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Contos Minilua: Diário de um zumbi #134

Bem, e antes de tudo, gostaria de agradecer a todos participantes. Sem vocês, acreditem, nada disso faria sentido. E-mail de contato: Jeff.gothic@gmail.com!

Diário de um zumbi

Por: Elson Miranda

Como é mesmo? Ah sim… só um momento, estou tentando me lembrar… queria falar um pouco mais sobre mim, mas é um pouco… como se diz… complicado… deixa pra lá, agora me deu um branco total! Os pensamentos vão chegando aos poucos, se aglomeram, mas logo viram fumaça, mas tenho uma dúvida que não me sai da cabeça: como terá sido o meu passado? Será que tive um?

Acho que sim! Na verdade, eu mal me lembro do que fiz ontem! Está tudo diferente agora. Estava agora pouco tentando lembrar do meu próprio nome e nem isso eu consigo… só veio na minha vaga memória algo parecido com um apelido (Fred talvez?), não me recordo direito, afinal do que consistem as lembranças?

Não sei se é porque o meu cérebro está em processo de putrefação ou o que mais seria… Ah sim… ia me esquecendo de mencionar, eu sou um zumbi! Isso mesmo… zumbi! Não! Não é tão ruim quanto lhe parece. É uma situação diferente, mas não é tão difícil de se lidar como imaginam por aí e por um simples motivo: eu já estou morto! Isso mesmo… morto!

Se já tive uma vida passada, cheia de todas as preocupações humanas, bom, isso ficou para trás e é algo que não me lembro, nem que eu tente. Agora tudo é muito resumido, não sinto dor, nem tenho sentimentos muito complicados, apenas vago em meio a muitos outros na mesma condição que a minha e o que procuramos é tão somente: abrigo e alimento!

Nós nos arrastamos literalmente por aí à noite, andando em grupos, não porque gostamos da companhia um do outro, nada disso, apenas seguimos em conjunto por uma necessidade maior, uma vontade coletiva e durante o dia ficamos escondidos em vários lugares: grutas próximas das cidades, cemitérios, galpões ou prédios abandonados, qualquer local deserto e escuro… bom estes são os nossos abrigos.

Quanto ao alimento… cérebro, cérebro… rs, estou brincando, desculpa, não pude evitar! Na verdade, nós nos contentamos com poucos humanos por vez para alimentar todo o nosso grupo, não sabemos quantos somos, pois já perdemos a capacidade de contar, alguns de nós nem tem dedos para fazer isso. Não comemos carne podre, nada de carniça nos túmulos!

Não, de jeito nenhum! Eca, que nojo! Tem que ser carne fresca, não sei explicar direito, mas é como se sentíssemos uma grande falta da vida passada e tentássemos extraí-la de um humano vivo, sentimos algo parecido com a dor, mas só que não dói! Na verdade dói mais para quem está sendo devorado… desculpa pelo meu humor negro!

Eu sei, se não dá para entender, imagina para eu te explicar… Nem tão pouco temos forças para caçar um humano, não é por cansaço, é apenas uma fraqueza muito grande que nos aflige, mas seria algo engraçado, desastroso, inútil e muito difícil para qualquer um de nós correr atrás e segurar um humano, não é por falta de pernas e braços, apesar de alguns de nós já não possuí-los também.

Nosso plano é simples: chegamos de forma silenciosa e cautelosa perto de um humano, surpreendemos, encurralamos e simplesmente caímos todos de uma vez sobre ele, mordendo, grunhindo e rosnando desesperadamente, quem ainda possui dentes vai primeiro por uma questão estratégica.

Os humanos acham que não raciocinamos direito, mas estão enganados, não somos estúpidos! Podemos até ser lerdos de movimentos, mas de cabeça somos apenas esquecidos. Após abatermos nossas “presas”, ficamos ali nos saciando à vontade e muitas dessas vítimas, alguns mais destroçados, outros menos, se tornam zumbis assim como nós, num círculo vicioso, uma coisa meio mórbida, dá até calafrios.

