhas narinas e minha boca, para que de modo algum pudesse percorre-los a força vital que até aquele momento me
trazia aflição interminável.

À medida que minhas vistas se escureciam eu me encurvava cada vez mais, chegando ao chão em questão de segundos. Caído com o corpo para baixo, usei minhas últimas forças para me virar, contemplando assim pela última vez minha própria existência, minha própria face, e incrivelmente…meu próprio sorriso satisfeito.

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