Bem, prosseguindo… sobre o que eu ia falar agora? Ah sim… o que fazemos em nossos nossos abrigos, bom, nós ficamos de roda… não! não é brincando de cirandinha, se bem que seria algo hilário de acontecer, mas não é isso… a gente fica lá, grunhindo, rosnando, se sacudindo nuns espasmos esquisitos, nossos músculos e tendões ficam se contraindo e relaxando descontroladamente… ainda não entendi direito porque isso acontece… é, eu sei que é um tédio, muito frustrante tem hora, mas o que mais podemos fazer?

Nós nos comunicamos de uma forma bastante peculiar, com todos esses grunhidos e alguns gestos a gente se faz entender, tem hora que dá uma vontade enorme de nos comunicarmos direito, como fazíamos na vida passada e de vez em quando escapa uma palavra curta, mas só quem ainda tem pulmões e língua consegue fazer essa façanha, até comemoramos quando isso acontece, do nosso jeito: grunhindo! 

Mas até isso é difícil porque a maioria de nós já perdeu os pulmões ou a língua, se me recordo bem, a minha língua caiu a duas semanas atrás, eu acho! Não ligo mais para a minha aparência, não preciso mais ver o meu reflexo num espelho por exemplo, mas eu sei que alguns dentes ainda estão por aqui na minha boca, pelo menos os da frente, porque eu ainda posso morder forte!

Falando na minha boca, a impressão que dá é que estou sempre sorrindo, o tempo todo, é que eu perdi os meus lábios a pouco tempo, quando um outro zumbi tentou retirar à força um pedaço de carne humana da minha boca, acabou arrancando os meus lábios junto! Mas eu já superei isso, juro! Sei que ele não fez de propósito!

A fome dele é só um instinto violento, porque nem estômago mais ele tem, coitado! Eu procuro não pensar no futuro, nem mesmo no amanhã, até mesmo porque me tornei zumbi recentemente… Não! Eu não me lembro quando e como aconteceu! Estou me baseando na minha condição física, meu estado de apodrecimento ainda está no começo, tem outros de nós muito mais antigos, alguns tão somente esqueletos com alguns nacos de carne nos ossos e fios de cabelo na cabeça.

Envelhecer não é mais uma opção, vamos simplesmente nos desmanchando aos poucos, mas parece que não vai acabar nunca! Se alimentar na nossa condição de zumbi, ironicamente, é vital para quem já está morto, não porque vai morrer de novo, não! Isso não é mais possível!

É que quando algum de nós não se alimenta por algum tempo, sente uma agonia, uma aflição muito grande e vai ficando cada vez mais lento, até que simplesmente cai no chão, não mais se mexe e fica lá totalmente parado como deveria ser para um cadáver “normal’.

Todos os dias, faça chuva ou faça lua, por volta da meia noite, quando os humanos estão em sua maioria já dormindo, é a hora que avançamos e gostamos de pegá-los de surpresa, porque fica mais difícil uma reação quando vários de nós caimos todos de uma vez sobre a vítima e essa tem que ainda acordar para ver o que está acontecendo, mas aí já é tarde demais.. nham, nham.

Os mendigos, desabrigados e andarilhos são nossos pratos prediletos, porque estão sempre embriagados demais para se darem conta do que está acontecendo e quem não gosta de uma carne marinada com álcool? Hum? rs, é brincadeira.

Mas nem sempre tudo dá certo na nossa busca por alimento, já tivemos várias baixas nos nossos grupos e isso eu lamento profundamente! Temos que estar sempre isolados, distantes da civilização como ainda é conhecida, somos agora a escória do mundo, apenas monstros, mas isso não é de todo verdade… por isso, sentimos uma solidão angustiante.

Mas sempre está chegando mais zumbis, em número cada vez maior, algo assustador! Não sei se é uma epidemia mundial ou quê? Dá até arrepios só de pensar… Dias atrás nós fomos para um acampamento aqui perto, não me lembro direito, não sei se era de alguma igreja ou de jovens se drogando, mas quem se importa?

Durante essa investida, enquanto vários de nós caía sobre os humanos dormindo, no meio de toda a euforia, de humanos fugindo, consegui atacar uma mulher caída perto de mim e aconteceu algo muito estranho, que nunca tinha me ocorrido antes: os gritos dela me perturbaram muito enquanto eu estava mordendo seu pescoço, então ela parou de se mexer, de respirar, eu olhei para os olhos dela e vi uma expressão de alívio naquele rosto, como se a vida estivesse se esvaindo daquele corpo, fiquei muito triste na hora, não sei o que deu em mim… deixei ela lá faltando um pedaço de carne no pescoço e depois, mesmo com muita fome, segui os outros, me arrastando de volta ao nosso abrigo.

Coincidentemente, outro dia, ainda estava escuro, bem antes do sol nascer, essa mesma mulher chegou aqui no nosso abrigo, estamos num aterro sanitário, ela estava acompanhando um outro grupo de zumbis, ela veio se arrastando de uma forma diferente, não sei porque fiquei observando os trejeitos daquele quadril, ela chegou, me olhou nos olhos como se nada tivesse acontecido!

Confesso que fiquei boquiaberto e sem jeito! Senti algo muito estranho, meio de culpa ou sei lá o quê, então me aproximei dela, ela não me reconheceu, não mesmo! Fiquei do lado dela durante horas, eu nem mesmo estava grunhindo, apesar de querer muito fazer isso, fiquei em silêncio… fiquei olhando para o cabelo dela sob a luz da lua, para seus olhos já sem vida, o pescoço faltando um pedaço.

De repente, eu peguei na mão dela e ela pareceu gostar porque tentou apertar a minha mão também. E de todas as variantes do universo, nesse mundo fantástico e de coisas extraordinárias, misteriosas.. eu acho que ficamos apaixonados. Não ria, por favor! Será que foi o destino e por isso parei de morder o pescoço dela quando a ataquei? Sei lá… a vida passada já era complicada, agora então, gosto nem de pensar.

Mas enfim, estamos nesse lance complexo, muita coisa me intriga, tem hora que eu gostaria de perguntar o nome dela e dizer a ela o meu… não dizemos e não é por timidez! É que não lembramos de nada.. Mas está tudo bem! Não precisamos de nomes, apenas nos gostamos e isso basta!

Nos contentamos em ficar nos abrigos um do lado do outro e estamos sempre juntos, nas nossas rodas de grupo, grunhindo e sacudindo o corpo e ela sacode o corpo dela de uma forma muito bonita por sinal, pelo menos é o que eu acho, mas sou suspeito para falar isso.

Quando buscamos alimento eu sempre deixo o cérebro para ela, porque é a melhor parte de um humano para se comer, sei lá, quando comemos cérebro parece uma droga que dá energia para nossa mente, nos sentimos iluminados instantaneamente e por alguns segundos sentimos a vida novamente, mas de uma forma rápida, volta tudo a ser somente uma profusão de ideias difusas e misturadas.

É complicado ser zumbi tem horas! Mas eu gosto mesmo é de estar ao lado dela, não importa onde ou por quanto tempo. Ela ainda é uma zumbi muito nova, tem muito pela frente, sua pele ainda está somente esbranquiçada, enquanto a minha já está quase azul. Temos algo parecido com o amor, um namoro surreal, apenas ficamos perto um do outro, nos tocando, nada nos perturba, nada…

Agora pouco, eu fui acompanhá-la para subir num barranco e caí de costas, quebrei a perna e nem me importei. Me pareceu que ela achou muito engraçado, ela grunhiu alto e me ajudou a levantar. Fiquei mais lento com a perna quebrada, mas está tudo bem, com ela ao meu lado não ligo pra nada, ela cuida de mim.

Meu pênis caiu hoje pela manhã e ela guardou no bolso da saia, achei aquilo uma grande demonstração de carinho e ela percebeu que eu estava sorrindo e não é devido a minha falta de lábios. Estou começando a gostar de ser zumbi de verdade… é sério!